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Texto redigido ainda no Japão. Não incluí aqui propositalmente a viagem de Nagoya a Kyoto, onde visitei seus templos. Nos próximos dias colocarei no ar, com várias fotos, o capítulo de Kyoto.

Sábado, 8 de outubro de 2006. São 22h05. Acabo de chegar do circuito de Suzuka. Estou na cidade de Yokkaichi, distante cerca de 30 quilômetros. Sabe que horas deixei a sala do imprensa do autódromo? 18h15. Atravessei o paddock, aquela área grande, no caso de Suzuka nem tão extensa assim, atrás dos boxes, e aguardei por 40 minutos o miniônibus que nos leva até o hotel do circuito, de onde partem os ônibus para as três principais cidades que acomodam os jornalistas, Shiroko, Yokkaichi e Tsu.
O ônibus para o transporte a esses municípios permaneceu parado no tráfego intenso ao redor da pista e só pôde nos buscar uma hora mais tarde do programado. A seguir, o mesmo acúmulo de carros exigiu outra hora e dez minutos para o motorista nos deixar na praça da estação de trem de Yokkaichi. Em resumo: só para voltar para o meu hotel necessitamos 4 horas. Hoje, pela manhã, o ônibus também atrasou por causa do trânsito e demoramos, no total, 1h50 até atingir a sala de imprensa.
Some essa 1h50 ao tempo gasto para regressar ao hotel e verá que hoje, sábado, os jornalistas que estavam em Yokkaichi perderam 5h50 entre ida e volta ao autódromo de Suzuka. Sem a paciência oriental não há saída. Desde 1991 venho para estas bandas e nunca, como hoje, a demora foi tão grande. Claro que enquanto aguardávamos o ônibus no hotel do circuito, reservado basicamente às equipes, aproveitamos para jantar. E bem. O Japão está mais barato. Depois voltarei ao tema.
Não é difícil compreender esses problemas que acabam por afetar a todos. Há a perspectiva de quebra de recorde de público amanhã, dia da corrida. Jamais vi tanta, mas tanta gente. Na saída do autódromo, faz parte da gostosa tradição desta prova os fãs dos pilotos aguardarem que saiam. A maioria não pára para atendê-los, provavelmente seria até perigoso, diante do número de fãs e sua eloquência pela Fórmula 1. Jenson Button foi a exceção. Como sempre é sensível a essas questões. Eu o admiro.
Mas quem gosta de tudo o que cerca a competição, como eu, acompanhar de perto essa devoção ao ídolo é emocionante. Suas demonstrações de apreço, amor diria, contrapõem-se à postura sempre discreta dos japoneses. Os dias de Fórmula 1 em Suzuka parecem ser de libertação também. Geram reações extremas de desprendimento, ausência daquilo que penso acompanha esse povo de características tão peculiares: autopoliciamento.
Milhares se acumulam nos pontos de afunilamento para entrada ou saída da pista. Eles têm bandeirinhas das nações de seus ídolos, usam camisa e boné de suas equipes, trazem consigo uma pastinha, toda trabalhada com fotos, recortes de revistas e um campo livre onde o piloto deve inserir seu autógrafo. Já vi piloto atentar para essas pastinhas e emocionar-se com o que foi feito apenas para receber seu autógrafo. Heinz-Harald Frentzen, por exemplo.
Os policiais, sempre com muito civismo, têm dificuldades para disciplicar os fãs quando surge Kimi Raikkonen, por citar. Aliás, ele e Jenson Button são os que mais reúnem torcedoras no Japão, tamanho o número de bandeiras da Finlândia e Inglaterra observadas em todo lado. A corrida de Suzuka este ano tem muitos apelos, como a possibilidade de definir o campeão do mundo, última apresentação de Michael Schumacher para os japoneses, estréia no Japão da escuderia totalmente japonesa, Super Aguri, além de ser, ao menos por enquanto, a última edição do GP do Japão no autódromo da Honda. O evento irá, a partir de 2007, para o circuito de Fuji, de propriedade da Toyota.
Há gente do Japão todo em Suzuka. O número de carros na cidade mais que duplicou, segundo residentes na região, que tem elevado número de brasileiros de origem japonesa trabalhando nas indústrias automobilísticas e de autopeças, basicamente. Infelizmente nem todos têm os mais elevados propósitos. Em conversa com alguns deles, ficamos sabendo do envolvimento de certos cidadãos em crimes de roubo. A loja de conveniência AM PM localizada na praça da estação de Yokkaichi tem um placa com os dizeres, em português: “Esta loja, polícia está rondando.” Não é lá o melhor uso do idioma, mas não deixa de ser reveladora da existência de antecedentes com alguns maus exemplos de brasileiros no exterior.
Ah, me lembrei de dizer a mim mesmo para não esquecer de uma passagem experimentada ainda há pouco. Esperar o microônibus para ir do paddock ao hotel do circuito não é “privilégio” da imprensa. Estavam lá também Keke Rosberg, seu filho, Nico, piloto da Williams, e o divertido Nigel Wilhomen, relações públicas da Philip Morris e showman. Isso mesmo, no evento da Ferrari em Madonna di Campiglio, em janeiro, Nigel sobe no palco na última noite e dá um show de canto e dança. É uma figura querida na Fórmula 1.
Mas voltando. Conversávamos, eu e essas pessoas. Disse a Keke que me recordava de uma passagem no GP do Brasil de 1980. Keke era o companheiro de Emerson Fittipaldi no time brasileiro, que viveu naquele ano sua temporada mais bem estruturada, já que havia adquirido a equipe Wolf. “O Emerson me chamou para uma reunião na segunda-feira de manhã em seguida à corrida de Interlagos. Achei que seria dispensado”, me contou Keke. Nico, seu filho, não sabia da história, e riu.
Na prova, Keke ultrapassou Emerson, diante da sua torcida, na pista onde foi formado, Interlagos, o que acabou por desagradar demasiadamente o então bicampeão do mundo. “Não fosse o Wilson Fittipaldi eu teria perdido o emprego na segunda corrida do ano. E na abertura do Mundial, na Argentina, etapa anterior, eu consegui o terceiro lugar. A diretoria do time estava toda lá no encontro. Foi o Wilson que se impôs publicamente ao Emerson para evitar a minha dispensa”, me contou o Keke. O Nico, que disputou bela classificação, hoje, uma das suas melhores – não é o seu forte -, só ouvia, espantado. Finalmente o microônibus chegou.
Mas antes de falar da minha semana aqui no Japão, gostaria de atravessar o Mar do Japão e da China para sobrevoar Xangai novamente. Um aspecto da cultura local me chamou a atenção desde a primeira vez que fui à China, há 24 anos, como turista, e confirmada nas duas oportunidades em que lá estive depois, como esta, agora, do GP em Xangai. Com tanta gente como há no país, para onde você olha há sempre muitos cidadãos. As ruas de Xangai são tomadas de motocicletas, ciclomotores e bicicletas. Muitas mesmo.
Eles se tocam, por exemplo, na abertura dos semáforos. O que me impressiona é que não se observa aquele canibalismo que poderíamos esperar em sociedades ultracompetitivas como a chinesa. Ao contrário, percebe-se até uma certa solidariedade entre seus indivíduos. As motos se tocam de leve, por estarem lado a lado, centenas, em geral não há consequência por encontrarem-se em baixíssima velocidade, e em seguida cada um vai para o seu lado, sem ressentimentos, aparentes ao menos.
Uma das coisas que mais me desgasta em São Paulo é exatamente essa ausência de solidariedade. Se você está numa faixa de trânsito e necessita mudar, não adianta sinalizar com o pisca, colocar a mão para fora, terá dificuldades. Isso para não falar na milícia dos motoboys que se te encontrarem pela frente trocando de faixa você corre sérios riscos. Como já vi acontencer.
Aqui no Japão é, da mesma forma, bastante respeitosa essa relação mútua entre seus indivíduos. Com o agravante de o nível médio da sociedade ser bem elevado. Mais pessoas estão melhor preparadas para exercer funções importantes. E também não há animosidade aparente entre seus cidadãos, apesar de, em essência, disputarem o mesmo espaço na sociedade. Sinto em São Paulo, ao menos, maior agressividade no trânsito, sensação que não me domina aqui. Claro que não é lei, por vezes nos deparamos em minha cidade com gestos de tamanha grandeza que nos toca a alma, mas me desgasto, nesse sentido, mais no Brasil, assim como meus amigos que vivem mais fora do país como eu.
Ainda sobre a China, voltar do circuito de Xangai para o hotel no centro da cidade foi uma epopéia para um grupo de jornalistas no qual me encontrava. Não posso deixar de falar do que o Michael Schumacher fez na corrida. Senhores, por mais que em algumas ocasiões esse alemão tenha jogado pela janela tanto de notável que fez, por não ser o melhor exemplo de bom perdedor, não há como não enaltecer em extremos seu espetáculo-solo no GP da China. Quem gosta desse negócio corrida de carro deve, necessariamente, deixar de lado pré-julgamentos sobre Schumacher e vê-lo apenas como piloto lá em Xangai. Se a pessoa tiver a mais mínima noção dos desafios que representa desenvolver um trabalho como o realizado por ele ao longo das 53 voltas da competição não terá como não dizer “Parabéns, homem, hoje você me encantou.” Essa mesma pessoa pode até, depois, resgatar seus princípios e dizer: “Pronto, volta a ser o vigarista que é.”
Como eu contesto os que pensam assim. Longe de deixar de reconhecer, por favor, seu antiesportismo de várias ocasiões na Fórmula 1. Mas quem costuma contrapô-lo a outros pilotos utilizados como exemplos de conduta não leva em conta o histórico desses mesmos pilotos. Todos, da mesma forma, envolvidos em incidentes da mesma natureza antiesportiva e condenável. Mas esse é outro discurso.
Voltando. E resumindo: não havia como regressar do autódromo para Xangai. O pessoal da organização tentou chamar táxis, nos levaram a um ponto distante da pista, onde supostamente havia táxi, e nada. Regressamos ao circuito quando, por fim, à 1h30 surgiram os táxis. O problema é que vários jornalistas estavam com passagem reservada para aquele mesmo novo dia já, segunda-feira, de manhã. O tempo disponível foi suficiente apenas para chegarmos no hotel, tomar uma ducha, comer umas bolachinhas existentes no quarto, preparar a bagagem e, sem dormir, nos deslocarmos para o aeroporto. No vôo de Xangai para Nagoya, pouco menos de 3 horas, não teve um da turma que tomou café da manhã no avião. Todos roncavam literalmente.
