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16/III/12

Livio Oricchio, de Melbourne

Para quem saiu do inverno europeu, ainda que já no seu final, não deixa de ser estranho, no primeiro momento, embarcar no voo da Thai de Bangcok para Melbourne com os passageiros vestindo bermuda, camiseta regata e sandália tipo havaina. O ambiente a bordo é outro, o comportamento das pessoas torna-se completamente distinto do que experimentei de Nice para Zurique, por exemplo, apenas horas antes, com todos nós devidamente agasalhados e sérios, mais compenetrados.

Na cidade suíça enfrentei 7 graus Celsius enquanto na Tailândia, 35. Descontada a natureza distinta dos dois povos, o clima, claro, também intervem no estado de espírito dos cidadãos. Nessa viagem em particular essa sensação manifestou-se na plenitude em mim.

Isso me fez lembrar uma ocasião em que me encontrava próximo de Munique, nos Alpes, com 10 graus negativos, não me recordo o ano, e em seguida voei para Kuala Lumpur, para o GP da Malásia, onde é normal 40 graus. Havia, portanto, uma diferença de 50 graus entre a pequena cidade da Baviera e o autódromo de Sepang, para não mencionar a expressiva diferença de umidade entre ambas regiões, 38% e 76%.

No primeiro dia, quando eu parava de me locomover no paddock, minha pernas começavam a tremer, como se desejassem prosseguir em movimento. Não foi um problema, mas somado ao cansaço que você não entende de onde vem, estabelece-se um quadro bastante desconfortável. Mas faz parte desse desafio de viver itinerante pelo mundo acompanhando a Fórmula 1. Escrevo para mostrar que ao mesmo tempo em que há um certo fascínio nisso tudo existem, também, exames de postura física e emocional exigentes.

Estamos em Melbourne, no estado de Vitória, sudeste australiano. Oficialmente, quarta-feira acaba o verão. Há um finalzinho dele, ainda. E se faz presente de verdade. Que calor! Diante de temperaturas tão elevadas, 30 graus, não podia ser diferente. Hoje, quinta-feira, quase meia noite para mim, 10 horas da manhã na Ilha da Fantasia, Brasília, chove nesta deliciosa cidade. Na realidade, pouco antes de eu sair da sala de imprensa caiu foi um toró (adoro essa palavra)!

Atravessei parte do Albert Park até o portão 1, da Canterbury Road, onde ao lado há uma estação de bonde. “Não me diga que esse repórter aí vai e volta para o autódromo de bonde?” Pois digo que vou sim, meu senhor. É a maneira mais prática e rápida. Saio do meu hotel, Crest on Brarkly, pertinho da Santa Kilda, avenida mais famosa do bairro, por nos levar à praia, caminho contornando o Albert Park uns dez minutos e pronto, estou na estação de bonde.

São apenas duas estações até o portão 1, o de entrada. O deslocamento é mais ou menos 2 quilômetros. A pé seria, digamos, 25 minutos. Mas com a minha bolsa de mão e a do laptop no outro ombro, a tira colo, ambas pesadas e com o calor que faz, prefiro o bonde. Para quem tem a credencial permanente da FIA não é cobrada a passagem, cujo preço é dois dólares australianos ou 1,6 euro ou 3,5 reais.

Por falar em dinheiro, Melbourne e Montreal transformaram-se nos dias de GP de Fórmula 1 nas cidades mais caras do calendário. Confesso que chega a me irritar, por vezes, certos desmandos. Por exemplo, um hotel que custe normalmente 80 dólares australianos a diária, algo como 67 euros ou 160 reais, nessa época passa a cobrar 220 dólares australianos. Ou seja, triplica seus preços. É irreal.

O próprio custo de vida na Austrália, comparado com o que conheci há mais de 20 anos, proporcionalmente ao nosso na Europa, cresceu assustadoramente. Pode parecer mentira, mas custa menos viver no Sul da França, onde moro, do que aqui em Melbourne. Começa pelo táxi, 70 dólares australianos, do aeroporto ao hotel, 57 euros, para um deslocamento de 16 quilômetros. Pago em Nice, para uma distância um pouco menor, 25 euros, em média. Comida, da mesma forma, é cara. Repito, mais que na maioria das muitas cidades que conheço na Europa.

Escrevo do meu quarto, no hotel. Estou sentado na minha cama e mantenho o laptop apoiado sobre as minhas pernas. Quando cheguei do circuito, por volta das 23 horas, sempre meu horário, agora, fui até uma loja de conveniência aqui perto comprar algo para comer porque a cozinha do hotel estava fechada. E pude comparar alguns preços com os que pago nos supermercados na França e no mercado de Ventimiglia, na Itália, onde faço as compras de alimentos, a meia hora de casa, apenas. Aqui são mais elevados.

Vocês não têm ideia dos restaurantezinhos que há nas pequenas vilas de montanha da Liguria, porção estreita de terra do noroeste da Itália, fronteira com a França. Sábado é sagrado: estando em casa vou comer por aquelas bandas. Há muito ainda o que descobrir. Amo comer bem. Você quer saber quanto gasto?

Uma entrada, como a salada de polvo com batatas, servida quente, uma pasta, digamos ravioli com recheio de alcachofra, abundante nesta época, e um torta de limão, para aproveitar também o melhor período do limão, cerca de 30 euros ou 70 reais. A bebida? Um quartino de vinho da casa, sempre agradável, e água mineral sem gás. Acha muito? Olha, como bem de verdade por esse valor. Aqui mesmo no restaurante do hotel, simples, por favor, vi ontem, sequência parecida não sairia por menos de 40 euros e, com certeza, nem de longe teria a mesma qualidade.

Mas estou viajando mesmo, de repente de Melbourne voei para Ventimiglia, Bordighera, San Remo e as medieváis Olivetto e Aeoria, nos Alpes Marítimos, todas bem próximas. Voltando, tá?

