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Lúcia Guimarães

 

 

(texto reproduzido da edição impressa do Caderno 2, em 13 de janeiro de 2013)

Na primeira década do século 20, a arte vista como vanguarda em Nova York era a pintura realista que representava cenas urbanas, frequentemente no Greenwhich Village – imagens consideradas vulgares pela elite colecionadora.

Rejeitados por galerias, um grupo de pintores realistas tramou uma desforra na forma de uma exposição em que seus trabalhos seriam exibidos lado a lado com obras da ainda desconhecida arte moderna europeia. Foi como convidar um grupo de lutadores de sumô para compartilhar o mobiliário infantil com o resto da turma de um jardim de infância.  A participação de nomes como Pablo Picasso, Paul Cézanne, Pierre Matisse, Pierre Bonnard e Marcel Duchamp cresceu, graças a um dos organizadores, Arthur Davies. O resultado foi a Exposição Internacional de Arte Moderna, celebrizada como o Armory Show, inaugurada em 17 de fevereiro de 1913 com 1300 obras. O apelido vem do prédio que abrigava um regimento da Infantaria do exército, na Avenida Lexington com a Rua 25, e hoje continua cenário de uma enorme feira anual de arte, na mesma Avenida, mas na Rua 68. O terremoto estético provocado, em 1913, pelo Armory Show faz Damien Hirst, com suas bolinhas e tubarões em formol, parecer hoje um irritante e hiperativo poodle miniatura.

A cidade, que ainda despertava sonolenta para se tornar a metrópole do século 20, foi invadida ao mesmo tempo por noções como fauvismo, cubismo, futurismo e especialmente pela pintura Nu Descendo a Escada, de Marcel Duchamp, descrita por um crítico de arte indignado como “uma explosão numa fábrica de telhas”.

O centenário da invasão da arte moderna em Nova York vai ser lembrado em várias exposições ao longo deste ano, numa celebração que começa em março com uma edição especial da feira do Armory Show.

Um resultado menos conhecido da introdução da arte moderna europeia nos Estados Unidos, porém, foi um outro despertar, desta vez para a arte africana que havia exercido forte embora nem sempre reconhecida influência sobre artistas como Pablo Picasso, Constantin Brancusi e Diego Rivera. Uma exposição, aberta até 14 de abril no Museu Metropolitan de Nova York, explora o tema. “Arte Africana, Nova York e a Vanguarda” foi organizada por Yaëlle Biro, curadora assistente da opulenta coleção de arte africana do Metropolitan e segue uma sequência cronológica que passa pela descoberta, os primeiros colecionadores, a aceitação em galerias e museus e termina com a influência da arte africana sobre a Renascença do Harlem na década de 20.

A exposição começa com obras da primeira mostra  dedicada exclusivamente à arte africana no mundo, organizada em 1914 pelo fotógrafo e agitador cultural Alfred Stieglitz, na sua lendária galeria da Quinta Avenida. O titulo da mostra de Stieglitz dá uma medida do desequilíbrio que haveria de marcar a relação dos artistas ocidentais com a arte de todo um continente: “Estatuário em Madeira por Selvagens Africanos: A Raiz da Arte Moderna.” A relação se desvenda ainda mais numa das fotos exibidas, em que Stieglitz registra a companheira, a pintora Georgia O’Keefe, nua, segurando uma colher esculpida na Costa do Marfim. Além de selvagens, os africanos deviam erotizar até os utensílios.

Em entrevista ao Estado, Yaëlle Biro lembra que o olhar de europeus e norte-americanos sobre a arte africana foi marcado pela trajetória das obras que deixaram o continente. “Muitos trabalhos eram levados para a França por oficiais militares e administradores coloniais, onde eram vendidos a galerias e colecionadores,” diz a curadora. “Depois de 1913, começou o fluxo de obras para os Estados Unidos e as camadas de significado não só se acumularam como foram desaparecendo ao longo do caminho.” Ela explica que, na França, o impacto inicial era mais informado pelo contexto original da arte, articulado com a presença colonial. Mas nos Estados Unidos, as obras eram vistas apenas sob o prisma do julgamento estético e examinadas principalmente por sua relação com artistas modernos.

