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Lúcia Guimarães

 

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Angelina Jolie  (Cortesia Georges Biard)


A atriz Angelina Jolie revela, nesta terça-feira, num artigo no jornal New York Times, que fez mastectomia dupla preventiva em fevereiro deste ano. Jolie, de 37 anos, explica que tomou a decisão de fazer a cirurgia drástica ao descobrir que era portadora da mutação gene BRCA1, um fator de aumento de risco para câncer de mama e de ovário. Médicos da atriz calcularam que ela tinha 87% de risco para câncer de mama e 50% para câncer de ovário. O risco varia de mulher para mulher.

Com a cirurgia, afirma Jolie, seu risco de câncer de mama foi reduzido para menos de 5%. No artigo que escreveu no Times, Jolie lembra que sua mãe Marcheline Bertrand morreu de câncer de ovário, em 2007,  aos 56 anos e que seus filhos perguntavam se o mesmo poderia acontecer com ela. A atriz tem seis filhos, três adotivos e três naturais, com seu companheiro, o ator Brad Pitt. Ela revela que terminou, no dia 27 de abril a série de três procedimentos médicos que incluíram as mastectomias e implantes e dá detalhes do processo. Jolie diz que decidiu falar sobre a cirurgia para encorajar mulheres enfrentando o mesmo dilema e também divulgar a importância do teste, que pode custar mais de US$ 3 mil, nos Estados Unidos.

Só uma pequena porcentagem das mulheres são portadoras das mutações dos genes BRCA1 e BRCA2, indicativos do alto risco de câncer de mama e de ovário. Estudos revelaram que o risco aumenta entre certos grupos étnicos. Um estudo citado pelo Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, determinou que o risco de portar mutações entre mulheres judias descendentes de europeus orientais era de 2.3%, cinco vezes mais alto do que o da população geral.

Angelina Jolie pretende autorizar o hospital Pink Lotus Breast Center de Beverly Hills, na Califórnia, onde foi operada, a colocar seu regime de tratamento pós-operatório on-line. O anúncio feito pela atriz deve causar grande impacto no debate sobre prevenção e tratamento de câncer de mama, uma doença que mata 458 mil mulheres por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde.

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10.fevereiro.2013 16:21:37

Irã: O Que Vem Agora?

(Texto reproduzido da efdição impressa do suplemento Aliás de 10 de fevereiro de 2013)

A cena embaraçosa seria cômica se não envolvesse elementos de tragédia internacional, tais como um programa nuclear renegado, um regime altamente combustível e um superpoder cansado. O provável secretário de Defesa do segundo mandato de Barack Obama, o condecorado veterano do Vietnã e ex-Senador republicano Chuck Hagel, cometeu o clássico ato falho freudiano, ao ser sabatinado sobre o Irã: “Eu apoio a forte posição de contenção do Presidente.”

Um arrepio se fez sentir na Casa Branca. Um assessor lívido passou um bilhete para Hagel, que foi ferido duas vezes lutando no delta do Rio Mekong mas não haveria de sobreviver à artilharia política de Washington quando o assunto é o Irã. Visivelmente constrangido, ele balbuciou: “Eu me expressei mal. Se eu disse que apoio a contenção do Irã o que eu quero dizer é que nós não temos uma política de contenção.”

O que Chuck Hagel quis dizer de fato é que, no jardim de infância do Congresso, compreendeu que não poderia chocar a turma de ouvintes, enunciando a política com a qual seu futuro chefe concorda e que deve ser posta em prática pelo novo xerife instalado no Departamento de Estado, John Kerry. O Irã está enriquecendo urânio. A questão é em que grau de enriquecimento pretende parar, mais ou menos próximo do necessário para a construção de uma bomba. O país está economicamente encurralado por sanções, um arrocho que aumentou na quarta-feira passada quando Washington restringiu a capacidade de Teerã de repatriar pelo sistema bancário o pagamento por exportações de petróleo, já em queda livre desde a rodada de sanções de julho passado. Mas o alto desemprego, a inflação a queda de sua moeda, o rial, não desaceleram o complexo militar iraniano, seja nas centrífugas que se multiplicam em instalações subterrâneas ou no macaco (ou foram dois?) alistado como astronauta.

Se existiu um Antonio Carlos Jobim persa, ele há de ter cunhado a frase: “O  Irã não é para principiantes.” Vejamos: um economista que mora em Nova Jersey está em plena campanha para ser aceito candidato na eleição presidencial iraniana de junho. “Quero ser o Deng Xiao Ping do Irã,” declara confiante ao Aliás o professor Hooshang Amirahmadi, de sua casa em Princeton. Reforma sem mudar o sistema e, ainda por cima, de Nova Jersey?

E mais: um presidente quer suceder um macaco no espaço. Mas, deixemos de lado o histriônico presidente Mahmoud Ahmadinejad, cuja popularidade e cotação política estão abaixo do Rial. Ahmadinejad não pode decolar de Teerã que algum aliado seu vai para a cadeia.  Na semana passada, enquanto Ahmadinejad trocava carícias com o ex-arquiinimigo egípcio Mohamed Morsi, o contemplado com duas noites no xadrez do regime, foi o promotor Said Mortazavi. A prisão de Mortzavi é um sinal de  decisões já tomadas pelo líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, sobre a próxima eleição presidencial. Mortazavi atravessou o caminho do político ungido por Khamenei, Ali Larijani, o porta voz do parlamento iraniano, já fazendo aquecimento para disputar uma nova e corrupta eleição presidencial, nos moldes da que manteve Ahmadinejad no poder em 2009 e resultou numa onda de protestos e repressão sangrenta.

