Steve Jobs e Bill Gates. Dois titãs da indústria, dois legados muito diferentes.
Coluna publicada no Caderno 2, em 26/12/2011
A primeira estátua de Steve Jobs foi inaugurada, na quarta-feira passada, em Budapeste. Dois dias depois, a endividada Hungria teve sua nota de crédito rebaixada para o nível de junk. Em janeiro, entra em vigor uma nova Constituição húngara que oposicionistas e governos de vários países denunciaram como um retrocesso autoritário. Mas Steve Jobs está lá imortalizado, com quase 2 metros, em bronze.
A estatura de Jobs como o empresário mais importante e inovador da indústria americana é incontestável e não depende de monumentos. Mas a escolha de herói, na Hungria mergulhada numa crise econômica e renegando valores democráticos, merece uma pausa.
O livro mais vendido do ano nos Estados Unidos é a biografia de Steve Jobs, escrita por Walter Isaacson. A notícia da morte do fundador da Apple foi recebida com um luto planetário que beirou a histeria, distante da reação à morte recente do checo Vaclav Havel, um dos mais inspirados líderes políticos do século 20.
Escrevo esta coluna num iMac, enquanto carrego a bateria do meu iPhone e, na minha lapela, está pendurado um iPod Nano, que uso em caminhadas. Minha coleção de música de Cartola, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola está arquivada no meu iTunes. Quando encontro um recalcitrante usuário de PC’s, repito como me senti liberada pelo sistema operacional, como é um prazer me despreocupar com vírus, e ainda faço piada sobre fiascos como o Windows Vista.
Mas o que é o vírus no meu computador comparado ao parasita que mata 800 mil pessoas de malária, todos os anos? O perfeccionista Steve Jobs teve grande sucesso em proteger seus produtos dos vírus.
Já Bill Gates, o fundador da Microsoft, prefere erradicar a malária. E combater a fome. E levar água potável a vilarejos africanos. E aumentar o acesso dos pobres a financiamento. E distribuir bolsas de pesquisa nas áreas de saúde, agricultura e educação. E fazer uma campanha internacional pelo Imposto Robin Hood, uma taxa sobre transações financeiras.

Bill Gates em campanha de vacinação no Chade (Foto Bill & Melinda Gates Foundation)
Certa vez, na década de 90, passei uns dez minutos sentada numa cadeira oposta à ocupada por Bill Gates. Ele estava num estúdio de TV dando uma entrevista atrás da outra para promover uma nova edição do Windows. Enquanto a gravação não começava, ele olhava para o chão com uma expressão vazia e jamais tomou conhecimento da mulher na sua frente. A cada sinal do diretor no estúdio, Gates adquiria uma súbita animação para vender seu peixe. E logo voltava ao estupor. Saí pensando, este cara não é humano.
Lembro que, quando deixou a Microsoft em 2006, Bill Gates ainda era sinônimo do ditador corporativo. Na década anterior, a Microsoft foi processada por prática ilegal de monopólio nos Estados Unidos e pagou à União Europeia uma multa de quase US$ 800 milhões, a maior da história, num processo semelhante. Falar mal de Bill Gates era tão fácil quanto pescar num aquário.
Steve Jobs morreu com uma fortuna avaliada em US$ 8 bilhões. Quando o investidor Warren Buffet desafiou bilionários a doar metade de suas fortunas em vida, Bill Gates já estava ocupado distribuindo bilhões através da Bill & Melinda Gates Foundation, num total que hoje já passa de US$ 25 bilhões. Jobs disse não ao desafio de Buffet e amigos seus, ouvidos pelo New York Times, comentaram que, perto de morrer, ele havia concluído que faria melhor em expandir a Apple do que doar para caridade.
Steve Jobs introduziu a estética do design como um triunfo do consumo de tecnologia.
Bill Gates pede aos ricos para prestar atenção na feiura da miséria e financia tecnologias que trazem uma beleza maior e mais duradoura à vida de milhões de pessoas.
