O sociólogo Todd Gitlin, um dos fundadores do movimento estudantil na década de 60 e hoje diretor da pós-graduação em jornalismo da Universidade de Columbia, diz que o movimento Occupy, embora disperso, mudou o diálogo político americano em 2012.
A seguir, a conversa com o autor de Occupy Nation: The Roots, The Spirit and The Promise of Occupy Wall Street (Nação Occupy: As Raízes,o Espírito e a Promessa de Occupy Wall Street).

Randy Newman (Foto: Cortesia Nonseuch Records)
Ele já tratou de jecas (Rednecks) e baixinhos (Short People). Compôs canções para The Natural, Ragtime, Toy Story e Monsters, Inc. Coleciona 2 Oscars, 6 Grammys e dezenas de indicações, como um dos mais celebrados compositores do cinema americano.
Agora, Randy Newman resolveu apontar para o elefante na sala e cantar sobre a presença do racismo na eleição presidencial.
“I’m dreaming of a white President / Just like the ones we’ve always had” (“Estou sonhando com um presidente branco/ Como os que sempre tivemos”), canta Newman em “I’m Dreaming”. Parte da força do compositor vem das melodias doces que acompanham letras cheias de sarcasmo. A gravadora Nonesuch oferece a canção I’m Dreaming (referência a White Christmas, de Irving Berlin) grátis para download.
“I’m Dreaming”
George Washington was a white man
Adams and Jefferson too
Abe Lincoln was a white man, probably
And William McKinley the whitest of them all
Was shot down by an immigrant in Buffalo
And a star fell out of heaven
I’m dreaming of a white President
Just like the ones we’ve always had
A real live white man
Who knows the score
How to handle money or start a war
Wouldn’t even have to tell me what we were fighting for
He’d be the right man
If he were a
I’m dreaming of a white President
Someone whom we can understand
Someone who knows where we’re coming from
And that the law of the jungle is not the law of this land
In deepest darkest Africa nineteen three
A little boy says, “Daddy, I just discovered relativity.
A big eclipse is coming
And I’ll prove it. Wait and see!”
“You better eclipse yourself outta here, son
And find yourself a tree
There’s a lion in the front yard
And he knows he won’t catch me.”
How many little Albert Einsteins
Cut down in their prime?
How many little Ronald Reagans
Gobbled up before their time?
I don’t believe in evolution
But it does occur to me,
What if little William Howard Taft had to face a lion
Or God forbid, climb a tree?
Where would this country be?
I’m dreaming of a white President
Buh buh buh buh
‘Cause things have never been this bad
So he won’t run the hundred in ten seconds flat
So he won’t have a pretty jump shot
Or be an Olympic acrobat
So he won’t know much about global warming
Is that really where you’re at?
He won’t be the brightest, perhaps
But he’ll be the whitest
And I’ll vote for that
Whiter than this?
Yes
Whiter than this?
Yes
Whiter than this?
Yes
Whiter than this?
Oh yeah
Depois da reação à esta coluna, Abaixo o Diploma de Jornalismo, antes de escrever A Guerra dos Canudos, fui ao campus de uma das melhores escolas de jornalismo das Américas. Veja o que pensam alguns dos novos alunos do mestrado de jornalismo impresso.
Atualização pós-comentários: Este vídeo não é uma reportagem. É a amostra de um encontro espontâneo e não planejado que tive com um grupo de recém-matriculados no mestrado de jornalismo impresso na Universidade de Columbia e serve como complemento a uma coluna de opinião. Nem todos falaram para a câmera mas todos eram contra o diploma e estão pagando US $ 50.000 de anuidade para fazer pós-graduação em jornalismo o que, a meu ver, constitui uma amostra expressiva.