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Autor e acadêmico Reza Aslan (Foto: www.rezaaslan.com)

“Acho melhor nos acostumarmos com a idéia de um presidente Larijani,” suspira o iraniano-american Reza Aslan, autor bestseller do aclamado No god but God: The Origins, Evolution, and Future of Islam e mais recentemente de How to Win a Cosmic War. Aslan é um acadêmico especializado em religiões, professor de Escrita Criativa da Universidade da California e lança em setembro Zealot, um livro sobre Jesus Cristo como personagem político. É também um membro ativo da comunidade de mídia digital voltada para o Oriente Médio, como fundador do site AsianMedia.com.

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Ali Larijani, porta-voz do parlamento iraniano. (Foto Sebastian Zwez)

Aslan se confessa levemente otimista com as chances de détente entre Washington e Teerã. Acredita que Obama defende o diálogo e, sem a pressão de uma reeleição, pode arriscar o capital político no segundo mandato.

Diante do aperto das sanções, o Líder Supremo Khamenei, avisou, por seu website, ó ironia teocrática, que não faz sentido dialogar com o governo Obama, sob pressão, como defendeu publicamente o vice-presidente Biden e John Kerry pode confirmar até quando espera o elevador, na sede do Departamento de Estado em Foggy Bottom.

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Hooshang Amirahmadi quer concorrer à presidência do Irã. (Foto: Divulgação)

Numa longa conversa em que demonstrou confiança inabalável, como convém a um homem disposto a convencer uma revigorada teocracia de seus préstimos (um projeto similar a propor eleições diretas na Coréia do Norte) Hooshang Amirahmadi, de 65 anos, discorre sobre o país que deixou na década de 70 – “antes da Revolução Islâmica de 77 e não como exilado”, esclarece. Ele tem passaporte americano, cidadania iraniana e uma cadeira de planejamento e administração pública na Universidade de Rutgers, onde fundou o Departamento de Estudos do Oriente Médio.

Pergunto se o epíteto Deng Xiao Ping do Irã não esbarra em certas realidades, como o fato de que o falecido líder do Partido Comunista, além de morar em Pequim e não Princeton, era um veterano membro da burocracia. Ele responde, ponto a ponto, explicando por que acha que tem chances de reformar o Irã sem pisar na túnica dos aiatolás. “Eu sou um economista experiente, não pertenço a nenhuma facção ou partido político. Entendo de desenvolvimento econômico e administração pública. Não estou distanciado do Irã, que visito com frequência e onde conheço pessoalmente dois clérigos do conselho de 12 membros que vão aprovar, em maio, os candidatos para a eleição de 14 de junho.”

Mas, argumento, com apenas um mês de campanha oficial, mesmo se sua candidatura for aprovada, como se tornar conhecido do predominantemente jovem eleitorado de um país com 75 milhões de habitantes? O energético Amirahmadi retruca que é onipresente na mídia farsi onde escreve e é constantemente entrevistado quando o tema é o país apelidado de Grande Satã. O economista reconhece que o apelido é sintoma de um impasse que começou em 1977. A Revolução Islâmica se definiu pela oposição ao poder americano. “ E os americanos desconfiam de qualquer revolução,” diz. 

Nas entrevistas que começam a aparecer na mídia americana, o aspirante a sucessor de Ahmadinejad martela os três pontos que, “fazem de mim o candidato ideal” para liderar seu país natal. Primeiro, argumenta, o Irã beira um precipício econômico agravado pelas sanções mas resultante de incompetência e corrupção administrativa. Em segundo lugar, a luta interna entre facções se agravou, segundo ele, a tal ponto, que não há a menor de coesão na elite política que vive sob a sombra do Conselho Islâmico Guardião. O terceiro problema é o confronto com os Estados Unidos, responsável pela intransigência na política nuclear e, mais amplamente, pelo isolamento da comunidade ocidental.

“Os iranianos querem um administrador econômico competente, um pacificador que restaure o lugar do país na comunidade internacional e um presidente capaz de navegar entre facções internas porque não pertence a nenhuma delas,” declara o nosso ensolarado interlocutor.  Como, presidente, ele promete, não vai implementar um programa nuclear visando a bomba.  “Nenhum país precisa da bomba atômica,” continua. “A guerra do futuro será cibernética.  A bomba, depois de 70 nos, não serve mais de dissuasão. Os países vão se ameaçar com a destruição tecnológica.”

Pergunto sobre o elefante no Salão Oval, quando Obama discute seus passos na condução de uma aproximação com o Irã. O consenso em Washington é que a última eleição israelense abaixou o volume retórico que exasperava Obama, ao cobrar promessa incondicional de ação militar dos Estados Unidos.  As negociações sobre o programa nuclear iraniano recomeçam no próximo dia 26, no Casaquistão, sob o patrocínio da Grã-Bretanha, Alemanha, França, China Rússia e Estados Unidos. Ciente de que Israel vê o Irã como a grande ameaça à sua existência, menos na demagogia de Ahmadinejad do que na ameaça militante do Hezbollah, Amirahmadi argumenta que o Hezbollah se inseriu na vida institucional do Líbano e um presidente do Irã que se apresente como conciliador para Israel, ele acredita, terá chances de trazer, não só o Hezbollah, como o palestino Hamas, para o mainstream da política.

