
Obama presta juramento na segunda posse, 20 de janeiro de 2013. (Foto Lawrence Jackson Cortesia Casa Branca)
(Texto reproduzido do suplemento Aliás de 27 de janeiro de 2013)
LÚCIA GUIMARÃES
Um murmúrio correu pela multidão. Não pela esmagadora maioria de um milhão que lotava o Mall de Washington. “Ele disse Stonewall?” Sim, foi o que disse Barack Obama, que, com uma frase em seu discurso de posse, elevou a revolta de um bar gay do boêmio Greenwhich Village de 1969 ao mesmo patamar histórico da luta pela emancipação da mulher, no século 19, e da luta pelos direitos civis dos negros americanos, na década de 1960. Mais estava por vir. Ao final da segunda cerimônia de posse do primeiro presidente negro da história americana, o próprio Obama tinha, perdoem o trocadilho, saído do armário. O cauteloso centrista que despontou no firmamento político com apenas um discurso, em 2004, e falava em tons quase messiânicos sobre o destino da América unida, capaz de transcender a polarização ideológica, apresentou ao país na segunda-feira país uma lista de intenções incomum para a ocasião, como a redistribuição de renda através de um sistema de impostos mais justo e a acolhida para os imigrantes sem documentos. Não todos os 11 milhões, certamente, mas sobretudo os que já têm vínculos no país e chances de se educar.
Como orador afiado, o presidente recorreu a uma moldura retórica para enquadrar muito do que faz a direita mais extrema espumar. A lista de Obama foi apresentada como uma evolução natural da declaração da independência americana. Impedir as manobras de obstrução ao voto dos negros, respeitar a igualdade civil dos gays, defender o salário das mulheres, cuidar dos idosos pela previdência, investir na educação dos jovens e impedir que crianças sejam mortas a tiros na escola, garantiu Obama, era o que tinham em mente os fundadores da república quando escreveram sobre o direito inalienável “à vida, à justiça e a busca da felicidade.”
Ao parar de tentar apaziguar a versão mais colérica e intransigente do Partido Republicano representada no legislativo americano nas últimas décadas, dizendo “acredito mesmo numa distribuição mais justa de renda e no poder da coletividade sobre o individualismo de fronteira”, Obama fez mais do que pegar a oposição de surpresa. Aumentou as expectativas de eleitores que têm visto nele um conciliador atávico. Nenhum grupo de eleitores presta mais atenção na evolução de Barack Obama do que os afro-americanos, os 12% da população. Eles são também 40% da população carcerária no país com maior número detentos per capita no mundo. Enfrentam um desemprego de quase 15% comparado ao nível de 7,8% da população em geral.
O acadêmico Jelani Cobb é autor de The Substance of Hope, Barack Obama and the Paradox of Progress e escreveu o ensaio Barack X, na revista New Yorker pouco antes da eleição de novembro passado. No ensaio, ele tratou da presidência Obama sob o prisma da herança de líderes diferentes como Martin Luther King e Malcolm X. Cobb diz que a ascensão de Obama dá esperança e ao mesmo tempo aprofunda o ceticismo dos negros americanos, conscientes de que ele jamais continuaria morando na Casa Branca se tentasse explicitamente curar a ferida racial. Professor associado de história e diretor do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Connecticut, Cobb conversou com o Aliás após a cerimônia da posse da última segunda-feira. Ele analisa os pontos mais importantes do discurso do presidente.”

Jelani Cobb (Foto: Lúcia Guimarães)
Os detalhes.
“O discurso de posse me surpreendeu por ser muito mais específico do que se esperava. É comum os discursos de posse serem genéricos, falarem do progresso americano e das nossas virtudes. Mas o Obama foi mais além nos detalhes. Podemos pôr este discurso como um contraste ao discurso da Convenção do Partido Democrata de 2004, que colocou o Obama no cenário nacional. Ali, ele falava da unidade transcendental, do tema de um país que não estaria dividido. Na segunda posse, ele falou de unidade mas mencionou especificamente os excluídos da sociedade americana. E destacou como teremos que lutar para incluir esta população na nossa sociedade. A frase mais significativa foi quando ele se referiu a Seneca Falls (local da a primeira convenção nos Estados Unidos a lutar pela emancipação feminina, em 1848), Selma (cidade do Alabama de onde partiram as marchas pelos direitos civis dos negros em 1965) e Stonewall (rebelião no bar gay de Manhattan em 1969). Ao juntar as três lutas, acho que surpreendeu a maioria.”