Pousamos em Nagoya. Que diferença em relação à China, não? São contextos históricos, culturais e econômicos distintos, não dá para comparar, mas tem-se a impressão de entrar no paraíso. Tudo é exemplarmente limpo, disciplinado, organizado. E o melhor, agora: não custa irrealmente caro mais viajar por esse interessantíssimo país. Troquei por bom tempo praticamente 1 dolar por 100 ienes. Você trocava mil dólares e tinha a impressão de ter trocado apenas 100, tal a velocidade com que o dinheiro acabava.
Agora começa pelo fato de eu trazer euros. E 1 euro equivale a 147 ienes. Além, portanto, de os próprios valores em si no Japão, em iene, não terem subido nada nos últimos três anos, você trazer uma moeda, o euro, que a cada 1000 recebe de volta 150 mil ienes é bem diferente de antes. Dá para comer bem e gastar apenas 40 euros, o que não é diferente do que gasto na Europa. Antes era comum entre nós jornalistas rirmos ao citar o quanto gastamos para comer uma prato qualquer. No restaurante aqui do hotel do circuito, nunca gastei menos de 70 dólares, para comer como um pintinho. As porções são modestas. Ontem, enquanto aguardava o ônibus para ir a Yokkaichi, jantamos e o custo foi 5 mil ienes, ou 35 euros mais ou menos. Tá certo que as porções continuam sendo para codornas e o jeito é reforçar com um belo sorvete, bem feitos aqui.
O que comi? Estava um pouco cansado do cardápio oriental e enveredei por um risoto de funghi (cogumelos) e peixe espada grelhado com batatas. Comeria outra porção igual àquela, fácil, o que equivaleria a uma porção da Europa, na Itália, ao menos. A França não entra nesse grupo. Desconfio haver uma aliança secreta entre franceses e japoneses para tentar influenciar o mundo a comer porções equivalentes às das andorinhas. Proponho um contra-movimento: em passeatas poderíamos, por exemplo, caminhar com pires de pequenas xícaras na mão, como quem diz: “O que desejam nos oferecer caberia aqui, nesse pires, senhores. Juntem-se a nós e venha defender seu direito de comer como um hipopótamo.” Não, hipopótamo não. Seria o reverso da história e perderíamos toda a razão. Ajude-me a pensar em algo compatível com o que pretendo dizer, por favor. Combinado?
Obviamente dormi com o laptop apoiado sobre as pernas enquanto escrevia. Retomei o texto na sala de imprensa neste domingo de manhã. A parede frontal desta sala é de vidro, imensa. Temos a visão da reta dos boxes, dos próprios boxes sob nós, e das arquibancadas que se estendem ao longo da reta. Há faixas para todos os lados. Vou ler algumas para vocês, da esquerda para a direita, em não de cima para baixo e da direita para a esquerda, como fazem aqui no Japão. Também não domino o katakaná, hiraganá e kanji, formas de escrita utilizadas no país. Deixe-me ver…essas aqui: “Go, go Takuma”, “Thank you Suzuka”, Michael forever”, “Danke Michael”.
O céu está azul mas venta muito forte mesmo. Sopra do Norte. Aqui da parte mais alta do circuito observo o Sul e vejo o mar, distante cerca de 4 quilômetros, na direção de Shiroko. Uma vez fui conhecer a praia deles. Quase não há. Poucos a utilizam. No horizonte Norte há uma formação densa de nuvens. Como o vento sopra no sentido Norte-Sul, penso ser bem possível termos a corrida disputada com o céu encoberto. Tomara que não chova.
A chegada ao circuito, hoje, foi no melhor estilo Suzuka. Pontualmente às 8h40 o ônibus estava na praça da estação de trem de Yokkaichi. Cerca de 40 jornalistas o esperavam. A maior parte embarcou nos que saíram mais cedo. Pelas dificuldades de regressar que lhes contei optei por esse das 8h40. Estava cansado, pô! Eu e o grupo todo que perdeu 4 horas para sair do autódromo ontem.
Em uma hora e 15 minutos estávamos no hotel do circuito. Maravilha. Agora, sempre que no GP do Japão você pensar que seus problemas estão minimizados tenha a certeza de que se enganará. Como foi o caso. Depois de esperarmos por cerca de 15 minutos o miniônibus para nos levar ao paddock, uma japonezinha saiu correndo de dentro do lobby do hotel, com luvinhas brancas, para dizer: “Prease, prease, no suttle, no suttle”, enquanto abaixava a cabeça em sinal de respeito.
Não adiantou nada lhe perguntarmos sobre o porquê de os microônibus não estarem funcionando. Não conheço nação no mundo, e olha que a Fórmula 1 já me deu a oportunidade de viajar muito, onde as dificuldades de comunicação são tão grandes quanto no Japão. Você não se fazer entender em questões básicas te desgasta bastante. Vou dar um exemplo: acreditar que você pode ligar do quarto do hotel para a recepção a fim de pedir para te acordar determinado horário é imaginar que de um instante para o outro se desenvolverá na classe política brasileira o espírito nacionalista em substituição ao individualista.
Não adianta. Não imagine, também, que você irá, vamos dizer, para o Information Desk da imensa estação central de trem de Nagoya e as atendentes irão lhe compreender. Ou ainda que você poderá manter uma conversa com um motorista de táxi. Nunca. Se ele entender onde você deseja ir, agradeça aos céus. Não estou exagerando, é a mais pura realidade. E não adianta fazer mímica porque da mesma forma você não se fará compreender.
Lembro-me de uma ocasião eu ter de colocar o quimono que todo hotel lhe oferece, bem como os chinelinhos típicos, uns quatro números menor que o seu, encontrar uma folha de papel nas minhas coisas e descer para a recepção do hotel. Foi em Tsu, se não me engano. Desenhei um relógio em que o ponteiro maior indicava as 12 horas e o menor, 7. Em outras palavras, necessitava acordar às 7 horas.
Para completar a minha representação fechei os olhos e reproduzi o barulho de um despertador…triiiimmmm….triiiimmmm…. Em seguida, abri os olhos, devagar, remexi os cabelos, simulei bocejar enquanto esticava os braços para os lados. Did you understand? A menina ria, como sempre fazem para tudo, e eu fui dormir acreditando que ela, depois daquela interpretação que Paulo Autran aplaudiria, tivesse me compreendido.
Hã, hã. Hipóteses para não me acordarem: eu não tenho os dotes do ator, muito provável. Dois: a menina tinha alguma deficiência de entendimento, também bastante possível. Três: esqueceu, simplesmente. Acho difícil. Quatro: foi uma represália a eu não ter amarrado direito o laço do quimono e, lá na hora, ter-se aberto. Por sorte não houve maiores consequências. Não, não o fato de o quimono abrir. Rapidamente me redimi. Refiro-me a acordar um pouco mais tarde. Apenas recorri a um horário mais tarde do trem para Shiroko.
No caso de Suzuka, hoje, o jeito era caminhar até o paddock. Até aí tudo bem. Amo caminhar. O faço muito fora dos dias de GP. A questão era cruzar a multidão que se aglomerava para entrar no circuito. Só hoje são 161 mil torcedores. Os outros jornalistas, não sei se por inexperiência ou não ter alternativa, encararam a coisa sem nenhuma reação contrária. Mas foi só chegar no parque, o mesmo em que na TV aparece aquela imensa roda gigante, para todos se entreolharem. Imagine uma área com cerca de 150 metros de comprimento por 50 de largura e não ver um único metro quadrado livre. Tudo tomado por milhares de cidadãos. Como nós, procuravam entrar no autódromo, ter acesso às arquibancadas.
A diferença é que tínhamos credencial em vez do ingresso. Com bom humor, porque se for diferente você fica louco, encaramos o desafio. Não há empurrões ou quem queira se privilegiar de algo. Lentamente, na velocidade de suas reações, aquela massa imensa se desloca, centímetro por centímetro, à frente. Fobias a multidões implicaria profundo desconforto interior e risco de manifestações de pavor extremadas. Não foi o caso no nosso grupo. Demorou menos do esperado. Em 20 minutos atingimos o controle da entrada para, logo em seguida, agora nos deslocando a 200 centímetros por minuto, em vez de 100, deslumbramos a escada que nos levaria, abaixo, até a pista. Nós a atravessaríamos, se o portão estivesse aberto, ou iríamos por um túnel, abaixo dela, para, finalmente, ter a visão mais esperada da manhã: o paddock, onde se encontra a sala de imprensa.
A pista estava fechada e no túnel ainda nos cumprimentávamos por praticamente termos vencido a dura batalha. Mas no Japão jamais celebre nada antes de todas as garantias de ter, de fato, atingido o local desejado. Por isso, saímos do túnel de forma lenta, desconfiados de nossas dificuldades pela frente. Não foi o caso. Mais dois minutos e atingimos nosso orbital, a sala de imprensa. Ufa! A que horas? Hummmm…10h45 creio. Para quem deixou o hotel às 8h15, nada mal, hein?
Vou, agora, procurar comer algo. Faltam 10 minutos para o meio dia. O almoço na Ferrari está para começar. A seguir, ouvir minhas fontes sobre as informações de última hora, tipo o pneu usado por esse e aquele concorrente, perspectivas de estratégia adotada, eventuais problemas no carro de algum piloto, as definições das reuniões sobre regulamentos, como é o caso aqui em Suzuka. Tenho de estar de volta à sala de imprensa ao meio dia e 45. Isso porque a transmissão das rádios Globo e CBN, na qual participo com repórter, inicia-se às 13 horas. Sempre meu horário. Preparo a mesa para a transmissão com o equipamento e minha cola. Quando o Oscar Ulisses, o locutor, me pergunta algo, números, por exemplo, os tenho prontos. Nada combinado, mas é bom estar com essas informações disponíveis.
Boa corrida para nós. Quando chegar em São Paulo, depois de longa viagem via Frankfurt, nos encontraremos de novo neste espaço. Um forte abraço a todos. Gostaria de dizer que depois de bom tempo fora de casa, em nações de cultura tão distinta da brasileira e italiana, conversar com quem se interessa em ler essas nossas brincadeiras faz muito bem.
Obrigado!