Amirahmadi concluiu seu PHD de Administração Pública em Cornell, em 1982, e lembra saudoso de colegas brasileiros, amizades que abriram caminho para uma visita a São Paulo na década de 1980. Elogia o esforço dos governos do Brasil e da Turquia, em 2010, quando se ofereceram como mediadores de um acordo em que o Irã enviaria urânio para ser enriquecido na Turquia. Lamenta que o governo Obama não tenha tirado proveito da mediação dos dois países.

“Foi uma de várias oportunidades perdidas e os dois países só devem se engajar de novo se não saírem chamuscados,” comenta o acadêmico Reza Aslan que está dando aulas de religião e política do Oriente Médio por um semestre num câmpus a 60 quilômetros de Princeton, na Drew University, mas não conhece Amirahmadi pessoalmente. Ele não acredita que o professor de Rutgers tenha chances de passar pela peneira da teocracia iraniana, menos por sua capacidade do que pelo fato de que vive há 40 anos nos Estados Unidos. Mas elogia o simbolismo da campanha para reduzir o radicalismo que isola o Irã. Embora não alimente ilusões de uma eleição limpa, Aslan acha que o provável candidato Ali Larijani, embora, nas suas palavras, seja corrupto e comprometido com o regime, é um pragmático e seria um interlocutor mais engajado com os Estados Unidos. Teme que a continuação do conflito na Síria, aliada estratégica do Irã na região, enfraqueça a disposição iraniana de negociar uma solução para o programa nuclear. Mas lembra, quem quer que seja o presidente do Irã, a partir de junho, ele continuará sem acesso pleno ao programa nuclear e com poderes limitados de tomar decisões econômicas.

Há sinais de movimento, em Teerã e Washington. Mas não há garantias de mudança. O candidato a candidato Amirahmadi admite que apenas tirou um ano sabático de sua cadeira na Universidade de Rutgers.

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27.janeiro.2013 15:12:21

OBAMA SAI DO ARMÁRIO

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Obama presta juramento na segunda posse, 20 de janeiro de 2013. (Foto Lawrence Jackson Cortesia Casa Branca)

 

(Texto reproduzido do suplemento Aliás de 27 de janeiro de 2013)
LÚCIA GUIMARÃES

Um murmúrio correu pela multidão. Não pela esmagadora maioria de um milhão que lotava o Mall de Washington. “Ele disse Stonewall?” Sim, foi o que disse Barack Obama, que, com uma frase em seu discurso de posse, elevou a revolta de um bar gay do boêmio Greenwhich Village de 1969 ao mesmo patamar histórico da luta pela emancipação da mulher, no século 19, e da luta pelos direitos civis dos negros americanos, na década de 1960. Mais estava por vir. Ao final da segunda cerimônia de posse do primeiro presidente negro da história americana, o próprio Obama tinha, perdoem o trocadilho, saído do armário. O cauteloso centrista que despontou no firmamento político com apenas um discurso, em 2004, e falava em tons quase messiânicos sobre o destino da América unida, capaz de transcender a polarização ideológica, apresentou ao país na segunda-feira país uma lista de intenções incomum para a ocasião, como a redistribuição de renda através de um sistema de impostos mais justo e a acolhida para os imigrantes sem documentos. Não todos os 11 milhões, certamente, mas sobretudo os que já têm vínculos no país e chances de se educar.

Como orador afiado, o presidente recorreu a uma moldura retórica para enquadrar muito do que faz a direita mais extrema espumar. A lista de Obama foi apresentada como uma evolução natural da declaração da independência americana. Impedir as manobras de obstrução ao voto dos negros, respeitar a igualdade civil dos gays, defender o salário das mulheres, cuidar dos idosos pela previdência, investir na educação dos jovens e impedir que crianças sejam mortas a tiros na escola, garantiu Obama, era o que tinham em mente os fundadores da república quando escreveram sobre o direito inalienável “à vida, à justiça e a busca da felicidade.”

Ao parar de tentar apaziguar a versão mais colérica e intransigente do Partido Republicano representada no legislativo americano nas últimas décadas, dizendo “acredito mesmo numa distribuição mais justa de renda e no poder da coletividade sobre o individualismo de fronteira”, Obama fez mais do que pegar a oposição de surpresa. Aumentou as expectativas de eleitores que têm visto nele um conciliador atávico. Nenhum grupo de eleitores presta mais atenção na evolução de Barack Obama do que os afro-americanos, os 12% da população. Eles são também 40% da população carcerária no país com maior número detentos per capita no mundo. Enfrentam um desemprego de quase 15% comparado ao nível de 7,8% da população em geral.

O acadêmico Jelani Cobb é autor de The Substance of Hope, Barack Obama and the Paradox of Progress e escreveu o ensaio Barack X, na revista New Yorker pouco antes da eleição de novembro passado. No ensaio, ele tratou da presidência Obama sob o prisma da herança de líderes diferentes como Martin Luther King e Malcolm X. Cobb diz que a ascensão de Obama dá esperança e ao mesmo tempo aprofunda o ceticismo dos negros americanos, conscientes de que ele jamais continuaria morando na Casa Branca se tentasse explicitamente curar a ferida racial. Professor associado de história e diretor do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Connecticut, Cobb conversou com o Aliás após a cerimônia da posse da última segunda-feira. Ele analisa os pontos mais importantes do discurso do presidente.”

