15/VII/11
Livio Oricchio, de Nice
Amigos, redigi esse texto em Montreal, creio, e me parece bastante oportuno. Explico como funciona o escapamento aerodinâmico, a grosso modo a física por detrás do recurso.
Em poucas palavras, é assim: Adrian Newey, projetista da Red Bull, posicionou o terminal dos canos de escape sobre o assoalho, não embaixo, próximo das rodas traseiras, um de cada lado. Nessa área, a rotação das rodas provoca um turbilhonamento significativo do ar. É tão intenso que funciona como uma barreira para a passagem do ar que está escoando sobre o carro.
Se fosse possível reduzir esse turbilhonamento, o ar teria menos resistência para percorrer a carenagem do carro e colaboraria decisivamente para gerar maior pressão aerodinâmica. Explico: por chegar em maior velocidade na porção traseira, cria uma zona de baixa pressão imediatamente atrás do carro, o que facilita bastante o escoamento do ar que está fluindo embaixo do assoalho, passando pelo difusor.
É bastante lógico. Não desista. Recomendo a releitura do conceito, que é simples.
Como na parte final do assoalho há, agora, uma zona de baixa pressão, pela maior velocidade do fluxo de ar, o ar que está vindo por baixo do assoalho e passou pelo difusor pode se expandir mais facilmente, ou seja, também ganha velocidade: não há uma barreira na porção detrás do carro impedindo seu escoamento sob o assoalho. Lembra daquele princípio físico: ar em maior velocidade gera menor pressão aerodinâmica. É o caso, aqui.
Não está errado: ar em menor pressão aerodinâmica por fluir mais veloz. Mas sob o carro, por estar escoando mais velozmente em razão de não haver resistência maior depois do difusor. Se a pressão embaixo do carro é menor e em cima é maior, pela MENOR velocidade do ar que percorre o carro na parte superior em relação ao que ocorre sob o assoalho, a resultante aerodinâmica de cima para baixo é maior. Menor velocidade de fluxo sobre o carro, maior pressão aerodinâmica, é o mesmo princípio. Estamos, agora, falando em downforce, ou pressão aerodinâmica, como se diz no Brasil, o que essencialmente se busca na Fórmula 1.
A solução de Newey, como de praxe, é tão simples quanto genial. Ouvi de uma fonte da Pirelli: “Estão aproximando demais o terminal de escape dos pneus. Daqui a pouco vão começar a comprometer a segurança dos nossos pneus.” Disse ter estabelecido a distância mínima de 40 cm entre o terminal de escape os pneus. Só para recordar, os gases saem do escapamento a uma temperatura média de 700 graus Celsius.
Como manter esse fluxo, dentro do possível, constante é essencial para o sistema gerar pressão aerodinâmica de forma regular, a fim de evitar variações que comprometeriam o equilíbrio do carro, ora gerando mais downforce ora menos, tornando-o imprevisível, os engenheiros de motor programaram suas centrais de gerenciamento para que o motor permaneça acelerado, gerando portanto os gases para o sistema funcionar, mesmo quando o piloto tira o pé do acelerador, como nas frenagens.
O fluxo contínuo dos gases permite a geração constante de downforce. E essa força, você sabe, é responsável por freadas mais estáveis, maior velocidade de contorno das curvas, melhor tração, redução de consumo dos pneus, maior longevidade de todo o conjunto, por submetê-lo a menos esforços, decorrente da homogeneidade das forças que atuam no carro.
Dá para compreender por que os projetistas investem tanto na criação de recursos que lhes garanta mais downforce?
Abraços!
14/VII/11
Livio Oricchio, de Nice
Hoje celebra-se a “Prise de la Bastille”, ou a queda da Bastilha, na França. Feriadão nacional. E como é quinta-feira, muita gente vai regressar ao trabalho apenas segunda-feira. Pouco mais de dois séculos se passaram desde que algumas cabeças nada nacionalistas rolaram pelas praças públicas da nação. E tão bom resultados deram ao país, com todos os percalços do movimento revolucionário e no próprio avanço da França.
