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Lúcia Guimarães

Ôpa! Tocaram o hino errado.

O filme Borat (2006), em que o personagem criado por Sacha Baron Cohen viaja pelos Estados Unidos como um repórter crasso do Cazaquistão, continua a enxovalhar a imagem que a ex-república soviética tanto quer recuperar. Assista ao constrangimento da atleta cazaque Maria Dmitrienko, recém-vencedora de uma medalha de ouro no  10o Campeonato Árabe de Tiro, no Kuwait, na última quinta-feira. Ela sobe ao pódio e se perfila para ouvir o hino nacional de seu país. Mas ouve a paródia criada por Baron Cohen em Borat, uma canção que exalta o potássio e as prostitutas do Cazaquistão

Ah, o perigo de se confiar cegamente na Internet. Os organizadores do campeonato supostamente baixaram os hinos dos países participantes que encontraram online. A chancelaria cazaque considerou o episódio um escândalo.

 

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(artigo publicado no suplemento especial Aliás Travessia de 25 de dezembro)

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O PLANETA ABERTO

Quem exerce mais poder sobre a vida privada dos americanos?

Um juiz da Suprema Corte ou Mark Zuckerberg? Acertou quem respondeu o sardento e esquisitão fundador do Facebook. E colocou em sua companhia empresas como Google e Microsoft. O diagóstico do presente Orwelliano é feito por Jeffrey Rosen, professor de Direito da Universidade de Georgetown, editor de temas júridicos da revista New Republic e um dos mais respeitados analistas de assuntos constitucionais nos Estados Unidos.

Não se trata de uma conspiração de corporações contra a Constituição americana, um documento cuja influência internacional, nos últimos dois séculos, é difícil subestimar. O problema, explica Rosen, é que os desafios da tecnologia digital dificilmente podem ser vencidos à luz do texto original, de 1787, ou das emendas existentes, especialmente as que guiam a jurisprudência no direito de cada um à livre expressão e à privacidade.

Jeffrey Rosen acaba de editar, com Benjamin Wittes, o livro Constitution 3.0 Freedom and Technological Change (Constituição 3.0, Liberdade e Mudança Tecnológica), um volume que reúne colaboradores de peso com o Tim Wu, autor de The Master Switch e Lawrence Lessig o co-fundador do Creative Commons.

Cada colaborador imaginou o ano de 2025 e desenvolveu cenários de um dilema constitucional. Os temas discutidos envolvem o futuro da vigilância eletrônica, a seleção genética, a neurolei (como scans do cérebro  podem alterar a responsabilidade penal de criminosos).

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Jeffrey Rosen (Foto: Divulgação)

O capítulo escrito por Rosen, Os que Decidem: Facebook, Google, e o Futuro da Privacidade e da Livre Expressão, envolve tecnologias já disponíveis.

O editor imagina o Planeta Aberto. Em 2025, o Facebook decide colocar online o streaming de todas as câmeras de vigilância pública e privada, além de arquivar todo o conteúdo de vídeo gravado pelas câmeras. Em qualquer parte do planeta, um internauta pode selecionar uma cena de rua e fazer um close-up num pedestre. E pode começar a seguir pessoa eletronicamente depois de identificá-la com o software de reconhecimento facial disponível, desde junho passado, no Facebook, onde 800 milhões de membros são registrados sob seu nome real. Pode observar a pessoa saindo de casa , chegando ao escritório, fazendo compras. Dá para entender porque Eric Schmidt, o CEO do Google, classificou o uso  da tecnologia reconhecimento facial de “creepy” (repugnante). Mas isso foi em maio. No começo de dezembro, o Google lançou sua versão do software, Find My Face, na sua nova rede social.

Esta invasão flagrante da privacidade de um cidadão no ainda fictício Planeta Aberto viola a Constituição americana? No momento, não. A Suprema Corte já chegou perto de afirmar que ninguém pode esperar privacidade no espaço público. O problema é que a definição de público e privado é analógica. No século 18, quando foram ratificadas  a Primeira Emenda, sobre liberdade de expressão, e a Quarta Emenda, sobre a inviolabilidade da pessoa, casa, papéis e propriedades  -  elas se destinavam a proteger os cidadãos dos excessos do governo e não de Mark Zuckerberg e Eric Schmidt.