A ironia da identidade racial.
“Obama não invoca a tragédia da segregação – costumo dizer que ele é um mulato irônico – como referência a sua identidade. A maioria das pessoas considera o Obama birracial. Mas, nos Estados Unidos, se você tem um pai negro e uma mãe branca e vice-versa, você é considerado negro, ponto – com todas as consequências desta condição. Com o Obama, de repente, as pessoas quiseram mudar as regras e dizer ‘ele é birracial’. O fato é que a maioria dos afro-americanos é birracial, minha bisavó era branca. O que me ofende é que séculos de história são apagados para que uma parte do eleitorado se sinta mais identificada com o Obama. Mas a nossa vida não muda por causa do rótulo.”
O mito de uma era pós-racial.
“Nem Obama acredita nisso. Ele sabe quanto a questão do racismo pesa na vida dos afro-americanos e disse isso diretamente a uma plateia da Associação Nacional de Pessoas de Cor, fundada no começo do século 20. Há dinâmicas muito claras, como a crise da bolha imobiliária, que teve um impacto muito maior entre os negros, e como o fato de a maioria da população carcerária ser composta de afro-americanos. Um exemplo da consciência de Obama é seu Ministro da Justiça, Eric Holder, ter ido atrás e processado judicialmente departamentos policiais que fazem o chamado perfil racial, detêm e revistam muito mais negros.”
A paciência dos negros.
“Não importa o grau de decepção com a falta de progresso em questões que afligem em maior proporção os negros americanos, eles deram 93% de seu voto a Barack Obama em 2012. Essa paciência é fácil de explicar: eles viveram o racismo. Perceberam como ia haver e houve hostilidade contra Obama. Só há um problema com isso: não importa o quanto você se identifica com um líder, não é bom que se solidarize muito com ele. Deve manter um nível saudável de desconfiança. Esta situação de termos um presidente negro não tem precedente. Temos que descobrir como nos identificar com a luta de Obama sem sacrificar os nossos objetivos específicos, o que nos fez votar nele. Obama não foi eleito com a maioria do voto branco. E a nossa história nos mostra que cada etapa de conquista negra foi seguida de alguma represália. A surpresa com a hostilidade a Obama para mim reside no fato de que a grande mídia, como a Fox News, se tornou um fórum para este tipo de idéia, como a nacionalidade de Obama, traficando com a demagogia fanática. Mas a teoria conspiratória nos Estados Unidos é uma tradição que não se resume à questão de raça. John Kennedy foi acusado de ser um agente de Moscou. Bill Clinton foi acusado de acobertar o suposto assassinato do assessor Vincent Foster, que de fato se suicidou. Certas figuras proeminentes ainda criticaram Obama principalmente em dois aspectos: diziam que ele não atacou a pobreza com agressividade e que não seguiu a tradição pacifista do movimento de direitos civis ao aumentar o esforço de guerra no Afeganistão. Mas, num contexto político em que o presidente foi forçado a mostrar sua certidão de nascimento para provar que é cidadão americano, o que se podia esperar, com realismo? E, diante do Congresso mais obstrucionista das últimas décadas, o que pensavam que ia acontecer?”
O sistema penal.