Pena que em alguns países, apesar do exemplo francês, seus cidadãos fazem vigília nos aeroportos, por vezes de madrugada, para protestar e até agredir os jogadores de seu time por um eventual fracasso numa partida de futebol, mas não são capazes, incluo-me dentre eles, de se mobilizar diante do Congresso para pôr para fora políticos cujas ações lembram integralmente a daqueles indivíduos que geraram a revolta onde estou neste momento, em 1789. Obviamente, da mesma forma, pagariam caro por isso.
O assunto aqui, no entanto, é outro. Infinitamente menos sério: Fórmula 1.
Por fim Stefano Domenicali concordou em assinar o documento que deu unanimidade entre os dirigentes para a FIA poder oficializar a volta do escapamento aerodinâmico. E vejo duas frentes para compreender sua decisão: a primeira é de que a Ferrari está convencida de que o modelo 150 Italia, com as mudanças introduzidas em Silverstone, será capaz de desafiar a Red Bull, mesmo com a volta do escapamento aerodinâmico.
A segunda é que os italianos pagariam um preço elevadíssimo caso fizessem sucesso com o recurso proibido. Já a vitória de Fernando Alonso, em Silverstone, deixou no ar para muita gente um gostinho de desconforto. A equipe ganhou a corrida por causa, principalmente, da perda de performance da Red Bull, decorrente de não usar um dos seus pontos fortes. E, claro, sem esquecer o notável desenvolvimento do carro de Alonso e Massa.
Fico feliz com a definição do caso. Como penso ser saudável para a Fórmula 1 proibir o escapamento aerodinâmico a partir da próxima temporada. A idéia é genial. Clássica de Adrian Newey. Deve ser mantida, jamais vetada durante o campeonato, a exemplo do duto aerodinâmico, da mesma forma inteligentemente concebido pela McLaren no ano passado. Sendo legal, não faz sentido proibir no ano da estreia. Seria coibir a excepcional capacidade criativa dos projetistas.
Mas, depois, diante das conseqüências que gera para a competição, como aumento elevado dos custos para desenvolver seus sistemas, castigando duramente quem não pode investir, faz sentido vetá-las. Desde que a proibição seja anunciada com boa antecedência, nunca durante a disputa.
Portanto, foi bom os representantes das organizações de Fórmula 1 decidirem exigir a instalação dos terminais de escapamento, em 2012, na porção superior da carenagem traseira, como era até 2009.
No ponto de vista prático, faz sentido imaginarmos que a Red Bull volte a dar as cartas, como ocorreu até a corrida na Inglaterra. É verdade, também, que o avanço da Ferrari não foi coisa para inglês ver apenas. Só não estou seguro que tem a extensão imaginada por Domenicali.
A McLaren também volta a ganhar muita performance com o escapamento aerodinâmico. Hamilton já havia dito em Valência que seu time perderia significativo desempenho em Silverstone. Foi mesmo o que aconteceu. Ainda que a simples obrigação de usar o mesmo mapa de gerenciamento do motor no treino classificatório e na corrida, mantido pela FIA, já tenha afetado de forma pesada as escuderias que utilizam motor Mercedes.
Vamos para Nurburgring. Lá teremos as repostas para tudo isso. A minha lógica sugere o que expus. O que você pensa?
Abraços!
10/VII/11
Livio Oricchio, de Silverstone
Não existe comunicado oficial. Mas parece ser apenas o que falta. A proibição do escapamento aerodinâmico, que ontem teve responsabilidade direta no resultado do GP da Grã-Bretanha, pode ser revogada já para a próxima etapa do calendário, dia 24, em Nurburgring, Alemanha. “Sim, houve um acordo entre as equipes”, afirmou, ontem, Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, confirmado, depois, por Charlie Whiting, delegado da FIA: “Tudo ok”.
Stefano Domenicali, da Ferrari, contudo, apesar de ter expressado sua confiança numa definição para o desgastante episódio, deu a entender que nem tudo está 100% acertado, ainda. Na reunião de ontem de manhã, antes da largada, Domenicali e Peter Sauber não concordaram com a volta do recurso. A Sauber compete com motor e câmbio Ferrari.