Uma parte da mostra organizada por Yaëlle Biro recupera uma polêmica provocada por uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1984. Mais uma vez, a partir do título escolhido pelo MoMA, os sinais do casamento atribulado: “Primitivismo na Arte do Século 20: Afinidade entre O Tribal e o Moderno”.  A exposição do MoMA inspirou uma enérgica reação na capa da influente revista Artforum, que publicou o ensaio crítico “Médico, Advogado, Cacique”, de Thomas McEvilley, uma referência a um verso da canção Fiction, de Jonni MItchell. McEvilley acusava o principal templo da arte moderna do mundo de paternalismo e ignorância sobre o contexto tradicional e sagrado das obras africanas.

A curadora revisita a justaposição entre os dois mundos artísticos e diz que tenta realinhar os papeis. Ela acha que a década de 80 marcou uma evolução no exame crítico da arte africana. Marcou também um novo impulso na presença da arte africana em coleções americanas como a do Museu Metropolitan.

Filósofo que inspirou o movimento de artes plásticas, música e literatura conhecido como Renascença do Harlem, Alain Locke, foi o maior responsável pela incorporação influência africana ao colecionar arte do então Congo Belga. Mas Yaëlle Biro explica que, embora o olhar afro-americano sobre a arte viesse informado por outro contexto histórico, não se deve simplificar, imaginando uma intimidade diferente entre as culturas do Harlem e da África. Mesmo Alain Locke, diz ela, estava preocupado com o diálogo da arte moderna europeia com a África.

Um século depois da exposição de arte moderna que liberou tantos artistas americanos, a arte de um continente, não mais usada como assessório da inspiração, toma seu assento na galeria da memória.

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Depois da reação à esta coluna, Abaixo o Diploma de Jornalismo, antes de escrever A Guerra dos Canudos, fui ao campus de uma das melhores escolas de jornalismo das Américas. Veja o que pensam alguns dos novos alunos do mestrado de jornalismo impresso.

Atualização pós-comentários: Este vídeo não é uma reportagem. É a amostra de um encontro espontâneo e não planejado que tive com um grupo de recém-matriculados no mestrado de jornalismo impresso na Universidade de Columbia e serve como complemento a uma coluna de opinião. Nem todos falaram para a câmera mas todos eram contra o diploma e estão pagando US $ 50.000 de anuidade para fazer pós-graduação em jornalismo o que, a meu ver,  constitui uma amostra expressiva.

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Um homem confessou nesta quinta-feira ser o assassino do menino Etan Patz. O desaparecimento de garoto de 6 anos, no bairro nova-iorquino do Soho, em 1979, provocou uma onda nacional apreensão sobre a segurança das crianças.

Pedro Hernandez, de 51, que trabalhava numa bodega perto do edifício da família Patz, foi preso na quarta-feira,  em Nova Jersey. Ele  disse que estrangulou o menino e colocou o corpo numa caixa que foi abandonada em Manhattan e desapareceu.

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Etan Patz (Foto Cortesia NYPD)

Paltz foi raptado no primeiro dia em que sua mãe permitiu que ele caminhasse sozinho para a escola.  Na década de 80, as embalagens de leite nos Estados Unidos passaram a estampar rosto fotos de crianças desaparecidas e o Congresso passou leis para atacar raptos de crianças.

Em 33 anos de mistério, uma teia de pistas frustradas e suspeitos confundiu gerações de investigadores nova-iorquinos. Em 2010, o recém-eleito promotor público de Nova York, Cyrus Vance Jr., decidiu reabrir o caso.  O Prefeito Michael Bloomberg alertou para o fato de que a investigação não está encerrada e a polícia nova-iorquina não acusou Hernandez formalmente pelo assassinato.

Ouça a conversa com Mia Bruscato sobre o caso Ethan Paltz, na rádio Estadão ESPN.

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O baterista Paul Motian morreu hoje, aos 80 anos, no Hospital Monte Sinai, em Nova York.

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Capa do cd Reincarnation of a Love Bird

Um dos músicos mais sutis, complexos e influentes  do jazz americano da segunda metade do século 20, Motian sofria de uma doença na medula óssea. Ele se tornou conhecido incialmente  como membro do lendário trio de Bill Evans, entre os anos 50 e 60.

Na década de 70, ele se consagrou como bandleader. A partir dos anos 80, Motian manteve uma colaboração duradoura  com o guitarrista Bill Frisell e o saxofonista Joe Lovano. O trio se  apresentava todos os anos no clube Village Vanguard de Nova York.  No final da década de 90, munida do telefone da casa do baterista, cometi o mau passo de pedir a ele uma declaração sobre mais uma temporada no Vanguard,  “tocando com Lovano e Frisell.” Silêncio glacial do outro lado da linha. “Você quer dizer, eles estão tocando comigo,” corrigiu o baterista. Concordei submissa e concluí a entrevista mais curta de que tenho memória.