O Planeta Aberto, diz Rosen, é como o GPS em esteróides. Em novembro, a Suprema Corte começou a ouvir os argumentos de um caso sobre uso de GPS para perseguir um acusado de tráfico de drogas que o editor considera potencialmente “o mais importante da década.” Agentes do FBI plantaram um aparelho de GPS no carro de Antoine Jones e registraram não só as suas entregas como chegaram ao seu depósito de narcóticos. Um tribunal de apelações anulou a condenação de Jones, alegando que seus direitos sob a Quarta Emenda haviam sido violados. O juiz concluiu que todo cidadão tem o direito de esperar que cada minuto de seu dia não seja monitorado durante semanas a fio. Quantos, entre as centenas de milhões de usuários no planeta, refletem sobre as consequências do GPS  embutidos nos smart phones que carregam no bolso?

O fato, diz Jeffrey Rosen, é que nós hoje temos menos direito à privacidade do que nossos antepassados do século 18. “Eles, ao menos, podiam trancar seus papeis numa gaveta,” diz.

Quando se depara com um dilema em que a tecnologia desafia os direitos constitucionais, Rosen recomenda aplicar um teste do século 19. “O que faria Brandeis?” Seu herói e bússola é Louis Brandeis, o primeiro judeu americano a ocupar a Suprema Corte e co-autor, cm Samuel Warren, de “O Direito à Privacidade”, em 1890, o mais importante texto sobre o tema.  Em 1928, a Suprema Corte encontrou seu primeiro desafio tecnológico aos direitos individuais, no caso de um comerciante que vendia bebidas em plena Lei Seca. O telefone do acusado havia sido grampeado, através da linha interceptada na rua. Mas, numa opinião dissidente, Brandeis escreveu que a tecnologia do grampo revelava muito mais sobre a privacidade do comerciante do que uma simples revista física de sua casa. E previu, sem saber, a era cibernética, dizendo que o governo, no futuro, poderia investigar um cidadão e seus documentos sem pisar  na sua casa.

Mas Jeffrey Rosen acha que proteção da privacidade sob assalto virá de juízes e legisladores tanto quanto dos próprios habitantes do planeta digital e de novas tecnologias. Afinal, o Facebook é a terceira aglomeração do mundo em população, só perde para a Índia e a China. Ao contrário do que argumenta Mark Zuckerberg, o apóstolo da hipertransparência, Rosen não acredita que o cidadão informado está preparado para abrir mão de seus direitos em troca de confortos de consumo.

Rosen faz uma defesa apaixonada da privacidade: “Ela impede que sejamos julgados fora de contexto.” Em um livro anterior, The Unwanted Gaze, (O Olhar Indesejado), Rosen argumenta que uma sociedade só é livre quando reconhece que as pessoas se comportam de maneira diferente em público e certos tipos de informação privada só podem ser compreendidos num contexto de intimidade. Se toleramos a exposição constante, não pode haver intimidade. E, sem intimidade, ele conclui, não temos autonomia para desafiar expectativas sociais, apenas para nos conformar com elas.

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Christopher Hitchens, morto na última quinta-feira (Foto Reprodução)

Numa tarde de 2007, o diretor, roteirista e escritor Matthew Chapman estava  instalado na sua sala confortável, em Manhattan, emoldurado por uma avenca  majestosa – o tipo de samambaia que raramente resiste à secura do inverno nova-iorquino. Deduzi corretamente que a planta, geralmente mais feliz na vizinhança da nossa úmida Mata Atlântica, devia sua longevidade à mulher do entrevistado, a atriz Denise Dumont. Chapman me recebera para falar de seu segundo livro, 40 Days and 40 Nights, sobre um julgamento que colocou um grupo de pais de estudantes contra a Secretaria de Educação de Dover, no Estado de Delaware, onde o Criacionismo era ensinado como ciência, lado a lado com a Teoria da Evolução.