E depois de ver a sua equipe dominar a corrida de Silverstone, em parte por causa da perda de desempenho da Red Bull e McLaren, provocada pela ausência do escapamento aerodinâmico, é mais que provável que Domenicali esteja pensando se, caso não tenha assinado o acordo, irá mesmo fazê-lo. A FIA distribuiu comunicado, sábado, informando que aceitaria rever a proibição desde que todos os times concordassem.
Quem também lançou dúvida no ar foi Rubens Barrichello, da Williams, escuderia que utiliza motor Cosworth, empresa sem orçamento para desenvolver o seu sistema de escapamento aerodinâmico. “Se eles querem unanimidade não vão ter”, afirmou Rubinho, ao expressar o pensamento de Frank Williams.
Há no ar, portanto, duas informações: a de Ecclestone e Whiting, de que já se chegou a um acordo, e a de Domenicali e da Williams, negando a unanimidade.
Apesar das negativas estratégicas dos pilotos e integrantes da Red Bull, de que o sistema não interveio como se pensa no seu desempenho, ontem, poucos acreditam proceder. Portanto, o que vai acontecer no campeonato nas dez etapas que restam está intimamente relacionado ao resultado desses encontros entre representantes das equipes.
Se o escapamento aerodinâmico for liberado, a Fórmula 1 voltará ao que era até a prova de Valência, dia 26: domínio, por méritos, da Red Bull. Mas se prevalecer a política e o recurso continuar proibido, a competição provavelmente verá Fernando Alonso e Felipe Massa lutando contra Sebastian Vettel e Mark Webber pelas primeiras colocações, nos treinos de classificação e nas corridas. Bom para o campeonato. Péssimo para o moral da Fórmula 1.
Tags: Charlie Whiting, escapamento aerodinâmico, Fórmula 1, GP da Grã-Bretanha, Red Bull, Rubens Barrichello
09/VII/11
Livio Oricchio, de Silverstone

Agora a responsabilidade foi transferida para as equipes. A FIA distribuiu comunicado, há pouco, para informar o resultado da reunião extraordinária do Technical Working Group (TWG), hoje de manhã, quando se discutiu a questão do quanto de aceleração, em frenagem, cada motor poderia ter.
Em outras palavras, se o escapamento aerodinâmico seria permitido novamente, desde que fossem porcentagens elevadas de aceleração, ou proibido, se ficasse nos 10% impostos antes de virmos cá para Silverstone.
Para o treino de classificação, realizado há duas horas, e a corrida, amanhã, todas as equipes deveriam regular meus motores para não ultrapassar 10% de aceleração quando o piloto aciona o freio. A exceção é a Mercedes, com 20%, por ter conseguido provar para Charlie Whiting, delegado da FIA, que sem essa porcentagem mínima de aceleração seus motores se romperiam.
Hoje e amanhã, portanto, o escapamento aerodinâmico está proibido.
Christian Horner, diretor da Red Bull, disse que foi uma derrota de seu time. “Mas há o compromisso de discutirmos novamente o tema antes do GP da Alemanha (dia 24).”
O comunicado da FIA explica que existe a possibilidade de tudo voltar como antes, ou seja, regressarmos ao regulamento de Valência, quando não havia controle dessa aceleração em frenagem e todos desfrutavam do escapamento aerodinâmico, ainda que uns mais outros menos. “Para o escapamento aerodinâmico ser permitido novamente é preciso que todas as equipes concordem” , escreve a FIA.
Mas vamos pensar juntos, amigos. Depois do que vimos hoje aqui na sessão que definiu o grid do GP da Grã-Bretanha, restando ainda, portanto, 11 corridas para o fim do campeonato, contando com a de amanhã, alguém acredita que, por exemplo, a Ferrari vai concordar em voltar atrás?
Alonso ficou a 117 milésimos de Webber num traçado que, em condições normais, tomaria mais de um segundo na classificação. Tudo bem que sua Ferrari tem importantes modificações em Silverstone, mas essencialmente o que explica essa proximidade foi a proibição do escapamento aerodinâmico que, por enquanto, atingiu a Red Bull provavelmente mais do que eles próprios imaginavam.