No começo deste ano, o saxofonista Bill McHenrry lançou um cd com participação especial de Paul Motian.

Ouça um trecho do clássico Dancing In The Dark, com Bill Evans, Paul Motian e Gary Peacock.

 

 

 

 

 

 

 

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Nesta quinta-feira, em Nova York e várias cidades americanas, membros do grupo que começou como Ocupem Wall Street, prometem descentralizar manifestações e marcar os dois meses do movimento com a maior ação coordenada, desde setembro.

Ouça o boletim na Estadão ESPN.

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Panfleto do Ocupem Wall Street

(Reprodução)

Policiais foram convocados para comparecer de madrugada  ao Zuccotti Park, desocupado terça-feira. Alguns planos de parar Nova York no “dia de solidariedade”, divulgados pela mídia local: uma concentração para impedir a abertura da bolsa às 9:30 da manhã (12:30, hora de Brasília); marchas para bloquear  pontes de acesso a Manhattan; tentativa de interromper linhas de metrô, com a ocupação simultânea de 16 estações. O protesto coordenado vai afetar áreas que ainda não foram expostas à rotina do Ocupem Wall Street e testar a paciência e o apoio da população. Nova York recebe, todos os dias,  mais de meio milhão de moradores de subúrbios e outros municípios que vêm trabalhar na cidade. Manifestantes planejavam usar terno e gravata para se misturar aos empregados do centro financeiro nova-iorquino sem chamar atenção.

Entre as outras cidades com protestos programados para esta quinta-feira estão Washington, D.C., Seattle, Detroit e Portland. Um panfleto distribuído pelo Ocupem Wall Street convoca para uma concentração às 5 horas da tarde (8 de Brasília) em Foley Square, uma praça vizinha à sede da prefeitura, no sul de Manhattan, e uma caminhada num “festival de luzes”  através da Ponte do Brooklyn. Uma coalizão de sindicatos que já expressou apoio ao OWS instruiu seus membros a comparecer à Foley Square no fim da tarde e acompanhar a marcha, que deve contar com a participação de famílias e grupos comunitários.

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Manifestante protesta logo após a desocupação do Zuccotti Park (Foto Lúcia Guimarães)

Os organizadores do protesto enfatizaram a necessidade de usar táticas não-violentas de desobediência civil, em panfletos com instruções para os participantes. Mas, assim como o acampamento desmantelado pela polícia no Zuccotti Park abrigava também grupos de sem teto e solitários em busca de encrenca, a polícia prendeu, quarta-feira à noite, Nkrumah Tinsley, de 29 anos, depois de assistir um vídeo no YouTube, em que ele ameaçava jogar um coquetel molotov na loja de departamentos Macy’s.

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15.novembro.2011 21:55:09

DE VOLTA AO PARQUE

Depois da operação de despejo, manifestantes, policiais, mídia e turistas lotam a área em torno do Zuccotti Park.

Atualização: Pouco mais de 30 manifestantes passaram a noite de terça para quarta-feira no Zuccotti Park. A praça, ainda com cercas de metal,  está  sob a proteção de seguranças contratados pela imobiliária responsável pela manutenção do  terreno público. Os segurança revistam quem entra no parque para impedir que os manifestantes levem sacos de dormir. Embora grupos ligados ao Ocupem Wall Street estejam procurando locais alternativos para um novo acampamento, a expectativa é que o Zuccotti Park continue o ponto de referência para os protestos.

 

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Atualização: Cerca de 200 manifestantes tentam reocupar o parque, munidos de uma ordem judicial, mas as barricadas policiais continuam a isolar o local.

Comandante Ray Kelly: 200 presos dentro e fora do parque, de madrugada.
O Prefeito Michael Bloomberg dá coletiva e afirma que a decisão de desmontar o acampamento foi “minha e só minha.” Ele disse que a reabertura do parque, prevista para esta manhã, foi adiada, por causa de uma moção judicial em curso.

“Infelizmente, o parque de tornou um local não de protesto, mas de violação da lei,” disse Bloomberg, mas ressaltou que a maioria dos manifestantes eram pessoas pacíficas. “Agora, os manifestantes vão ter que ocupar o parque com o poder de seus argumentos,” disse Bloomberg, explicando que barracas e sacos de dormir não serão tolerados.