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Ainda falta o GP do Brasil. Infelizmente só o GP do Brasil. Com ele, assistiremos ao fim de uma era: a de Michael Schumacher na Fórmula 1. Irá demorar um tempinho para compreendermos melhor seu significado. Hoje o que nos vem à mente é a despedida do piloto de mais conquistas na história, o que por si só já é mais que suficiente para torná-lo imortal no contexto da Fórmula 1 e do esporte de modo geral.
Mas um pouco mais para a frente seu feito será melhor absorvido, o tempo tratará de limpar a lente viciada que insiste em vê-lo irreparavelmente manchado e sua obra eclodirá com maior isenção. Aí, parte dos que hoje não abrem mão de julgá-lo a partir de premissas estáticas, sem coragem de resgatar o passado de seus ídolos e ver que a acusação a Schumacher se estende em parte a eles também, irão se render a um fato inexorável: éramos felizes e não sabíamos. Desde que tenham abertura para rever conceitos arraigados e realmente apreciam esse negócio chamado corrida de automóvel, no seu mais amplo sentido.
Vencer esse preconceito permitirá desfrutar melhor do espetáculo oferecido pelo grande Schumacher em 15 anos de Fórmula 1. Não dar-se essa trégua é jogar fora a chance de deleitar-se, curiosamente, naquilo que gostam de dizer a todos que amam: o automobilismo. E um imenso desperdício. Quando daqui a alguns anos assistirmos às imagens de corridas épicas desse alemão completo em todos os requisitos de piloto, com sua capacidade de reverter causas quase impossíveis, uma certa nostalgia tomara conta de nós. Compreenderemos que ficou um espaço em aberto na Fórmula 1, ainda não preenchido.
Tenho comigo que no futuro ouviremos muitas vezes torcedores, apaixonados pela velocidade, dizerem de corridas onde, de repente, surgir um desafio raro: “Ah, essa só o alemão ganharia.” Ficará estigmatizado na história seu poder de surpreender a todos com performances supostamente impossíveis. Até podermos substituir esse “alemão” da frase por outro piloto vai demorar, não hesite em acreditar nisso. Não será de uma hora para outra que vai surgir alguém que nos remeta a Schumacher. Há nessa geração que aí está dois notáveis, Fernando Alonso e Kimi Raikkonen, mas já surgidos em outra época, são 12 anos mais jovens que o alemão da Ferrari.
Para eles a Fórmula 1 é um objetivo profissional. Para Schumacher, de vida. Esse é um fator que pode estender por muito tempo o surgimento de um piloto capaz de lembrar Schumacher: o mundo mudou. Quando os valores se definiram dentro do alemão, formando o ser humano representado no piloto, o que lhe foi apresentado é diferente do que receberam Alonso, Raikkonen e os demais talentos que despontarem na Fórmula 1. Mas essa é outra discussão.
Uma das características mais admiráveis de Schumacher é, ao mesmo tempo, a usada por seus críticos para execrá-lo: sua capacidade de reestruturar uma equipe, fazê-la crescer a seu redor e, a partir daí, conquistar títulos. Beneficia-se dessa condição? Relega os companheiros de time a serem coadjuvante do projeto? Sim, não há como negar. Mas isso tira o mérito do seu êxito? E será que esses parceiros são ou foram competentes para assumir sua posição de líder dentro do grupo? Nós sabemos a resposta.
É só observar o que aconteceu com a Benetton depois de Schumacher sair de lá. E o que era antes de ser contratado. Não imagino que a Ferrari, em 2007, perca muito de sua força, como a Benetton, que em 1995 venceu 11 provas (9 com Schumacher) e no ano seguinte, sem ele, nenhuma. Kimi Raikkonen e Felipe Massa são bem mais capazes que Gerhard Berger e Jean Alesi, a dupla da Benetton em 1996.
Na Ferrari, a trajetória de Schumacher não foi diferente. Introduziu, junto de Jean Todt, diretor-esportivo, e Ross Brawn, diretor-tecnico, o time italiano à nova realidade gerencial e tecnológica da Fórmula 1. Rompeu o modelo passional ainda dos seguidores de Enzo Ferrari e mostrou a importância da solução de continuidade. Nada de jogar tudo fora para recomeçar do zero no caso de fracasso. Pensemos num projeto de sucesso a médio prazo. Disputar o título em três ou quatro anos. E o que ocorreu? O alemão assinou com a Ferrari em 1996 e acabou campeão em 2000. Ainda que em 1997 e 1999 a equipe não tenha conquistado o campeonato de pilotos por pouco.
Trabalho. Meu nome é trabalho. Podemos defini-lo assim. Ninguém transforma a Benetton em campeã e a Ferrari numa supercampeã sem muita, muita dedicação. Schumacher renunciou praticamente sua vida pessoal nesse tempo todo de Fórmula 1 para levar adiante seus objetivos de vitória e, para isso, era preciso fazer de seus dois times estruturas vencedoras, o que na Fórmula 1 não se consegue de um ano para o outro.
Ser capaz de inserir-se diretamente na evolução do time e desprendimento máximo para dedicar-se à causa. Para começar. Agora, os seus dotes de piloto. O primeiro dos parâmetros para julgar a classe: velocidade. O maior número de pole positions de todos os tempos basta? 68. Ou quem sabe o maior número de melhores voltas em corrida, 75. Só velocidade não é suficiente para formar um campeão na Fórmula 1. Constância vale até mais. Então que tal 91 vitórias? Também só vencer GPs pode não ser por demais representativo se não conquistar títulos. Ok. Servem 7 mundiais? Para não dizer dos 1.364 pontos obtidos, as 5.097 voltas em que liderou provas.
Ora os números, os números são só os números, há quem pense. E se os confrontarmos com os de outros campeões, será que terão representativade? Poles, Senna fez 65. Melhores voltas, Prost, 41. Vitórias? Prost, 51. Títulos? Fangio, 5. Pontos? Prost, 798,5. Voltas na liderança? Senna, 2.931. É verdade, Schumacher disputou mais GPs que Senna e Prost, os segundos colocados nesses rankings citados. Na sua etapa de encerramento de carreira, Schumacher completará 250 GPs. Prost largou 199 vezes e Senna, 161.
O objetivo, aqui, não é comparar Schumacher com Senna e Prost, dois dos maiores de todos os tempos e capazes de fazer a diferença também. Mas mostrar que não foi seu comportamento escuso em ocasiões como Adelaide 1994, Jerez de la Frontera 1997 e Mônaco 2006 que podem tirar a importância de sua obra na Fórmula 1, sem deixar de abominá-los, lógico. Até porque Senna e Prost fizeram a mesma coisa: em 1989 o francês tirou o brasileiro do GP do Japão para ser campeão e no ano seguinte, no mesmo circuito de Suzuka, Senna reagiu exatamente da mesma forma com Prost para ficar com o título.
Em resumo: deixar de ir ao meio da pista, atrás dos muros, até onde a segurança permite, aos sábados pela manhã, para ver Schumacher pilotar será uma perda. Uma profunda perda. Bem como acompanhar as corridas da sala de imprensa dos autódromos. Seremos privados de espetáculos de habilidade, controle do carro no limite extremo de aderência, de como ter uma visão global da corrida única, sua capacidade de reagir da maneira mais apropriada possível para cada condição da prova e baixíssimo nível de erros para quem sempre está tão no limite de tudo. Não o esquecerei nunca. Porque amo o automobilismo também como uma forma de se fazer arte!