Se o que vimos hoje aqui tem mesmo representatividade, é bom não esquecer que foi apenas uma classificação, dá para pensar que em outros traçados menos favoráveis à Red Bull a Ferrari possa sonhar em largar na pole position. Se levarmos em consideração que o ritmo de corrida da Ferrari já era bom em relação à Red Bull, com as restrições impostas agora pela FIA pode ser que amanhã Alonso e Massa enfrentem mesmo Vettel e Webber em condições semelhantes.
A dúvida é como a Ferrari vai se comportar quando colocar os pneus duros. Em Barcelona, passou a tomar um segundo por volta da Red Bull. Alonso disse, ontem, que nas 5 ou 6 voltas que deu com os pneus duros, hoje de manhã, sentiu notável evolução. A conferir, amanhã.
Isso tudo para dizer que duvido muito que a Ferrari, quietinha até agora, vá desejar voltar ao que vivíamos até Valência. A nova regra, ao que parece, a favoreceu e afastou a McLaren da luta também. Curiosamente Hamilton já havia previsto na corrida anterior. Vocês viram a diferença de Button e Hamilton para Webber. Vamos lá: 1 segundo e 499 milésimos e 1 segundo e 977 milésimos. Um universo de extensão!
O momento parece ser, a julgar pelos ensinamentos de hoje, não conclusivos, por favor, dos italianos.
Eu e muita gente se surpreenderia muito se no GP da Alemanha a Renault, marca do motor da Red Bull, poderá aumentar seu percentual de aceleração em frenagem por causa de todas as equipes concordarem em voltar ao regulamento de Valência. E as escuderias que competem com motor Cosworth, Williams, Marussia Virgin e Hispania também não vão desejar ver a Red Bull voar na classificação e as expor ao risco de ficar de fora das corridas por causa da exigência de tempo 107% do pole position. A Williams foi muito bem ontem, com Pastor Maldonado, 7.º no grid. A Cosworth não tem dinheiro para desenvolver seu escapamento aerodinâmico.
Em resumo, amigo, se com as mudanças que Newey vai introduzir no carro a Red Bull não se tornar mais veloz, o que assistimos neste sábado aqui em Silverstone demostrou ser possível pensarmos em lutas pela pole position e pelas vitórias nas corridas. Não quer dizer uma reviravolta no campeonato porque a vantagem da Red Bull é considerável, mas provas mais emocionates quanto à briga pelas primeiras colocações, com Vettel e Webber enfrentando maior resistência.
Faz sentido acreditarmos nisso.
Abraços!
Tags: Charlie Whiting, Christian Horner, Cosworth, escapamento aerodinâmico, Ferrari, FIA, Fórmula 1, GP da Grã-Bretanha, Mark Webber, Mercedes, motor, Red Bull, TWG
09/VII/11
Livio Oricchio, de Silverstone
Amigos, ouvi de Christian Horner, diretor da Red Bull, que para a classificação e a corrida, amanhã, as coisas não vão mudar. Ou seja, as equipes Renault, Red Bull e Lotus, que competem com motor Renault, poderão manter apenas 10% do acelerador aberto nas frenagens, assim como as que têm motor Ferrari e Cosworth. Já as que utilizam motor Mercedes, 20%, por razões de confiabilidade do motor, segundo Charlie Whiting, delegado da FIA.
Horner disse numa tumultuada entrevista que aceita “momentaneamente” a desvantagem para a Red Bull, mas estabeleceu com Whiting o compromisso de rever a regra nos próximos dias, antes do GP da Alemanha, próximo do calendário, dia 24, em Nurburgring.
Ao menos conhecemos o regulamento para o restante do fim de semana. Mas a história está longe de terminada. A Red Bull até estuda um protesto oficial se não houver acordo, que seria julgado pelo tribunal de apelo da FIA.
Vamos assistir à classificação que é o que mais importa. O treino dessa manhã, realizado com 10% de aceleração, ainda que não conclusivo, deu a entender que a Red Bull poderá perder mais do suposto inicialmente. Mas a sessão teve muitas variáveis, como a aderência do asfalto mudar, e não permitiu leituras mais apropriadas.
Abraços!
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09/VII/11
Livio Oricchio, de Silverstone
Charlie Whiting, delegado da FIA, enviou agora de manhã documento às equipes que competem com motor Renault, a própria equipe, Red Bull e Lotus, informando que a concessão de utilizar 50% de aceleração nas frenagens, estabelecida ontem, não vale mais. Terá de ser apenas 10%, conforme decidido previamente pela FIA. Já a permissão à Mercedes de manter 20% de aceleração continua válida.