Caso típico de voz mais reconhecida nos EUA do que em sua própria terra, Luciana Souza ressurge com dois CDs
Não é fácil conversar com Luciana Souza e ao mesmo tempo ouvir seu novo CD The Book of Chet, uma visita ao repertório do grande trompetista e cantor Chet Baker. A voz impecável que transformou a clássica Forgetful num lamento hipnótico (“como uma cadeira de balanço,” diz) não parece pertencer à mesma artista que fala com urgência e sem hesitação. A mesma artista que achou por bem lançar não um mas dois CDs no próximo dia 28 de agosto. O segundo, Duos III, encerra a celebrada série de violão e voz que deu à paulista radicada em Los Angeles duas de suas quatro indicações para o Grammy.
O lançamento duplo marca a volta de Luciana à gravadora Sunnyside, onde ela se projetou nos Estados Unidos com o Brazilian Duos, em 2002. Na última década, Luciana testou sua definição como jazzista, gravando repertório erudito com orquestras sinfônicas e compondo com o marido e premiado produtor musical Larry Klein, com quem colabora nos novos álbuns. Luciana perdeu o pai, o pioneiro da bossa Walter Santos, em 2008, e a mãe, a poeta e produtora musical Teresa Souza, em 2009. Os dois foram figuras seminais da música instrumental brasileira, à frente do selo Som da Gente, e Luciana reconhece que a sua MPB é a que recebeu dos pais e levou na bagagem quando embarcou ainda adolescente para estudar em Boston. O Duos III traz de volta os incomparáveis Romero Lubambo e Marco Pereira e realiza um sonho de Luciana: gravar com Toninho Horta. “Nós nos conhecemos às 5 da tarde e às 9 da noite já tínhamos gravado Pedra da Lua e Beijo Partido,” lembra a musicista, para quem o tempo pode acomodar a torrente de palavras que a repórter mal consegue anotar. Ou pode ser um espaço minimalista onde o som é tão irresistível “que a gente nem se mexe.”
Ouça duas músicas dos cd’s ineditos de Luciana Souza:
Pedra da Lua, de Toninho Horta e Cacaso, do cd Duos III, com Toninho Horta na guitarra.
Forgetful, de George Handy e Jack Segal, de The Book of Chet, Larry Koonse na guitarra.
Entrevista exclusiva de Lucianas Souza ao C2 + Música
Por que você decidiu lançar os dois CDs ao mesmo tempo?
Traço vários paralelos entre o Duos III e o Book of Chet. A ligação mais direta que eu vejo é a do João Gilberto com o Chet Baker. Meu pai lembrava que, em Juazeiro, na Bahia, tocava Chet no coreto. A emoção do Chet existe mas é contida, é a emoção que a gente encontra na bossa nova, tem amor mas não tem dramalhão. É a melancolia e o lirismo, expressivos de uma emoção muito pessoal. Para mim, foi muito fácil gravar os dois CDs juntos. As canções são muito simples, são dois discos de cover. Quem ouve já tem suas referências e eu faço a minha leitura.
Em 2006, você deixou a independente Sunnyside, pela gravadora Universal, onde lançou The New Bossa Nova (2007) e Tide, este indicado para um Grammy em 2010. O que fez você voltar para a gravadora menor, do François Zalacain ?
Nós fomos jantar aqui em Los Angeles, no ano passado. O François foi como um pai para mim e a Sunnyside sempre me faz sentir em casa. Ele perguntou o que eu queria fazer e ele mesmo completou a minha frase: Duos III. Expliquei que queria gravar e lançar o CD do Chet Baker junto mas avisei que já tinha um repertório na cabeça, não queria gravar sucessos como My Funny Valentine. Logo mandei os dois orçamentos e pedi para ele ler com uma taça de vinho na mão. Ele suspirou e disse, vamos em frente. Com o François, é tudo muito claro, não há intermediários.
Como você decidiu o repertório do Duos III e incluiu até uma música que pode surpreender, como Mágoas de Caboclo?
