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14/VI/11

Livio Oricchio, do aeroporto Pierre Trudeau, em Montreal

Amigos, cheguei em casa, aqui em Nice, há instantes. São 18 horas desta terça-feira para mim. Estou começando me inteirar agora do noticiário da Fórmula 1. Na viagem e na parada em Zurique conversei horas com profissionais da Fórmula 1. É sempre um aprendizado. Se não nos informa, nos forma. E quanto isso é importante nesse universo de valores muito próprios como a Fórmula 1. Escrevi o texto a seguir ontem, antes de embarcar, em Montreal. Acho que ainda não se perdeu totalmente, por isso o coloco no ar. Abraços!

  É possível a um piloto de Fórmula 1 ocupar a 21.ª e última colocação nas voltas 37, 38, 39 e 40, numa corrida de 70, e vencer a competição? Jenson Button, da McLaren, mostrou, domingo em Montreal, que sim. Com impressionantes 21 ultrapassagens durante o GP do Canadá e nada menos de seis passagens pelos boxes, Button é manchete no seu país. “Uma das vitórias mais espetaculares da história” é o tom das publicações inglesas, como o Daily Telegraph.

  A mesma publicação destaca, também, o pesadelo vivido por seu companheiro de equipe, Lewis Hamilton, bem mais popular, que mais uma vez se envolveu em acidentes, desta vez com o próprio Button.

   “A maior vitória da minha carreira”, definiu Button. O que os números não mostram é que Button sobreviveu a uma prova de demolições também. Primeiro com o próprio Hamilton, ainda na sétima volta. Ao tentar ultrapassar Button, Hamilton foi espremido no muro e acabou colidindo. Para Hamilton, o time e os próprios comissários, Button alegou que, com a chuva, não viu Hamilton do seu lado. Sua lisura com piloto o isentou de culpa. Não mentiria mesmo.

  O próximo da lista foi Fernando Alonso, da Ferrari. Na 36.ª volta, Button e Alonso percorreram a reta que antecede a curva 5 e ao iniciar o contorno da chicane a roda dianteira esquerda da McLaren tocou na traseira direita de Alonso, lançando-o para fora da pista. Acidente de corrida, segundo os comissários. É a visão da maioria também. Mais: com o safety car na prova, Button excedeu o limite de velocidade, o que lhe valeu um drive through.

  Todos esses episódios justificariam, por exemplo, um resultado desfavorável de um piloto favorito à vitória. E não a vitória de um piloto que poucos apostavam poderia vencer o GP do Canadá. A lógica foi afrontada em Montreal. Felizmente. Quando isso ocorre, quase sempre é uma garantia de refinado show.

   Como gran finale, Button registrou na 69.ª volta, uma antes da bandeirada, quando acelerava tudo o que o seu talento permite, e não é pouco, para se aproximar de Sebastian Vettel, líder desde a largada, estabeleceu a melhor volta do frenético e emocionante GP do Canadá, sétimo do calendário: 1min16s956, à média de 204,0 km/h. O excepcional resultado deu a vice-liderança do Mundial a Button, com 101 pontos, mas ainda distante do primeiro colocado, Sebastian Vettel, da Red Bull, segundo no circuito Gilles Villeneuve, com 161.

 Já Hamilton 

 Em Mônaco, para não ir distante, Hamilton teve responsabilidade no abandono de Felipe Massa e causou o de Pastor Maldonado. Acabou punido. Ontem, envolveu-se num incidente com o próprio Button. Embora não tivesse culpa, as circunstâncias sugeriam não haver necessidade de forçar daquela forma extrema, em especial contra o companheiro, ainda na sétima volta. O risco de dar errado era maior que ele ganhar a posição.

  A regressar para os boxes, recebeu o dedo em riste de Ron Dennis, diretor da McLaren, e responsável por bancar sua carreira antes da Fórmula 1. Hamilton lhe virou as costas e foi para o fundo dos boxes. No sábado à noite, manteve longa conversa com Christian Horner, diretor da Red Bull. E foi objetivo: ofereceu-se como piloto. O contrato com a McLaren termina no fim de 2012. É o que conta o site da revista inglesa Autosport.

   Ao Estado, Hamilton disse, com exclusividade, na China: “Até o fim de 2012 fico onde estou. Depois, vamos ver.” A Fórmula 1 está começando ver. Mas o Hamilton de hoje, velocíssimo, impulsivo, brilhante, por vezes desequilibrado, outras irrepreensível, e na etapa seguinte não medir o que faz, a ponto de destruir a corrida de seus adversários, pode ser um gerador de problemas ao mesmo tempo que uma garantia de resultados. É essa imagem contrastante a do piloto mais agressivo em atividade. E dos mais talentosos.

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09/VI/11

Livio Oricchio, de Montreal

Bom dia.

Escrevo da sala de imprensa do circuito Gilles Villeneuve. Há três anos usávamos uma sala que era inacreditável. Imagine mais de 300 pessoas em duas salas de, vamos dizer, 20 m por 10 m, com mesas, equipamentos, banheiros… impensável. Agora estamos num ambiente bem maior e no nível do paddock, o que é raro e ótimo.

De onde estou, se me levantar, vejo a passagem dos carros na curva logo depois da linha de chegada. Mas temos monitores por todo lado também.