É isso mesmo que você acabou de ler. A FIA voltou atrás. Como, aliás, tem sido sua rotina. Fica o dito pelo não dito e não dito pelo dito.
Mas é bom não acreditarmos totalmente que a história terminou. O histórico do episódio sugere prudência.
Hoje de manhã, Whiting com representantes das equipes, discutiram uma forma de atender os interesses de cada fabricante de motor. E, obviamente, não foi possível chegar a uma solução de consenso. Cada um tem suas características.
A expressão de Christian Horner nesse momento, 10 horas para mim, 6 horas de Brasília, no muro dos boxes, é reveladora do que aconteceu há instantes: a Red Bull perdeu a batalha. O motor Renault não poderá acelerar mais, nas frenagens do carro, de 10% da aceleração que utilizava em 2009, para aquela condição, quando o escapamento aerodinâmico não existia. Enquanto a Mercedes pode atingir 20%.
A razão para a política distinta da FIA é que, para Whiting, o argumento da Mercedes, de que seu motor vai quebrar sem os 20% procede, enquanto o da Renault, sem os 50% não tem comprometimento de resistência.
Difícil acreditar que haja mesmo um motivo técnico comprovando tudo isso. Parece mais uma decisão política que visa a conter o desempenho da Red Bull, como foi a de proibir o escapamento aerodinâmico.
Vejo Adrian Newey e Christian Horner caminhando pelo paddock com pastas nas mãos, bem como a chegada de Jean Todt, presidente da FIA. Como escrevi, a história não acabou.
Enquanto isso, os carros prosseguem o terceiro treino livre. Pista seca, depois úmida e agora novamente, pelo que compreendo, seca. Depois da bandeirada o clima cai esquentar.
Abraços!
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08/VII/11
Livio Oricchio, de Silverstone
Que o tema era complexo já se sabia. Os próprios fabricantes de motor, Mercedes, Ferrari, Renault e Cosworth, já haviam alertado a FIA. Estabelecer um valor de aceleração para todos não funcionaria. E foi o que aconteceu ontem, depois dos primeiros treinos livres do GP da Grã-Bretanha, em Silverstone, realizados sob chuva. Felipe Massa, da Ferrari, registrou o melhor tempo.
Hoje será disputada a sessão de classificação. Mas até ontem, tarde da noite, por incrível que possa parecer, ninguém tinha certeza sob qual regulamento. Representantes da Mercedes e Renault alegaram que seus motores, com o valor estabelecido pela FIA, iriam se romper.
A FIA ordenou, na prática, o fim do chamado escapamento aerodinâmico a partir já dos treinos de ontem, ao exigir que todo motor não elevasse mais de 10% sua aceleração quando o piloto tirasse o pé do acelerador. Até a prova de Valência, há duas semanas, cada equipe definia a aceleração de acordo com sua conveniência. Essa aceleração extra automática ajudava a gerar pressão aerodinâmica por causa da posição dos terminais dos canos de escape na traseira do carro.
Ocorre que Ross Brawn, da Mercedes, alegou que seu motor utilizava 20% de aceleração em 2009, quando não havia o escapamento aerodinâmico. Uma redução colocaria em risco a confiabilidade do motor alemão. Charlie Whiting, delegado da FIA, acatou o pedido. A Renault fez o mesmo com Eric Boullier, seu diretor. E foi além. Demonstrou necessitar de 50% a mais de aceleração. O pedido da Ferrari era desconhecido ontem.
Como Whiting tinha os mapas de gerenciamento dos motores de todos os times em 2009, não lhe restou alternativa a não ser concordar com os pedidos. Procediam. Estabeleceu-se 50% para todos. Não mudaria nada em relação ao que já existia. A Red Bull não seria afetada, propósito do fim do escapamento aerodinâmico.
Aí a chiadeira dos times que correm com motor Cosworth, Williams, Marusia Virgin e Hispania, foi geral: não dispõem do recurso na prática.