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A Fórmula 1 ainda está traumatizada com a quebra do motor da Ferrari de Michael Schumacher na 37.ª volta do GP do Japão, domingo, e que provavelmente lhe custou o título mundial. Por isso a equipe Renault não quer saber de expor-se a riscos excessivos no GP do Brasil, dia 22, em Interlagos. Seu piloto, Fernando Alonso, necessita de apenas um oitavo lugar para garantir, matematicamente, a conquista do campeonato. “É claro que não vamos nos preocupar em ser um décimo de segundo mais rápidos”, afirmou Denis Chevrier, chefe de engenharia de pista da montadora francesa.
Um dos lances mais dramáticos da Fórmula 1 nos últimos anos deixou seqüelas não só na Ferrari como em seus adversários também. A direção do time francês vai adotar política bem conservadora na corrida de São Paulo. “Não vejo razão para corrermos riscos desnecessários em Interlagos” disse Alonso, logo depois de vencer a prova de Suzuka. Piloto e grupo técnico já avisaram, portanto, que disputar a vitória na etapa de encerramento da temporada não faz parte das suas prioridades, como era o caso até o GP do Japão. A meta é Alonso vencer o Mundial de Pilotos e a Renault o de Construtores.
Denis Chevrier e o diretor da divisão de motores da Renault, Bob White, finalizaram em Viry Chatillon, ao sul de Paris, uma unidade do seu V-8 destinado, basicamente, a concluir as 72 voltas da prova de Interlagos, em detrimento da performance. O regulamento da Fórmula 1 impõe o uso dos motores em dois GPs. Ocorre que Alonso disputou em Suzuka a segunda corrida do seu motor. Isso acabou por favorecê-lo porque permitiu à Renault trabalhar na unidade que se destina apenas à prova de São Paulo.
Nelsinho Piquet, piloto de testes da Renault, irá testar amanhã, em Silverstone, a versão conservadora do motor que Alonso deve utilizar no Brasil. O diretor de engenharia do time francês, Pat Symonds, também não quer saber do clima “já ganhou.” E comentou o fato de Alonso ter, agora, 126 pontos e Schumacher, 116. Para o alemão ser campeão terá de vencer o GP do Brasil e torcer para Alonso não marcar um único ponto. “Você pode achar uma vantagem grande”, disse ao site da revista inglesa Autosport. “Mas é uma vantagem estatística. Num campeonato como este, quem pode dizer algo?”
Mas se a Renault irá encarar a corrida decisiva do Mundial de maneira prudente, a Ferrari será ousada. Ross Brawn, diretor-técnico da escuderia italiana, comentou que seu grupo de engenheiros desenvolveu não uma nova versão de motor para Interlagos, mas uma unidade que explore ao máximo as potencialidades da existente. A exemplo de Alonso, o motor de Schumacher deverá resistir apenas o cerca de 700 quilômetros do fim de semana de Interlagos e não 1.400 se fosse competir em dois GPs. Só a vitória interessa à Ferrari.
“Michael Schumacher irá cumprir o que havia sido programado antes da prova de Suzuka”, afirmou, ontem, sua assessora, Sabine Kehn. No Japão, depois de o alemão abandonar a prova, Sabine colocou em dúvida se Schumacher iria participar dos testes de Jerez de la Frontera, iniciados ontem. Hoje e amanhã será Schumacher quem os conduzirá.
O diário esportivo italiano Gazzetta dello Sport publicou, ontem, que depois do treino, amanhã, haverá uma festa, na Espanha mesmo, para celebrar o fim das atividades de Schumacher com a equipe de testes da Ferrari. Uma bela cerimônia está prevista para depois da bandeirada em Interlagos, corrida de encerramento da carreira de Schumacher, com Pelé lhe entregando um troféu confeccionado em ouro.

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Pouco antes de Fernando Alonso quebrar o protocolo, pular a grade divisória para comemorar a vitória no GP do Japão com sua equipe, a Renault, ontem, demonstrando euforia jamais vista, logo em seguida a deixar o carro e antes ainda da cerimônia do pódio, Michael Schumacher percorreu resignado os boxes da Ferrari para cumprimentar um a um os cerca de 80 integrantes que compõem seu time nas corridas.
Alonso e Schumacher viveram emoções opostas em Suzuka, diante de um público excepcional. Enquanto o espanhol praticamente assegurou o bicampeonato, o alemão viu quase desaparecer seu sonho de abandonar a Fórmula 1, dia 22 no GP do Brasil, com o oitavo título mundial. E, ironicamente, por uma falha no que sempre usou, com razão, como bandeira: a confiabilidade da Ferrari. Na 37.ª volta de um total de 53, quando liderava, o motor quebrou, o que não acontecia, em corrida, desde o GP da França de 2000.
“Depois da nossa falta de sorte na Hungria, Monza e China esses 10 pontos são um presente de Deus”, afirmou Alonso, entusiasmado, festivo, sorridente. “Estou muito surpreso com a vitória. Assumi elevados riscos para ultrapassar Jarno Trulli e Ralf Schumacher (pilotos da Toyota) e posicionar-me em terceiro, no começo, atrás de Michael Schumacher e Felipe Massa, porque só assim teria alguma chance de um bom resultado”, falou. “A essa altura, disse a mim mesmo também que seria o máximo que daria para fazer”, contou o espanhol.
Mas na série dos primeiros pit stops o extraordinário Alonso ainda contou com um furo no pneu traseiro direito de Massa, obrigado a antecipar a parada, e alcançou o segundo lugar. “Errei primeiro em achar que a Ferrari seria muito mais veloz que nós, que os pneus Bridgestone seriam bem superiores ao da Michelin, e errei por acreditar que nosso ritmo de corrida não seria tão bom”, explicou. “Depois da primeira parada, eu podia manter-me cerca de 5 segundos atrás de Schumacher, sem dificuldade, uma surpresa, achei que dava até para vencer, por que não?”
Na 35.ª volta, Alonso fez seu segundo pit stop. Schumacher, na passagem seguinte. O alemão voltou à pista mantendo praticamente os mesmos 5 segundos de vantagem. E foi assim através das curvas 1, 2…até chegar na 8. De repente, sem nenhum sinal prévio, Schumacher perdeu velocidade ao mesmo tempo em que uma fumaça branca saía da parte traseira da Ferrari. “Brequei”, contou Alonso. “Foi minha primeira reação. Achei que era um carro da Spyker, estava preocupado em olhar para o asfalto à procura de manchas de óleo”, dizia Alonso, esboçando um sorriso. Estava, de novo, profundamente enganado.
“Foi só quando passei ao seu lado que compreendi que era a Ferrari de Michael. Pensei, é a minha chance. Depois, me veio à mente, é tão raro a Ferrari apresentar algum problema.” Os dois pilotos dispunham do mesmo motor da etapa de Xangai, como manda o regulamento. Cada motor deve disputar duas etapas seguidas. Numa prova de que Massa não representava perigo a sua fundamental vitória, já que estava 9 segundos atrás, Alonso reduziu o limite de rotações do motor a fim de protegê-lo. “Aí ficou fácil, foi só conduzir concentrado até a bandeirada.” Massa acabou em segundo e o companheiro de Alonso, o italiano Giancarlo Fisichella, em terceiro.
O título, no entanto, não está garantido, segundo o espanhol. “Na China, nós tínhamos tudo para vencer, largamos com grande favoritismo, eu estava bem à frente na prova e não ganhamos. Hoje, aqui, a Ferrari deveria ser muito mais veloz que todos e eu obter, com sorte, o terceiro lugar”, lembrou o aturiano de 25 anos. “Mas o que aconteceu? Tanto lá em Xangai como aqui em Suzuka os resultados foram opostos aos esperados. Portanto, vou disputar uma corrida evitando maiores riscos em Interlagos.”
Para ser campeão na etapa de encerramento da temporada, basta ao piloto da Renault obter um ponto com a oitava colocação, independentemente do que fizer Schumacher. Alonso soma 126 pontos diante de 116 do alemão da Ferrari. Estão empatados, porém, em número de vitórias, 7 a 7. Se conseguir um ponto em Interlagos, Alonso chega a 127. Schumacher, caso ganhe o GP do Brasil, atinge no máximo 126 (116 + 10). O piloto da Ferrari só conquista o título se vencer e Alonso não marcar pontos. Os dois empatariam em pontos, 126, mas nessa hipótese Schumacher seria campeão pelo primeiro critério de desempate: número de vitórias, 8 a 7.