“A maioria das pessoas atrás das grades foi condenada por infrações não violentas ligadas a drogas. Mudar a maneira como o país trata do problema da droga poderia ser o grande legado do Obama. Uma vez que você joga na prisão uma pessoa que cometeu uma pequena ofensa, as chances de ela obter emprego são drasticamente reduzidas e isto leva ao maior risco de cometer crimes mais graves. Lembro que, nos anos 90, quando Newt Gingrich era o líder republicano da Câmara, ele acabou com as bolsas de estudos, as Pell Grants, para detentos. Isto é um exemplo da mudança de direção do sistema penal. E há também algo pernicioso que pune muito mais a população negra. A maioria dos detentos afro-americanos vem de áreas urbanas pobres. Mas há um grande número de prisões em áreas rurais. Estas áreas rurais, mais brancas e conservadoras, dão boas vindas às penitenciárias porque a população carcerária entra na contagem do censo. E permite a estas regiões com menor densidade demográfica ter maior representatividade eleitoral e, por exemplo, ter mais investimento do governo em educação. Enquanto os afro-americanos não estão sendo contados nas cidades de origem. Aí está um incentivo para não reformar o sistema da justiça criminal.”
Os gays e os conservadores cristãos.
“Quando Obama mudou de opinião e apoiou o casamento gay, não me passou pela cabeça que seria punido pelos afro-americanos. Temos uma população cristã negra conservadora que não aprova a igualdade para o casamento. Mas o fato é que não vamos às urnas mobilizados para votar nessas questões, tal como os brancos conservadores. Há muito os republicanos falam da “direita cristã”. Mas, ainda que cristãos negros compartilhem os ideais cristãos de outros grupos, vão votar em democratas porque acreditam que eles protegem mais os empregos, a ação afirmativa, e vão se manifestar contra crimes de ódio. E também acreditam que o político democrata vai respeitar mais a sua humanidade, sua condição de próximo. Quando estamos lidando com disparidade econômica, o voto tende a ser pragmático. Só depois de ter segurança econômica é que se começa a votar em questões de estilo de vida.”
O simbolismo do primeiro-casal.
“A importância da imagem do casal não pode ser subestimada, é tremenda. É um aspecto quase tão importante simbolicamente quanto certas questões de política. Há este desejo coletivo de testemunhar uma família intacta, de duas pessoas que se querem bem e se apóiam ao longo da vida. Especialmente entre os afro-americanos, é um contraste com o estereótipo do relacionamento negro disfuncional. Quando um casal branco se separa é porque não se entende bem. Quando um casal negro se separa, é porque a família negra está em colapso. Barack e Michelle representam o ideal mítico do black love.”
Vídeo da NRA
Horas antes de Barack Obama assinar um pacote de medidas para combater a violência por armas de fogo, a National Rifle Association, o poderoso lobby americano das armas, acusou o Presidente de hipocrisia elitista e colocou Sasha e Malia Obama na mira de seu ataque. O anúncio acusa Obama de ter o Serviço Secreto à disposição para proteger suas filhas e de não querer seguranca para as crianças dos cidadãos comuns. O anúncio gerou polêmica e quebra um protocolo que mantém filhos menores de presidentes fora do debate público. O porta-voz da Casa Branca classificou o anúncio de repugnante e “uma covardia”.
O plano de Obama, anunciado um mês depois do massacre da escola de Newtown, Connecticut, que deixou 20 crianças e 7 adultos mortos, inclui medidas como a volta da proibição das armas de assalto, limite de munição para 10 balas, investigação de antecedentes para qualquer comprador de armas de fogo e maior coordenação de vários bancos de dados sobre proprietários de armas.
O Presidente admitiu que vai ser difícil passar as medidas no Congresso, onde a câmara é controlada por republicanos e pediu ao público que se manifeste junto aos representantes dos legislativos federal, estadual e local.
( Lucia.Guimaraes at estadao.com.br)

Caso típico de voz mais reconhecida nos EUA do que em sua própria terra, Luciana Souza ressurge com dois CDs
Não é fácil conversar com Luciana Souza e ao mesmo tempo ouvir seu novo CD The Book of Chet, uma visita ao repertório do grande trompetista e cantor Chet Baker. A voz impecável que transformou a clássica Forgetful num lamento hipnótico (“como uma cadeira de balanço,” diz) não parece pertencer à mesma artista que fala com urgência e sem hesitação. A mesma artista que achou por bem lançar não um mas dois CDs no próximo dia 28 de agosto. O segundo, Duos III, encerra a celebrada série de violão e voz que deu à paulista radicada em Los Angeles duas de suas quatro indicações para o Grammy.