O fuso horário me pegou. Não tenho sono. Azar o de vocês, pois me ponho a escrever no Diário de Bordo e as linhas se sucedem, se sucedem…

Ah, eu falei em bonde. Vou tirar uma foto, se cruzar com ele, amanhã, na ida ao circuito, para lhes mostrar que ideia interessante, original: um bonde restaurante. Você pode fazer um citytour por Melbourne enquanto aprecia uma bela refeição a bordo de um simpático e charmoso bonde. Ainda não fiz o tour por falta de tempo, pois sempre que permanecia por aqui, entre a prova da Austrália e da Malásia e, bem antigamente, do Japão e da Austrália, ia para algum lugar deste país fascinante. Concordo: era muito mais barato.

Assim, passei 9 dias em Sidney, cidade apaixonante, outro tanto em Port Douglas, na Grande Barreira de Corais, nordeste da Austrália, impressionante o mar, e Brisbayne, também da costa Leste. Mais: quando a Fórmula 1 ainda se apresentava em Adelaide, até 1995, experimentei aquelas bandas também, mais característica da Austrália, menos influenciada pelas mudanças mais recentes no modo de vida da maioria das metrópoles. Falta Darwin, no norte, em especial para quem é apaixonado pela natureza, como eu, e Perth, na costa Oeste. Oportunamente.

Lembra que eu contei do desgaste de submeter-se a diferenças significativas de temperaturas e umidade, imposto a quem se movimenta com a Fórmula 1? Pois essa oportunidade rara de conhecer tantos locais distintos, cada um com suas riquezas, representa o lado glamoroso do projeto.

É, sim, o maior legado que a Fórmula 1 nos deixa. São tantos os valores que nos são apresentados e tudo tão rapidamente que nos exige, da mesma forma, respostas rápidas de reflexão. As opções são: absorção desses valores, podemos ainda deletá-los ou, o mais comum, proporcionamos um sincretismo com aquilo que já possuímos.

Mas acredite, não há como passar imune por essa turbulência sem nuvem, pois quem está de fora não enxerga o conflito que, em algumas ocasiões, se estabelece dentro de nós. A nossa resposta ao desafio do contato com reações, comportamentos, leituras, iniciativas diferentes dos nossos, nos casos extremos opostos até, corresponde, na realidade, ao desenlace de um processo.

Ia contar uma história aqui mas já é tarde e acabei de ver a extensão do texto. Vamos deixar para outro dia. É engraçada. Aconteceu comigo, em 1997, quando vínhamos para a Austrália, já abertura do Mundial. Bons tempos. Era um grupo que se reunia com frequência para jantar nos dias de corrida, liderado por Galvão Bueno, o agitador dos encontros, e viajava muito junto também.

Se der um terceiro capítulo do Diário de Bordo, sábado, prometo contá-la. Hora de ler um pouco o exemplar da revista italiana Science, de março, com suas reportagens científicas abordadas em grande profundidade, em especial o tema mais fascinante das duas últimas décadas, a astrofísica, com sua evolução exponencial, caracterizada por descobertas impressionantes a cada semana, na prática.

Você se envolve de tal forma com os programas de exploração, sua complexidade, magnitude, ousadia, se impressiona tanto com os novos telescópios espaciais que vêm aí, por exemplo, que nos sentimos até um pouco ansiosos antes de ler novos capítulos do universo do universo.

Abraços, amigos!

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13/III/12

Livio Oricchio, de Bangcok

Acompanhe comigo. Vamos viajar juntos. O tema é geografia. Representa até uma oportunidade para checar os seus conhecimentos. Aprendi bastante.

Decolagem de Zurique com proa Leste, direção de Graz, na Áustria. Levemente sudeste, agora, cruzamos o sul da Hungria e já estamos no norte da Sérvia, com Belgrado a nossa direita. Sobrevoamos o sul da Romênia e vamos na direção da área mais selvagem, ainda, da Europa, o delta do rio Danúbio, que tanto desejo visitar.

Ele faz a sua foz no Mar Negro e acabamos de deixar terra firme para transpô-lo de oeste a sudeste. Não é pequeno, cerca de dois mil quilômetros. São mais de duas horas de voo sobre as águas do Mar Negro. Boas leituras, um pouco de risada com a sessão comédia do entretenimento a bordo e já é possível ver terra novamente.

País? Georgia, uma das ex-repúblicas soviéticas, no Cáucaso. Prosseguimos no rumo sudeste e sobrevoamos, nesse instante, a capital da nação, Tbilise. Sem sair da rota deixamos a Georgia para trás para entrar no simpático Azerbaijão. No seu limite leste, na borda do Mar Cáspio, encontra-se a capital, Baku, e seu importante porto. O Azerbaijão tem bastante petróleo.

Você já ouviu falar em Turquemenistão, na Ásia Central? É o país que nos aguarda do outro lado do Mar Cáspio. Estamos atravessando na sua menor largura, aproximadamente500 quilômetros. Não desista não, siga conosco, ainda que não estamos perto. Vamos passar daqui a pouco sobre a capital do Turquemenistão, nem sei se é assim a grafia correta em português, a cidade de Asgabat. Fui navegando durante o voo no programa da Swissair e os nomes, claro, não estavam em português.

Dois países que foram e ainda são notícia todos os dias nos jornais do mundo todo estão a nossa frente, o Afeganistão e o Paquistão. Vamos passar logo por aqui antes que sobre alguma coisa para a gente. Pronto, já deixamos Kabul, no Afeganistão, e Islamabad, Paquistão. Começa a surgir no mapa o nome de Nova Delhi, na Índia. Passamos ao norte da impressionante cidade, na proa de outra metrópole indiana, Calcutá.

A maior parte do voo é diurna, portanto é possível navegar com precisão. Além de bastante agradável, ao menos para mim, ajuda a passar mais rápido as 11 horas entre Zurique e Bangcok, nosso destino. Por enquanto. Mas não se anima não. Depois tem mais 9 horas de voo até Melbourne.