A conversa migrou para Christopher Hitchens, cujo comentário elogioso adornava a capa do livro. Naquele ano, Hitchens tinha se tornado um autor bestseller com o lançamento de Deus Não É Grande, Como A Religião Envenena Tudo.  Em companhia do biólogo de Oxford Richard Dawkins, autor de A Desilusão de Deus, Hitchens, que já era um polemista favorito de publicações e talkshows americanos, virou uma espécie de pop star da cruzada anti-religião.

Chapman e Hitchens haviam se encontrado ainda jovens em Londres, frequentando as mesmas festas. “Ele era um comunista muito divertido,” lembra Chapman. “Frequentava a alta classe e não estava nem aí para se privar do que gostava em nome da aparência.” Foi seu interesse , ou melhor, seu desapreço pela religião que afinal aproximou os dois britânicos transplantados para o leste dos Estados Unidos. Chapman é tetraneto de Charles Darwin e, antes de Hitchens, já se preocupava com o ataque da direita religiosa americana à Teoria da Evolução. Em 2000, publicou Trials of The Monkey, An Accidental Memoir, uma relato sobre sua viagem pelo Tennessee, onde, todos os anos, há uma reencenação do lendário Julgamento de Scopes de 1925, em que um professor de biologia foi processado por ensinar a teoria elaborada por seu tetravô e não o Criacionismo.

Comentei com Chapman que havia entrevistado Hitchens sobre Deus Não É Grande. Mas não devo ter contado que a entrevista ocorrera numa sala da Biblioteca Pública de Nova York, minutos antes de um debate do autor com o pastor batista e demagogo-mor Al Sharpton, mediado por Jacob Weisberg, editor-chefe da Slate. Chapman falou de Hitchens com enorme admiração e confessou que não era páreo para ele no esporte de levantamento de copo. Disse que os dois se encontraram para falar de 40 Days and 40 Nights na hora de almoço num dia de semana e que ele havia ficado arrasado com a quantidade de álcool consumida antes, durante e depois da refeição. Em sua memória turva do almoço, ele diz que foi ao banheiro e se olhou no espelho assustado com a falta de controle dos sentidos, preocupada em voltar logo para casa. Quando voltou para a mesa, Hitchens se desculpou: “Desculpe, Matthew, só pedi mais dois uísques porque eu realmente tenho que ir embora. Tenho que participar de um debate com Al Sharpton em 45 minutos.”

Veja um trecho da entrevista que Hitchens concedeu a esta repórter ignorante da carraspana que precedeu o debate. Perguntei se ele se preocupava com os argumentos – não da caricata direita republicana- mas das pessoas que consideravam a fé religiosa parte integral de sua identidade.

Quando a morte de Christopher Hitchens foi noticiada na madrugada de sexta feira, 16 de dezembro, procurei Matthew Chapman, sabendo que ele havia ido a Houston, onde Hitchens estava internado na fase final de seu tratamento para o câncer no esôfago.

(mais…)

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Como explicar que a Turquia tem mais jornalistas em suas prisões do que o Irã e a China?

(Fonte: International Press Institute)

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Istambul (Foto: divulgação)

 

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A parede indispensável que deve separar a publicidade do conteúdo jornalístico foi comparada a uma cortina de chuveiro por um crítico de mídia americano. Será que o sarcasmo do comentário é justificado? O Urban Dictionary já traz uma definição para o neologismo blogola: posts escritos por bloggers que receberam dinheiro, presentes ou outros incentivos para escrever sobre uma empresa.

No fim de outubro, um blogger do site Gawker revelou que foi procurado por uma companhia de marketing digital, 43A  Marketing, que lhe ofereceu US$130 por cada link incluído em seus textos.