Mágoas do Caboclo para mim era importante, eu ouvia de Orlando Silva quando era pequena e, pouco antes de morrer, meu pai me deu de presente um box set do Orlando Silva. Eu tinha saudade do meu pai e ficava ouvindo. É uma seresta, um gênero que eu não costumo cantar, um pouco na linhagem de outras faixas como Chora Coração, do Jobim, e As Rosas Não Falam, do Cartola. O Larry chegou a perguntar “tem certeza que quer incluir?” É um fraseado que tem ritmo mas não tem groove. A minha MPB é a de quem saiu do Brasil há 27 anos. Não estou numa missão, mas pertenço a esta tradição de voz e violão que continua. Faço mais uma leitura informada por jazz em, por exemplo, Doralice. É o que faz um músico de jazz quando grava um standard. Eu não tenho uma relação forte com o que está sendo lançado agora. A minha música brasileira é marcada pela memória do meus pais, eu fui embora ainda em formação. Meu conhecimento de samba é de quem ouviu o João Gilberto cantar samba. Podem me criticar, dizer que gravo música antiga, mas sei que não sou uma Elis Regina lançando compositores.
Mais uma vez, você escolheu a gravação ao vivo no estúdio para o Duos III. O diálogo voz e violão se presta especialmente a esta forma de gravar?
Sim, há uma transparência absurda. Com o piano você sustenta o som, com o violão não tem isso. O desaparecer do som é mais rápido. Minha forma de cantar mudou muito, eu já consigo sustentar mais notas, como faço em Dindi. Cantar é ar, é coisa abstrata , quando acaba, acabou.
Você já se interessava pelo Chet Baker desde que morava em Boston?
Sim, eu explorei muito o repertório do Chet no começo dos anos 90. Adorava os solos de scat dele, tinham poucas consoantes. O Chet evoca quase um conforto com a solidão e a melancolia. É interessante ocupar este espaço de tristeza, como parte da minha humanidade. Sentar neste canto e dizer, está bem ficar aqui. A tristeza do Chet é muito mais expressiva para mim do que a dor gritada. Ele e o João Gilberto têm esta capacidade de levar você para um lugar da canção, um novo espaço, sem ornamento. É como se os dois aspirassem todo o ar e ficasse só o som deles e você não se desprende até a canção acabar.
Uma faixa que ilustra o que você diz é Forgetful. A impressão que dá é que você está testando a resistência das notas. O resultado é hipnótico.
Sim, acho que estou testando também a paciência de quem ouve! Passamos 3 dias só gravando balada no estúdio, a gente ia reduzindo o metrônomo. O único overdub de bateria foi gravado ao vivo. O Larry dava instruções claras sobre os arranjos. O desafio é contar a história com menos recursos. E o Larry dizia “menos, menos ainda.” Em Forgetful, o guitarrista Larry Koonse faz acompanhamento arpegiado, é um ostinato que parece uma cadeira de balanço. E me traz de volta à bossa nova.

“Gravadora para mim não é um negócio.” O produtor que fez Luciana se sentir em casa nos Estados Unidos.
Numa noite de 2007, na plateia de um clube nova-iorquino, ganhei um abraço de François Zalacain, o fundador da gravadora Sunnyside. Zalacain é francês e não é dado a arroubos efusivos mas ele não conseguia se conter, depois de ouvir João Donato pela primeira vez, ao vivo. A euforia do produtor me ajudou a entender a motivação por trás de sua gravadora, que completa 30 anos com um catálogo excepcional de artistas, como Luciana Souza, o líder de orquestra Guillermo Klein e o saxofonista Chris Potter.
Zalacain acaba de abrir os braços para sua filha pródiga, Luciana Souza, a cantora paulista que mudou a história da Sunnyside com a primeira indicação para o Grammy, em 2002. “Até então”, lembra ele, “nós nem prestávamos atenção no Grammy, era uma competição fora do nosso alcance.”
Além da admiração, Zalacain deposita uma confiança artística em Luciana que resulta em gravações como Neruda, de 2004. O álbum, um recital de piano e voz com os versos do poeta chileno em inglês sobre canções compostas por Luciana, dificilmente sairia de uma gravadora maior e continua a ser um dos mais aclamados trabalhos da artista.