E dá-lhe água de novo, a Baía de Bengala, do Oceâno Índico. Como está dando sono, vou ser mais breve. Passaremos o voar mach 2 e não mais 0.8 mach, combinado? Superssônicos, agora. O próximo país representa uma das últimas ditaduras militares vigentes, Mianmar, a ex-Birmânia. Como toda nação conduzida por militares, estão parados no tempo. E quem fala algo contra seus interesses simplesmente é assassinado. A capital Rangum é a última de nosso longo itinerário antes de cruzarmos a fronteira da Tailândia para pousarmos em Bangcok.

Que é de onde escrevo agora, mais precisamente do lounge da Thai, outra companhia do sistema Star Alliance, por quem normalmente viajo. Trata-se de um companhia área muito boa. Thai, Singapure, Emirates, Swiss… quem viaja com essas empresas e depois embarca na maioria das demais sente o baque do despreparo, de como muita coisa fica ao acaso, ao contrário das grandes companhias em que parece existir resposta pronta para tudo, pois já foi previsto e uma resposta estudada.

A Thai tem, ainda, um lounge especial, o Spa Thai, ao lado de onde estou, para os passageiros das classes executiva e primeira. Dispor apenas do cartão Senator da Lufthansa-Swiss, como eu, não dá direito a usufruir dos serviços de massagens. O que não quer dizer que, estando na Tailândia, vou sair daqui sem a famosa massagens para os pés que eles tanto fazem aqui.

Encontra-se na outra asa, aberta a todos, e a preços simbólicos para os europeus: 13 euros 30 minutos ou 16 euros 45 minutos. Esta, por favor. Entro na sala onde há várias cadeiras bem confortáveis, distantes cerca de dois metros uma da outra, e encontro colegas jornalistas, também a caminho de Melbourne, submetendo-se a essa verdadeira terapia para os pés mas que, na realidade, é para a mente, tal a sensação de relaxamento que provoca.

Não vem com essa não! Antes de sentar lá e disponibilizar meus pés tomei banho no lounge. Já imaginou depois de sair de casa, em Nice, de táxi, para o aeroporto, enfrentar o calor no lounge por causa da quebra do ar condicionado, mais uma hora e dez de voo até Zurique, três horas de espera no lounge da Swiss, outras onze horas de voo até Bangcok, passando por todas as nações mencionadas, e então tirar as meias diante das jovens senhoras que fazem a massagem e movimentar os dedinhos? Não, amigo, tenho bom senso, tomei banho. A meia parecia engessada de tanto que suportou.

Chega de falar, não? Havia comido umas coisinhas aqui no lounge, mas vou procurar é jantar, assim não tenho de pensar em comer a bordo no voo para Melbourne e tirar um soninho, o que me ajudaria bastante a enfrentar a diferença de 10 horas de fuso em relação a Nice. Brasília está 14 horas a menos de Melbourne.

Antes de sair daqui, vale uma palavrinha sobre o aeroporto de Bangcok. Seria tão bom se os responsáveis pelos aeroportos brasileiros dessem um pulinho aqui, ver como as coisas funcionam. É fácil perceber que há alguém pensando por trás de tudo. Mas a maioria desses cidadãos tem sensibilidade de ostra, haja vista o que nos eferecem no Brasil, em especial no Aeroporto Internacional de São Paulo.

Amigos, a tristeza maior nem é a precariedade de tudo em Cumbica, como falta de espaço, banheiros indecentes, despreparo de seus funcionários, a fabulosa Infrazero, e por aí vai. O pior é entender rapidamente lá, em breves conversas, a visão dos homens que dirigem o aeroporto. Para muitos, aquilo é o máximo. E não há nenhum problema maior com Cumbica. É nas mãos de cidadãos como esses que estamos. Estenda essa visão tacanha e, em muitos casos desonesta, aos homens de Brasília.

Estou ansioso com a temporada de Fórmula 1. Bastante. Apesar de viver esse momento há 22 anos direto, minha paixão não diminuiu. Penso até que cresceu.

Não revisei o texto. Abraços!

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13/III/12

Livio Oricchio, de Bangcok

Acompanhe comigo. Vamos viajar juntos. O tema é geografia. Representa até uma oportunidade para checar os seus conhecimentos.

Decolagem de Zurique com proa Leste, direção de Graz, na Áustria. Levemente sudeste, agora, cruzamos o sul da Hungria e já estamos no norte da Sérvia, com Belgrado a nossa direita. Sobrevoamos o sul da Romênia e vamos na direção da área mais selvagem, ainda, da Europa, o delta do rio Danúbio, que tanto desejo visitar.

Ele faz a sua foz no Mar Negro e acabamos de deixar terra firme para transpô-lo de oeste a sudeste. Não é pequeno, cerca de dois mil quilômetros. São mais de duas horas de voo sobre as águas do Mar Negro. Boas leituras, um pouco de risada com a sessão comédia do entretenimento a bordo e já é possível ver terra novamente.

País? Georgia, uma das ex-repúblicas soviéticas, no Cáucaso. Prosseguimos no rumo sudeste e sobrevoamos, nesse instante, a capital da nação, Tbilise. Sem sair da rota deixamos a Georgia para trás para entrar no simpático Azerbaijão. No seu limite leste, na borda do Mar Cáspio, encontra-se a capital, Baku, e seu importante porto. O Azerbaijão tem bastante petróleo.

Você já ouviu falar em Turquemenistão, na Ásia Central? É o país que nos aguarda do outro lado do Mar Cáspio. Estamos atravessando na sua menor largura, aproximadamente500 quilômetros. Não desista não, siga conosco, ainda que não estamos perto. Vamos passar daqui a pouco sobre a capital do Turquemenistão, nem sei se é assim a grafia correta em português, a cidade de Asgabat. Fui navegando durante o voo no programa da Swissair e os nomes, claro, não estavam em português.

