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Acaso e necessidade

  • 9 de junho de 2010|
  • 6h09|
  • Por Luiz Américo Camargo

Naquela altura do domingo, não havia mais a expectativa de almoçar bem. O dia havia começado cheio de afazeres e compromissos. Se conseguisse uma mesa qualquer, pois já eram quase 16h, eu ficaria no lucro. Nada a ver com o esquema usual, de refeições planejadas.

Eu já estava na rua, transitando por bairros da zona oeste. Ia passando de carro e observando a paisagem - vários lugares já estavam de portas fechadas. Uma ideia brilhante: ‘por que não tal lugar etc etc’? Estacionei o carro (na rua, felizmente, sem valet), andamos até o referido endereço mas… A espera estava prevista para uma hora. Não parecia que demoraria tanto; porém, como já escrevi outras vezes, prefiro uma estimativa superestimada a ser ludibriado com uma promessa marota de ‘quinze minutinhos’.

De volta ao carro, de volta às ruas, mais lugares fechados, e uns outros tantos com gente esperando na calçada. Até que surgiu uma outra boa lembrança. Fui parando, para deixar o carro com o manobrista, mas, de repente, me vi emparedado. De um lado, um carro enorme, pilotado por um funcionário do valet. De outro, outro “tanque”, que vinha de marcha à ré. Fiquei ali, sem poder me mover, por alguns minutos. Achei aquilo tão chato que decidi ir embora (decidimos, a família toda), ainda que o restaurante estivesse aberto e sem espera.

Fomos estacionar, enfim, no Fox, na Joaquim Antunes, onde eu nem imaginava que iria parar. E o almoço tardio virou só uma refeição rápida, quase um lanche, confirmando a despretensão do início da jornada.

Não é curioso como os contratempos acabam ditando o destino, e como isso fica ainda mais agudo no caso de quem vive em SP? E se eu tivesse esperado, no tal restaurante concorrido? E se eu não tivesse perdido a paciência com os valets?

Para elevar o nível da conversa, termino então com Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, mais precisamente).

“…Se em certa altura/ Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;/Se em certo momento/Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;/Se em certa conversa/Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro/Se tudo isso tivesse sido assim/ Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro/Seria insensivelmente levado a ser outro também…”

Vamos em frente, que temos ainda muitos almoços e jantares.

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10 Comentários Comente também
  • 09/06/2010 - 10:37
    Enviado por: Alhos, Passas e Maçãs

    Sincronias, Luiz.
    Começava a escrever um texto sobre minhas desventuras de ontem à noite, quando li o seu, muito parecido. Com a diferença de que acabei jantando em casa.
    Abortei meu texto, claro. Mas a questão dos desvios e desvãos continua a intrigar.
    Abraços!

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    • 09/06/2010 - 13:03
      Enviado por: Luiz Américo Camargo

      Alhos,
      É a realidade, mais do que sincronia. Não aborte o texto, não prive seus leitores… O meu é só uma pincelada. Mas o Pessoa, ou melhor o Álvaro, sempre me vem à cabeça nessas horas de imprevistos e indecisões.

    • 09/06/2010 - 13:15
      Enviado por: tadzio

      Ô Seu Alho!
      Bora trabalhar!
      O Blog ta sem post faz tempo.
      Abs: Tadzio

  • 09/06/2010 - 23:19
    Enviado por: Joaquim

    Luis ,há um bom livro sobre o assunto ,”O andar do bêbado” do físico Leonard Mlodinow da ed.Zahar ,que é sobre como o acaso determina nossas vidas,mas Fernando Pessoa disse tudo ,a vida não tem controle.Abs.

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    • 10/06/2010 - 07:17
      Enviado por: Luiz Américo Camargo

      Joaquim,
      Obrigado pela indicação. É um tema realmente fascinante. E que me perdoe o dr. Jacques Monod por eu citar o livro dele no título do post…

  • 10/06/2010 - 22:38
    Enviado por: Sandro (Umlitrodeletras)

    Um acaso alimentar foi o motivo do primeiro (e muito ingênuo) post do meu blog. http://umlitrodeletras.wordpress.com/2005/10/17/serendipity/

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  • 12/06/2010 - 17:53
    Enviado por: Luiz

    Luiz, acompanho seus textos e os admiro. Me vejo obrigado a comentar: não deixa de ser lamentável que o seu carro esteja ditando até o lugar onde você almoça com a família. Recomendo a leitura de http://www.apocalipsemotorizado.net/ para arejar as idéias! Abraço

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    • 12/06/2010 - 18:33
      Enviado por: Luiz Américo Camargo

      Luiz,
      É mesmo uma pena. Já cheguei a escrever sobre como seria bom se os táxis baixassem – de verdade – seus preços. Seria muito melhor ir almoçar/jantar deixando o carro em casa. Economizaríamos estresse, combustível, ganharíamos qualidade de vida… Obrigado pela dica.

  • 13/06/2010 - 18:32
    Enviado por: Errâncias « Alhos, passas & maçãs

    [...] a escrever este texto na quarta cedo, daí li o do Luiz Américo — na mesma linha e que dizia tudo — e o [...]

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  • 14/06/2010 - 19:12
    Enviado por: Flávio Siqueira

    Luiz, com o perdão do poeta “imorrível”, eu diria que:
    Se em minha baixeza
    Eu tivesse ido em lugar de voltar
    Se na mesma mesmice
    Dissesse sim ao invés de nem quero
    Ou pensasse não pelo que eu acho que eu quero
    Se em certa conversa de amigos de prelo
    Falasse frases sem atropelos…
    Se tudo isso tivesse sido ainda assim
    Seria quiçá o mesmo de hoje e talvez o universo inteiro
    Seria insensivelmente levado a ser o mesmo também.

    Sei que você sabe quando me levar a sério, e quando não.

    Abraços Tejanos!

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