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Jelani Cobb (Foto: Lúcia Guimarães)

Os detalhes.

“O discurso de posse me surpreendeu por ser muito mais específico do que se esperava. É comum os discursos de posse serem genéricos, falarem do progresso americano e das nossas virtudes. Mas o Obama foi mais além nos detalhes. Podemos pôr este discurso como um contraste ao discurso da Convenção do Partido Democrata de 2004, que colocou o Obama no cenário nacional. Ali, ele falava da unidade transcendental, do tema de um país que não estaria dividido. Na segunda posse, ele falou de unidade mas mencionou especificamente os excluídos da sociedade americana. E destacou como teremos que lutar para incluir esta população na nossa sociedade. A frase mais significativa foi quando ele se referiu a Seneca Falls (local da a primeira convenção nos Estados Unidos a lutar pela emancipação feminina, em 1848), Selma (cidade do Alabama de onde partiram as marchas pelos direitos civis dos negros em 1965) e Stonewall (rebelião no bar gay de Manhattan em 1969). Ao juntar as três lutas, acho que surpreendeu a maioria.”

 

A ironia da identidade racial.

“Obama não invoca a tragédia da segregação – costumo dizer que ele é um mulato irônico – como referência a sua identidade. A maioria das pessoas considera o Obama birracial. Mas, nos Estados Unidos, se você tem um pai negro e uma mãe branca e vice-versa, você é considerado negro, ponto – com todas as consequências desta condição. Com o Obama, de repente, as pessoas quiseram mudar as regras e dizer ‘ele é birracial’. O fato é que a maioria dos afro-americanos é birracial, minha bisavó era branca. O que me ofende é que séculos de história são apagados para que uma parte do eleitorado se sinta mais identificada com o Obama. Mas a nossa vida não muda por causa do rótulo.”

 

O mito de uma era pós-racial.

“Nem Obama acredita nisso. Ele sabe quanto a questão do racismo pesa na vida dos afro-americanos e disse isso diretamente a uma plateia da Associação Nacional de Pessoas de Cor, fundada no começo do século 20. Há dinâmicas muito claras, como a crise da bolha imobiliária, que teve um impacto muito maior entre os negros, e como o fato de a maioria da população carcerária ser composta de afro-americanos. Um exemplo da consciência de Obama é seu Ministro da Justiça, Eric Holder, ter ido atrás e processado judicialmente departamentos policiais que fazem o chamado perfil racial, detêm e revistam muito mais negros.”

 

A paciência dos negros.

“Não importa o grau de decepção com a falta de progresso em questões que afligem em maior proporção os negros americanos, eles deram 93% de seu voto a Barack Obama em 2012. Essa paciência é fácil de explicar: eles viveram o racismo. Perceberam como ia haver e houve hostilidade contra Obama. Só há um problema com isso: não importa o quanto você se identifica com um líder, não é bom que se solidarize muito com ele. Deve manter um nível saudável de desconfiança. Esta situação de termos um presidente negro não tem precedente. Temos que descobrir como nos identificar com a luta de Obama sem sacrificar os nossos objetivos específicos, o que nos fez votar nele. Obama não foi eleito com a maioria do voto branco. E a nossa história nos mostra que cada etapa de conquista negra foi seguida de alguma represália. A surpresa com a hostilidade a Obama para mim reside no fato de que a grande mídia, como a Fox News, se tornou um fórum para este tipo de idéia, como a nacionalidade de Obama, traficando com a demagogia fanática. Mas a teoria conspiratória nos Estados Unidos é uma tradição que não se resume à questão de raça. John Kennedy foi acusado de ser um agente de Moscou. Bill Clinton foi acusado de acobertar o suposto assassinato do assessor Vincent Foster, que de fato se suicidou. Certas figuras proeminentes ainda criticaram Obama principalmente em dois aspectos: diziam que ele não atacou a pobreza com agressividade e que não seguiu a tradição pacifista do movimento de direitos civis ao aumentar o esforço de guerra no Afeganistão. Mas, num contexto político em que o presidente foi forçado a mostrar sua certidão de nascimento para provar que é cidadão americano, o que se podia esperar, com realismo? E, diante do Congresso mais obstrucionista das últimas décadas, o que pensavam que ia acontecer?”

 

O sistema penal.

“A maioria das pessoas atrás das grades foi condenada por infrações não violentas ligadas a drogas. Mudar a maneira como o país trata do problema da droga poderia ser o grande legado do Obama. Uma vez que você joga na prisão uma pessoa que cometeu uma pequena ofensa, as chances de ela obter emprego são drasticamente reduzidas e isto leva ao maior risco de cometer crimes mais graves. Lembro que, nos anos 90, quando Newt Gingrich era o líder republicano da Câmara, ele acabou com as bolsas de estudos, as Pell Grants, para detentos. Isto é um exemplo da mudança de direção do sistema penal. E há também algo pernicioso que pune muito mais a população negra. A maioria dos detentos afro-americanos vem de áreas urbanas pobres. Mas há um grande número de prisões em áreas rurais. Estas áreas rurais, mais brancas e conservadoras, dão boas vindas às penitenciárias porque a população carcerária entra na contagem do censo. E permite a estas regiões com menor densidade demográfica ter maior representatividade eleitoral e, por exemplo, ter mais investimento do governo em educação. Enquanto os afro-americanos não estão sendo contados nas cidades de origem. Aí está um incentivo para não reformar o sistema da justiça criminal.”