Dois países que foram e ainda são notícia todos os dias nos jornais do mundo todo estão a nossa frente, o Afeganistão e o Paquistão. Vamos passar logo por aqui antes que sobre alguma coisa para a gente. Pronto, já deixamos Kabul, no Afeganistão, e Islamabad, Paquistão. Começa a surgir no mapa o nome de Nova Delhi, na Índia. Passamos ao norte da impressionante cidade, na proa de outra metrópole indiana, Calcutá.

A maior parte do voo é diurna, portanto é possível navegar com precisão. Além de bastante agradável, ao menos para mim, ajuda a passar mais rápido as 11 horas entre Zurique e Bangcok, nosso destino. Por enquanto. Mas não se anima não. Depois tem mais 9 horas de voo até Melbourne.

E dá-lhe água de novo, a Baía de Bengala, do Oceâno Índico. Como está dando sono, vou ser mais breve. Passaremos o voar mach 2 e não mais 0.8 mach, combinado? Superssônicos, agora. O próximo país representa uma das últimas ditaduras militares vigentes, Mianmar, a ex-Birmânia. Como toda nação conduzida por militares, estão parados no tempo. E quem fala algo contra seus interesses simplesmente é assassinado. A capital Rangum é a última de nosso longo itinerário antes de cruzarmos a fronteira da Tailândia para pousarmos em Bangcok.

Que é de onde escrevo agora, mais precisamente do lounge da Thai, outra companhia do sistema Star Alliance, por quem normalmente viajo. Trata-se de um companhia área muito boa. Thai, Singapure, Emirates, Swiss… quem viaja com essas empresas e depois embarca na maioria das demais sente o baque do despreparo, de como muita coisa fica ao acaso, ao contrário das grandes companhias em que parece existir resposta pronta para tudo, pois já foi previsto e uma resposta estudada.

A Thai tem, ainda, um lounge especial, o Spa Thai, ao lado de onde estou, para os passageiros das classes executiva e primeira. Dispor apenas do cartão Senator da Lufthansa-Swiss, como eu, não dá direito a usufruir dos serviços de massagens. O que não quer dizer que, estando na Tailândia, vou sair daqui sem a famosa massagens para os pés que eles tanto fazem aqui.

Encontra-se na outra asa, aberta a todos, e a preços simbólicos para os europeus: 13 euros 30 minutos ou 16 euros 45 minutos. Esta, por favor. Entro na sala onde há várias cadeiras bem confortáveis, distantes cerca de dois metros uma da outra, e encontro colegas jornalistas, também a caminho de Melbourne, submetendo-se a essa verdadeira terapia para os pés mas que, na realidade, é para a mente, tal a sensação de relaxamento que provoca.

Não vem com essa não! Antes de sentar lá e disponibilizar meus pés tomei banho no lounge. Já imaginou depois de sair de casa, em Nice, de táxi, para o aeroporto, enfrentar o calor no lounge por causa da quebra do ar condicionado, mais uma hora e dez de voo até Zurique, três horas de espera no lounge da Swiss, outras onze horas de voo até Bangcok, passando por todas as nações mencionadas, e então tirar as meias diante das jovens senhoras que fazem a massagem e movimentar os dedinhos? Não, amigo, tenho bom senso, tomei banho. A meia parecia engessada de tanto que suportou.

Chega de falar, não? Havia comido umas coisinhas aqui no lounge, mas vou procurar é jantar, assim não tenho de pensar em comer a bordo no voo para Melbourne e tirar um soninho, o que me ajudaria bastante a enfrentar a diferença de 10 horas de fuso em relação a Nice. Brasília está 14 horas a menos de Melbourne.

Antes de sair daqui, vale uma palavrinha sobre o aeroporto de Bangcok. Seria tão bom se os responsáveis pelos aeroportos brasileiros dessem um pulinho aqui, ver como as coisas funcionam. É fácil perceber que há alguém pensando por trás de tudo. Mas a maioria desses cidadãos tem sensibilidade de ostra, haja vista o que nos eferecem no Brasil, em especial no Aeroporto Internacional de São Paulo.

Amigos, a tristeza maior nem é a precariedade de tudo em Cumbica, como falta de espaço, banheiros indecentes, despreparo de seus funcionários, a fabulosa Infrazero, e por aí vai. O pior é entender rapidamente lá, em breves conversas, a visão dos homens que dirigem o aeroporto. Para muitos, aquilo é o máximo. E não há nenhum problema maior com Cumbica. É nas mãos de cidadãos como esses que estamos. Estenda essa visão tacanha e, em muitos casos desonesta, aos homens de Brasília.

Estou ansioso com a temporada de Fórmula 1. Bastante. Apesar de viver esse momento há 22 anos direto, minha paixão não diminuiu. Penso até que cresceu.

Não revisei o texto. Abraços!

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25/VIII/11

Livio Oricchio, de Robertville, Bélgica

 300 quilômetros (km). Mais precisamente, 300 km e quinhentos metros, medidos no odômetro do meu Skoda Fabia. Essa é distância do estacionamento da Europcar no aeroporto de Frankfurt até a casa em que estou hospedado, em Robertville, na Bélgica, a 12 quilômetros de onde paramos o carro dentro do circuito de Spa-Francorchamps, ao lado da famosa e desafiadora curva Eau Rouge.

  Se você procurar a cidade num mapa, saiba que terá de ser rico em detalhes para localizá-la. Pequena, muito pequena, mas simpática, aconchegante, rural, situada numa região linda, a cadeia de montanha das Ardenas, na fronteira da Bélgica com a Alemanha. A região chama-se Wallon. Há uma represa aqui do lado, onde me hospedei em várias ocasiões, no hotel Residence du Lac, do senhor Felix, falecido no ano passado. Bela propriedade, com área para esportes, piscina aquecida coberta. A esposa, abatida, vendeu tudo.

  Fiz amizade com o senhor Felix. Era de uma dedicação única comigo. Conversávamos as noites, até bem tarde. Gostava de me contar suas experiências na Segunda Guerra Mundial, aqui mesmo, durante a ocupação alemã. Mais para a frente vou abordar a questão da Segunda Guerra aqui na região do circuito Spa-Francorchamps, que é fascinante.

