18/VII/11
Livio Oricchio, de Nice
Amigos:
Nos últimos dias corri para todos os lados, aqui na França, resolvendo uma série de questões pessoais, normais de um cidadão que vive fora de seu país de origem. Sei que há várias perguntas no ar no blog. Amanhã pretendo responder a maioria. Em especial explicar em detalhes como funciona o escapamento aerodinâmico nas frenagens. Na prova de Silverstone me submeti a um curso intensivo sobre o tema com minhas fontes. Aprendi bastante coisa.
Enquanto isso, redigi esse texto ontem à noite, depois de boa sacada do nosso editor, Alec, que me perguntou há quanto tempo não ocorria de as equipes principais não substituírem seus pilotos por três temporadas seguidas. Fiz a pesquisa no Guia Marlboro e descobri que isso nunca aconteceu. É mesmo uma estabilidade histórica.
Abraços!
O texto:

A história da Fórmula 1 mostra que entre pilotos e equipes tudo pode ocorrer. Os contratos nem sempre representam garantia de alguma coisa. Mas depois de nove etapas disputadas, este ano, já é possível se projetar, com elevada probabilidade de sucesso, a formação pilotos-equipes em 2012.
A manutenção das duplas atuais entre as quatro grandes, Red Bull, McLaren, Ferrari e Mercedes, como parece bem provável, representará um marco histórico. Pois será a terceira temporada seguida sem troca entre os que lutam pelas primeiras colocações, situação ainda não experimentada pela Fórmula 1 envolvendo as suas quatro melhores escuderias.
O fim de semana em Nurburgring, na Alemanha, quando será disputado o GP da Alemanha, décimo do calendário, pode começar a revelar de forma mais definitiva a cara da Fórmula 1 na próxima temporada e essa característica de estabilidade inovadora. Com a proibição de treinos particulares, os pilotos quase não mais se deslocam até a sede de suas escuderias. Por isso parte das conversas sobre seu futuro ocorre nos dias de competição.
Red Bull, McLaren, Ferrari e Mercedes apenas em 2013, quando os contratos de alguns de seus pilotos vai expirar e haverá substancial revisão do regulamento, os substituirão. Sebastian Vettel seguirá na Red Bull e Fernando Alonso na Ferrari. Os demais seis pilotos, Mark Webber, Lewis Hamilton, Jenson Button, Felipe Massa, Nico Rosberg e Michael Schumacher, não têm contrato para depois de 2012.
Se havia dúvida a respeito dos pilotos da atual campeã do mundo, a Red Bull, em 2012, seu proprietário, Dietrich Mateschitz, esclareceu quarta-feira. “Vamos renovar com Mark Webber”, disse o austríaco. A dupla da Red Bull para 2012 será a mesma de hoje, Vettel-Webber.
Na Ferrari, tanto Fernando Alonso quanto Felipe Massa têm compromisso assinado para o ano que vem. Os rumores sobre a saída de Massa não procedem. Seria necessário que nas próximas corridas Massa cometesse erros seguidos ou apresentasse desempenho bastante fraco, sem marcar pontos com regularidade, para Stefano Domenicali pensar em substituição. Não é impossível, mas pouco provável.
Quanto a Rubens Barrichello, Adam Parr, diretor da Williams, já adiantou que deseja renovar seu contrato. Frank Williams, também. Rubinho, por sua vez, também já manifestou interesse em permanecer na Williams. “Estão reestruturando a equipe na sua base. E vão correr de motor Renault. É uma bela opção.”
Lewis Hamilton afirmou ao Estado, na China “Em 2012 não saio da McLaren, tenho contrato. Depois, nunca se sabe”. O outro piloto da McLaren, Jenson Button, não tem compromisso, ainda, para 2012. Está negociando. “Há interesse dos dois lados em acertarmos tudo”, disse, em Valência. Button deve renovar com a McLaren.
Michael Schumacher, até demonstrando certa irritação, afirmou na coletiva de Silverstone, há dez dias: “Quantas vezes tenho de dizer que assinei com a Mercedes por três anos e irei cumprir meu contrato?”. O próximo campeonato é o último. Mesmo com 43 anos, em 2012, continuará sendo o companheiro de equipe de Nico Rosberg na Mercedes. Rosberg já tem compromisso com o time alemão.