Sobrevivente numa indústria devastada pela pirataria e pelos efeitos da tecnologia digital, Zalacain contempla a paisagem da indústria com ceticismo gálico. Diz que voltamos ao século 19, quando os músicos encontravam seu público ao vivo. Com o fim das lojas de discos, as salas de concerto se tornaram pontos de venda de CDs.
Pergunto a Zalacain se ele teria coragem de fundar uma gravadora em 2012. “Sim, porque para mim não é um negócio,” diz. “É uma insensatez começar uma gravadora para ganhar dinheiro.” / L.G.
Um homem confessou nesta quinta-feira ser o assassino do menino Etan Patz. O desaparecimento de garoto de 6 anos, no bairro nova-iorquino do Soho, em 1979, provocou uma onda nacional apreensão sobre a segurança das crianças.
Pedro Hernandez, de 51, que trabalhava numa bodega perto do edifício da família Patz, foi preso na quarta-feira, em Nova Jersey. Ele disse que estrangulou o menino e colocou o corpo numa caixa que foi abandonada em Manhattan e desapareceu.
Etan Patz (Foto Cortesia NYPD)
Paltz foi raptado no primeiro dia em que sua mãe permitiu que ele caminhasse sozinho para a escola. Na década de 80, as embalagens de leite nos Estados Unidos passaram a estampar rosto fotos de crianças desaparecidas e o Congresso passou leis para atacar raptos de crianças.
Em 33 anos de mistério, uma teia de pistas frustradas e suspeitos confundiu gerações de investigadores nova-iorquinos. Em 2010, o recém-eleito promotor público de Nova York, Cyrus Vance Jr., decidiu reabrir o caso. O Prefeito Michael Bloomberg alertou para o fato de que a investigação não está encerrada e a polícia nova-iorquina não acusou Hernandez formalmente pelo assassinato.
Ouça a conversa com Mia Bruscato sobre o caso Ethan Paltz, na rádio Estadão ESPN.
A Chicago que recebe dezenas de líderes mundiais para a cúpula da OTAN é a cidade que abrigou o primeiro arranha-céu americano, no século 19, e se tornou lendária como o território de Al Capone, nos tempos da Lei Seca. Um novo livro explora as origens da Chicago moderna.
Veja por que a cúpula da OTAN, neste fim de semana, é a mais difícil da Aliança criada depois da Guerra Fria.
Ôpa! Tocaram o hino errado.
O filme Borat (2006), em que o personagem criado por Sacha Baron Cohen viaja pelos Estados Unidos como um repórter crasso do Cazaquistão, continua a enxovalhar a imagem que a ex-república soviética tanto quer recuperar. Assista ao constrangimento da atleta cazaque Maria Dmitrienko, recém-vencedora de uma medalha de ouro no 10o Campeonato Árabe de Tiro, no Kuwait, na última quinta-feira. Ela sobe ao pódio e se perfila para ouvir o hino nacional de seu país. Mas ouve a paródia criada por Baron Cohen em Borat, uma canção que exalta o potássio e as prostitutas do Cazaquistão
Ah, o perigo de se confiar cegamente na Internet. Os organizadores do campeonato supostamente baixaram os hinos dos países participantes que encontraram online. A chancelaria cazaque considerou o episódio um escândalo.
“Dizem que os casamentos são feitos no Paraíso. Mas os relâmpagos e as trovoadas também são.” Palavras de Clint Eastwood

Clint Eastwood em Os Imperdoáveis (Unforgiven) Foto: Divulgação
Go ahead, make my day e me diga que não é verdade.
A família de Clint Eastwood vai estrear num reality show. Com parentes como estes, quem precisa de inimigos com quem duelar ao pôr do sol?
O anúncio foi feito hoje pela rede E!, morada de grandes protagonistas da cultura contemporânea como a família Kardashian.