Tanto Jobs como Gates fizeram inimigos na escalada para o Olimpo corporativo, uma empreitada para a qual aspirantes à santidade não devem se candidatar.
Em 1983, Jobs atraiu John Sculley, então presidente da Pepsi Cola, para ser o CEO da Apple, com a seguinte provocação: “Você quer passar o resto da vida vendendo água açucarada ou quer mudar o mundo?”.
Bill Gates quer passar o resto da sua vida concentrado em 2,5 bilhões de habitantes do planeta que vivem com menos de US$ 2 por dia, os não consumidores de produtos da Apple. Quem decidiu, de fato, mudar o mundo?
(artigo publicado no suplemento especial Aliás Travessia de 25 de dezembro)

Quem exerce mais poder sobre a vida privada dos americanos?
Um juiz da Suprema Corte ou Mark Zuckerberg? Acertou quem respondeu o sardento e esquisitão fundador do Facebook. E colocou em sua companhia empresas como Google e Microsoft. O diagóstico do presente Orwelliano é feito por Jeffrey Rosen, professor de Direito da Universidade de Georgetown, editor de temas júridicos da revista New Republic e um dos mais respeitados analistas de assuntos constitucionais nos Estados Unidos.
Não se trata de uma conspiração de corporações contra a Constituição americana, um documento cuja influência internacional, nos últimos dois séculos, é difícil subestimar. O problema, explica Rosen, é que os desafios da tecnologia digital dificilmente podem ser vencidos à luz do texto original, de 1787, ou das emendas existentes, especialmente as que guiam a jurisprudência no direito de cada um à livre expressão e à privacidade.
Jeffrey Rosen acaba de editar, com Benjamin Wittes, o livro Constitution 3.0 Freedom and Technological Change (Constituição 3.0, Liberdade e Mudança Tecnológica), um volume que reúne colaboradores de peso com o Tim Wu, autor de The Master Switch e Lawrence Lessig o co-fundador do Creative Commons.
Cada colaborador imaginou o ano de 2025 e desenvolveu cenários de um dilema constitucional. Os temas discutidos envolvem o futuro da vigilância eletrônica, a seleção genética, a neurolei (como scans do cérebro podem alterar a responsabilidade penal de criminosos).

Jeffrey Rosen (Foto: Divulgação)
O capítulo escrito por Rosen, Os que Decidem: Facebook, Google, e o Futuro da Privacidade e da Livre Expressão, envolve tecnologias já disponíveis.
O editor imagina o Planeta Aberto. Em 2025, o Facebook decide colocar online o streaming de todas as câmeras de vigilância pública e privada, além de arquivar todo o conteúdo de vídeo gravado pelas câmeras. Em qualquer parte do planeta, um internauta pode selecionar uma cena de rua e fazer um close-up num pedestre. E pode começar a seguir pessoa eletronicamente depois de identificá-la com o software de reconhecimento facial disponível, desde junho passado, no Facebook, onde 800 milhões de membros são registrados sob seu nome real. Pode observar a pessoa saindo de casa , chegando ao escritório, fazendo compras. Dá para entender porque Eric Schmidt, o CEO do Google, classificou o uso da tecnologia reconhecimento facial de “creepy” (repugnante). Mas isso foi em maio. No começo de dezembro, o Google lançou sua versão do software, Find My Face, na sua nova rede social.
Esta invasão flagrante da privacidade de um cidadão no ainda fictício Planeta Aberto viola a Constituição americana? No momento, não. A Suprema Corte já chegou perto de afirmar que ninguém pode esperar privacidade no espaço público. O problema é que a definição de público e privado é analógica. No século 18, quando foram ratificadas a Primeira Emenda, sobre liberdade de expressão, e a Quarta Emenda, sobre a inviolabilidade da pessoa, casa, papéis e propriedades - elas se destinavam a proteger os cidadãos dos excessos do governo e não de Mark Zuckerberg e Eric Schmidt.