Na Renault, se provar que está recuperado Robert Kubica será o número 1. Já Vitaly Petrov vai ter de contribuir com bem mais dinheiro de hoje para permanecer. Kamui Kobayashi e Sergio Perez ficam na Sauber, têm contrato, enquanto na Toro Rosso Sebastian Buemi ou Jaime Alguersuari cederá a vaga para Daniel Riccardo, hoje na Hispania. Nas demais escuderias as indefinições são ainda grandes.
Tags: Adam Parr, Daniel Riccardo, Dietrich Mateschitz, Felipe Massa, Fernando Alonso, Ferrari, Fórmula 1, Hispania, Jaime Alguersuari, Jenson Button, Kamui Kobayashi, Lewis Hamilton, Mark Webber, McLaren, Mercedes, Michael Schumacher, Nico Rosberg, Red Bull, Renault, Robert Kubica, Rubens Barrichello, Sauber, Sebastian Vettel, Sergio Perez, Stefano Domenicali, Toro Rosso Sebastian Buemi, Vitaly Petrov, Williams
10/VII/11
Livio Oricchio, de Silverstone
Não existe comunicado oficial. Mas parece ser apenas o que falta. A proibição do escapamento aerodinâmico, que ontem teve responsabilidade direta no resultado do GP da Grã-Bretanha, pode ser revogada já para a próxima etapa do calendário, dia 24, em Nurburgring, Alemanha. “Sim, houve um acordo entre as equipes”, afirmou, ontem, Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, confirmado, depois, por Charlie Whiting, delegado da FIA: “Tudo ok”.
Stefano Domenicali, da Ferrari, contudo, apesar de ter expressado sua confiança numa definição para o desgastante episódio, deu a entender que nem tudo está 100% acertado, ainda. Na reunião de ontem de manhã, antes da largada, Domenicali e Peter Sauber não concordaram com a volta do recurso. A Sauber compete com motor e câmbio Ferrari.
E depois de ver a sua equipe dominar a corrida de Silverstone, em parte por causa da perda de desempenho da Red Bull e McLaren, provocada pela ausência do escapamento aerodinâmico, é mais que provável que Domenicali esteja pensando se, caso não tenha assinado o acordo, irá mesmo fazê-lo. A FIA distribuiu comunicado, sábado, informando que aceitaria rever a proibição desde que todos os times concordassem.
Quem também lançou dúvida no ar foi Rubens Barrichello, da Williams, escuderia que utiliza motor Cosworth, empresa sem orçamento para desenvolver o seu sistema de escapamento aerodinâmico. “Se eles querem unanimidade não vão ter”, afirmou Rubinho, ao expressar o pensamento de Frank Williams.
Há no ar, portanto, duas informações: a de Ecclestone e Whiting, de que já se chegou a um acordo, e a de Domenicali e da Williams, negando a unanimidade.
Apesar das negativas estratégicas dos pilotos e integrantes da Red Bull, de que o sistema não interveio como se pensa no seu desempenho, ontem, poucos acreditam proceder. Portanto, o que vai acontecer no campeonato nas dez etapas que restam está intimamente relacionado ao resultado desses encontros entre representantes das equipes.
Se o escapamento aerodinâmico for liberado, a Fórmula 1 voltará ao que era até a prova de Valência, dia 26: domínio, por méritos, da Red Bull. Mas se prevalecer a política e o recurso continuar proibido, a competição provavelmente verá Fernando Alonso e Felipe Massa lutando contra Sebastian Vettel e Mark Webber pelas primeiras colocações, nos treinos de classificação e nas corridas. Bom para o campeonato. Péssimo para o moral da Fórmula 1.
Tags: Charlie Whiting, escapamento aerodinâmico, Fórmula 1, GP da Grã-Bretanha, Red Bull, Rubens Barrichello
Livio Oricchio, de Wood Burcote
1590. Essa é a data de construção da casa em que me encontro, agora, em Wood Burcote, próximo ao circuito de Silverstone. Passa da meia noite. Quinta-feira, portanto. Há na casa vários quartos, salas, ampla área externa, garagem com carros antigos em reparação. Localiza-se no meio de propriedades rurais.