  Desenhei a minha cozinha, na casa que possuo na serra da Cantareira, próxima a São Paulo, a partir da disposição da existente na sua graciosa residência. Tirei fotos depois de pronta e levei ao Felix e à esposa para ver o meu quase plágio. Eles adoraram as soluções que criei partindo da base de ocupação de espaço da sua cozinha.

  Prefiro vir para cá direto de carro de Frankfurt a voar para Bruxelas e então dirigir até aqui. Na Bélgica há controle bem mais rigoroso de velocidade, enquanto na Alemanha, a não ser nas proximidades das entradas e saídas das cidades, não há limite nas autoestradas. Acredite, você gasta quase o mesmo tempo de Frankfurt a Spa que de Bruxelas ao circuito.

  Sem falar que cruzamos áreas que me agradam muito, como a da cidade de Koblenz, cortada pelo rio Reno, e a região da fronteira alemã, belga, holandesa e francesa, onde são produzidos renomados vinhos, segundo os enólogos. Apesar de todas as oportunidades de que disponho para entender de vinhos, como ser ítalo-brasileiro e morar na França, limito-me a dizer, no máximo, paladar mais ou menos agradável, acompanha bem este ou aquele prato.

  Roteiro para vir de Frankfurt a Robertville: bem próxima ao aeroporto acha-se a entrada para a autoestrada 3, sentido Norte, Köln, ou Colônia. Na altura do km 110 controlado pelo odômetro, sair para a 48, direção Koblenz, e seguir para Trier. Estar atento depois de 60 km na 48 para a saída que nos leva ao circuito de Nurburgring, na altura de Ulmen. Marcar, agora, exatos 40 km. É a distância para o entroncamento da 48 com a autoestrada 60 ou 42.

  Seguir para Wittlich e Bitburg, Alemanha e, na sequência, St Vith, Malmedy e Liege, já na Bélgica, sempre pela 60. Até aqui, com exceção de um pequeno trecho de cerca de 12 quilômetros, todo o restante se faz em pistas de duas ou três faixas de rolamento. Sair em Malmedy na 60, cruzar a cidade e seguir pela vicinal para Robertville. A casa alugada em que me encontro acha-se no km 3,6 dessa poética estradinha, permeada de residências características das Ardenas, parte com seu rebanho de gado bovino leiteiro e ovino. Estão sempre floridas no verão, como agora. Bem, verão no conceito deles, que fique claro, por favor. Da 48 até a saída para Malmedy, na 60, são 90 km. Os 10 km finais referem-se à distância de Malmedy à casa em Robertville.

  Tempo total de viagem, incluindo uma parada de 15 minutos por interrupção do tráfego na 48, decorrente de obras: 3 horas. Pessoas fora do carro a conversar, aguardando a liberação da estrada. Acontece. Dá para ver que apesar de não existir limite de velocidade na Alemanha, não abuso: costumo me deslocar a 140, 160 km/h, dependendo do modelo, 180 km/h, velocidades seguras para o carro, condições de excelência da estrada e, principalmente, o nível de educação dos motoristas.

  Falam a mesma língua e, em geral, ninguém se sente com mais direitos que os demais, como acontece com frequência em sociedades onde parte importante dos cidadãos do judiciário, por exemplo, se consideram “diferenciados” e fazem greve por aposentadoria especial. Pasmem, amigos, existe país assim! Esses indivíduos que, antes de ninguém, deveriam defender os mesmos direitos a todos, consideram-se merecedores de direitos especiais. Se pertencerem às instâncias mais elevadas do poder, então, deuses onipotentes. Sem que uns diabozinhos lhe enfiem o tridente através do pescoço.

  É comum você estar na Alemanha a 160 km/h e passar do seu lado um Audi R8, hoje o meu esportivo favorito, modelos Porsche, Mercedes, BMW, Ferrari, Bugatti, Lamborghini, dentre outros, em velocidade bem superior. No mínimo a 220 km/h: cena regular.

  A casa onde estou é enorme. Há três planos que acompanham a topografia em declive do sítio. Nem sei direito o número de suítes. No andar superior estão a Tatiana, da Folha de São Paulo, a Linda, jornalista holandesa, há muito nossa amiga, o Ico, da rádio Bandeirantes, jornal Lance e site TotalRace, o Felipe Motta, da rádio Jovem Pan e do TotalRace. Há ainda mais hóspedes, como o Lucas Santochi, do site Tazio, e três argentinos, amigos antigos também, da TV de seu país.

  Todas as dependências são espaçosas e os quartos têm seus próprios banheiros, o que garante a privacidade de cada um, fundamental para mim. Os proprietários da casa residem numa casa igual, ao lado da nossa. As fotos mostram bem. Todos os dias organizam nas mesas da espaçosa cozinha, com vista para um lindo vale, o nosso café da manhã.

  Há vários anos os brasileiros se instalam aqui. Até mesmo o pessoal da Globo ficava na casa. Vou contar uma passagem: não posso precisar o ano, creio que no final dos anos 90, coisa aí de 1996, o Galvão organizou ele próprio o jantar, no sábado. Saiu mais cedo do autódromo, foi a um bom supermercado que há em Malmedy, comprou tudo o que necessitava para o menú que ele mesmo elaborou e preparou a comida. Salada, pasta e uma carne, associada. Tudo muito bem feito. E como ele é mão aberta, não cobrou nada de ninguém. Até mesmo os vinhos.

  Se eu contar o que aconteceu na sequência vocês vão rir. Começamos com um jogo que não me lembro o nome, mas é sobre cultura geral, questões bem elaboradas. Sai-me bem, recordo. Uma das perguntas, sempre com múltipla escolha nas respostas, questionava a força que atua quando um corpo muda de movimento, questão de ciência física.