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“O Mundial de Pilotos, a esta altura, acabou.”, afirmou Michael Schumacher, ontem, depois de abandonar o GP do Japão. “Não quero disputar o título tendo de torcer para meu adversário se retirar a fim de que eu seja campeão. Não é assim que desejo essa conquista.” Foi assim que o piloto da Ferrari reagiu logo no início da conversa com a imprensa.
“Eu posso conviver com desapontamentos como o de hoje. Fazem parte do nosso negócio, automobilismo. Não estou triste, ao contrário, até orgulhoso”, afirmou, altivo. “Quem apostaria um centavo, depois do GP do Canadá, que nós reverteríamos uma situação que parecia perdida? Mas nós conseguimos.” Não parou o discurso: “Nossa equipe é grande, nossos rapazes são os melhores, eu os amo, não há razão alguma para acusar alguém pela quebra do meu motor, nós conquistamos tanta coisa já. Vencemos juntos, perdemos juntos, como hoje.”
Foi o 50.º abandono da carreira de Schumacher que disputou, em Suzuka, seu 249.º GP, o 180.º pela Ferrari. Em 11 anos na escuderia de Maranello em apenas três oportunidades o motor rompeu-se durante a corrida: Austrália 1998, França 2000 e ontem. São números impressionantes de eficiência se confrontados com o de outras equipes.
Sobre o GP do Brasil: “Será minha última corrida. Darei, como sempre, o meu melhor. Acredite que serei um homem feliz seja qual for o resultado.” Apesar de dizer que Fernando Alonso já é o campeão, lembrou que há outro campeonato em aberto. “Vou para Interlagos tendo como foco o Mundial de Construtores. Esse, sim, é possível de ser revertido a nossa favor.” A Renault somou 16 pontos ontem em Suzuka e a Ferrari, 8. Lidera com 195 diante de 186 dos italianos. “São 9 pontos a mais que precisamos”, disse Schumacher.
A primeira reação, dentro do carro, não foi de raiva. “Compreendi logo qual o problema e já em seguida as suas consequências. Perdi não só os 10 pontos da vitória como o campeonato.” Explicou, de novo, os motivos de entregar os pontos, deixar de lutar pelo título de pilotos: “Fernando necessita de apenas 1 ponto. Sabemos como é bom piloto, deverá ser muito fácil para ele em Interlagos.”
Corrigiu o jornalista: “Não vou deixar de lutar, ao contrário, darei tudo de mim, mas visando o Mundial de Construtores, por quem tenho uma ponta de esperança, o que não é o caso do Mundial de Pilotos porque não vejo como reverter essa situação.”
Schumacher não muda o que pensa do automobilismo: “Amo esse esporte, o que aconteceu hoje não altera o que sinto pelas corridas. Esses sobes e desces é que fazem o sentido da vida. Seria horrível se tudo fosse constante.” Em princípio, Schumacher deverá treinar quarta e quinta-feira em Jerez de la Frontera, Espanha, visando a prova de São Paulo. Somente hoje ele e a direção da Ferrari confirmarão se o programa original será, agora, mantido.
Jean Todt, diretor-geral da escuderia, também falou, ontem: “A desilusão é enorme. Com mais da metade da prova tínhamos Michael na liderança e Felipe Massa em terceiro, abrindo enorme perspectiva de conquistarmos os dois títulos no GP do Brasil”, disse. “A situação, no entanto, se reverteu totalmente e é provável que de maneira irreversível. Pagamos um preço altíssimo por falharmos na confiabilidade do equipamento.”

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A pole position e a velocidade do carro da Ferrari levaram até sua equipe acreditar que, no caso de Michael Schumacher por alguma razão não vencer, Felipe Massa estaria lá a fim de impedir Fernando Alonso, da Renault, de conquistar a vitória. Não foi o que aconteceu. Schumacher abandonou por causa da quebra do motor, mas quem chegou em primeiro foi Alonso. Massa, apenas em segundo.
“Minha corrida acabou comprometida pelo furo no pneu traseiro direito. Eu deveria fazer meu primeiro pit stop na 16.ª volta, mas a equipe me chamou na 13.ª por detectar a perda de pressão no pneu”, explicou. “Dei azar de voltar à pista atrás do Nick Heidfeld (BMW), bem mais lento, mas eu não tinha como ultrapassá-lo.” O tempo perdido permitiu que Alonso fizesse seu pit stop na 15.ª volta e regressasse ao circuito na frente de Massa, assumindo o segundo lugar na prova.
“Ainda tentei aumentar meu ritmo para tentar ganhar a posição de Alonso na segunda parada. Ocorre que meus pneus começaram a soltar borracha (graining), em seguida a deixar os boxes depois do primeiro pit stop, e, em vez de me aproximar, Alonso ganhou espaço.” A diferença atingiu 10 segundos e 594 milésimos na 34.ª volta, uma antes de Massa realizar seu segundo pit stop. Não havia mais chance de tentar um ataque a Alonso.
Os 8 pontos no GP do GP do Japão levaram Massa a reassumir o terceiro lugar no Mundial de Pilotos, com 70 pontos, enquanto Giancarlo Fisichella, com a terceira colocação, ontem, soma 69. Kimi Raikkonen, McLaren, quinto colocado em Suzuka, possui 61 e ainda tem possibilidades de, em Interlagos, terminar o campeonato em terceiro. Massa comentou o que pode fazer no GP do Brasil, agora que Michael Schumacher praticamente deu adeus ao título. “Acho que aumentou, sim, minha chance de ganhar a corrida, o que seria um sonho para mim, mas precisamos ver como o Alonso estará na prova.”
Rubens Barrichello, da Honda, tocou seu aerofólio dianteiro numa roda da BMW de Nick Heidfeld na primeira curva depois da largada e foi obrigado a entrar no box. Com um pit stop a mais da maioria, não foi além da 12.ª colocação. “Ele não me deixou espaço, fechou a porta violentamente”, disse Rubinho. Jenson Button, o companheiro, deu-se melhor. Largou em sétimo e obteve ótima quarta colocação. Button, sexto no Mundial, tem, agora, quase o dobro de pontos de Rubinho (sétimo), 50 a 28.

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O público deu um show no GP do Japão. A começar pela impressionante frequência. Os números são oficiais: sexta-feira, 57 mil espectadores estiveram em Suzuka, sábado, 143 mil, e ontem, 161 mil. No total, foram 361 mil torcedores. Mais que isso: profundamente animados. Não pararam de manifestar-se, das mais distintas maneiras, um instante sequer.

Todos na equipe Renault estavam profundamente felizes com o resultado. Afinal, reverteram uma situação que parecia perdida. A exceção na festa foi Giancarlo Fisichella, apesar do terceiro lugar. Ele chorou no pódio e depois na entrevista coletiva. “Perdi meu melhor amigo”, explicou. Antonio Visciani faleceu após breve enfermidade quinta-feira. “Dedico esse pódio a ele. Estou assim porque o pódio é importante, mas a vida mais.”

O clima já é de despedida para Kimi Raikkonen, na McLaren. Correrá pela Ferrari em 2007. Ontem realizou ótimo trabalho ao largar em 11.º e classificar-se em quinto. Mas reclamou da falta de velocidade do carro nos trechos de reta. Em conversa informal, disse: “Boa sorte, Alonso”, sarcasticamente. O espanhol assumirá seu lugar na McLaren. Fora dos gravadores atribui ao motor Mercedes a maior parte dos problemas do carro.

O primeiro teste de Lewis Hamilton, campeão da GP2, com a equipe McLaren, em Silverstone, não gerou os resultados esperados. Ron Dennis, diretor da equipe, reluta em colocá-lo como titular em 2007. Amanhã Hamilton começa nova série de treinos em Jerez de la Frontera. Se corresponder, pode estrear no GP do Brasil. Ontem os ingleses diziam que Lewis pode competir pela Spykers, em 2007, a fim de ganhar experiência.

Já noite, a opinião do presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, chegou à sala de imprensa, através da imprensa italiana. E, ao contrário do que afirmou Michael Schumacher, o Mundial de Pilotos ainda não acabou: “O campeonato terminará para a Ferrari apenas no último metro do GP do Brasil. Um acontecimento como o de hoje apenas nos motiva ainda mais para a etapa decisiva.”

Mudanças importantes ocorrerão na direção da equipe Red Bull. A começar pelo principal dirigente, Christian Horner. Pode dar seu lugar ao espanhol Juan Villadelpratt, fora da Fórmula 1 há alguns anos, mas importante já nas equipes McLaren e Ferrari. E Gerhard Berger, sócio do dono da Red Bull na Toro Rosso, pode ser o supervisor geral dos dois times. O motor deverá mesmo ser Renault, em substituição ao Ferrari.

Mario Theissen, diretor da BMW, não escondeu sua irritação com Nick Heidfeld, apesar da oitava colocação. Robert Kubica, o outro piloto da equipe, estava mais veloz que o alemão. O diretor-esportivo da BMW, Beat Zhenger, deu a ordem para Heidfeld deixar o polonês passar, mas não foi atendido. Os dois cruzaram a linha de chegada quase juntos. Heidfeld pode receber algum tipo de punição de seu time.