A reunião de ontem à noite procurou estabelecer parâmetros que atendam os interesses de todos, como se fosse possível, para as equipes adotarem já hoje, no treino da manhã. O clima do encontro foi tenso. Hoje deverá ser anunciada a decisão final da FIA. Os carros devem começar o treino livre com aceleração máxima em frenagem de 50%, conforme autorizado ontem por Whiting. Mas a história não vai terminar aí.
Jean Todt, presidente da entidade, está em Paris e louco da vida, segundo uma fonte. É desgaste demais para a FIA e sua gestão. São indefinições, hesitações demais. Como já havia ocorrido com o cancelamento, a reativação e o novo cancelamento do GP de Bahrein. Todt pode assumir uma postura ditatorial e fazer todos a acatarem. O que está faltando à Fórmula 1 é uma liderança forte que coordene a criação de regras claras e depois cobre o seu cumprimento com rigor.
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08/VII/11
Amigos, é inacreditável o que está acontecendo aqui em Silverstone nesse momento, 19h30 para mim, 15h30 horário de Brasília.
Os representantes das equipes, acompanhados de seus técnicos de motor, estão reunidos para discutir a questão do escapamento aerodinâmico. Tudo o que noticiamos até agora, nos últimos dias, pode não ser bem assim. É verdade!
Só para recordar: a FIA estabeleceu que a partir desta prova, o GP da Grã-Bretanha, os motores poderiam permanecer apenas 10% acima da aceleração normal quando os pilotos retirassem o pé do acelerador. Até a prova de Valência, os engenheiros de motor regulavam a central de gerenciamento de forma a manter aceleração mesmo com o pedal do acelerador não acionado.
O objetivo era continuar emitindo gases no escapamento para gerar pressão aerodinâmica, em razão de seu posicionamento na porção traseira do carro. Há um post que explico em detalhes a questão.
Parecia claro. Mas não é. Mercedes e Renault alegam que com os 10% seus motores podem quebrar. Por isso, Charlie Whiting concordou com a solicitação da Mercedes: 20% a mais de aceleração. A Renault alegou ser necessário 50% de aceleração para seu motor também não se romper. E é isso que estão discutindo agora. Estão todos lá.
Senhores, a FIA está perdida. Não sabemos o regulamento não do ano que vem, mas do treino de amanhã. Vou permanecer até tarde aqui a fim de tentar obter mais informações. O fato é que já é possível concluir que haverá concessões. Em resumo, amigo, está cheirando uma coisa: não deve mudar quase nada em relação ao que estamos assistindo na temporada.
Se for mesmo assim, se Jean Todt, que soube de fonte segura está louco da vida, não aparecer aqui e determinar ditatorialmente “será assim e acabou”, os escapamentos aerodinâmicos continuarão existindo. Nesse instante essa é a situação. Se terminar assim, se terá feito justiça ainda que sem desejar.
Nos falamos.
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24/VI/11
GP da Europa
Livio Oricchio, de Valência
O delegado da FIA, Charlie Whiting (foto), recebeu fogo cruzado da imprensa internacional, ontem à noite, em Valência. Jornalistas das mais distintas nações lhe perguntaram a razão de a entidade decidir, depois de oito corridas, mudar o regulamento, o que, em princípio, tende a afetar diretamente a Red Bull, equipe do líder da competição, Sebastian Vettel. “Sei que há pessoas que acreditam em motivo político. Mas afirmo ser técnico. E me sinto bastante confortável para dizer isso.”
A partir de hoje, na classificação do GP da Europa, em Valência, oitavo do calendário, as equipes terão de adotar o mesmo ajuste eletrônico do motor de amanhã, na corrida. E a partir da etapa seguinte do campeonato, em Silverstone, Inglaterra, dia 10, o chamado escapamento aerodinâmico vai ser proibido. “Nós não mudamos as regras. Apenas estamos impedindo que pessoas as burlem”, disse o inglês. “E também não proibimos o escapamentos como são usados hoje, apenas o limitamos a fim de evitar seu uso com propósito aerodinâmico.”