 

Os gays e os conservadores cristãos.

“Quando Obama mudou de opinião e apoiou o casamento gay, não me passou pela cabeça que seria punido pelos afro-americanos. Temos uma população cristã negra conservadora que não aprova a igualdade para o casamento. Mas o fato é que não vamos às urnas mobilizados para votar nessas questões, tal como os brancos conservadores. Há muito os republicanos falam da “direita cristã”. Mas, ainda que cristãos negros compartilhem os ideais cristãos de outros grupos, vão votar em democratas porque acreditam que eles protegem mais os empregos, a ação afirmativa, e vão se manifestar contra crimes de ódio. E também acreditam que o político democrata vai respeitar mais a sua humanidade, sua condição de próximo. Quando estamos lidando com disparidade econômica, o voto tende a ser pragmático. Só depois de ter segurança econômica é que se começa a votar em questões de estilo de vida.”

 

O simbolismo do primeiro-casal.

“A importância da imagem do casal não pode ser subestimada, é tremenda. É um aspecto quase tão importante simbolicamente quanto certas questões de política. Há este desejo coletivo de testemunhar uma família intacta, de duas pessoas que se querem bem e se apóiam ao longo da vida. Especialmente entre os afro-americanos, é um contraste com o estereótipo do relacionamento negro disfuncional. Quando um casal branco se separa é porque não se entende bem. Quando um casal negro se separa, é porque a família negra está em colapso. Barack e Michelle representam o ideal mítico do black love.”

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Vídeo da NRA

Horas antes de Barack Obama assinar um pacote de medidas para combater a violência por armas de fogo, a National Rifle Association, o poderoso lobby americano  das armas, acusou o Presidente de hipocrisia elitista e colocou Sasha e Malia Obama na mira de seu ataque. O anúncio acusa Obama de ter o Serviço Secreto à disposição para proteger suas filhas e de não querer seguranca para as crianças dos cidadãos comuns. O anúncio gerou polêmica e quebra um protocolo que mantém filhos menores de presidentes fora do debate público. O porta-voz da Casa Branca classificou o anúncio de repugnante e “uma covardia”.

O plano de Obama, anunciado um mês depois do massacre da escola de Newtown, Connecticut, que deixou 20 crianças e 7 adultos mortos, inclui medidas como a volta da proibição das armas de assalto, limite de munição para 10 balas, investigação de antecedentes para qualquer comprador de armas de fogo e maior coordenação de vários bancos de dados sobre proprietários de armas.

O Presidente admitiu que vai ser difícil passar as medidas no Congresso, onde a câmara é controlada por republicanos e pediu ao público que se manifeste junto aos representantes dos legislativos federal, estadual e local.

Lucia.Guimaraes at estadao.com.br)

 

 

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(texto reproduzido da edição impressa do Caderno 2, em 13 de janeiro de 2013)

Na primeira década do século 20, a arte vista como vanguarda em Nova York era a pintura realista que representava cenas urbanas, frequentemente no Greenwhich Village – imagens consideradas vulgares pela elite colecionadora.

Rejeitados por galerias, um grupo de pintores realistas tramou uma desforra na forma de uma exposição em que seus trabalhos seriam exibidos lado a lado com obras da ainda desconhecida arte moderna europeia. Foi como convidar um grupo de lutadores de sumô para compartilhar o mobiliário infantil com o resto da turma de um jardim de infância.  A participação de nomes como Pablo Picasso, Paul Cézanne, Pierre Matisse, Pierre Bonnard e Marcel Duchamp cresceu, graças a um dos organizadores, Arthur Davies. O resultado foi a Exposição Internacional de Arte Moderna, celebrizada como o Armory Show, inaugurada em 17 de fevereiro de 1913 com 1300 obras. O apelido vem do prédio que abrigava um regimento da Infantaria do exército, na Avenida Lexington com a Rua 25, e hoje continua cenário de uma enorme feira anual de arte, na mesma Avenida, mas na Rua 68. O terremoto estético provocado, em 1913, pelo Armory Show faz Damien Hirst, com suas bolinhas e tubarões em formol, parecer hoje um irritante e hiperativo poodle miniatura.

A cidade, que ainda despertava sonolenta para se tornar a metrópole do século 20, foi invadida ao mesmo tempo por noções como fauvismo, cubismo, futurismo e especialmente pela pintura Nu Descendo a Escada, de Marcel Duchamp, descrita por um crítico de arte indignado como “uma explosão numa fábrica de telhas”.

O centenário da invasão da arte moderna em Nova York vai ser lembrado em várias exposições ao longo deste ano, numa celebração que começa em março com uma edição especial da feira do Armory Show.