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Sábado, 8 de outubro de 2006. São 22h05. Acabo de chegar do circuito de Suzuka. Estou na cidade de Yokkaichi, distante cerca de 30 quilômetros. Sabe que horas deixei a sala do imprensa do autódromo? 18h15. Atravessei o paddock, aquela área grande, no caso de Suzuka nem tão extensa assim, atrás dos boxes, e aguardei por 40 minutos o miniônibus que nos leva até o hotel do circuito, de onde partem os ônibus para as três principais cidades que acomodam os jornalistas, Shiroko, Yokkaichi e Tsu.
O ônibus para o transporte a esses municípios permaneceu parado no tráfego intenso ao redor da pista e só pôde nos buscar uma hora mais tarde do programado. A seguir, o mesmo acúmulo de carros exigiu outra hora e dez minutos para o motorista nos deixar na praça da estação de trem de Yokkaichi. Em resumo: só para voltar para o meu hotel necessitamos 4 horas. Hoje, pela manhã, o ônibus também atrasou por causa do trânsito e demoramos, no total, 1h50 até atingir a sala de imprensa.
Some essa 1h50 ao tempo gasto para regressar ao hotel e verá que hoje, sábado, os jornalistas que estavam em Yokkaichi perderam 5h50 entre ida e volta ao autódromo de Suzuka. Sem a paciência oriental não há saída. Desde 1991 venho para estas bandas e nunca, como hoje, a demora foi tão grande. Claro que enquanto aguardávamos o ônibus no hotel do circuito, reservado basicamente às equipes, aproveitamos para jantar. E bem. O Japão está mais barato. Depois voltarei ao tema.
Não é difícil compreender esses problemas que acabam por afetar a todos. Há a perspectiva de quebra de recorde de público amanhã, dia da corrida. Jamais vi tanta, mas tanta gente. Na saída do autódromo, faz parte da gostosa tradição desta prova os fãs dos pilotos aguardarem que saiam. A maioria não pára para atendê-los, provavelmente seria até perigoso, diante do número de fãs e sua eloquência pela Fórmula 1. Jenson Button foi a exceção. Como sempre é sensível a essas questões. Eu o admiro.
Mas quem gosta de tudo o que cerca a competição, como eu, acompanhar de perto essa devoção ao ídolo é emocionante. Suas demonstrações de apreço, amor diria, contrapõem-se à postura sempre discreta dos japoneses. Os dias de Fórmula 1 em Suzuka parecem ser de libertação também. Geram reações extremas de desprendimento, ausência daquilo que penso acompanha esse povo de características tão peculiares: autopoliciamento.
Milhares se acumulam nos pontos de afunilamento para entrada ou saída da pista. Eles têm bandeirinhas das nações de seus ídolos, usam camisa e boné de suas equipes, trazem consigo uma pastinha, toda trabalhada com fotos, recortes de revistas e um campo livre onde o piloto deve inserir seu autógrafo. Já vi piloto atentar para essas pastinhas e emocionar-se com o que foi feito apenas para receber seu autógrafo. Heinz-Harald Frentzen, por exemplo.
Os policiais, sempre com muito civismo, têm dificuldades para disciplicar os fãs quando surge Kimi Raikkonen, por citar. Aliás, ele e Jenson Button são os que mais reúnem torcedoras no Japão, tamanho o número de bandeiras da Finlândia e Inglaterra observadas em todo lado. A corrida de Suzuka este ano tem muitos apelos, como a possibilidade de definir o campeão do mundo, última apresentação de Michael Schumacher para os japoneses, estréia no Japão da escuderia totalmente japonesa, Super Aguri, além de ser, ao menos por enquanto, a última edição do GP do Japão no autódromo da Honda. O evento irá, a partir de 2007, para o circuito de Fuji, de propriedade da Toyota.
Há gente do Japão todo em Suzuka. O número de carros na cidade mais que duplicou, segundo residentes na região, que tem elevado número de brasileiros de origem japonesa trabalhando nas indústrias automobilísticas e de autopeças, basicamente. Infelizmente nem todos têm os mais elevados propósitos. Em conversa com alguns deles, ficamos sabendo do envolvimento de certos cidadãos em crimes de roubo. A loja de conveniência AM PM localizada na praça da estação de Yokkaichi tem um placa com os dizeres, em português: “Esta loja, polícia está rondando.” Não é lá o melhor uso do idioma, mas não deixa de ser reveladora da existência de antecedentes com alguns maus exemplos de brasileiros no exterior.
Ah, me lembrei de dizer a mim mesmo para não esquecer de uma passagem experimentada ainda há pouco. Esperar o microônibus para ir do paddock ao hotel do circuito não é “privilégio” da imprensa. Estavam lá também Keke Rosberg, seu filho, Nico, piloto da Williams, e o divertido Nigel Wilhomen, relações públicas da Philip Morris e showman. Isso mesmo, no evento da Ferrari em Madonna di Campiglio, em janeiro, Nigel sobe no palco na última noite e dá um show de canto e dança. É uma figura querida na Fórmula 1.
Mas voltando. Conversávamos, eu e essas pessoas. Disse a Keke que me recordava de uma passagem no GP do Brasil de 1980. Keke era o companheiro de Emerson Fittipaldi no time brasileiro, que viveu naquele ano sua temporada mais bem estruturada, já que havia adquirido a equipe Wolf. “O Emerson me chamou para uma reunião na segunda-feira de manhã em seguida à corrida de Interlagos. Achei que seria dispensado”, me contou Keke. Nico, seu filho, não sabia da história, e riu.
Na prova, Keke ultrapassou Emerson, diante da sua torcida, na pista onde foi formado, Interlagos, o que acabou por desagradar demasiadamente o então bicampeão do mundo. “Não fosse o Wilson Fittipaldi eu teria perdido o emprego na segunda corrida do ano. E na abertura do Mundial, na Argentina, etapa anterior, eu consegui o terceiro lugar. A diretoria do time estava toda lá no encontro. Foi o Wilson que se impôs publicamente ao Emerson para evitar a minha dispensa”, me contou o Keke. O Nico, que disputou bela classificação, hoje, uma das suas melhores – não é o seu forte -, só ouvia, espantado. Finalmente o microônibus chegou.
Mas antes de falar da minha semana aqui no Japão, gostaria de atravessar o Mar do Japão e da China para sobrevoar Xangai novamente. Um aspecto da cultura local me chamou a atenção desde a primeira vez que fui à China, há 24 anos, como turista, e confirmada nas duas oportunidades em que lá estive depois, como esta, agora, do GP em Xangai. Com tanta gente como há no país, para onde você olha há sempre muitos cidadãos. As ruas de Xangai são tomadas de motocicletas, ciclomotores e bicicletas. Muitas mesmo.
Eles se tocam, por exemplo, na abertura dos semáforos. O que me impressiona é que não se observa aquele canibalismo que poderíamos esperar em sociedades ultracompetitivas como a chinesa. Ao contrário, percebe-se até uma certa solidariedade entre seus indivíduos. As motos se tocam de leve, por estarem lado a lado, centenas, em geral não há consequência por encontrarem-se em baixíssima velocidade, e em seguida cada um vai para o seu lado, sem ressentimentos, aparentes ao menos.
Uma das coisas que mais me desgasta em São Paulo é exatamente essa ausência de solidariedade. Se você está numa faixa de trânsito e necessita mudar, não adianta sinalizar com o pisca, colocar a mão para fora, terá dificuldades. Isso para não falar na milícia dos motoboys que se te encontrarem pela frente trocando de faixa você corre sérios riscos. Como já vi acontencer.
Aqui no Japão é, da mesma forma, bastante respeitosa essa relação mútua entre seus indivíduos. Com o agravante de o nível médio da sociedade ser bem elevado. Mais pessoas estão melhor preparadas para exercer funções importantes. E também não há animosidade aparente entre seus cidadãos, apesar de, em essência, disputarem o mesmo espaço na sociedade. Sinto em São Paulo, ao menos, maior agressividade no trânsito, sensação que não me domina aqui. Claro que não é lei, por vezes nos deparamos em minha cidade com gestos de tamanha grandeza que nos toca a alma, mas me desgasto, nesse sentido, mais no Brasil, assim como meus amigos que vivem mais fora do país como eu.
Ainda sobre a China, voltar do circuito de Xangai para o hotel no centro da cidade foi uma epopéia para um grupo de jornalistas no qual me encontrava. Não posso deixar de falar do que o Michael Schumacher fez na corrida. Senhores, por mais que em algumas ocasiões esse alemão tenha jogado pela janela tanto de notável que fez, por não ser o melhor exemplo de bom perdedor, não há como não enaltecer em extremos seu espetáculo-solo no GP da China. Quem gosta desse negócio corrida de carro deve, necessariamente, deixar de lado pré-julgamentos sobre Schumacher e vê-lo apenas como piloto lá em Xangai. Se a pessoa tiver a mais mínima noção dos desafios que representa desenvolver um trabalho como o realizado por ele ao longo das 53 voltas da competição não terá como não dizer “Parabéns, homem, hoje você me encantou.” Essa mesma pessoa pode até, depois, resgatar seus princípios e dizer: “Pronto, volta a ser o vigarista que é.”
Como eu contesto os que pensam assim. Longe de deixar de reconhecer, por favor, seu antiesportismo de várias ocasiões na Fórmula 1. Mas quem costuma contrapô-lo a outros pilotos utilizados como exemplos de conduta não leva em conta o histórico desses mesmos pilotos. Todos, da mesma forma, envolvidos em incidentes da mesma natureza antiesportiva e condenável. Mas esse é outro discurso.
Voltando. E resumindo: não havia como regressar do autódromo para Xangai. O pessoal da organização tentou chamar táxis, nos levaram a um ponto distante da pista, onde supostamente havia táxi, e nada. Regressamos ao circuito quando, por fim, à 1h30 surgiram os táxis. O problema é que vários jornalistas estavam com passagem reservada para aquele mesmo novo dia já, segunda-feira, de manhã. O tempo disponível foi suficiente apenas para chegarmos no hotel, tomar uma ducha, comer umas bolachinhas existentes no quarto, preparar a bagagem e, sem dormir, nos deslocarmos para o aeroporto. No vôo de Xangai para Nagoya, pouco menos de 3 horas, não teve um da turma que tomou café da manhã no avião. Todos roncavam literalmente.
Pousamos em Nagoya. Que diferença em relação à China, não? São contextos históricos, culturais e econômicos distintos, não dá para comparar, mas tem-se a impressão de entrar no paraíso. Tudo é exemplarmente limpo, disciplinado, organizado. E o melhor, agora: não custa irrealmente caro mais viajar por esse interessantíssimo país. Troquei por bom tempo praticamente 1 dolar por 100 ienes. Você trocava mil dólares e tinha a impressão de ter trocado apenas 100, tal a velocidade com que o dinheiro acabava.
Agora começa pelo fato de eu trazer euros. E 1 euro equivale a 147 ienes. Além, portanto, de os próprios valores em si no Japão, em iene, não terem subido nada nos últimos três anos, você trazer uma moeda, o euro, que a cada 1000 recebe de volta 150 mil ienes é bem diferente de antes. Dá para comer bem e gastar apenas 40 euros, o que não é diferente do que gasto na Europa. Antes era comum entre nós jornalistas rirmos ao citar o quanto gastamos para comer uma prato qualquer. No restaurante aqui do hotel do circuito, nunca gastei menos de 70 dólares, para comer como um pintinho. As porções são modestas. Ontem, enquanto aguardava o ônibus para ir a Yokkaichi, jantamos e o custo foi 5 mil ienes, ou 35 euros mais ou menos. Tá certo que as porções continuam sendo para codornas e o jeito é reforçar com um belo sorvete, bem feitos aqui.
O que comi? Estava um pouco cansado do cardápio oriental e enveredei por um risoto de funghi (cogumelos) e peixe espada grelhado com batatas. Comeria outra porção igual àquela, fácil, o que equivaleria a uma porção da Europa, na Itália, ao menos. A França não entra nesse grupo. Desconfio haver uma aliança secreta entre franceses e japoneses para tentar influenciar o mundo a comer porções equivalentes às das andorinhas. Proponho um contra-movimento: em passeatas poderíamos, por exemplo, caminhar com pires de pequenas xícaras na mão, como quem diz: “O que desejam nos oferecer caberia aqui, nesse pires, senhores. Juntem-se a nós e venha defender seu direito de comer como um hipopótamo.” Não, hipopótamo não. Seria o reverso da história e perderíamos toda a razão. Ajude-me a pensar em algo compatível com o que pretendo dizer, por favor. Combinado?
Obviamente dormi com o laptop apoiado sobre as pernas enquanto escrevia. Retomei o texto na sala de imprensa neste domingo de manhã. A parede frontal desta sala é de vidro, imensa. Temos a visão da reta dos boxes, dos próprios boxes sob nós, e das arquibancadas que se estendem ao longo da reta. Há faixas para todos os lados. Vou ler algumas para vocês, da esquerda para a direita, em não de cima para baixo e da direita para a esquerda, como fazem aqui no Japão. Também não domino o katakaná, hiraganá e kanji, formas de escrita utilizadas no país. Deixe-me ver…essas aqui: “Go, go Takuma”, “Thank you Suzuka”, Michael forever”, “Danke Michael”.
O céu está azul mas venta muito forte mesmo. Sopra do Norte. Aqui da parte mais alta do circuito observo o Sul e vejo o mar, distante cerca de 4 quilômetros, na direção de Shiroko. Uma vez fui conhecer a praia deles. Quase não há. Poucos a utilizam. No horizonte Norte há uma formação densa de nuvens. Como o vento sopra no sentido Norte-Sul, penso ser bem possível termos a corrida disputada com o céu encoberto. Tomara que não chova.
A chegada ao circuito, hoje, foi no melhor estilo Suzuka. Pontualmente às 8h40 o ônibus estava na praça da estação de trem de Yokkaichi. Cerca de 40 jornalistas o esperavam. A maior parte embarcou nos que saíram mais cedo. Pelas dificuldades de regressar que lhes contei optei por esse das 8h40. Estava cansado, pô! Eu e o grupo todo que perdeu 4 horas para sair do autódromo ontem.
Em uma hora e 15 minutos estávamos no hotel do circuito. Maravilha. Agora, sempre que no GP do Japão você pensar que seus problemas estão minimizados tenha a certeza de que se enganará. Como foi o caso. Depois de esperarmos por cerca de 15 minutos o miniônibus para nos levar ao paddock, uma japonezinha saiu correndo de dentro do lobby do hotel, com luvinhas brancas, para dizer: “Prease, prease, no suttle, no suttle”, enquanto abaixava a cabeça em sinal de respeito.
Não adiantou nada lhe perguntarmos sobre o porquê de os microônibus não estarem funcionando. Não conheço nação no mundo, e olha que a Fórmula 1 já me deu a oportunidade de viajar muito, onde as dificuldades de comunicação são tão grandes quanto no Japão. Você não se fazer entender em questões básicas te desgasta bastante. Vou dar um exemplo: acreditar que você pode ligar do quarto do hotel para a recepção a fim de pedir para te acordar determinado horário é imaginar que de um instante para o outro se desenvolverá na classe política brasileira o espírito nacionalista em substituição ao individualista.
Não adianta. Não imagine, também, que você irá, vamos dizer, para o Information Desk da imensa estação central de trem de Nagoya e as atendentes irão lhe compreender. Ou ainda que você poderá manter uma conversa com um motorista de táxi. Nunca. Se ele entender onde você deseja ir, agradeça aos céus. Não estou exagerando, é a mais pura realidade. E não adianta fazer mímica porque da mesma forma você não se fará compreender.
Lembro-me de uma ocasião eu ter de colocar o quimono que todo hotel lhe oferece, bem como os chinelinhos típicos, uns quatro números menor que o seu, encontrar uma folha de papel nas minhas coisas e descer para a recepção do hotel. Foi em Tsu, se não me engano. Desenhei um relógio em que o ponteiro maior indicava as 12 horas e o menor, 7. Em outras palavras, necessitava acordar às 7 horas.
Para completar a minha representação fechei os olhos e reproduzi o barulho de um despertador…triiiimmmm….triiiimmmm…. Em seguida, abri os olhos, devagar, remexi os cabelos, simulei bocejar enquanto esticava os braços para os lados. Did you understand? A menina ria, como sempre fazem para tudo, e eu fui dormir acreditando que ela, depois daquela interpretação que Paulo Autran aplaudiria, tivesse me compreendido.
Hã, hã. Hipóteses para não me acordarem: eu não tenho os dotes do ator, muito provável. Dois: a menina tinha alguma deficiência de entendimento, também bastante possível. Três: esqueceu, simplesmente. Acho difícil. Quatro: foi uma represália a eu não ter amarrado direito o laço do quimono e, lá na hora, ter-se aberto. Por sorte não houve maiores consequências. Não, não o fato de o quimono abrir. Rapidamente me redimi. Refiro-me a acordar um pouco mais tarde. Apenas recorri a um horário mais tarde do trem para Shiroko.
No caso de Suzuka, hoje, o jeito era caminhar até o paddock. Até aí tudo bem. Amo caminhar. O faço muito fora dos dias de GP. A questão era cruzar a multidão que se aglomerava para entrar no circuito. Só hoje são 161 mil torcedores. Os outros jornalistas, não sei se por inexperiência ou não ter alternativa, encararam a coisa sem nenhuma reação contrária. Mas foi só chegar no parque, o mesmo em que na TV aparece aquela imensa roda gigante, para todos se entreolharem. Imagine uma área com cerca de 150 metros de comprimento por 50 de largura e não ver um único metro quadrado livre. Tudo tomado por milhares de cidadãos. Como nós, procuravam entrar no autódromo, ter acesso às arquibancadas.
A diferença é que tínhamos credencial em vez do ingresso. Com bom humor, porque se for diferente você fica louco, encaramos o desafio. Não há empurrões ou quem queira se privilegiar de algo. Lentamente, na velocidade de suas reações, aquela massa imensa se desloca, centímetro por centímetro, à frente. Fobias a multidões implicaria profundo desconforto interior e risco de manifestações de pavor extremadas. Não foi o caso no nosso grupo. Demorou menos do esperado. Em 20 minutos atingimos o controle da entrada para, logo em seguida, agora nos deslocando a 200 centímetros por minuto, em vez de 100, deslumbramos a escada que nos levaria, abaixo, até a pista. Nós a atravessaríamos, se o portão estivesse aberto, ou iríamos por um túnel, abaixo dela, para, finalmente, ter a visão mais esperada da manhã: o paddock, onde se encontra a sala de imprensa.
A pista estava fechada e no túnel ainda nos cumprimentávamos por praticamente termos vencido a dura batalha. Mas no Japão jamais celebre nada antes de todas as garantias de ter, de fato, atingido o local desejado. Por isso, saímos do túnel de forma lenta, desconfiados de nossas dificuldades pela frente. Não foi o caso. Mais dois minutos e atingimos nosso orbital, a sala de imprensa. Ufa! A que horas? Hummmm…10h45 creio. Para quem deixou o hotel às 8h15, nada mal, hein?
Vou, agora, procurar comer algo. Faltam 10 minutos para o meio dia. O almoço na Ferrari está para começar. A seguir, ouvir minhas fontes sobre as informações de última hora, tipo o pneu usado por esse e aquele concorrente, perspectivas de estratégia adotada, eventuais problemas no carro de algum piloto, as definições das reuniões sobre regulamentos, como é o caso aqui em Suzuka. Tenho de estar de volta à sala de imprensa ao meio dia e 45. Isso porque a transmissão das rádios Globo e CBN, na qual participo com repórter, inicia-se às 13 horas. Sempre meu horário. Preparo a mesa para a transmissão com o equipamento e minha cola. Quando o Oscar Ulisses, o locutor, me pergunta algo, números, por exemplo, os tenho prontos. Nada combinado, mas é bom estar com essas informações disponíveis.
Boa corrida para nós. Quando chegar em São Paulo, depois de longa viagem via Frankfurt, nos encontraremos de novo neste espaço. Um forte abraço a todos. Gostaria de dizer que depois de bom tempo fora de casa, em nações de cultura tão distinta da brasileira e italiana, conversar com quem se interessa em ler essas nossas brincadeiras faz muito bem.
Obrigado!