Intrigado com a oferta, Hamilton Nolan foi investigar e escreveu sobre o assunto no artigo O Golpe de Marketing que Está Subornando Seus Bloggers Favoritos. O site Gawker, cujo lema é “A fofoca de hoje é a notícia de amanhã,” paga bônus em dinheiro para os jornalistas que atraírem o maior número de hits com suas reportagens.

No email enviado em nome da 43A, uma pessoa que se apresentou como Bryan Clark e se declarou “grande fã” do texto de Nolan, oferece o acordo potencial para o “nosso benefício mútuo” e se gaba de ter clientes “enormes” interessados no link.

Quando Nolan indagou, “Quais são as companhias?”, o representante ofereceu exemplos: Dell, T-Mobile, Motorola. Todas as companhias citadas, consultadas pelo repórter, negaram  qualquer relação com a 43A, que tem sede em San Mateo, na California, e anuncia no seu site uma equipe de redatores de alto nível, “ansiosos para trabalhar para sua empresa.”

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Homepage da 43A (Foto Reprodução)

O suposto Bryan Clark disse que não estava tentando forçar a barra e não queria links que não ocorressem de forma “seminatural.” Quando Nolan retrucou que editores de sites teriam reservas sobre a prática, Clark disse que preferia ir direto aos bloggers porque eles são mal pagos e a maioria está disposta a ganhar por fora.

Como tática para receber dinheiro por debaixo da mesa, o representante sugeriu que Nolan inserisse um link. Caso o link despertasse a atenção do editor, ele deveria ser imediatamente retirado. Se passasse despercebido, Nolan seria recompensado. O preço por link, durante a troca de correspondência, subiu para US$175, por causa do “calibre” do redator.

Clark foi mais longe e garantiu que editores do Huffington Post, Business Insider e Technorati tinha acordos com a 43 A. Os três sites também se apressaram a negar categoricamente que façam este tipo de acordo.

Em 2009, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos publicou um guia ético para endossos e testemunhos, num esforço de proteger o consumidor da confusão de conteúdos. O guia reitera que a publicidade travestida de reportagem pode estar sujeita a multas.

Mas, na pista molhada da corrida digital, quem pode patrulhar a integridade de milhões de links? Se há fogo por trás da fumaça que chegou por email ao blogger do Gawker, qual o próximo passo? Pagar jornalistas para não usar certas frases que gerem buscas pouco lisonjeiras para corporações?

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06.novembro.2011 15:47:37

Lee a bordo

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Lee Siegel (Foto: Lúcia Guimarães)

O escritor Lee Siegel, que estreia nesta segunda-feira como colunista do Caderno 2, começou a frequentar as páginas do Estado como personagem recorrente em minhas colunas e, especialmente, na primeira reportagem que fiz para o jornal em março de 2008. Ele havia acabado de publicar Against the Machine: Being Human in the Age of the Electronic Mob (Contra a Máquina: Ser Humano na Era da Turba Eletrônica), uma rara denúncia da barbárie no faroeste inicial da Internet, num momento em que criticar qualquer novidade digital era garantia para ser xingado de reacionário.

O novo colunista é apresentado neste perfil assinado por Laura Greenhalgh.

Agora que o bullshitômetro de Siegel vai se integrar ao time do qual tenho o privilégio de participar, lembramos aqui sua primeira visita ao jornal.

 

A Ansiedade de Exposição

Na internet, você entra no YouTube, vira a câmera para si mesmo e perde a individualidade. Passa a se apresentar como um pacote público

01 de março de 2008 | 21h 52
Lúcia Guimarães* – O Estado de S.Paulo

Primeiro, uma confissão: venho me servindo do ensaísta e crítico cultural Lee Siegel há anos. Não, ele não vai me processar por assédio sexual. As idéias de Lee Siegel me socorreram quando algum fenômeno da cultura popular americana me colocava na contramão do gosto coletivo e me batia uma solidão danada em festas ou papos de bar. Em parte por causa dele me mantive assinante da revista The New Republic. E desconfiei que havia algo malcheiroso no incidente que levou-o a uma suspensão temporária desta publicação por ter assumido um pseudônimo para se defender de ataques de leitores sociopatas. Volto à celeuma já, já. Mas, no espírito da transparência editorial, foi na condição de tiete que, ao ver o novo livro de Siegel exposto na livraria, decidi procurá-lo ao terminar a primeira página do prefácio.