Faz frio. Não mais de 10ºC. Venta forte e cai aquela típica garoa da região. É o verão inglês. A primeira vez em que cá estive foi em 1978, como espectador. Como jornalista, em 1989. Desde então não perdi mais um GP da Grã-Bretanha. Amo intensamente este lugar. A atmosfera no autódromo é única.
Várias ocasiões fui assistir aos treinos livres junto do torcedor, nas arquibancadas ou sobre as vastas áreas de grama espalhadas pela pista. Chama muito a atenção o entusiasmo do inglês pelo automobilismo e o seu grau de conhecimento. Não há nada similar no mundo.
Foi aqui mesmo, em Silverstone, que ouvi de Ayrton Senna, em 1989, que “o GP da Grã-Bretanha é disputado em meio às ovelhas”. Até hoje o cenário é exatamente o mesmo. Enquanto o entorno do Circuito da Catalunha é o que mais se modificou desde a estreia na Fórmula 1, em 1991, o de Silverstone quase nada foi alterado nesse período.
Mike é o proprietário da casa, engenheiro especializado em energia nuclear aplicada em submarinos. Ele pede para não pularmos aqui no andar de cima por não saber o que pode acontecer. As vigas de madeira são as mesmas da construção da propriedade. Impressionante. Há alguns anos passei um dia inteiro na Renault, em Enstone, não distante daqui, e me hospedei num pequeno hotel cujo prédio era de 1475, ou seja, de antes da descoberta do Brasil.
Estão aqui, cada um num quarto, Tatiana Cunha, da Folha de S.Paulo, Luis Fernando Ramos, o Ico, do Lance! e da rádio Bandeirantes, Felipe Motta, da rádio Jovem Pan e do site TotalRace, e Kethy, um jornalista chinesa de 24 anos que pela primeira vez começou a sair de seu país para descobrir o mundo. Imagine como ela se sente com essa enxurrada de valores novos e radicalmente distintos de tudo o que viu na vida até agora. É inteligente, interessada e está aprendendo muito.
Nesta quinta-feira coloco no ar as fotos do local que farei antes de ir para o autódromo. Havia já pouca luz quando cheguei, hoje.
Com o carro alugado, saímos do aeroporto de Heathrow às 16h30 e às 18h30 estávamos aqui. Direção M25 Norte e então M40 sentido Oxford, com saída para Silverstone na junção com a A43. Cerca de 150 quilômetros de deslocamento.
Da casa até o circuito são cerca de oito quilômetros e há um caminho por entre os pastos de gado ovino e bovino que nos deixa na porta de Silverstone. Nesta quinta-feira iremos conhecer os novos boxes, paddock e sala de imprensa. Pelas fotos que vi ficou funcional e bonito.
Mas Bernie Ecclestone vai continuar reclamando da corrida aqui. Não é difícil compreender a razão. Trata-se do GP que paga a menor promoter fee do campeonato, ou a taxa do promotor. Menos até mesmo de Mônaco.
Estima-se que seja apenas 5 milhões de libras, ou cerca de 6 milhões de euros. Pelo que se sabe, Mônaco passou a pagar, este ano, o dobro, 12 milhões. E nações mais recentes como Bahrein, Coreia do Sul, Índia, pagam a bagatela de 30 milhões de euros por edição do GP.
Cheguei há pouco do restaurante. Fomos jantar no famoso Rice Bowl, comida chinesa, em Towcester, mais ou menos três quilômetros da casa do Mike até lá, pela estradinha que corta os pastos. A primeira vez que ouvi falar no Rice Bowl foi ainda em 1989. Quem nos indicou foi Ayrton Senna.
O vi várias vezes lá, sempre na mesma mesa, mais retirada um pouco, com sua turma. Dentre eles, claro, Galvão Bueno. Nunca jantei com o Ayrton, ao menos informalmente, apenas nos eventos profissionais. Mas foi aqui em Silverstone, em 1989, que pela primeira vez conversei com o Ayrton, sem aquela barreira jornalista-entrevistado.
O prato de hoje foi o recomendado pelo Ayrton em 1989: pato. Crocante, saboroso, macio, acompanhado de discos com massa de panqueca, uma verdura e arroz frito. Absolutamente delicioso. Pena que hoje eu não comi o pato.