O novo programa vai se chamar “Mrs. Eastwood & Company” e começa a ser exibido no dia 20 de maio, numa temporada inicial de 10 episódios. Dina Eastwood, nascida Ruiz, casou-se com Eastwood depois que foi à casa do diretor e ator entrevistá-lo para uma estação local da Califórnia. Eles tiveram uma filha Morgan, hoje com 15 anos, que vai participar do reality show junto com a irmã mais velha, Francesca, de 18 anos, filha de Clint Eastwood com a atriz Frances Fisher.
Para completar o elenco teremos, não os cinco outros filhos de Eastwood com três mulheres, mas o sexteto vocal Overtone, que Dina descobriu em Johanesburgo, África do Sul, quando o marido filmava Invictus. Hoje ela atua como agente dos rapazes. Quandos punhados de dólares teriam convencido a família de um homem que fez da postura monossilábica uma arte?

Clint Eastwood, que completa 82 anos em maio, deve fazer aparições esporádicas no reality show. O programa vai ser filmado em Los Angeles e na pitoresca Carmel , a ultra-afluente cidade de 3.500 habitantes da qual Eastwood já foi prefeito, pelo Partido Republicano. Acabo de chegar de lá e o índice de esnobismo por partícula atmosférica local me faz desconfiar que há socialites gritando para suas empregadas latinas ilegais: Meus sais!
Em uma das mais memoráveis cenas de Três Homens em Conflito, Eastwood diz: “Neste mundo, há dois tipos de gente, meu amigo. Os que têm armas carregadas e os que cavam. Você cava.”
Clint, você trocou de time?
A paz de Carmel ameaçada pelo clã Eastwood (Foto: Lúcia Guimarães)
Este texto começou a repercutir na mídia americana porque envolve Osvaldo Golijov, um dos mais conhecidos compositores da atualidade. O crítico da revista New Yorker, Alex Ross, publicou The Golijov Issue: Borrowed Music, or Stolen?, sobre a citação da música de outros na obra de Golijov. A crítica de música clássica do Washington Post, Anne Midgette, publicou From pastiche to appropriation: Golijov and “Sidereus” . O jornal do Oregon The Register Guard, cujo repórter Bob Keefer investigou a acusação de plágio depois de um concerto em que uma peça recente do compositor chamou atenção pela semelhança extraordinária com outra, traz uma reportagem que cita uma coluna e o post desta repórter.
O debate sobre apropriação musical não é novo mas o que parece ser questionado aqui é o limite ético da apropriação e a falta de crédito próprio, no rarefeito mundo da música erudita americana em que instituições sem fins lucrativos premiam um pequeno número de compositores com comissões de música supostamente original.

(Alex Ross Foto: Divulgação)
O crítico Alex Ross, autor de O Resto é Ruído (Companhia das Letras R$ 72,00) e Escuta Só (Companhia das Letras, R$ 49,50), foi um dos primeiros a escrever sobre a obra de Osvaldo Golijov, neste ensaio de 2001. Aqui uma observação em nome da transparência: Depois de ler o ensaio, procurei Ross e o convidei a a participar de um especial de TV sobre Golijov, que estava produzindo em 2002 ele concordou mas, como decidimos que Golijov seria entrevistado em seu espanhol nativo, Ross ficou fora do programa no GNT. Dez anos depois, procurei o crítico da New Yorker para ouvir sua opinião sobre o compositor que ele apresentou para um público maior. Alex Ross diz ao Estado:
“Como alguém que foi um profundo admirador da Obra de Golijov no passado, considero estes últimos acontecimentos perturbadores. Sabíamos que ele incorporava outras vozes e colaboradores em sua música, mas fazia isto de maneira mais aberta. Eu tenho um problema com a possibilidade de algo ter sido escondido dos ouvintes. Além do debate sobre o quanto Golijov é o autor de uma peça, o resultado não tem sido particularmente bom ou à altura de seu trabalho anterior. Houve cancelamentos de premières por composições não concluídas a tempo. Ou composições, como é o caso de Sidereus, muito mais curtas do que se espera de uma comissão. Eu espero sinceramente que, este compositor que admiro, recupere sua energia criativa e nos dê peças da escala de sua obra anterior, como La Pasión Según San Marcos.