Afinal, se você aprecia o piano de Bill Evans como eu, já não é um primeiro estímulo para tomarmos um café juntos? Como não podia convidar um estranho para tomar café, recorri ao velho truque, um dos poucos privilégios que sobraram na nossa escorraçada profissão. O jeito era lançar a isca da entrevista. Marquei uma gravação lá em casa. A assessora de imprensa da nova editora Spiegel and Grau não questionou o endereço do compromisso, em meio a tantos que estava marcando para seu autor. “Vinte minutos, hein”, ela confirmou. Concordei, é claro. Os 20 minutos duraram quase 3 horas, interrompidas por um telefonema convocando o entrevistado a ir correndo render a babá do filho de 18 meses.

No prefácio de Against the Machine, Being Human in the Age of the Electronic Mob, Siegel resume o que faz dele um personagem démodé do jornalismo contemporâneo: “As coisas não têm que ser como são”.

No auge do baba-ovo geral com a série Sex & the City, em 2002, um ensaio solitário de Siegel, Relationshipism, na New Republic, chamou atenção para o fato de que as quatro mulheres usavam a própria independência para, entre outros comportamentos destrutivos, confundir sexo com afeto e submeter-se a humilhações sistemáticas. Siegel estava defendendo as mulheres delas mesmas.

Em 2006, Siegel assinava um blog cultural na New Republic quando a seção Talkback da revista começou a registrar comentários anônimos tais como “(?) Siegel colocou seu pênis sobre o altar”, “Siegel quer foder uma criança”. Indignado ao ver uma revista tradicional e respeitada se sujeitar a publicar esse tipo de linguagem, ele pediu aos editores para acatar as regras de decoro que eles próprios tinham criado para o conteúdo on line. Não foi ouvido. Criou então a identidade sprezzatura, o termo cunhado na Renascença para definir a simplicidade enganosa. Começou a atacar seus agressores no estilo deles e a defender seus artigos, numa pequena guerrilha de palavras. Mas acabou descoberto. A revista pediu desculpas, Siegel foi temporariamente suspenso e os colegas adoraram a oportunidade de ridicularizar a breve desgraça do obstinado remador contra a corrente. A ironia, ele lembra, é que, graças ao miniescândalo, teve a oferta para escrever Against the Machine, num rebote típico da sociedade americana.

O argumento central do livro é que a internet veio acelerar uma tendência cultural preexistente – o fato de que nunca na história o indivíduo foi tão elevado acima da sociedade, e satisfazer o próprio desejo tornou-se mais importante do que equilibrar os relacionamentos com o outros. “Nós vivemos dentro da nossa cabeça mais do que qualquer sociedade em qualquer outro momento e, para alguns, agora, a realidade só existe dentro da cabeça deles.” Siegel não está condenando e sim apontando o fato de que a tecnologia é neutra e amoral. “A internet”, diz, “não criou patologias de comportamento”, mas as difundiu e acelerou, como a pedofilia, a violência pornográfica e o isolamento resultante de doença mental.

Ele convida o leitor a considerar o caso do automóvel, o ícone sagrado da prosperidade americana. No começo da década de 60, 50 mil americanos morriam anualmente nas estradas. Havia detalhes de engenharia específicos e conhecidos para alterar a fabricação, mas o carro como símbolo de status e individualismo era intocável. Até que foi publicado o clássico Unsafe at Any Speed (Inseguro a Qualquer Velocidade), de Ralph Nader, sobre a negligência criminosa da indústria de automóveis. O grande público ficou horrorizado, gradualmente os engenheiros passaram a ser ouvidos e milhares de mortes foram evitadas.

As coisas não tinham que ser como eram.