Um resultado menos conhecido da introdução da arte moderna europeia nos Estados Unidos, porém, foi um outro despertar, desta vez para a arte africana que havia exercido forte embora nem sempre reconhecida influência sobre artistas como Pablo Picasso, Constantin Brancusi e Diego Rivera. Uma exposição, aberta até 14 de abril no Museu Metropolitan de Nova York, explora o tema. “Arte Africana, Nova York e a Vanguarda” foi organizada por Yaëlle Biro, curadora assistente da opulenta coleção de arte africana do Metropolitan e segue uma sequência cronológica que passa pela descoberta, os primeiros colecionadores, a aceitação em galerias e museus e termina com a influência da arte africana sobre a Renascença do Harlem na década de 20.

A exposição começa com obras da primeira mostra  dedicada exclusivamente à arte africana no mundo, organizada em 1914 pelo fotógrafo e agitador cultural Alfred Stieglitz, na sua lendária galeria da Quinta Avenida. O titulo da mostra de Stieglitz dá uma medida do desequilíbrio que haveria de marcar a relação dos artistas ocidentais com a arte de todo um continente: “Estatuário em Madeira por Selvagens Africanos: A Raiz da Arte Moderna.” A relação se desvenda ainda mais numa das fotos exibidas, em que Stieglitz registra a companheira, a pintora Georgia O’Keefe, nua, segurando uma colher esculpida na Costa do Marfim. Além de selvagens, os africanos deviam erotizar até os utensílios.

Em entrevista ao Estado, Yaëlle Biro lembra que o olhar de europeus e norte-americanos sobre a arte africana foi marcado pela trajetória das obras que deixaram o continente. “Muitos trabalhos eram levados para a França por oficiais militares e administradores coloniais, onde eram vendidos a galerias e colecionadores,” diz a curadora. “Depois de 1913, começou o fluxo de obras para os Estados Unidos e as camadas de significado não só se acumularam como foram desaparecendo ao longo do caminho.” Ela explica que, na França, o impacto inicial era mais informado pelo contexto original da arte, articulado com a presença colonial. Mas nos Estados Unidos, as obras eram vistas apenas sob o prisma do julgamento estético e examinadas principalmente por sua relação com artistas modernos.

Uma parte da mostra organizada por Yaëlle Biro recupera uma polêmica provocada por uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1984. Mais uma vez, a partir do título escolhido pelo MoMA, os sinais do casamento atribulado: “Primitivismo na Arte do Século 20: Afinidade entre O Tribal e o Moderno”.  A exposição do MoMA inspirou uma enérgica reação na capa da influente revista Artforum, que publicou o ensaio crítico “Médico, Advogado, Cacique”, de Thomas McEvilley, uma referência a um verso da canção Fiction, de Jonni MItchell. McEvilley acusava o principal templo da arte moderna do mundo de paternalismo e ignorância sobre o contexto tradicional e sagrado das obras africanas.

A curadora revisita a justaposição entre os dois mundos artísticos e diz que tenta realinhar os papeis. Ela acha que a década de 80 marcou uma evolução no exame crítico da arte africana. Marcou também um novo impulso na presença da arte africana em coleções americanas como a do Museu Metropolitan.

Filósofo que inspirou o movimento de artes plásticas, música e literatura conhecido como Renascença do Harlem, Alain Locke, foi o maior responsável pela incorporação influência africana ao colecionar arte do então Congo Belga. Mas Yaëlle Biro explica que, embora o olhar afro-americano sobre a arte viesse informado por outro contexto histórico, não se deve simplificar, imaginando uma intimidade diferente entre as culturas do Harlem e da África. Mesmo Alain Locke, diz ela, estava preocupado com o diálogo da arte moderna europeia com a África.

Um século depois da exposição de arte moderna que liberou tantos artistas americanos, a arte de um continente, não mais usada como assessório da inspiração, toma seu assento na galeria da memória.

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08.janeiro.2013 14:36:23

UM BONDE CHAMADO ESTRELA

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(Foto Divulgação)

 