Se a prova de ontem fosse de retórica, Whiting teria sido aprovado com louvor. Suas explicações parecem convincentes. Existe, mesmo, um bom motivo técnico, como defende o ex-mecânico da Brabham, para rever a aplicação da regra. Mas, ao mesmo tempo, quem conhece a história da Fórmula sabe que os interesses políticos costumam ser tão superiores que a sua associação com a medida adotada agora pela FIA é inevitável. E, com elevada probabilidade, procedente.
Os times descobriram que poderiam usar os gases do escapamento para gerar maior pressão aerodinâmica. A Red Bull é quem melhor desenvolveu o sistema e explica, em parte, sua hegemonia no Mundial. Nessa projeção, Vettel poderia definir a conquista do título bem antes do fim do campeonato, o que é ruim para os interesses da Fórmula 1. Seu universo de telespectadores tende a se reduzir bastante.
O que ninguém entende, a não ser os adversários da Red Bull, é por qual motivo a FIA esperou a temporada caminhar para uma definição para então agir. “Em primeiro lugar, não houve uma reclamação formal de ninguém. Apenas uma escuderia nos solicitou para ver o que poderia ser feito”, contou Whiting, sem citar o nome. Hispania, Marussia Virgin e Williams correm com motor Cosworth, que não têm recursos financeiros para desenvolver um sistema eletrônico que permita o uso do escapamento aerodinâmico como os demais times. Sabe-se que foi uma dos três.
O tema é polêmico, falou o inglês, o que dava às equipes a oportunidade de defender sua legalidade. “Mas antes de Barcelona (dia 22 de maio, quinta do ano), as avisamos que não poderiam seguir adiante com suas idéias”, disse o delegado. “Isso em razão de vermos a escalada no uso do sistema. Foi assim com o amortecedor de massa da Renault, em 2006.”
Naquela ocasião, a FIA o proibiu a partir do GP da Hungria, quando a Renault estava em boa condição de ser bicampeã com Fernando Alonso. A exemplo de agora, ficou no ar a forte suspeita de que a FIA interveio para estender a definição do título até as etapas finais. Em 2006, apesar da perda de desempenho, Alonso ainda conseguiu ser campeão no GP do Brasil, último do calendário. Este ano, Vettel tem boa vantagem sobre Jenson Button, da McLaren, 161 a 101, e ainda restam 12 corridas com a de amanhã.
“É impossível saber quanto a Fórmula 1 ficará mais lenta com a limitação, mas os técnicos pensam em meio segundo. Algumas equipes um pouco mais outras menos”, comentou Whiting. Adrian Newey, projetista da Red Bull, mostrou sua indignação ao Estado, ao comentar a decisão: “Aceito mudar o regulamento por uma boa razão, como segurança, o que não é o caso, agora. É um absurdo.”
Nos treinos livres de ontem, Alonso confirmou a boa adaptação do carro da Ferrari aos 5.419 metros do circuito de Valência e fez o melhor tempo do dia. Hoje, na definição do grid, é enorme o interesse sobre o rendimento de Vettel e seu companheiro, Mark Webber, para se conhecer o quanto a primeira mudança do regulamento afetará a Red Bull. É possível que seja um pouco mais difícil para Vettel ou Webber continuarem estabelecendo todas as pole positions do campeonato.
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23/VI/11
GP da Europa
Livio Oricchio, de Valência
Amigos:
Ouvi hoje aqui no lindo paddock do circuito de Valência, localizado à beira mar, como Mônaco, mas com muito mais espaço, os integrantes da Red Bull. Falaram Sebastian Vettel, Mark Webber e Christian Horner. Já Adrian Newey (foto), o maior atingido com a mudança das regras, por ser ele o criador do conceito que seu time tão bem desfruta, e depois copiado pelos outros, foi poupado.
Estava com sua nova namorada, no andar de cima do incrível Enegy Station da Red Bull, o motorhome com 30 metros de frente e três andares. Aberto à imprensa. O saudei de longe e depois, quando foi para a parte dos boxes, uma boa caminhada, conversei sozinho com ele. Paramos na entrada posterior dos boxes e prosseguimos o papo. Vários colegas me vieram perguntar o que Newey falou.
Há momentos em que é difícil ser jornalista. Pena que não posso escrever o que me disse. Tampouco usar o tom das declarações. No fim da conversa, apenas disse-me: “Do que te falei você pode escrever isso e aquilo, mas não isto, isto, isto…”, ou seja, quase tudo, “não!” Newey sente-se realmente atingido com a proibição do escapamento aerodinâmico.