Siegel não sugere que a internet seja letal como o automóvel, é claro, mas compara as duas tecnologias pela sua recepção triunfal e acima da crítica. Ambas foram saudadas sob a retórica da liberdade e da democracia. Siegel lembra a famosa previsão de Lenin sobre o imperialismo como a fase final do capitalismo. Ele discorda: “A fase final do capitalismo, a fronteira sem fundos, é a exposição pública do universo privado, da psique. A privacidade virou performance. É uma transação pública. Against the Machine propõe uma moratória nas platitudes triunfalistas e um resgate da cultura adulta.

Primeiro vamos falar da impressão de que seu livro é “contra” a internet.

Claro que não é. Eu dependo da internet, assim que acabar esta entrevista vou para casa checar meu ranking nas vendas da Amazon. Eu me mantenho ligado no e-mail como se fosse um apêndice. Só acho que a tecnologia deve ser usada com cuidado. Ela deve amplificar nosso humanismo, não nos desumanizar.

Seu problema é com a maneira como o comércio se apropriou da internet?

Sim, desde o princípio. Na verdade, a internet começou como uma iniciativa militar e a comercialização foi imediata. E você pode ver as ramificações a toda hora. O Rupert Murdoch comprou o My Space. A Microsoft tenta comprar o Yahoo. O Google continua a criar todo tipo de estratégia para derrotar a Microsoft. E acho que, no nível pessoal, quando as pessoas entram na internet, com freqüência elas acabam se “empacotando”. Não existe mais nada não intencional. Você entra no YouTube, vira a câmera para si mesmo e uma vez que está on camera você muda. A vida muda. Você passa a calcular, perde a espontaneidade, se torna autoconsciente e se apresenta como um pacote.

Uma crítica fácil de fazer a seu livro é que ele foi uma reação ao episódio do pseudônimo no blog, que lhe valeu a suspensão temporária da ?New Republic??

Há uma corrente forte para suprimir qualquer crítica à internet como coisa de reacionário. Eu já fazia críticas há anos, desde 2003, na New Republic, na Slate, no Los Angeles Times – sob meu próprio nome. Umas das coisas que primeiro me incomodaram foi o anonimato. Não podia acreditar que as pessoas pudessem entrar nos sites e, sob a proteção de um pseudônimo, fazer comentários abusivos e até difamar os outros à vontade. Isso me deixava maluco. Eu tinha meu próprio blog na New Republic e passei meses pedindo aos editores para não publicar a baixaria. Até que um assinante, usando pseudônimo, me chamou de pedófilo. “Basta”, pensei. “Vou fazê-los provar um pouco do próprio remédio. Vou assumir uma identidade e mostrar como isso acontece.” E todo mundo se apressou a me condenar. Foi uma forma de protesto. Acho que se você tem algo a dizer, diga no próprio nome.

Você usa a expressão ?blogofascismo? para definir um aspecto do fenômeno dos blogs. Mas eles foram um resultado natural de uma tecnologia disponível?

Claro, a internet trouxe cenários inevitáveis. Seu valor dominante é a conveniência. E a vida contemporânea, por ter se complicado, depende em grande parte da conveniência. Por isso eu e você adoramos a internet. Mas a conveniência, por si só, pode ser problemática. Se você levantar e sair da sala, posso achar conveniente tirar o dinheiro de sua carteira. Pode ser conveniente trair, roubar mentir ou matar. A internet facilitou muita coisa, mas não necessariamente o que deva ser conveniente. O que se vê na internet é algo novo. Não é cultura de massa no sentido de que é produzida para a massa por um número reduzido de agentes. É cultura produzida pela massa. Este é, a meu ver, o verdadeiro aparecimento da cultura da massa, pela primeira vez. Na cultura, chegamos à ditadura do proletariado que Marx queria ver na economia e felizmente não aconteceu. As vozes mais irresponsáveis, mais barulhentas e agressivas estão erodindo a autoridade do jornalismo tradicional. Quando todos têm o mesmo direito de falar, acaba a discordância. É o igualitarismo antidemocrático. Vivemos um clima de hostilidade ao mérito e ao talento que destaca certas pessoas. Acesso não tem nada a ver com democracia, é um grito de guerra do consumidor. Mas quem fala sobre isto é acusado de elitista.