A história da música clássica é cheia de “empréstimos” mas os fins justificam os meios quando o resultado é uma grande obra que emerge do processo. Ao mesmo, tempo, nós vivemos num mundo de leis de copyright que existem para que se respeite a propriedade intelectual. Então não acho correto comparar nosso mundo ao mundo de Beethoven ou de compositores que incorporavam elementos de outros em suas obras. O importante hoje, é deixar bem claro para o público a origem de um trabalho.”
O mundo da música erudita não inspira febres digitais. Uma nova sinfonia dificilmente se tornaria viral no YouTube. Quem se interessa por música segue seus blogs favoritos e a mídia tradicional americana dedica cada vez menos espaço aos concertos e lançamentos de cd’s.
No último dia 16, um crítico e compositor que mora em Eugene, Oregon, Tom Manoff, questionou neste artigo a autoria de uma nova composição de Osvaldo Golijov, Sidereus. Golijov é um dos mais celebrados compositores da última década. Sidereus estreou em 2010 e foi apresentada no Brasil no ano passado pela OSESP. Leia a resenha do crítico João Marcos Coelho, no Estado. Com 9 minutos, Sidereus foi composta sob encomenda de um consórcio de 35 orquestras americanas. O programa da Eugene Symphony dá crédito a Michael Ward-Bergeman, acordeonista e amigo de Osvaldo Golijov, pela melodia de Sidereus.
Quis o acaso que Tom Manoff fosse o proprietário do estúdio onde a peça Barbeich, de Ward-Bergeman, composta em 2009, foi editada e remixada no segundo semestre de 2011. Manoff afirma que Sidereus inclui melodias, contrapontos, harmonias e estruturas musicais notáveis de sua antecessora Barbeich. O próprio Michael Ward-Bergeman veio a público, diante da controvérsia, e se declarou satisfeito com o crédito recebido. Mas, pergunta, Manoff, o fato de que o compositor da obra anterior não se sente lesado encerra o assunto? A resposta, a julgar pela repercussão do artigo de Manoff, é não.

Tom Manoff (Foto:Milagro Vargas)
Ao ler a reação de Tom Manoff, que descreveu sua perplexidade ao reconhecer Sidereus como outra composição, voltei na memória ao concerto que inspirou esta coluna, no dia 9 de janeiro. Eu também tive um momento de incredulidade, ao ouvir uma nova composição de Osvaldo Golijov. Ela continha mais da metade de uma música assinada por dois dos maiores compositores cariocas vivos.

Osvaldo Golijov (Foto: Sarah Evans)
Minha coluna de janeiro não identificava o compositor, o local do concerto ou o quarteto de cordas. E tampouco identificava a melodia brasileira copiada. Convencida de que se tratava de uma citação involuntária, fui atrás de Osvaldo Golijov, cuja obra foi tema do especial de uma série de 2002 que produzi para o canal GNT. Através de amigos comuns, cheguei ao compositor, com quem não falava há anos.
Golijov hoje divide seu tempo entre comissões para orquestras e grupos de câmara, trilhas dos filmes de Francis Ford Coppola, aulas no College of the Holy Cross, em Massachusetts e, este ano, será o artistic advisor do Festival Latino da temporada 2012-2013 do Carnegie Hall, que vai incluir no programa Gustavo Dudamel, Gilberto Gil e Chucho Valdés. Ele ganhou a famosa MacArthur “Genius” Grant e dois Grammys. Sua obra se notabilizou pela fusão de popular e erudito e sua fama se consolidou com a celebrada Pasión Según San Marcos (2000), cujas primeiras performances traziam a cantora Luciana Souza em solos memoráveis, ao lado de Dawn Upshaw.