O lançamento duplo marca a volta de Luciana à gravadora Sunnyside, onde ela se projetou nos Estados Unidos com o Brazilian Duos, em 2002. Na última década, Luciana testou sua definição como jazzista, gravando repertório erudito com orquestras sinfônicas e compondo com o marido e premiado produtor musical Larry Klein, com quem colabora nos novos álbuns. Luciana perdeu o pai, o pioneiro da bossa Walter Santos, em 2008, e a mãe, a poeta e produtora musical Teresa Souza, em 2009. Os dois foram figuras seminais da música instrumental brasileira, à frente do selo Som da Gente, e Luciana reconhece que a sua MPB é a que recebeu dos pais e levou na bagagem quando embarcou ainda adolescente para estudar em Boston. O Duos III traz de volta os incomparáveis Romero Lubambo e Marco Pereira e realiza um sonho de Luciana: gravar com Toninho Horta. “Nós nos conhecemos às 5 da tarde e às 9 da noite já tínhamos gravado Pedra da Lua e Beijo Partido,” lembra a musicista, para quem o tempo pode acomodar a torrente de palavras que a repórter mal consegue anotar. Ou pode ser um espaço minimalista onde o som é tão irresistível “que a gente nem se mexe.”
Ouça duas músicas dos cd’s ineditos de Luciana Souza:
Pedra da Lua, de Toninho Horta e Cacaso, do cd Duos III, com Toninho Horta na guitarra.
Forgetful, de George Handy e Jack Segal, de The Book of Chet, Larry Koonse na guitarra.
Entrevista exclusiva de Lucianas Souza ao C2 + Música
Por que você decidiu lançar os dois CDs ao mesmo tempo?
Traço vários paralelos entre o Duos III e o Book of Chet. A ligação mais direta que eu vejo é a do João Gilberto com o Chet Baker. Meu pai lembrava que, em Juazeiro, na Bahia, tocava Chet no coreto. A emoção do Chet existe mas é contida, é a emoção que a gente encontra na bossa nova, tem amor mas não tem dramalhão. É a melancolia e o lirismo, expressivos de uma emoção muito pessoal. Para mim, foi muito fácil gravar os dois CDs juntos. As canções são muito simples, são dois discos de cover. Quem ouve já tem suas referências e eu faço a minha leitura.
Em 2006, você deixou a independente Sunnyside, pela gravadora Universal, onde lançou The New Bossa Nova (2007) e Tide, este indicado para um Grammy em 2010. O que fez você voltar para a gravadora menor, do François Zalacain ?
Nós fomos jantar aqui em Los Angeles, no ano passado. O François foi como um pai para mim e a Sunnyside sempre me faz sentir em casa. Ele perguntou o que eu queria fazer e ele mesmo completou a minha frase: Duos III. Expliquei que queria gravar e lançar o CD do Chet Baker junto mas avisei que já tinha um repertório na cabeça, não queria gravar sucessos como My Funny Valentine. Logo mandei os dois orçamentos e pedi para ele ler com uma taça de vinho na mão. Ele suspirou e disse, vamos em frente. Com o François, é tudo muito claro, não há intermediários.
Como você decidiu o repertório do Duos III e incluiu até uma música que pode surpreender, como Mágoas de Caboclo?
Mágoas do Caboclo para mim era importante, eu ouvia de Orlando Silva quando era pequena e, pouco antes de morrer, meu pai me deu de presente um box set do Orlando Silva. Eu tinha saudade do meu pai e ficava ouvindo. É uma seresta, um gênero que eu não costumo cantar, um pouco na linhagem de outras faixas como Chora Coração, do Jobim, e As Rosas Não Falam, do Cartola. O Larry chegou a perguntar “tem certeza que quer incluir?” É um fraseado que tem ritmo mas não tem groove. A minha MPB é a de quem saiu do Brasil há 27 anos. Não estou numa missão, mas pertenço a esta tradição de voz e violão que continua. Faço mais uma leitura informada por jazz em, por exemplo, Doralice. É o que faz um músico de jazz quando grava um standard. Eu não tenho uma relação forte com o que está sendo lançado agora. A minha música brasileira é marcada pela memória do meus pais, eu fui embora ainda em formação. Meu conhecimento de samba é de quem ouviu o João Gilberto cantar samba. Podem me criticar, dizer que gravo música antiga, mas sei que não sou uma Elis Regina lançando compositores.