Operação Surpresa

A operação policial começou pouco depois de 1 da manhã, 4, hora de São Paulo.

Ouça o primeiro boletim da rádio Estadão ESPN sobre a operação.

Centenas de policiais cercaram a praça, fecharam as ruas de acesso e inundaram o acampamento com a luz de holofotes.

O comandante da polícia de Nova York, Ray Kelly, observou a operação. Um policial passou com um megafone dizendo que os manifestantes teriam direito de retirar seus pertences. Tudo o que estivesse no parque seria jogado fora. Havia cerca de 200 pessoas dormindo no parque quando a operação começou. Um grupo saiu carregando sacos de dormir e objetos de valor  mas várias pessoas que tentaram voltar para buscar mais pertences foram impedidas de voltar.

Um grupo de cerca de 100 pessoas se reuniu no centro da praça, onde ficava a cozinha e a despensa de mantimentos. Tentaram erguer uma barreira e se acorrentaram uns aos outros e às árvores. A polícia levou um por um, com algemas de plástico. O porta-voz da polícia nova-iorquina, Paul Browne, disse que 70 pessoas foram presas.

A operação de limpeza demorou um pouco mais de 3 horas. Alertadas pela mídia social durante a noite, centenas de pessoas correram para a área do parque mas não puderam se aproximar. Um helicóptero da rede CBS chegou a sobrevoar o parque com câmeras mas o espaço aéreo sobre a área, no sul de Manhattan, foi fechado.

O Prefeito de Nova York anunciou a operação pelo Twitter à 1:19 da manhã, horário local: “Ocupantes de Zuccotti devem deixar a área temporariamente, remover barracas e coberturas de plástico. Os manifestantes podem retornar depois que o parque estiver limpo.”

Pouco depois das 7 da manhã, centenas de pessoas tentam começar uma nova marcha que pode fechar o tráfego na Brodway, próximo a Wall Street. O parque está completamente vazio e já foi lavado com mangueiras. A empresa imibiliária Brookfield Properties, responsável pela manutenção do Zuccotti Park, cujo terreno é público, pode reabrir o parque às 8 da manhã, 11 em Brasília.

Uma enfermeira que estava na barraca de assistência médica do parque como voluntária, disse a uma estação de rádio nova-iorquina que a ocupação pela policia foi muito abrupta e todos os suprimentos médicos foram destruídos.

 

FIM DO ACAMPAMENTO, PROTESTO CONTINUA

A operação de surpresa que desmontou a pequena cidade de barracas no Zuccotti Park, pouco menos de 2 meses depois do início do protesto que se espalhou por cidades em dezenas de países priva o movimento Ocupem Wall Street de um símbolo poderoso. Afinal, o parque fica próximo ao centro financeiro americano, em Wall Street.

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Imagens ao vivo eram transmitidas do Zuccotti Park (Foto Lúcia Guimarães)

Mas, com a proximidade do inverno, os manifestantes começaram a erguer barracas mais sólidas, como as usadas por militares americanos.  O terreno do parque de 3 mil metros quadrados foi sendo tomado a ponto de dificultar as inúmeras assembleias diárias. Organizadores do acampamento alugaram um escritório na área com linhas de telefone fixo. O Occuppy Wall Street arrecadou mais de meio milhão de dólares em doações e divulgou seu primeiro relatório financeiro em outubro, prometendo manter a transparência sobre o uso dos fundos.

 

 

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14.novembro.2011 05:00:33

CENAS DE UM ACAMPAMENTO

O acampamento do Ocupem Wall Street, no Zuccotti Park, vai se transformando com a chegada do inverno.

Coluna de hoje Domingo no Parque.

Imagens Lúcia Guimarães

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12.novembro.2011 16:52:38

Aquele Gil

Luiz Gonzaga, exílio, Bob Marley, expectativa da velhice e show acústico na noite de Gil.

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Gil na Biblioteca Pública de NY

(Foto Lúcia Guimarães)

O auditório estava lotado, na noite de quinta-feira, e o showman da noite parecia ser o anfitrião. O convidado entrou discreto, de terno preto e camisa cinza, e sentou na primeira fila. Um funcionário da biblioteca escoltou o lendário Claude Nobs, fundador do Festival de Montreux, a quem  Gil agradece por ter começado sua  carreira internacional, na década de 70.