Explico: o Rubinho, Rubens Barrichello, nos convidou para jantarmos juntos lá no Rice Bowl. Refiro-me a essa turma que está na casa. Estavam com ele o Felipe Massa e o Pietro Fantin, menino de 19 anos que estreia este ano no automobilismo, na Fórmula 3 britânica.
Como eu precisava escrever para o jornal, cheguei mais tarde, quando eles estavam terminando de comer o pato. Pedi hoje frango com limão. Come-se muito bem no Rice Bowl.
O Rubinho é muito divertido nesses encontros. Hospeda-se no seu requintado motorhome, estacionado ao lado do paddock. O Felipe está num hotel um pouco mais retirado e chegou com uma linda Maserati que a Ferrari disponibiliza para seus pilotos nos fins de semana de corrida. Os dois contaram cada história.
Falaram muito de uma competição que participam pela internet. Sobre Fórmula 1, bem pouco. O que cada um acha que vai acontecer no fim de semana, o frio, a possibilidade elevada de chuva até sábado, por exemplo.
Bem, tá batendo um soninho… quase não dormi no voo de São Paulo a Zurique e depois para Londres. Vou desligar. O texto já está grande demais e acredito que a maioria não o vai ler até o fim.
Como faço sempre, preciso ler antes de dormir. Gosto intensamente do tema Segunda Guerra Mundial. Já li várias publicações a respeito. Leio agora um livro chamado Dresden. Quem se interessa pelo conflito sabe que o ataque aéreo aliado à cidade alemã de Dresden, em 13 de fevereiro de 1945, destruindo-a por completo, não teve fins militares. Isso é o que se diz.
Frederick Taylor fez um estudo profundo da questão utilizando documentos raros e tomando vários depoimentos para tentar explicar melhor o que parte dos próprios aliados condenou na época. Quem gostou foi o povo inglês, em especial. Por se tratar do que pareceu ser uma revanche dos ataques aéreos alemães sobre Londres e, na época, fim já do conflito, das temidas bombas V1 e em especial a V2, capazes de aniquilar quarteirões da cidade inglesa.
Mike me disse que sua mãe, de 90 anos, quando soube que não sobrou pedra sobre pedra de Dresden, esfregou as mãos de satisfação, a exemplo de milhões de britânicos. O livro conta as várias nuanças dessa história.
Boa noite, amigos. Nos falamos, agora, da nova sala de imprensa de Silverstone.
Abraços!
Tags: Ayrton Senna, comida chinesa, Diário de Bordo, Felipe Massa, Fórmula 1, frio, GP da Grã-Bretanha, pato, restaurante, Rice Bowl, Rubens Barrichello, Towcester, Wood Burcote
27/VI/11
Livio Oricchio, de Valência
Depois de oito etapas realizadas, Sebastian Vettel, da Red Bull, lidera com 186 pontos diante de 109 de Jenson Button, McLaren, e Mark Webber, Red Bull, empatados. São nada menos de 77 pontos de diferença. Como a cada prova o vencedor soma 25 pontos, Vettel poderia não disputar as três próximas corridas, Grã-Bretanha, Alemanha e Hungria, Button ou Webber vencerem as três, que mesmo assim regressaria à competição, na Bélgica, como líder. A pergunta mais feita, hoje na Fórmula 1, é: em que GP o alemão da Red Bull definirá o bicampeonato?
“Como acredito que essa diferença vai crescer, apostaria que em Suzuka Vettel feche a temporada”, diz o diretor esportivo da Renault, Steve Nielsen. O GP do Japão, dia 09 de outubro, será o 15.º do calendário que terá 19 etapas. Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, disse domingo, em Valência, que Vettel “será com certeza campeão”, mas não deu palpite em que prova. “Ele e Lewis (Hamilton) são os melhores dessa nova geração.”
Flavio Briatore, ex-diretor da Benetton e Renault, falou em entrevista à rádio Montecarlo que Vettel seria campeão em Monza. Para isso, o alemão de apenas 23 anos teria de abrir uma diferença de 150 pontos para o concorrente mais próximo, pois após a corrida de Monza, 13.ª do Mundial, dia 11 de setembro, serão disputadas ainda mais seis. Vettel deveria ter, portanto, o dobro da diferença de hoje. É bem pouco provável.