O Planeta Aberto, diz Rosen, é como o GPS em esteróides. Em novembro, a Suprema Corte começou a ouvir os argumentos de um caso sobre uso de GPS para perseguir um acusado de tráfico de drogas que o editor considera potencialmente “o mais importante da década.” Agentes do FBI plantaram um aparelho de GPS no carro de Antoine Jones e registraram não só as suas entregas como chegaram ao seu depósito de narcóticos. Um tribunal de apelações anulou a condenação de Jones, alegando que seus direitos sob a Quarta Emenda haviam sido violados. O juiz concluiu que todo cidadão tem o direito de esperar que cada minuto de seu dia não seja monitorado durante semanas a fio. Quantos, entre as centenas de milhões de usuários no planeta, refletem sobre as consequências do GPS embutidos nos smart phones que carregam no bolso?
O fato, diz Jeffrey Rosen, é que nós hoje temos menos direito à privacidade do que nossos antepassados do século 18. “Eles, ao menos, podiam trancar seus papeis numa gaveta,” diz.
Quando se depara com um dilema em que a tecnologia desafia os direitos constitucionais, Rosen recomenda aplicar um teste do século 19. “O que faria Brandeis?” Seu herói e bússola é Louis Brandeis, o primeiro judeu americano a ocupar a Suprema Corte e co-autor, cm Samuel Warren, de “O Direito à Privacidade”, em 1890, o mais importante texto sobre o tema. Em 1928, a Suprema Corte encontrou seu primeiro desafio tecnológico aos direitos individuais, no caso de um comerciante que vendia bebidas em plena Lei Seca. O telefone do acusado havia sido grampeado, através da linha interceptada na rua. Mas, numa opinião dissidente, Brandeis escreveu que a tecnologia do grampo revelava muito mais sobre a privacidade do comerciante do que uma simples revista física de sua casa. E previu, sem saber, a era cibernética, dizendo que o governo, no futuro, poderia investigar um cidadão e seus documentos sem pisar na sua casa.
Mas Jeffrey Rosen acha que proteção da privacidade sob assalto virá de juízes e legisladores tanto quanto dos próprios habitantes do planeta digital e de novas tecnologias. Afinal, o Facebook é a terceira aglomeração do mundo em população, só perde para a Índia e a China. Ao contrário do que argumenta Mark Zuckerberg, o apóstolo da hipertransparência, Rosen não acredita que o cidadão informado está preparado para abrir mão de seus direitos em troca de confortos de consumo.
Rosen faz uma defesa apaixonada da privacidade: “Ela impede que sejamos julgados fora de contexto.” Em um livro anterior, The Unwanted Gaze, (O Olhar Indesejado), Rosen argumenta que uma sociedade só é livre quando reconhece que as pessoas se comportam de maneira diferente em público e certos tipos de informação privada só podem ser compreendidos num contexto de intimidade. Se toleramos a exposição constante, não pode haver intimidade. E, sem intimidade, ele conclui, não temos autonomia para desafiar expectativas sociais, apenas para nos conformar com elas.

Christopher Hitchens, morto na última quinta-feira (Foto Reprodução)
Numa tarde de 2007, o diretor, roteirista e escritor Matthew Chapman estava instalado na sua sala confortável, em Manhattan, emoldurado por uma avenca majestosa – o tipo de samambaia que raramente resiste à secura do inverno nova-iorquino. Deduzi corretamente que a planta, geralmente mais feliz na vizinhança da nossa úmida Mata Atlântica, devia sua longevidade à mulher do entrevistado, a atriz Denise Dumont. Chapman me recebera para falar de seu segundo livro, 40 Days and 40 Nights, sobre um julgamento que colocou um grupo de pais de estudantes contra a Secretaria de Educação de Dover, no Estado de Delaware, onde o Criacionismo era ensinado como ciência, lado a lado com a Teoria da Evolução.