(texto reproduzido da edição impressa do C2 do Estado de S.Paulo, 8 de janeiro 2013)
A nova produção de Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams, estréia na Broadway no próximo dia 17. Mas, desde dezembro, quando começaram as prévias no Richard Rodgers Theater, a bilheteria semanal já tem superado a das três remontagens anteriores. O nome na marquise do teatro ajuda a explicar: Scarlett Johansson vive Maggie, a gata.
Quem pagar até US $175 para admirar a atriz de 28 anos famosa por suas curvas e papéis de ingênua sexy, não pode reclamar porque a estrela alertou: “A sexualidade é uma parte tão pouco importante da história”, disse Johansson, numa entrevista recente.
No tempo em que os grandes estúdios de Hollywood mantinham atores sob longos contratos, a imprensa de entretenimento usava a expressão abertamente:
“MGM compra Gata em Teto de Zinco Quente como veículo a ser estrelado por Grace Kelly”, anunciou o New York Times em julho de 1955.
O “veículo para a estrela” foi inventado pela própria Metro Goldwyn Mayer na década de 30 e, quando a Gata causou sensação ao estrear, naquele mesmo ano, houve uma disputa acirrada pelos direitos da peça que Tennesse Williams considerava sua melhor obra. Mas o veículo da MGM haveria de ser pilotado por outras estrelas. James Dean, escolhido para viver o marido homossexual e alcoólatra de Maggie, morreu num desastre de automóvel, deixando a vaga para o então promissor Paul Newman. Grace Kelly abandonou Hollywood pelo principado de Mônaco e coube a Elizabeth Taylor ronronar com um brilho que lhe valeu uma indicação merecida para o Oscar.
Embora a era dos estúdios esteja, há muito, extinta, a Broadway tem sido colonizada por emissários da Costa Oeste americana. Filmes se transformam em peças e musicais, produtores de Hollywood conseguem financiamento fora do alcance do tradicional establishment do teatro nova-iorquino e estrelas de Hollywood fazem de produções de teatro seus veículos, às vezes, como contrapeso para filmes medíocres.
Nesta temporada, por exemplo, Al Pacino comanda uma lucrativa e bem fraca remontagem de Glengarry Glen Ross, de David Mamet, uma produção que passou semanas intermináveis em prévias, para evitar que críticos atrapalhassem a bilheteria.
A Gata de Scarlett Johansson terá passado 4 semanas em prévias lotadas e deve ser imunizada contra o cada vez menos potente vírus da critica teatral.
Esta produção é assinada por Rob Ashford, um ex-dançarino que passou a carreira como coreógrafo, dirigiu musicais e se graduou para a dramaturgia. Ashford tem a distinção de ser premiado dos dois lados do Atlântico. Dirigiu a remontagem de outro clássico de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo, em Londres, com Rachel Weiz vivendo Stella. Mas o DNA do diretor, que também assina a atual produção do musical Shrek, em Londres e a coreografia de Evita, na Broadway está em evidência na sede da maior plantação de algodão no Delta do Mississipi, cenário da trama de Gata em Teto de Zinco Quente. As cinco crianças que Maggie desdenha na longa diatribe do primeiro ato, irrompem num número musical no segundo ato, para festejar os 65 anos de Big Daddy Pollitt, o voraz patriarca que está morrendo de câncer. O fantasma de Skipper, o amigo e objeto do desejo erótico que Brick rejeitou, Maggie seduziu e acabou por se suicidar, ronda o cenário em carne e osso e até atende o telefone.
Benjamin Walker, visto recentemente em Abraão Lincoln: Caçador de Vampiros é o torturado Brick, o ex-jogador de futebol americano que se anestesia com álcool, sente repulsa pelo corpo de Maggie e se recusa a produzir o herdeiro tão crucial para Maggie não voltar à pobreza abjeta.
Em suas Memórias, Tennessee Williams se mostra inconformado com as mudanças que Elia Kazan exigiu no terceiro ato de Gata, na montagem original. Kazan queria uma Maggie mais virtuosa e menos calculista. Exigiu que a volta no terceiro ato, do moribundo Big Daddy , o personagem que Williams considerava o personagem cuja eloquência crua era sua melhor criação. A tarefa inglória de nos fazer esquecer do poderoso Burl Ives, o Big Daddy original da Broadway e do cinema, é confiada ao irlandês Ciarán Hinds. A versão atual da peça incorpora mudanças de texto que o próprio autor recomendou numa produção dos anos 70.
Mas o trauma da experiência com Kazan ficou na memória do dramaturgo. Ele conta, nas Memórias, ter sofrido um bloqueio de escritor após a estréia, que passou a combater com doses regulares de barbitúricos e álcool. “Não culpo Kazan de forma alguma,” escreve Williams, nem quando, mais tarde, a bordo de uma limusine de aluguel, o diretor perguntou, à queima roupa: “Tennessee, quanto tempo você acha que ainda vai viver?”
Esta franqueza brutal permeia os diálogos de Gata em Teto de Zinco Quente. Como em Um Bonde Chamado Desejo, o calor úmidodo Sul americano escorre dos corpos e das palavras. A nova Maggie-Scarlett é uma gata mais calculista do que Elia Kazan teria aprovado. Mas a sensualidade sulista desta Maggie não chega a ameaçar a indiferença de Brick.

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Nesta segunda-feira, logo de manhã, os sinais de que Sandy pode bater recordes eram claros. Mais de 12 horas antes de encostar no continente, Sandy começou a encharcar a ilha de Manhattan.

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17.outubro.2012 00:40:24

A volta de Obama

O close up do rosto de Barack Obama quando ele abraçou a mulher Michelle, depois do segundo debate presidencial, disse muito. Obama não sorriu e sua expressão grave revelou o peso que deve ter sentido nos últimos dias, quando viu sua reeleição repousar sobre 90 minutos de um debate.

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A expressão de alívio dos assessores de Obama nos bastidores da Hofstra University era evidente. O presidente, castigado pela passividade no primeiro confronto com Mitt Romney, há duas semanas, mostrou que é mais efetivo quando decide partir para o ataque.

Obama se comportou como um chefe de Estado quando Romney tentou esticar o tema da Líbia, num dia em que a Secretária de Estado, Hillary Clinton, havia deixado claro que a Casa Branca não esteve envolvida nas decisões sobre a segurança de embaixadas. Virou-se para Romney e disse que suas insinuações eram ofensivas.

Parabéns à mediadora Candy Crowley, que tomou a decisão de não fazer valer todas as regras do debate, impostas pela comissão organizadora em acordo com as duas campanhas. Ela deixou os dois candidatos se enfrentarem diretamente. Obrigou Romney a voltar ao assunto do porte de armas. Interrompeu o presidente com autoridade e checou fatos ao vivo.

E quando Crowley perguntou se, caso a conta fiscal de Romney não feche, como afirmam vários economistas, o candidato reconsidera elevar impostos, a resposta de Romney foi: “É claro que a conta fecha”, mas ele repetidamente evitou explicar como pretende baixar tantos impostos, proteger a classe média e aumentar o orçamento da Defesa em US$ 2 trilhões não solicitados pelo Pentágono.