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Parece o clássico capítulo final de uma novela: ontem Fernando Alonso, da Renault, disse ter feito as pazes com sua equipe, a Renault, a quem acusou de tê-lo abandonado em algumas ocasiões, e o diretor-técnico da Ferrari, time de Michael Schumacher, o inglês Ross Brawn, sugeriu que na disputa final o “fair play” vença. Curiosamente Schumacher nem sempre o praticou. É nesse clima de suposto desprendimento recíproco que Alonso e Schumacher se apresentam para o GP do Japão, prova que pode dar ao alemão seu oitavo título mundial. A largada será às 2 horas deste domingo, horário de Brasília, 14 horas de Suzuka.
Não é o mais esperado, afinal Schumacher precisa vencer a prova e Alonso não marcar pontos para definir a conquista, mas a verdade é que, apesar de pouco provável, os japoneses poderão assistir à nova decisão de campeonato, a 11.ª da sua história, na edição de 20 anos da Fórmula 1 em Suzuka e que marca sua despedida do calendário. E torcida não irá faltar. Não há mais ingressos para o GP do Japão. São esperadas 120 mil pessoas no autódromo amanhã. Os sempre comedidos japoneses parecem que se permitem, nos dias de Fórmula 1 no país, uma trégua a si próprios: talvez seja o povo que mais expressa seu carinho e devoção, das mais distintas formas, aos pilotos, em contraste com sua cultura.
Os céus decidiram retribuir tamanha espontaneidade de emoções com os dois candidatos ao título: mesmo com a população sendo budista ou shintoísta, São Pedro, um santo católico, providenciou que as chuvas parassem desde ontem à noite. Festa sem chuva oferece maior diversão e é menos perigoso. A previsão do tempo indica que as 56 voltas da 17.º e penúltima etapa da temporada serão disputadas com pista seca. Alonso ainda torce por uma corrida com asfalto molhado. Nessas condições, os pneus Michelin da Renault têm-se mostrado mais eficientes que os Bridgestone da Ferrari.
A afinidade do circuito da Honda por decisões de campeonato é mesmo notável. Se Schumacher for campeão amanhã em Suzuka, será a 11.ª vez, em apenas 20 anos, que um dos traçados mais seletivos e espetaculares da Fórmula 1, com 5.807 metros, apontará o campeão. Tudo começou já na estréia de Suzuka no Mundial, em 1987. Nelson Piquet, com Williams, conquistou seu terceiro título lá. Depois, em 1988, foi a vez de Ayrton Senna, McLaren. Alain Prost, companheiro de Senna, no ano seguinte, para o brasileiro da McLaren levar nas duas próximas temporadas, 1990 e 1991. Também foram campeões do mundo em Suzuka: Damon Hill, Williams, em 1996, Mika Hakkinen, McLaren, 1998 e 1999, e Schumacher, 2000 e 2003.
“É…recebi dados que me impressionaram. Ao mesmo tempo me estimulam ainda mais”, disse ontem Schumacher, em entrevista à TV alemã, ao saber que cerca de 20 milhões de telespectadores na Alemanha deverão acordar mais cedo para assistir ao GP do Japão (a largada será às 7 horas no horário de seu país). Será a penúltima apresentação de Schumacher na Fórmula 1.
Mesmo em situação um pouco menos favorável quanto às suas possibilidades, por ter uma vitória a menos do alemão, 7 a 6, apesar da igualdade de pontos, 116, Alonso não irá gerar menos interesse nos espanhóis. Ele quebrou todos os recordes de audiência por um evento de esportes na nação, cujo pico se deu no GP do Brasil do ano passado, transmitido ao vivo em horário nobre da TV espanhola, domingo à noite. Quase a metade dos cidadãos da Espanha assistiu e vibrou com a conquista de seu primeiro título.
E agora poderá repeti-lo. Não hoje, mesmo que vença e Schumacher não faça pontos, mas em Interlagos, de novo, dia 22. Seu companheiro de Renault, Giancarlo Fisichella, já está escalado para, dentro do possível, auxiliá-lo, como tanto deseja o asturiano, a exemplo de Felipe Massa com relação a Schumacher. É outra atração do GP do Japão. Em Suzuka ou São Paulo, não importa onde e quem será o campeão, a Fórmula 1 poucas vezes viu tanto interesse pelo seu espetáculo.