A conversa migrou para Christopher Hitchens, cujo comentário elogioso adornava a capa do livro. Naquele ano, Hitchens tinha se tornado um autor bestseller com o lançamento de Deus Não É Grande, Como A Religião Envenena Tudo. Em companhia do biólogo de Oxford Richard Dawkins, autor de A Desilusão de Deus, Hitchens, que já era um polemista favorito de publicações e talkshows americanos, virou uma espécie de pop star da cruzada anti-religião.
Chapman e Hitchens haviam se encontrado ainda jovens em Londres, frequentando as mesmas festas. “Ele era um comunista muito divertido,” lembra Chapman. “Frequentava a alta classe e não estava nem aí para se privar do que gostava em nome da aparência.” Foi seu interesse , ou melhor, seu desapreço pela religião que afinal aproximou os dois britânicos transplantados para o leste dos Estados Unidos. Chapman é tetraneto de Charles Darwin e, antes de Hitchens, já se preocupava com o ataque da direita religiosa americana à Teoria da Evolução. Em 2000, publicou Trials of The Monkey, An Accidental Memoir, uma relato sobre sua viagem pelo Tennessee, onde, todos os anos, há uma reencenação do lendário Julgamento de Scopes de 1925, em que um professor de biologia foi processado por ensinar a teoria elaborada por seu tetravô e não o Criacionismo.
Comentei com Chapman que havia entrevistado Hitchens sobre Deus Não É Grande. Mas não devo ter contado que a entrevista ocorrera numa sala da Biblioteca Pública de Nova York, minutos antes de um debate do autor com o pastor batista e demagogo-mor Al Sharpton, mediado por Jacob Weisberg, editor-chefe da Slate. Chapman falou de Hitchens com enorme admiração e confessou que não era páreo para ele no esporte de levantamento de copo. Disse que os dois se encontraram para falar de 40 Days and 40 Nights na hora de almoço num dia de semana e que ele havia ficado arrasado com a quantidade de álcool consumida antes, durante e depois da refeição. Em sua memória turva do almoço, ele diz que foi ao banheiro e se olhou no espelho assustado com a falta de controle dos sentidos, preocupada em voltar logo para casa. Quando voltou para a mesa, Hitchens se desculpou: “Desculpe, Matthew, só pedi mais dois uísques porque eu realmente tenho que ir embora. Tenho que participar de um debate com Al Sharpton em 45 minutos.”
Veja um trecho da entrevista que Hitchens concedeu a esta repórter ignorante da carraspana que precedeu o debate. Perguntei se ele se preocupava com os argumentos – não da caricata direita republicana- mas das pessoas que consideravam a fé religiosa parte integral de sua identidade.
Quando a morte de Christopher Hitchens foi noticiada na madrugada de sexta feira, 16 de dezembro, procurei Matthew Chapman, sabendo que ele havia ido a Houston, onde Hitchens estava internado na fase final de seu tratamento para o câncer no esôfago.

Bob Brookmeyer (Foto Artists Share – Divulgação)
Bob Brookmeyer morreu no Estado de New Hampshire , pouco antes de fazer 82 anos.
Ele foi um dos grandes compositores e pensadores do jazz nos últimos 50 anos, contemporâneo de Gerry Mulligan e Stan Getz. Se a notícia não lhe faz saltar da cadeira e se lançar ao encalço da discografia do músico, vale lembrar que Brookmeyer vivia escondido em New Hampshire, de onde saía para gravar e dar aula no New England Conservatory of Music. Pergunte a qualquer instrumentista ou compositor e seu nome desperta a admiração rara reservada a um músico que serviu de bússola criativa para gerações de jazzistas. Há poucos dias, Brookmeyer lançou Standards, um cd de clássicos americanos, com vocais da holandesa Fay Claassen.
A seguir, os depoimentos de dois amigos de Brookmeyer – o crítico Terry Teachout e, em vídeo, sua herdeira musical, Maria Schneider.
2013
2012
2011
2010