Acabei de marcar os três lugares de praxe: para mim, Luis Vasconcelos, excelente jornalista português, e o italiano Roberto Chinchero, da Autosprint. Sentamos sempre próximos. Excepcionalmente não cobram pela internet no GP do Canadá. Em geral, pagamos cerca de 200 euros pelos quatro dias no circuito. Aqui não, e funciona bem.

Nesse instante, 10h45 para mim, em Montreal, 11h45 no horário de Brasília, há nuvens negras, densas e baixas sobre o autódromo. Posso chamá-lo assim? Já choveu há cerca de uma hora.  Ontem à noite, disse-me a amiga Heike, da Hispania, o vento era tão forte na pista que algumas equipes tiveram de sair correndo atrás de equipamentos que voaram. Dá pinta, agora, de pode ocorrer o mesmo. Tomara que não.

Vim de metrô. Uma estação apenas. Passamos por baixo do rio São Lorenzo e desembocamos já na ilha de Notre Dame, em cujo perímetro se estende o traçado sem graça de 4.361 metros. Por que sem graça? Não gosto de pista onde não haja pelo menos uma seção de curvas de alta velocidade. Aqui é tudo acelera, freia, acelera, freia. Claro, tem seus desafios, como administrar o desgaste de freios e pneus, em especial este ano, mas é diferente do que se exige dos pilotos em “S” de alta, por exemplo.

Da saída do metrô para cá, do outro lado da ilha, é uma bela caminhada. Em geral a navete que serve os jornalistas e vem da cidade para a fim de nos transportar. Ou se alguém te reconhece lá, onde os carros passam quase parando, como regra param e te trazem para onde estou, no paddock.

Este ano foi a van da Lotus. O Luiz Razia estava na van e solicitou que parassem. No ano passado, quem me trouxe foi o Nick Heidfeld, sem equipe, ainda, apenas piloto reserva da Mercedes. Estava inconformado e expressou sua decepção comigo. É uma figura simples, despojada.

A coletiva vai começar. Vou correndo para lá. Até mais tarde. Abraços!

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08/VI/11

Olá amigos:

Escrevo já do meu hotel, em Montreal. Agora passa das 21 horas e a temperatura lá fora deve estar na casa dos 29 graus Celsius. Está quente. Se em condições normais o traçado já é exigente quanto a pneus e freios, estou curiosíssimo para ver como será este ano. Pneus macios e supermacios, de desgaste elevado, e freios que aqui no Canadá trabalham sempre no limite.

Se existe uma corrida em que Sebastian Vettel pode ser vencido na pista é aqui. O tempo que os carros passam em curva no circuito Gilles Villeneuve é muito pequeno, um dos menores do calendário. E há apenas uma curva de média velocidade. O restante é tudo de baixa. Falta o substrato para o modelo RB7 da Red Bull expor suas maiores virtudes: curvas de média e alta velocidade. Em Montreal, nesse aspecto, é mais crítico que Mônaco.

Viajei com o pessoal da Sauber, como de costume, partindo de Zurique, minha base para voos. Por muitos anos, mais de 15, utilizei-me do aeroporto de Frankfurt. Tenho dois amigos, em especial, na Sauber, Francesco e Gianpaolo, os engenheiros de Kamui Kobayashi e Sérgio Perez. Conversamos bastante, em especial com Francesco, com quem, por vezes, saímos para jantar. Sua esposa é brasileira, ex-assessora da Toyota, a competente Fernanda.

Francesco me fez os maiores elogios a Kobayashi. Minha bateria está no fim e estou sem adaptador para o carregador. Emprestei o meu a um colega na Turquia, não o recebi de volta, compreendi apenas agora, e o hotel já distribuiu aos hóspedes os que possuía. Amanhã eu conto a visão do engenheiro de Koba a respeito de Koba.

Gianpaolo foi o primeiro engenheiro de Massa, no seu teste com a Sauber, em Mugello, em 2001. Lá estava eu. Gianpaolo me disse que Sergio Perez esteve na sede da Sauber, em Hinwill, meia hora de carro de Zurique, esta semana, e o viu muito bem. Reclamou um pouco de dor, ainda, na perna direita, mas se sentia em condições de disputar o GP do Canadá. Deve mesmo correr.

O alerta de bateria fraca apitou. Amigos, até amanhã na sala de imprensa. Em Montreal não alugo carro. Vou de metro. De onde estou, é apenas uma estação. Não dá para ir a pé porque é longe e o metro passa em baixo do rio São Lorenzo, bastante largo. Da saída da estação do metro, já na ilha artificial de Notre Dame, onde está a pista, espero o shuttle da imprensa. Você vê vários (três palavras com V) marmotas no parque da ilha. Para ver os castores, um dos meus animais preferidos, basta sair um pouco da cidade.

 Queria lembrar, amigos, que foi o que assistimos aqui, no ano passado, aquele sem número de pit stops, que levou Ecclestone a solicitar à Pirelli pneus de breve vida útil a fim de tornar a competição menos previsível. Como será este ano, então, com pneus que se desgastam mais que em 2010? Você consegue me dizer?

Ah, passaremos a nos encontrar com maior frequência no blog. Tomei algumas providências para viabiliar esse maior contato, como deixar de traballhar para a revista japonesa Autosport. Sobrará mais tempo para nós.

Abraços!

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