  Isso foi de sábado para domingo. E todo mundo tinha de acordar cedo, pois havia ainda o warm up e tínhamos de estar lá. Dá de acontecer alguma coisa… jornalista tem de estar no local do evento. Mas alguém começou a fazer mímica, o que acabou imitado pelo outro e, no embalo de garrafas de vinho, de excelente qualidade, a maior parte do grupo se viu, de repente, brincando de mímica, como bons e felizes adolescentes.

  Nessa época, 15 anos atrás, a maior parte estava chegando aos 40 anos de idade ou tocado nela já. A geração que está aqui hoje precisará de alguns anos ainda para atingir os 40.

  O Galvão adora tanto bons vinhos que desde o ano passado produz o seu, no extremo sul do Brasil, no paralelo 31, na fronteira com o Uruguai. Na época dele na casa, contudo, gostávamos de lhe aplicar peças, oferecendo vinhos de qualidade regular pintados como requintados, a fim de vê-lo elogiar, induzido pela nossa apresentação calorosa e falsa. Hoje seríamos desmascarados facilmente.

  Não preciso dizer que a coisa da mímica foi longe. Primeiro nomes de filmes, depois grandes episódios históricos, descobertas científicas, nomes de livros etc. 4 horas da manhã e nada de o pessoal ir para a cama. 5 horas e alguém pôs um limite. Não me lembro quem. O fato é que dormimos se tanto 4 horas. Mas, tenha a certeza, está dentre as noites mais prazerosas que tivemos nesses anos todos. Voltamos salutarmente no tempo. E descobrimos não ser pecado. O duro foi enfrentar a dura jornada do domingo, sempre um dia trabalhoso, tendo dormido tão pouco.

  Esqueci de dizer que no sábado, antes do jantar, ainda houve tempo para um jogo de basquete, pois há na casa uma área com tabela e vários equipamentos para a prática de esportes. O Galvão mostrou o que sabe, pois jogou basquete por muitos anos. E pesava bem menos de hoje também. Além de cerca de 15 anos mais jovem. Faz diferença.

  A turma agora é infinitamente mais comportada. Com exceção do sábado, onde reunimos os que estão hospedados e outros amigos, como o pessoal da Globo, os ingleses David Tremayne e Jo Saward, dentre outros, todo mundo vai cedo para os seus quartos. E mesmo sábado o encontro não tem a movimentação de antes e muito menos sua extensão. Mas é igualmente agradável.

  Pagamos um dos valores mais baixos na temporada, apesar de ser dos locais onde mais bem nos instalamos: este ano custará cerca de 400 euros por pessoa. Claro, as despesas para nossa reunião de sábado são à parte, mas da mesma forma não representam muito. Junte isso ao aluguel do carro, no meu caso 229 euros (serão outros 160 euros de gasolina), mais algo como 300 euros com alimentação nesses dias na Bélgica e Alemanha, outros 100 euros extras, sempre presentes, e verá que a corrida em Spa está dentre as que menos gastamos.

  Está ficando tarde, amigos. A história da Segunda Guerra Mundial fica para amanhã, combinado? Agora quero terminar meu livro de contos do mestre dos mestres da literatura brasileira, Joaquim Maria Machado de Assis. A maioria deles estou relendo. Ou melhor, todos.

  Pensa que o homem redigiu os textos há uns 150 anos. Estava muito, muito além do seu tempo. Suas análises da complexa alma humana são tão vastas, profundas e eternas que me surpreendo, regularmente, refletindo sobre seus riquíssimos e dúbios personagens e as ricas tramas criadas. Temos a sensação de que Dom Casmurro e Quincas Borba realmente existiram.

 Imagino, por vezes, se Machado tivesse a oportunidade de se deslocar por todos os cantos do mundo e travar contato com culturas e valores humanos tão distintos, complementares, antagônicos, surpreendentes, exóticos, conservadores, inconsequentes, egoístas, igualitários etc, como é possível hoje. Se sem sair do Rio de Janeiro, praticamente, entre os distantes 1839 a 1908, já pintou um painel tão abrangente do que é a vida, sua graça, dúvidas, alegrias, temores, fidelidade e adultério, se elevaria a esferas ainda mais elevadas da espiritualidade. Mas para gênios como ele a percepção estática dos fatos e a absorção de conhecimento através da literatura universal já foram suficientes para ampliar e aprofundar dramaticamente sua visão do homem.

  Estou ficando com sono, amigos. Atenuem minha culpa por eventuais equívocos no texto. Como já disse aqui, as minhas letras no Diário de Bordo emergem do calor da emoção. Não reviso a escrita e tampouco realizo pesquisa. Se está no arquivo vivo então pode ser utilizado. E nem sempre é preciso. Por isso não leio o Diário nos dias que se seguem, para não ficar, eventualmente, chateado comigo mesmo.

  Amigos, boa noite. Quase uma hora da manhã. As histórias da Segunda Guerra Mundial ficam para amanhã, combinado?

  Abraços!

 

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22/VII/11

Livio Oricchio, de Gelenberg, Alemanha

Não vou me estender muito. É quase uma hora da manhã deste sábado. Cheguei aqui, na casa da Marlene e do Heinz, às 23h20, mas a Marlene me veio perguntar sobre as fotos da casa que me viu tirar hoje de manhã. Quando lhe disse que redijo um diário durante os dois primeiros dias de GP e a citei, ficou curiosa.

Falamos um pouco também da atividade jornalística e, principalmente, da minha vida itinerante. É o oposto da sua e do marido, daí as perguntas. Creio deva ter uns 42 anos. Muito simpática. Contou-me ter nascido aqui mesmo e a casa ao lado pertence a seus pais. Compreendi o certo fascínio demonstrado com meus frequentes deslocamentos.

Enquanto sua vida é marcada pela rotina a minha é exatamente pela ausência de rotina. Ou, podemos dizer, as viagens definem a minha rotina. Há ocasiões que sinto falta de certo sedentarismo para realizar cursos, com o de piloto de planador, perto de casa, no sul da França.