Há um movimento, liderado pelo professor Lawrence Lessig, de Stanford, que cunhou o termo ?copyleft?. Ele não só condena o excesso de zelo na proteção de copyright como uma forma de engessar a criatividade, mas exalta a internet como a grande ferramenta democratizante.

O Lessig é um cara divertido. Tenho certeza de que é um advogado competente, mas quando começa a falar de cultura, fica engraçado. Ele começa com o papo da democratização e argumenta que você pode mandar um poema de amor para alguém, pode difundir seus hobbies para o mundo. Ele confunde o que a democracia permite – escrever um poema de amor, desfrutar da livre expressão – com o que permite a existência da democracia, um mecanismo político e não cultural.

No livro, você critica programas como o ?Daily Show?, do Jon Stewart, e ?Curb Your Enthusiasm? (com Larry David, criador do ?Seinfeld?) e toda uma tendência de filtrar a realidade por meio da ironia. Você não acha uma vantagem quando jovens que não prestariam atenção ao noticiário são informados por um cômico como o Stewart, que expõe as fraquezas do jornalismo e a hipocrisia do poder?

Primeiro, acho que essa tendência não fortalece a ironia e sim o sarcasmo. Houve uma grande mudança no humor, acelerada também pela internet. Antes, a piada clássica começava assim: “Dois sujeitos entram num bar?”, e a piada continuava até a punch line. Agora a piada é: “Dois sujeitos entram num bar? e os dois são gordos!” E todo mundo cai na gargalhada. A internet produz rapidez, agilidade, malícia, crueldade, desrespeito a qualquer forma de autoridade. É isto que esses shows promovem, um prazer em testemunhar o ridículo – seja de Bush ou de um padre flagrado com a mão onde não devia.

Outra crítica importante do livro é sobre a diferença entre informação e conhecimento, uma distinção que está difícil de fazer em relação à web.

Eu tenho um filho de 1 ano e meio. Quando ele nasceu, minha mulher e eu ficamos acessando todo tipo de site médico associado a hospitais respeitados, queríamos nos tranqüilizar sobre cada novo momento. Esse tipo de recurso traz muito alívio. Mas a internet não dá refresco neste país, envia informação sem parar, 24 horas por dia. As histórias importantes se perdem, as questões importantes são relativizadas, tudo se confunde. Eu não preciso saber que alguém levou um tiro num estacionamento no Arizona. Mas eles vão me empurrar essa história e os psicólogos que aparecem e os comentários dos sociólogos e das testemunhas do crime – a coisa parece interminável até o momento em que salta para o próximo assunto – alguém fabricou uma camiseta no Texas que virou um sucesso no mundo todo! E não acaba nunca. É a praga da popularidade. A internet substituiu a cultura popular pela cultura da popularidade. O principal critério de sucesso na internet é popularidade. A cultura popular costumava atrair as pessoas para o que elas gostavam. A internet atrai as pessoas para o que os outros gostam. Então, na home page dos jornais americanos, agora você tem as listas “mais populares, mais enviados por e-mail, mais mencionados em blogs”. É patético. E o que acontece com a reportagem sobre uma mulher negra idosa em Chicago, despejada de casa no meio do inverno? É claro que não vai ser popular nem sexy. Você vai ter que ler sobre a Britney Spears ou a Paris Hilton, e esse critério é devastador.

Confesso que, depois de mais de 20 anos na cidade , cometi um gesto impensável para uma jornalista. Deixei de comprar o ?New York Times? uma vez ou outra, leio on line e desconfio que o jornal passou a me irritar por tentar servir a essa tendência de popularidade.

Você tem razão, não há mais a fonte singular de notícias. Eu fiz uma experiência. Passei uma semana sem ler jornal e evitando TV e rádio. Não consegui ficar desinformado. Era só andar de metrô, usar o computador. Despejaram informação em mim, mas não informação relevante. Num futuro não muito distante, a informação vai ser como uma neblina, um miasma, quem sabe, em vez de máscaras de gás, nós vamos ter máscaras de informação para respirar?