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Fernando Alonso, Giancarlo Fisichella e Flavio Briatore lavaram suas roupas ontem à noite. Quinta-feira, Alonso disse sentir-se “sozinho” na luta com Michael Schumacher e reclamou de a equipe permitir Fisichella de o ultrapassar em Xangai e Indianápolis. “Ele já fez isso ano passado também. Talvez tenha esses acessos uma vez por temporada”, disse, rindo, Briatore. “Nós nos entendemos e talvez até estejamos mais estimulados para o fim de semana”, disse o italiano. Já Alonso: “Não imaginei que minhas palavras teriam a repercussão que ganharam.”

Na sessão livre de ontem de manhã, pouca gente se arriscou a deixar os boxes por causa do volume de água na pista. À tarde, a chuva mais leve no início e a trilha seca no fim agitou o treino, de resultado pouco significativo. Giancarlo Fisichella estabeleceu o melhor tempo, 1min34s377 e Felipe Massa, Ferrari, o segundo, 1min34s408. Os dois que poderão ter participação decisiva na definição do título de Alonso e Schumacher foram mais velozes que eles. Schumacher ficou em terceiro, 1min34s565, e Alonso, quarto, 1min34s863. Rubens Barrichello, Honda, registrou o 13.º, 1min35s528.

Uma pequena multidão de jornalistas japoneses cercou Sakon Yamamoto, ontem, depois de encerrada a sessão de treinos da tarde. Era sua estréia diante da torcida japonesa, por um time do Japão, Super Aguri, na pista da Honda, parceira de seu time, que compete com pneus japoneses Bridgestone e conta com investimentos, primordialmente, de seu país. Apesar de todo o conhecimento dos 5.807 metros de Suzuka, Yamamoto não foi bem, 28º, 1min38s955. “Me emocionei ao deixar os boxes de manhã”, disse, com forte sotaque japonês.

Quem não conhecia ficou maravilhado com o traçado de Suzuka e lamentou sua saída do calendário. A partir de 2007 será susbtituído pelo circuito de Fuji, de propriedade da Toyota. A nova geração de talentos da Fórmula 1, o polonês Robert Kubica, da BMW Sauber, 21 anos, e o alemão Sebastian Vettel, 18, do mesmo time comentaram o circuito: “Pena eu ter dado apenas 3 voltas com pneus de pista seca. Tenho muito ainda o que descobrir nesse desafiador traçado. Penso que posso ser bem mais rápido.” Ficou em 18.º, 1min36s299. Vettel completou 30 voltas: “Os esses de alta, na sequência da reta dos boxes, é espetacular.” Obteve o 6.º tempo, 1min34s912.

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