Por que não identifiquei Osvaldo Golijov como o compositor que havia copiado boa parte de uma famosa melodia brasileira?
Primeiro, porque, imediatamente após o meu alerta, ele retirou a melodia do segundo movimento da nova peça, Kohelet, composta sob encomenda para o St. Lawrence String Quartet.
E também porque ele me atendeu naquele dia como uma conhecida e não como jornalista.
Diante do artigo de Tom Manoff, decidi que devia voltar ao assunto sem omitir os protagonistas. E escrevi para Osvaldo Golijov, dizendo: “Não concordo com sua explicação para ter incluído a melodia carioca numa composição supostamente original. Agora procuro você como jornalista.”
O telefone tocou em menos de 5 minutos. E, perguntará o leitor, cadê o nome da composição brasileira e de seu autor? A pedido de Golijov, deixo ainda esta informação de fora. Como ele me disse, hoje, “eu me arrependo profundamente de ter pensado que a minha citação musical seria apenas isso. A sua reação deixou claro para mim que eu estava enganado.” Já espero que muitos leitores hão de discordar. Mas suponho que não devo fazer reportagem sobre um plágio que quase aconteceu e cuja supressão foi provocada por mim.
A seguir, trecho da conversa que tive com o compositor, cuja originalidade criativa vai passar por um duro teste esta semana.
Osvaldo Golijov: Obrigado, mais uma vez pela sua chamada em dezembro. Penso assim sobre o que ocorreu: cada peça musical vem de outra peça. Nada se origina do nada.
LG: Como você incluiu a canção que reconheci no segundo movimento de Kohelet?
OG: Eu não tinha a partitura comigo e fiz questão de não consultá-la. Eu adorava a canção. E tomei a decisão consciente de fazer o que eu considerava uma homage, uma citação. Era como se fosse um sonho, como numa pintura de Salvador Dali. Mas quando ouvi a sua surpresa, percebi que era impossível manter a melodia.
Eu achei que o que fiz em Kohelet era semelhante ao que Gil Evans fez com música espanhola para a gravação com Miles Davis. Em As Bodas, por exemplo, Igor Stravinsky cita tanta música que um autor citado, se vivo, poderia dizer, espera aí, isto é meu.
LG: Você se arrepende de ter usado a melodia brasileira?
OG: Sim, eu me arrependo profundamente. Da próxima vez, eu vou direto à partitura para ter certeza de que não estou me lembrando demais do original. Você me salvou de uma controvérsia indesejável que poderia ter outros desdobramentos. O fato é que não existe 100% de pureza na música ou na vida. Uma vez que você dispões das 12 notas, não há como evitar… a vida nasce da vida.
Publico a troca acima sem comentários. Suspeito que o artigo de Tom Manoff vai gerar uma discussão sobre autoria, envolvendo uma das estrelas da música contemporânea. Convido leitores a escrever para Lucia.Guimaraes at estadao.com.br
SÉRGIO CABRAL
Aqui a correção de um erro da coluna de 9 de janeiro, que atribuía a um mineiro de Ubá a comparação da melodia a um passarinho que pode ser apanhado no ar. Escreve o Sérgio:
“O que importa não é o fato, mas a versão, frase de Santiago Dantas atribuido a José Maria Alkimin. Como o que importa é a versão, Santiago Dantas dançou. Seu pai, por sua vez, atribuiu a um Grande Compositor Morto, que só pode ser Ary Barroso, sobre quem escrevi uma biografia, uma frase que não era dele. Quem disse alguma coisa parecida foi o grande Sinhô (José Barbosa da Silva, 1881-1930), quando Heitor dos Prazeres reclamava por ser dele, Heitor, o samba “Gosto que me enrosco”, gravado por Mário Reis. Resposta de Sinhô: “Samba é como passarinho. É de quem pegar”.
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