Como é o choque de gerações provocado pela cultura digital?

A internet está criando uma estranha geração de jovens de meia-idade, que são padronizados, cautelosos e calculistas. Enquanto isso, os mais velhos, que não cresceram com esse meio, ainda amam os livros, o individualismo dos livros. Eles têm maior tolerância pelos erros. Maior tolerância pelas paixões e as idiossincrasias que são flagradas e ridicularizadas com tanta rapidez na internet. Essa tecnologia é quantificadora, motivada por comercialismo e está roubando a juventude dos jovens. Os defensores da internet não querem admitir isto, mas 80%, talvez 90% do tráfego da internet seja pornografia. A enorme propagação da pornografia pela internet está criando uma incapacidade de ter tesão. Está ficando cada vez mais complicado ter uma ereção. E a pornografia acaba influenciando tudo – é a gratificação instantânea. As pessoas se tornam objetos. Você acessa a internet porque quer alguma coisa, todo mundo quer alguma coisa. As coisas mais explícitas que estão lá do ponto de vista sexual são bastante destrutivas. Há os predadores tentando seduzir crianças. Pessoas que vão reviver os próprios traumas porque estão interagindo com fantasmas. Se não houvesse todo o anonimato, você não teria tanta pornografia – quem é que quer assistir a um filme pornográfico realista, identificar-se como espectador e identificar os personagens? Então o anonimato é um princípio da internet tanto quanto é um princípio da pornografia. Se você não sabe com quem está se relacionando, então não está se relacionando com ninguém. Está apenas projetando, criando um personagem baseado nas suas necessidades e neuroses. Há muita reencenação de trauma na internet, os psicólogos, afinal, estão estudando isso.

E o que é positivo nessa cultura de massa pela massa? Você acha que no jornalismo algo de bom esteja acontecendo como reação às pressões de popularização da internet?

No momento, não. Mas por causa da inquietação da cultura americana e, veja, não estou comentando sobre a cultura da internet em outros países, sujeita a outras variáveis, mas por causa da nossa inquietação, alguma forma de dissidência há de se tornar popular, simplesmente porque o mercado não descansa. Acredito que os adultos vão tomar a cultura das mãos da garotada ou parar de fingir que são os jovens que decidem o que a cultura deva ser. E há de haver alguma maturidade, alguma seriedade, e com isso quero dizer, por exemplo, teremos o riso e traquinagem, ao invés de sarcasmo e deboche, obsessão com popularidade para escola de segundo grau. O livre mercado, que eu defendo, e que é tão importante para a democracia, pode também ser uma calamidade para a cultura popular. Já que o valor dominante é a conveniência, os aspectos mais crassos da cultura são amplificados, tudo requer gratificação imediata. Eu penso sobre o fato de que nós, americanos, temos esses assassinos em massa que entram num local e matam um grande número de pessoas rapidamente. Você já notou que o mesmo dedo usado para double click no teclado é o dedo usado para apertar o gatilho? Como crítico cultural, o que mais me interessa são as vozes originais. E acho que a internet tem um potencial enorme para difundir talentos originais, seja porque não dependem de grandes estúdios de gravação, de grandes editoras, das corporações. Quando espaços não comerciais se protegem do barulho ensurdecedor da massa, vemos florescer muito talento. Sabe o que eu acho que vai acontecer de positivo? A própria internet vai ser usada para combater o lado negativo da internet. Estou esperançoso. A necessidade tipicamente americana de combater o status quo pode ser gratuita, mas pode também ser construtiva. Quem sabe vamos ver nascer a contracultura da internet, um movimento genuíno de dissidência?

 

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  • Quem Faz

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    Lúcia Guimarães

    Lúcia Guimarães é colunista do Caderno 2, colaboradora dos suplementos Aliás e Sabático e colunista da Rádio Estadão ESPN.

    Email: lucia.guimaraes@estadao.com.br

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