Hoje a Ferrari ofereceu um jantar no seu belíssimo motorhome, imenso, vários andares, para os jornalistas brasileiros e argentinos. Felipe Massa esteve o tempo todo conosco enquanto Fernando Alonso, apenas no início. O Vincenzo é um artista na cozinha. Que nível de jantar! Um brodino de funghi porcini de entrada com uma delicada fatia de enguia no centro do prato, berinjela a parmegiana e, prato principal, Salmão ao forno. Mas tudo ricamente bem feito.

Vocês não têm ideia de como esses encontros acrescentam conhecimento. Sentei perto do Luca Colajanni, assessor de Imprensa do time, do Felipe e do Jaime, chefe de produção da Globo. Trocamos muitas idéias. Mesa quadrada, todos têm acesso a todos.

Normalmente aqui na região de Nurburgring jantamos num restaurante chamado La Lanterna, dos meus amigos italianos Maurizio e Giovanni. Acha-se na estrada de Kelberg para o circuito. Simples, mas como se come bem, amigos. A Fórmula 1 em peso vai lá.

Ontem, acabei não contando, depois de chegar na casa da Marlene e do Heinz, tomei aquele banho e saí para comer, morrendo de fome. Claro que segui direto para o La Lanterna, distante apenas seis quilômetros de Gelenberg. Maurizio e Giovanni me tratam com deferência. Ci penso io! (Deixa comigo!), costumam dizer a respeito do que vão me oferecer. Eles cuidam do cardápio. Depois de tantos anos conhecem meus gostos.

Quando entrei no restaurante, que tem várias áreas, por ser numa antiga propriedade, dei de cara com Kamui Kobayashi e sua bela namorada, Yu Abiru. Kamui é um garotão, ainda, extrovertido e este ano na condição de líder da Sauber está ainda mais acessível, atencioso. Resultado: comemos juntos.

E não é que o danado pediu um prato vazio ao garçon para literalmente roubar um pouco do meu gnocchi al gorgonzola? Adorou. Pediria hoje novamente, confessou. Conversamos sobre muita coisa, como por exemplo eu morar na França, em Nice, e ele estar deixando Paris, onde residia. Claro, enveredamos por Fórmula 1 também.

Antes de deixar o carro no estacionamento da Imprensa, hoje de manhã, depois de enfrentar o trânsito da entrada do circuito, fui reabastecer no posto do Jochen. Passei em frente à entrada principal e segui dois quilômetros adiante. O posto localiza-se nessa estrada que acompanha as edificações principais do autódromo, numa vila chamada Meuspath, onde me instalei na casa da dona Gertrud por muitos anos.

No posto há uma belíssima loja de miniatura de carros, especialmente de corridas. Me realizo diante do Porsche 917 da equipe de fábrica pilotado por Jo Siffert e Dereck Bell, ou da Ferrari 512 M, sua concorrente mas que raramente o vencia. Depois veio a 312PB, de Ronnie Peterson e Tim Schenken, lá também. A Porsche foi campeã do Mundial de Marcas em 1969, 1970 e 1971. Entrando na adolescência, esse período do Campeonato de Protótipos marcou minha vida.

Tenho uma miniatura da Lotus 72D de Emerson Fittipaldi, da temporada de 1972, adquirida lá na loja do Jochen que é uma preciosidade. Feita de metal, sua fidelidade aos detalhes é extraordinária.

No último GP do Brasil o mesmo chassi número 5 da Lotus 72D usado por Emerson Fittipaldi para ser campeão do mundo estava em Interlagos e pude ver com calma uma série de detalhes do projeto, como os freios in board, discos dentro do cockpit, a suspensão em barra de torsão, os radiadores laterais, tudo novidade na Fórmula 1 na época de seu lançamento, em 1970.

Vou contar uma história inacreditável envolvendo Emerson, esse carro, o mesmo chassi. A vivi no posto do Jochen há alguns anos. Saboreava vagarosamente os encantos da loja quando, de repente, detectei uma foto pequena, na vitrine, ao lado de uma das centenas, talvez milhares, de miniaturas. Esperei diminuir um pouco o número de clientes e chamei Jochen para me explicar o que representava aquilo.

Ele estava de pé, na foto, ao lado do Emerson, de macacão, que por sua vez tinha a Lotus 72 próxima. Mais: havia também na foto um galão de plástico vermelho. Jochen riu e me levou para fora da loja, na área do posto. Em seguida, atravessou a estrada de duas faixas comigo e chegamos a uma cerca de metal, baixa, com vegetação acompanhando-a.

Subimos um pequeno talude de terra coberta de grama para atingir a cerca. E o que não havia do outro lado? A grande reta do circuito velho de Nurburgring. Metros apenas à nossa frente. Jochen começou a explicar:

“Foi em 1973, durante um treino coletivo da Fórmula 1 aqui em Nurburgring. Eu estava ajudando meu pai no posto de combustível, ali, você está vendo, do outro lado da estrada, quando ouvi um barulho de um carro parando.” Jochen reproduziu o som característico.

“Ao longo dos anos você aprende a entender o que se passa do outro lado da cerca, na pista, só pela natureza do ruído”, disse-me. Ele ainda: “Aquele barulho era típico de quem ficou sem gasolina. Acabei de reabastecer um carro, atravessei a estrada, fui até a cerca e vi Emerson, o campeão do mundo, saindo do cockpit da Lotus. Gritei para ele: ‘Fique tranquilo, vou te ajudar. Volto já’. E fui até o posto, peguei esse galão de 25 litros da foto, enchi de gasolina e levei até a cerca.”

Jochen me falou que a pulou sem dificuldade. Até hoje tem apenas um metro e meio de altura. Naquela época, o bocal do tanque de gasolina dos carros era muito distinto do atual. Como nos demais modelos de Fórmula 1 era um tampa com rosca, como na maioria dos carros de série até há não muito. Emerson concordou em reabastecer o carro com aquela gasolina. Imagine isso hoje, amigos! O combustível era o mesmo das bombas. Mais importante: os espíritos estavam sempre desarmados. Desconfiava-se menos. Vivia-se mais.