Já disse aqui, conheci Newey num teste de pneus, em fevereiro de 1989, no Rio, quando era o projetista da March. Não desejo, por favor, passar nenhuma ideia de que há uma amizade entre nós. Mas uma relação profissional que por vezes permite desabafos como o de hoje, agora há pouco, por saber que eu cumpriria a soliticação de guardar para mim. Não me critiquem. Jornalismo é isso. Foi, é e sempre será assim.
Redigi esse texto a partir do que ouvi do pessoal da Red Bull e o enviei para o Estado.
Parece coisa combinada. E, na realidade, é: os pilotos da Red Bull, Sebastian Vettel e Mark Webber, junto do diretor técnico da equipe, Adrian Newey, foram políticos, ontem no circuito de Valência, ao abordar a proibição do chamado escapamento aerodinâmico a partir da próxima etapa, o GP da Grã-Bretanha, dia 10. A medida pode afetar sensivelmente seu time, por ser o que melhor desfruta dos benefícios do recurso. Existe até a possibilidade de a mudança de forças na Fórmula 1 ser significativa. Hoje começam os treinos do GP da Europa. A prova de Valência representa o terceiro circuito de rua seguido do calendário. Antes a competição esteve em Mônaco e em Montreal.
“Você quer saber em on ou em off?”, foi como respondeu Adrian Newey, projetista da Red Bull, com exclusividade ao Estado, ontem, as ser questionado sobre o que pensa da alteração da regra no meio da temporada. Mas já na prova de Valência há outra mudança: as escuderias não vão poder mexer no ajuste eletrônico dos motores entre o treino classificatório, amanhã, e a corrida, domingo. A Red Bull e a Renault também têm um sistema mais avançado que o da concorrência para utilizar o motor como elemento de geração de maior pressão aerodinâmica.
Newey, profundamente contrariado com a decisão da FIA, evitou polêmicas. Por enquanto. Mas se a Red Bull perder muito desempenho, já que concebeu seu carro para aproveitar as importantes vantagens do escapamento aerodinâmico, o discurso vai ser outro. E bem agressivo. “É impossível saber o que vai acontecer. Precisamos esperar sábado, aqui, e depois Silverstone”, disse Newey. Christian Horner, diretor da Red Bull, respondeu ao Estado: “Diretamente, a decisão da FIA foi baseada num aspecto técnico. Indiretamente, você deve perguntar à FIA”.
Os adversários da Red Bull não escondem a satisfação com a medida. É mesmo possível que as cartas se embaralhem, como desejam os homens que comandam a Fórmula 1 e a definição do título se estenda mais para o fim do campeonato. “Não posso dizer que não estou contente”, afirmou Martin Whitmarsh, diretor da McLaren. Uma fonte da Red Bull comentou que “importantes integrantes da McLaren, Mercedes e Ferrari pressionaram Charlie Whiting (delegado da FIA) para aplicar o regulamento ao pé da letra e proibir o escapamento aerodinâmico”.
O recurso usa os gases do escapamento para criar uma espécie de túnel a fim de permitir que o ar que escoa embaixo do assoalho flua sem maior resistência, gerando maior pressão aerodinâmica sobre o carro. De fato, o regulamento proíbe sua aplicação com esse fim, mas é do conhecimento da FIA o uso dos gases com esse propósito desde o ano passado e por vários times.
O atual campeão do mundo, Vettel, seguiu a linha dos demais membros da Red Bull. Ele venceu cinco das sete etapas realizadas este ano e foi segundo nas outras duas. Lidera o Mundial com 161 pontos diante de 101 de Jenson Button, da McLaren. “No passado já foi assim também. As pessoas acham que temos algo mágico no carro. Nossa eficiência vem da harmonia do conjunto e não de uma solução isolada.” E completou: “Não acho que vamos perder muito desempenho”. Seu companheiro, Webber, lembrou: “Há sempre algo que flutua no ar no nosso esporte, não?”, falou ao Estado. “Por que não nos foi dito antes de o campeonato começar?”
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