Para o diretor da Ferrari, Stefano Domenicali, é preciso esperar o que vai acontecer depois da próxima etapa, dia 10, em Silverstone, quando o escapamento aerodinâmico será proibido. “Poderá haver uma mexida na ordem de forças que vimos até agora. Reconheço, contudo, que Sebastian tem uma vantagem considerável.” E a situação pode tornar ainda mais favorável para a Red Bull se a previsão de Hamilton proceder, como muitos acreditam: “Sem o escapamento aerodinâmico vamos perder muito”, disse em Valência, domingo.
A McLaren só deu um passo de gigante no seu desempenho, este ano, quando levou o carro para a abertura da temporada, em Melbourne, com o recurso, não utilizado nos testes. “Dispomos de outro carro”, afirmou Button, na Austrália. O caso da Mercedes é semelhante. Se essa tese for comprovada, em vez de a FIA estender a luta pelo campeonato, como pretende com a mudança da regra, poderá dar um tiro no próprio pé. Quem perderia mais seriam os adversários da Red Bull e não a equipe de Vettel e Webber.
A exemplo do diretor esportivo da Renault, Rubens Barrichello, da Williams, também considera mais provável que Vettel defina o título no GP do Japão. “Ele tem de aumentar a diferença para 100 pontos, o que é possível nessa projeção.” E para Felipe Massa, Ferrari, Vettel terá de realizar uma proeza para perder o título: “Terá de aprontar muito, mas muito mesmo”. A corrida de Silverstone, dia 10, responderá se a definição do Mundial será apressada ou retardada. De qualquer forma, parece pouco provável que passe da etapa de Suzuka.

Tags: Felipe Massa, Ferrari, Flavio Briatore, Fórmula 1, Jenson Button, McLaren, Red Bull, Renault, Rubens Barrichello, Sebastian Vettel, Stefano Domenicali, Steve Nielsen, Williams
25/VI/11
GP da Europa
Livio Oricchio, de Valência
A primeira tentativa de a FIA acabar com a hegemonia da equipe Red Bull nos treinos de classificação não funcionou. Sebastian Vettel estabeleceu ontem no circuito de Valência, na Espanha, a oitava pole position da Red Bull na temporada, em oito disputadas. E num traçado que não parece ser o melhor para seu carro. As novas regras não mudaram o cenário da Fórmula 1. Mark Webber, companheiro de Vettel, vai largar na segunda colocação. O primeiro adversário da Red Bull é Lewis Hamilton, da McLaren, terceiro, quase meio segundo atrás (405 milésimos).
“Ouvimos tanta coisa nos últimos dias sobre a mudança do regulamento. Disse que os resultados não seriam diferentes e aí está, vamos largar na primeira fila”, disse Vettel, sem esconder a satisfação com o que constatou ontem: a exigência de usar amanhã, na corrida, ao longo das 57 voltas no circuito de 5.419 metros, o mesmo ajuste eletrônico do motor, medida que estreia em Valencia, não afetou a Red Bull, como provavelmente acreditavam os responsáveis pela alteração da regra.
“Superar a Red Bull na classificação não dava para pensar. Mas em corrida vimos este ano que as coisas se comportam diferentes”, comentou o combativo Hamilton, que pensa ser possível, sim, vencer o GP da Europa. A Ferrari não está tão longe em condição de corrida, a exemplo do previsto por Hamilton para a McLaren. Fernando Alonso, do time italiano, registrou ontem o quarto tempo e Felipe Massa, companheiro, quinto. Massa comentou: “Esperava ficar à frente das duas McLaren e não apenas uma, depois do nosso desempenho nos treinos livres”. Jenson Button, da McLaren, se classificou em sexto.
Com a elevação da temperatura e o acúmulo de borracha no asfalto, decorrente das competições da GP2 e GP3 no circuito de Valência, os pneus mudaram de comportamento. “Passamos a sofrer um pouco com os médios. Com os macios somos bem competitivos”, falou Massa. Alonso explicou: “Vamos ter de usar os pneus médios o mínimo de voltas possível”. E fez uma confissão: “Na minha galeria de troféus só me falta um pódio aqui em Valência, Abu Dabi e um que não estreou, Índia. Seria muito especial para mim”. E nem está tão distante. Rubens Barrichello, da Williams, larga em 13.º.