Mais uma vez, você escolheu a gravação ao vivo no estúdio para o Duos III. O diálogo voz e violão se presta especialmente a esta forma de gravar?
Sim, há uma transparência absurda. Com o piano você sustenta o som, com o violão não tem isso. O desaparecer do som é mais rápido. Minha forma de cantar mudou muito, eu já consigo sustentar mais notas, como faço em Dindi. Cantar é ar, é coisa abstrata , quando acaba, acabou.
Você já se interessava pelo Chet Baker desde que morava em Boston?
Sim, eu explorei muito o repertório do Chet no começo dos anos 90. Adorava os solos de scat dele, tinham poucas consoantes. O Chet evoca quase um conforto com a solidão e a melancolia. É interessante ocupar este espaço de tristeza, como parte da minha humanidade. Sentar neste canto e dizer, está bem ficar aqui. A tristeza do Chet é muito mais expressiva para mim do que a dor gritada. Ele e o João Gilberto têm esta capacidade de levar você para um lugar da canção, um novo espaço, sem ornamento. É como se os dois aspirassem todo o ar e ficasse só o som deles e você não se desprende até a canção acabar.
Uma faixa que ilustra o que você diz é Forgetful. A impressão que dá é que você está testando a resistência das notas. O resultado é hipnótico.
Sim, acho que estou testando também a paciência de quem ouve! Passamos 3 dias só gravando balada no estúdio, a gente ia reduzindo o metrônomo. O único overdub de bateria foi gravado ao vivo. O Larry dava instruções claras sobre os arranjos. O desafio é contar a história com menos recursos. E o Larry dizia “menos, menos ainda.” Em Forgetful, o guitarrista Larry Koonse faz acompanhamento arpegiado, é um ostinato que parece uma cadeira de balanço. E me traz de volta à bossa nova.

“Gravadora para mim não é um negócio.” O produtor que fez Luciana se sentir em casa nos Estados Unidos.
Numa noite de 2007, na plateia de um clube nova-iorquino, ganhei um abraço de François Zalacain, o fundador da gravadora Sunnyside. Zalacain é francês e não é dado a arroubos efusivos mas ele não conseguia se conter, depois de ouvir João Donato pela primeira vez, ao vivo. A euforia do produtor me ajudou a entender a motivação por trás de sua gravadora, que completa 30 anos com um catálogo excepcional de artistas, como Luciana Souza, o líder de orquestra Guillermo Klein e o saxofonista Chris Potter.
Zalacain acaba de abrir os braços para sua filha pródiga, Luciana Souza, a cantora paulista que mudou a história da Sunnyside com a primeira indicação para o Grammy, em 2002. “Até então”, lembra ele, “nós nem prestávamos atenção no Grammy, era uma competição fora do nosso alcance.”
Além da admiração, Zalacain deposita uma confiança artística em Luciana que resulta em gravações como Neruda, de 2004. O álbum, um recital de piano e voz com os versos do poeta chileno em inglês sobre canções compostas por Luciana, dificilmente sairia de uma gravadora maior e continua a ser um dos mais aclamados trabalhos da artista.
Sobrevivente numa indústria devastada pela pirataria e pelos efeitos da tecnologia digital, Zalacain contempla a paisagem da indústria com ceticismo gálico. Diz que voltamos ao século 19, quando os músicos encontravam seu público ao vivo. Com o fim das lojas de discos, as salas de concerto se tornaram pontos de venda de CDs.
Pergunto a Zalacain se ele teria coragem de fundar uma gravadora em 2012. “Sim, porque para mim não é um negócio,” diz. “É uma insensatez começar uma gravadora para ganhar dinheiro.” / L.G.
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