Uma jovem perguntou a Obama sobre a desigualdade no local de trabalho e ele não só defendeu uma lei que passou mas continuou adiante falando da saúde da mulher e tocou no tema da reprodução, sem falar diretamente em aborto. É bom lembrar que 70% das mulheres solteiras americanas são eleitoras de Obama.

Defensivo. Mitt Romney parecia mais defensivo, diferente do candidato confiante que passou duas semanas surfando numa onda de euforia partidária, com a recuperação nas pesquisas. Prometeu ser duro com a China, promover carvão e petróleo como um leque de opções de energia e atacou Obama sistematicamente como um mau gerente da economia.

E confirmando sua reputação de competitivo jogador de basquete, Obama guardou a cesta mais letal para os dois minutos de conclusão. Depois de dizer que Romney é um bom homem, pai de família e religioso, tocou na ferida dos 47%: o vídeo gravado secretamente em maio passado em que Romney aparece dizendo que quase metade dos americanos não importam porque não pagam impostos e querem favores do governo. Com elegância e firmeza, Obama argumentou como devia ter feito no primeiro debate: o que se pode esperar de quem pensa assim?

A primeira reação na mídia americana mostra comentaristas republicanos dando boa nota para Obama e os democratas quase eufóricos dizendo: o Obama eloquente de 2008, o presidente que passou o seguro saúde voltou. O último debate, na próxima segunda-feira, 22, vai se limitar à política externa, o que favorece o ocupante da Casa Branca, especialmente um que está trazendo soldados para casa e mandou matar Osama bin Laden.

Mas, ainda que as pesquisas voltem a registrar o impacto do debate, até o fim da semana, a eleição americana, no dia 6 de novembro, dificilmente será decidida pelos três confrontos de 90 minutos.

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Barack Obama caminha com Chefe de Gabinete Jack Lew num intervalo do ensaio para o debate em Williamsburg, Virginia (Foto Pete Souza/ Casa Branca)

Num ano em que a TV americana luta para se manter relevante diante do assalto das mídias digitais, em que os jovens cada vez mais abandonam a TV ao vivo, o segundo debate presidencial deve bater recorde de audiência e justifica todas as metáforas esportivas. E, para aumentar o suspense, não são só os dois candidatos, Mitt Romney e Barack Obama, que são tratados como pugilistas. A mediadora e veterana jornalista Candy Crowley, da CNN, já comprou briga e avisou que não vai acatar as regras rígidas impostas pela Comissão de Debates Presidenciais, uma fundação sem fins lucrativos criada em 87 e financiada por corporações bastante lucrativas. Só em 92 a comissão escalou a primeira mulher, Carole Simpson, também a primeira negra americana a ancorar um telejornal de rede, para  mediar um debate presidencial, o famoso confronto entre George Bush pai, Bill Clinton e o bilionário histriônico Ross Perot.
A revista Time revelou hoje um memorando de entendimento entre as duas campanhas e a Comissão, um documento de bastidores que revela a preocupação em controlar a atmosfera do debate.  Um ítem que trata do papel de Candy Crowley no debate estilo town hall, com perguntas da platéia, determina que a jornalista não deve dar sequência a perguntas. Ora, disse Crowley, se um membro do público perguntar sobre maçãs e o candidato responder sobre laranjas, vou cobrar, sim.
Os participantes do debate foram selecionados apenas entre os eleitores indecisos, esta parte da população que decididamente desafia a nossa credulidade ao se declarar em cima do muro depois de dois anos de campanhas e candidatos com diferenças que afetam radicalmente a vida de cada americano. Vamos ver se o formato engessado dos debates dificilmente resiste a mais uma eleição.
Vantagens e perigos: Barack Obama detesta debates e gosta de falar para platéias. Mas ele já desperdiçou a chance, no primeiro debate, de denunciar as falsidades proferidas por Mitt Romney diante de 67 milhões de americanos. No formato de hoje, Obama não pode olhar para  Mitt Romney e dizer, a conta do seu plano fiscal não fecha. Mitt Romney, que passou a maior parte da campanha ridicularizado como um cyborg, tem se sentido mais à vontade depois de seu bom desempenho contra Obama e mostra mais energia com a subida nas pesquisas. Ele precisa relaxar diante da platéia sem parecer falso como a sua repentina virada para o centro.
O efeito do primeiro debate na campanha, quando Barack Obama surpreendeu até os adversários com sua apatia, tem sido exagerado pela mídia, dizem especialistas em pesquisas de opinião. Obama já apresentava uma ligeira queda antes do debate de Denver e Romney já perdeu um pouco a vantagem pós-debate. Na contagem Estado por Estado, a que decide a eleição por causa dos números do Colégio Eleitoral, a vantagem continua com  presidente. Se Obama conseguir superar seu desprezo pelo que considera um triste espetáculo, ele tem chances de reparar o estrago que fez, sozinho, na própria campanha.

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  • Quem Faz

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    Lúcia Guimarães

    Lúcia Guimarães é colunista do Caderno 2, colaboradora dos suplementos Aliás e Sabático e colunista da Rádio Estadão ESPN.

    Email: lucia.guimaraes@estadao.com.br

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