Pilotos e engenheiros têm um desafio diferente hoje. Vão ter de disputar o GP da Europa com o mesmo ajuste eletrônico do motor utilizado ontem. Ao menos na classificação, a medida não reduziu a velocidade da Red Bull. E as 57 voltas da prova, hoje, deverão responder se em condição de corrida será assim também. Se for o caso, não adiantou a FIA gerar para si própria imenso desgaste ao alterar as regras: o projeto de Adrian Newey para a Red Bull é eficiente por causa da genialidade da sua concepção global.
Tags: Felipe Massa, Fernando Alonso, Ferrari, Fórmula 1, GP da Europa, Jenson Button, Lewis Hamilton, Mark Webber, McLaren, Red Bull, Rubens Barrichello, Sebastian Vettel, Valência, Williams
12/VI/11
Livio Oricchio, de Montreal

Os termos usados por Felipe Massa para definir o indiano Narain Karthikeyan, da Hispania, não podem ser publicados. O piloto da Ferrari disputou seu melhor fim de semana desde o início do ano passado e esteve bem perto do pódio até perder o controle do carro na 52.ª volta, bater no muro, e precisar trocar o aerofólio dianteiro. Caiu para 12.º e numa recuperação excelente chegou em sexto no GP do Canadá.
A última ultrapassagem, sobre Kamui Kobayashi, da Sauber, ocorreu na bandeirada, quando cruzou 45milésimos de segundo na frente do japonês.
“Ele é um ……”, disse Massa, repetindo o palavrão. “Eu estava com os pneus slick (pista seca) e ele permaneceu na trilha seca, muito mais lento. Para ultrapassá-lo tive de ir no molhado e era como guiar sobre o gelo”, disse Massa. “Perdi minha maior oportunidade de me terminar no pódio. O carro estava ótimo, embora com pneus de chuva escapasse um pouco de traseira.”
Em entrevista exclusiva ao Estado, sexta-feira, Stefano Domenicali, diretor da Ferrari, atribuiu a difícil fase de Massa, sem marcar pontos nas três etapas anteriores à de Montreal, por exemplo, a perda de autoconfiança (clique aqui para ler). Desempenho como o dos três dias no circuito Gilles Villeneuve, em Montreal, podem permitir que o piloto resgate o que Domenicali define como a causa de suas dificuldades. O italiano elogiou o trabalho de seu piloto.
Já o parceiro de Massa, o espanhol Fernando Alonso, não tinha cara de bons amigos. Um toque de Jenson Button, o vencedor, o lançou para fora da pista e da corrida. “Ele bateu com sua roda dianteira esquerda na minha traseira direita. Os comissários entenderam como incidente de corrida. Eu tenho a minha opinião.” Não a expressou, mas nem precisaria. “Choveu justo na pista onde não deveria, onde poderíamos ter vencido.”
Para quem largou em 16.º, como Rubens Barrichello, da Williams, classificar-se em nono representa um bom resultado. “Decidimos sempre certo sobre a hora e o pneu a ser utilizado. A entrada do último safety car me custou a sétima colocação.” Foi a segunda vez seguida que Barrichello termina nos pontos, pois em Mônaco também recebeu a bandeirada em nono. Assim, a Williams, a melhor equipe da década de 90, apesar de estar à frente apenas das três estreantes no ano passado, Virgin, Hispania e Lotus, começa a reagir, com os quatro pontos conquistados.
Tags: Felipe Massa, Fernando Alonso, Ferrari, Fórmula 1, GP do Canadá, Narain Karthikeyan, Rubens Barrichello, Williams
11/VI/11
Livio Oricchio, de Montreal

O que há em comum entre Sebastian Vettel, Michael Schumacher, Jacques Villeneuve e Damon Hill? Todos já conquistaram o título mundial. Ponto. Mas existem, claro, outras coincidências. Se for tomado como exemplo o GP do Canadá, os quatro viveram em Montreal uma experiência que nada tem a ver com conquistas, glória, júbilo. Villeneuve, Schumacher, Hill e, desde sexta-feira, Vettel bateram no mesmo local, no muro da entrada da reta dos boxes. O muro ganhou até nome, com fundamentadas razões: “Muro dos Campeões”.