No palco, Paul Holdengraber, o diretor do programa Live da Biblioteca Pública de Nova York abriu a noite contando como é boa a vida de quem tem a chance de entrevistar seus ídolos. Holdengraber, que aperfeiçoou a arte da entrevista como espetáculo, anunciou seu convidado e desapareceu para Gil ocupar o palco sozinho e se acompanhar ao violão em Eu Vim da Bahia.

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Paul Holdengraber entrevista Gil (Foto Lúcia Guimarães)

A conversa começou um pouco prolixa mas Holdengraber com sua técnica, digamos, proustiana, levou Gil para o território das memórias. Quando o anfitrião disparou uma gravação de Luiz Gonzaga cantando A Volta da Asa Branca, naquele cenário tão removido de Exu, terra de Gonzaga, ou Ituaçu, de onde Gil partiu aos 10 anos para estudar acordeão em Salvador, os olhos do convidado ficaram marejados e sua voz enrouqueceu.

Gil lembrou como a música americana e a brasileira são próximas, na influência do foxtrot sobre o baião de Gonzaga e na admiração de Pixinguinha pelas primeiras orquestras de jazz. Quando Gil hesitava em busca da palavra ideal para se expressar, o entrevistador completava sua frase e apressava o ritmo. A platéia caiu na gargalhada quando ele pediu a Gil para contar o que o lendário guitarrista Jimi Hendrix lhe havia dito quando se conheceram. Em 1971, o percussionista Airto Moreira, que estava se apresentando no Festival da Ilha de Wight com a banda de Miles Davis, viu Caetano Veloso e Gil na platéia e os chamou para o backstage.  Gil teve um branco e não se lembrou da conversa. Pediu a Holdengraber para recuperar sua memória. Hendrix, contou o anfitrião, lamentou as circunstâncias da chegada dos dois músicos brasileiros, exilados da ditadura militar, e lhes deu as boas-vindas.

A outra resposta que arrancou risos da plateia foi sobre as lições que Gil aprendeu em 3 meses de prisão, em 1969. “Yoga e macrobiótica,” ele resumiu. Holdengraber citou Caetano Veloso, no livro Verdade Tropical, para perguntar qual a influência de Bob Marley sobre a consciência negra de Gil. Ele concordou que entendeu melhor o significado de ser negro no continente americano quando viu como Marley afirmava sua identidade racial.

A entrevista foi interrompida com performances acústicas de Gil ao violão. Ele cantou  Não Chore Mais, sua versão do clássico de Bob Marley, e Expresso 2222.

Na conclusão da noite, um momento de leve melancolia. Quando o anfitrião perguntou sobre a perspectiva da velhice, Gil, que completa 70 anos em 2012, disse que queria viver de acordo com sua idade, e se dirigiu ao público: “Espero que vocês todos tenham a oportunidade de envelhecer. Vocês vão ver como é.” Mas, num exemplo de que sua terceira idade dificilmente poderia ser  imitada por muitos dos presentes, pegou de novo o violão e fez a plateia cantar refrões sem letra do samba Aquele Abraço, que compôs quando partia para o exílio. A maioria dos presentes podia não entender  porque “Chacrinha continua balançando a pança” mas a despedida sacudiu de alegria o solene salão em estlo Beaux Arts da sede da Biblioteca da Nova York.

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Gil conclui a noite com Aquele Abraço (Foto Lúcia Guimarães)

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Live from the NYPL, a mais bem sucedida série de eventos literários e culturais de Nova York recebe hoje à noite Gilberto Gil como convidado para ume entrevista ao vivo no majestoso auditório Celeste Bartos, na Quinta Avenida.

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Gilberto Gil (Foto: Divulgação NYPL)

O anfitrião e idealizador da série, que começou em 2004, é Paul Holdengraber, apresentado neste perfil no Sabático. A série Live convida escritores, acadêmicos e artistas para as entrevistas que misturam conversa, exibições multimídia e participação do público. Os ingressos podem ser comprados online e, acabo de saber, quem usar o código “PROTEGE” recebe 40% de desconto.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Lúcia Guimarães

    Lúcia Guimarães é colunista do Caderno 2, colaboradora dos suplementos Aliás e Sabático e colunista da Rádio Estadão ESPN.

    Email: lucia.guimaraes@estadao.com.br

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