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Lúcia Guimarães

21.fevereiro.2012 17:00:42

Como Não Dei Um Furo Musical e Esvaziei a Notícia

O mundo da música erudita não inspira febres digitais. Uma nova sinfonia dificilmente se tornaria viral no YouTube. Quem se interessa por música segue seus blogs favoritos e a mídia tradicional americana dedica cada vez menos espaço aos concertos e lançamentos de cd’s.

No último dia 16, um crítico e compositor que mora em Eugene, Oregon, Tom Manoff, questionou neste artigo a autoria de uma nova composição de Osvaldo Golijov, Sidereus. Golijov é um dos mais celebrados compositores da última década. Sidereus estreou em 2010 e foi apresentada no Brasil no ano passado pela OSESP. Leia a resenha do crítico João Marcos Coelho, no Estado. Com 9 minutos, Sidereus foi composta sob encomenda de um consórcio de 35 orquestras americanas. O programa da Eugene Symphony dá crédito a Michael Ward-Bergeman, acordeonista e amigo de Osvaldo Golijov, pela melodia de Sidereus.

Quis o acaso que Tom Manoff fosse o proprietário do estúdio onde a peça Barbeich, de Ward-Bergeman, composta em 2009, foi editada e remixada no segundo semestre de 2011. Manoff afirma que Sidereus inclui melodias, contrapontos, harmonias e estruturas musicais notáveis de sua antecessora Barbeich. O próprio Michael Ward-Bergeman veio a público, diante da controvérsia, e se declarou satisfeito com o crédito recebido. Mas, pergunta, Manoff, o fato de que o compositor da obra anterior não se sente lesado encerra o assunto? A resposta, a julgar pela repercussão do artigo de Manoff, é não.

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Tom Manoff (Foto:Milagro Vargas)

Ao ler a reação de Tom Manoff, que descreveu sua perplexidade ao reconhecer Sidereus como outra composição, voltei na memória ao concerto que inspirou esta coluna, no dia 9 de janeiro. Eu também tive um momento de incredulidade, ao ouvir uma nova composição de Osvaldo Golijov. Ela continha mais da metade de uma música assinada por dois dos maiores compositores cariocas vivos.

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Osvaldo Golijov (Foto: Sarah Evans)

Minha coluna de janeiro não identificava o compositor, o local do concerto ou o quarteto de cordas. E tampouco identificava a melodia brasileira copiada. Convencida de que se tratava de uma citação involuntária, fui atrás de Osvaldo Golijov, cuja obra foi tema do especial de uma série de 2002 que produzi para o canal GNT. Através de amigos comuns, cheguei ao compositor, com quem não falava há anos.

Golijov hoje divide seu tempo entre comissões para orquestras e grupos de câmara, trilhas dos filmes de Francis Ford Coppola, aulas no College of the Holy Cross, em Massachusetts e, este ano, será o artistic advisor do Festival Latino da temporada 2012-2013 do Carnegie Hall, que vai incluir no programa Gustavo Dudamel, Gilberto Gil e Chucho Valdés. Ele ganhou a famosa MacArthur “Genius” Grant e dois Grammys. Sua obra se notabilizou pela fusão de popular e erudito e sua fama se consolidou com a celebrada Pasión Según San Marcos (2000), cujas primeiras performances traziam a cantora Luciana Souza em solos memoráveis, ao lado de Dawn Upshaw.

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Por que não identifiquei Osvaldo Golijov como o compositor que havia copiado boa parte de uma famosa melodia brasileira?

Primeiro, porque, imediatamente após o meu alerta, ele retirou a melodia do segundo movimento da nova peça, Kohelet, composta sob encomenda para o St. Lawrence String Quartet.

E também porque ele me atendeu naquele dia como uma conhecida e não como jornalista.

Diante do artigo de Tom Manoff, decidi que devia voltar ao assunto sem omitir os protagonistas. E escrevi para Osvaldo Golijov, dizendo: “Não concordo com sua explicação para ter incluído a melodia carioca numa composição supostamente original. Agora procuro você como jornalista.”

O telefone tocou em menos de 5 minutos. E, perguntará o leitor, cadê o nome da composição brasileira e de seu autor? A pedido de Golijov, deixo ainda esta informação de fora. Como ele me disse, hoje, “eu me arrependo profundamente de ter pensado que a minha citação musical seria apenas isso. A sua reação deixou claro para mim que eu estava enganado.” Já espero que muitos leitores hão de discordar. Mas suponho que não devo fazer reportagem sobre um plágio que quase aconteceu e cuja supressão foi provocada por mim.

A seguir, trecho da conversa que tive com o compositor, cuja originalidade criativa vai passar por um duro teste esta semana.

Osvaldo Golijov: Obrigado, mais uma vez pela sua chamada em dezembro. Penso assim sobre o que ocorreu:  cada peça musical vem de outra peça. Nada se origina do nada.

LG: Como você incluiu a canção que reconheci no segundo movimento de Kohelet?

OG: Eu não tinha a partitura comigo e fiz questão de não consultá-la. Eu adorava a canção. E tomei a decisão consciente de fazer o que eu considerava uma homage, uma citação. Era como se fosse um sonho, como numa pintura de Salvador Dali. Mas quando ouvi a sua surpresa, percebi que era impossível manter a melodia.

Eu achei que o que fiz em Kohelet era semelhante ao que Gil Evans fez com música espanhola para a gravação com Miles Davis. Em As Bodas, por exemplo, Igor Stravinsky cita tanta música que um autor citado, se vivo, poderia dizer, espera aí, isto é meu.

LG: Você se arrepende de ter usado a melodia brasileira?

OG: Sim, eu me arrependo profundamente. Da próxima vez, eu vou direto à partitura para ter certeza de que não estou me lembrando demais do original. Você me salvou de uma controvérsia indesejável que poderia ter outros desdobramentos. O fato é que não existe 100% de pureza na música ou na vida. Uma vez que você dispões das 12 notas, não há como evitar… a vida nasce da vida.

Publico a troca acima sem comentários. Suspeito que o artigo de Tom Manoff vai gerar uma discussão sobre autoria, envolvendo uma das estrelas da música contemporânea. Convido leitores a escrever para  Lucia.Guimaraes at estadao.com.br

SÉRGIO CABRAL

Aqui a correção de um erro da coluna de 9 de janeiro, que atribuía a um mineiro de Ubá a comparação da melodia a um passarinho que pode ser apanhado no ar. Escreve o  Sérgio:

“O que importa não é o fato, mas a versão, frase de Santiago Dantas atribuido a José Maria Alkimin. Como o que importa é a versão, Santiago Dantas dançou. Seu pai, por sua vez, atribuiu a um Grande Compositor Morto, que só pode ser Ary Barroso, sobre quem escrevi uma biografia, uma frase que não era dele. Quem disse alguma coisa parecida foi o grande Sinhô (José Barbosa da Silva, 1881-1930), quando Heitor dos Prazeres reclamava por ser dele, Heitor, o samba “Gosto que me enrosco”, gravado por Mário Reis. Resposta de Sinhô: “Samba é como passarinho. É de quem pegar”.

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    Lúcia Guimarães

    Lúcia Guimarães é colunista do Caderno 2, colaboradora dos suplementos Aliás e Sabático e colunista da Rádio Estadão ESPN.

    Email: lucia.guimaraes@estadao.com.br

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