Fazia tempo que o muro não recebia a presença de um legítimo representante da classe. O último havia sido ainda em 1999, Michael Schumacher, com Ferrari. Damon Hill, da Jordan, não gostou desse privilégio dado a Schumacher e também, na mesma prova, tratou de colidir no muro. “Onde já se viu!”
O primeiro a começar a definir a fama procedente do muro foi Jacques Villeneuve, em 1997, com Williams. Ok, verdade, não era ainda campeão, mas seria naquele campeonato. E agora, este ano, no primeiro treino, na primeira temporada como campeão do mundo, Vettel não decepcionou o muro que tanto atrai essa categoria específica de pilotos: foi direto colaborar com a campanha. A pressa em juntar-se ao grupo denota até certa ansiedade em Vettel. Deve estar aliviado.
Importante: o Muro dos Campeões não rejeita pilotos menos dotados. Teria dito numa entrevista: “Privilegiar campeões não quer dizer excluir os não campeões”.
Hoje, ao longo das 70 voltas da corrida no circuito Gilles Villeneuve, o muro pode novamente receber a visita de Vettel, Fernando Alonso, da Ferrari, Lewis Hamilton e Jenson Button, McLaren, e Schumacher. Seus favoritos. Aliás, Schumacher não aparece por lá há 11 anos. Com sete títulos nas costas, deveria dar o exemplo. Um verdadeiro “ausente”! Como Villeneuve e Hill, os cinco já receberam da FIA o troféu de campeão do mundo e estão em atividade. A história do Muro dos Campeões tem de manter-se viva. E cabe a eles preservá-la!
Mas há benevolência também nessa história. O muro não gosta de ferir ninguém. Os choques se dão sempre quando a velocidade já é reduzida. “Nós chegamos ao final da longa reta que dá acesso aos boxes em sétima marcha, a 330 km/h. Freamos na placa dos 100 metros e iniciamos a primeira perna da chicane, onde na saída encontra-se o muro, em segunda marcha, a 120 km/h”, explica Rubens Barrichello, da Williams, o piloto mais experiente da Fórmula 1, com presença em 312 GPs e presidente da associação dos pilotos (GPDA). Hoje, Rubinho disputa seu 19.º GP do Canadá.
“Esse muro dos campeões é um mito. Não há segredo na chicane. O que existe, e essa é a razão dos acidentes, são duas zebras bem altas. Dependendo de como você toca nelas o carro voa e, como não há área de escape, bate no muro”, comenta Rubinho. A zebra alta, por mais paradoxal que possa parecer, existe para aumentar a segurança. “Sem ela, contornaríamos a chicane muito mais rápido e o choque, no caso de erro, seria em velocidade bem maior”, diz Rubinho.
Outros pilotos, não campeões, não foram rejeitados pelo muro famoso, conforme teria declarado na entrevista, o que atesta seu liberalismo: Kamui Kobayashi, com Sauber, Nick Heidfeld, Sauber, Vitantonio Liuzzi, Toro Rosso, e Ricardo Zonta, BAR.
O piloto mais completo em atividade, Fernando Alonso, deu sua visão do porquê acontecerem tantos acidentes naquele ponto da pista: “Se você contornar a segunda perna da chicane 5 km/h mais lento do que o carro permite, a velocidade de entrada na reta dos boxes será menor e todo o trecho estará comprometido.”
E complementa: “Seu tempo de volta será ruim. Mas se estiver 5 km/h mais rápido do que a condição permite, provavelmente colidirá com o muro. Essa diferença bem pequena entre ser eficiente e errar é a razão de vermos, por vezes, batidas naquele muro.”
Felipe Massa, seu companheiro, não enxerga desafio maior na chicane do muro: “Não é uma curva como a Eau Rouge, que você prende a respiração. O desafio é saber tocar nas zebras de forma a poder ser rápido sem ser lançado no ar.” Hoje, na corrida, os 24 pilotos do grid já estão desafiados pelo Muro dos Campeões. Embora, lógico, a preferência seja pelos cinco que venceram o Mundial. Se mais de uma vez, melhor ainda.
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