Os monopostos de Fórmula 1 tinham motor de arranque e, óbvio, bateria bem maior das usada agora para alimentá-lo. Emerson voltou para o cockpit, acionou o motor de arranque e o motor Cosworth V-8 pegou. “Um barulhão, vendo de perto”, contou Jochen. A seguir, Emerson pisou na embreagem, comandou a alavanda de câmbio para inserir a primeira marcha e, fazendo tchauzinho, despediu-se de Jochen para regressar aos boxes. “Pedi para uma pessoa que assistia a tudo para tirar a foto”, disse-me o alemão.

Li ontem o aprovado pela FIA para a Fórmula 1 a partir de 2014 e o motor de arranque será obrigatório de novo. Usar fonte externa para acionar o motor será proibido. Ótimo. Se um piloto roda e deixar o motor morrer poderá voltar à corrida. Gosto dessa independência dos pilotos e carros. Não aprecio a profunda mobilização exigida hoje para colocar o carro em ordem de marcha.

Como disse, nossa história em Nurburgring tem outros desdobramentos espetaculares. Enquanto Emerson abastecia, o treino acabou. Não havia intercomunicação entre piloto e equipe por rádio. Essa tecnologia começaria cerca de 12 anos mais tarde apenas. Os carros das demais escuderias voltaram para os boxes, mas Emerson não. O processo de abastecer a Lotus e fazê-la funcionar tomou tempo.

Os mecânicos da Lotus entraram, então, numa van e deixaram os boxes para procurar o carro e trazê-lo de volta junto de Emerson. Era assim a Fórmula 1 da época. O próprio time saía à caça de seus monopostos e pilotos espalhados pelo imenso traçado de 22.835 metros. Também não existiam comissários equipados com rádio para informar à torre o que se passava nos inúmeros pontos da pista. Dá para imaginar uma competição às escuras?

O Barão, pai do Emerson, jornalista, era locutor da rádio Jovem Pan, na época. Contou-se que no GP da Alemanha viam os carros passar diante de si 14 vezes, número de voltas da corrida, e pronto. Não tinham noção do que ocorria no restante da pista. “Não dispúnhamos de imagens e computador. Víamos os carros se aproximando da bandeirada e narrávamos a chegada. Até então não tínhamos certeza de nada.”

Enquanto os mecânicos da Lotus realizavam sua volta de rastreamento do carro, Emerson regressou aos boxes e o levou para a área de trás, conforme orientação dos comissários. Para melhor compreensão do tempo necessário para completar os sinuosos 22 quilômetros de Nurburgring: no GP daquele ano, 1973, a melhor volta ficou com José Carlos Pace, da Surtees, com 7 minutos, 11 segundos e 4 décimos. Com uma van os mecânicos da Lotus levariam bem mais.

A disparidade fez com que integrantes da Lotus não encontrassem o carro e seu piloto, que estavam devidamente acomodados atrás dos boxes. Lembre-se, não havia rádio para comunicarem-se. Nem bem chegaram aos boxes, alguns de seus integrantes saltaram da van e saíram correndo na direção do treino a fim de pedir ajuda, pois na sua mente Emerson havia deixado o circuito e voado sobre o guardrail em algum ponto do desafiador, maravilhoso, mas perigoso traçado.

Nesse instante alguns mecânicos viram Emerson e a Lotus atrás dos boxes e foram chamar correndo aqueles que saíram desesperados na busca de socorro. O episódio havia sido esclarecido. E, melhor, com um final feliz.

Vocês acreditam nisso tudo, ocorrido durante testes da Fórmula 1 no velho Nurburgring, em 1973?

Quando ouvi, também não. O que fiz? Assim que regressei à sala de imprensa liguei para o Emerson. Mal comecei a contar a história e ele soltou aquela risada do outro lado da linha. Eu ia falando o que ouvira do Jochen e o Emerson não parava de rir. “Livio, é tudo absolutamente verdade.” E me deu mais detalhes da incrível experiência.

Eu tinha algo maravilhoso do ponto de vista jornalístico nas mãos. Voltei ao meu carro e fui procurar pelo Jochen. Com a confirmação do Emerson, o alemão ganhou minha confiança.

Jochen, podemos escanear a foto para eu redigir uma reportagem e utilizá-la para ilustrar? Perguntei. Na realidade, no local funciona o posto, a loja, não pequenos, e um hotel, também de sua propriedade, tradição da família. Integrada, acha-se ainda sua residência. Jochen me levou para dentro de casa para usar o scanner. Dei, na sequência, um fora daqueles de não se recompor facilmente.

Uma bela moça, jovem, se apresentou para me ajudar para reproduzir digitalmente a foto. Agradeci e tentando ser gentil e também por expressar o que sentia, comentei “Muito bonita a sua filha, Jochen.”. Foi duro ouvir: “É a minha mulher!”, em visível tom de reprovação ao meu inoportuno comentário, para dizer o mínimo. Saltar pela janela não adiantaria. Eu sobreviveria, pois era baixa.

Sair correndo pela porta de entrada e torcer para um daqueles imensos caminhões passar pela estrada bem no instante que a atravessava foi uma opção considerada com ansiedade para me autoextinguir. Acabei escolhendo uma espécie de autoflagelação silenciosa, interna, contundente, virulenta, quase mais mortal que uma das cenas dramáticas que imaginei para me punir exemplarmente.

Atenuado o choque da explosão da bomba de neutros dentro de mim, enviamos a foto do computador da ESPOSA e não filha do Jochen para meu e-mail. Agora era, como sempre digo, a parte mais fácil da história: sentar e escrever. Exatamente como acabei de fazer nesse momento também. E foi o mesmo Jochen que hoje cumprimentei ao reabastecer meu carro no seu post. Claro que lembrou de mim. Só não estou certo se por causa da história que escrevi e depois lhe enviei ou por ter confundido a bela moça com sua filha em vez de esposa.

É, amigos, passagens de Nurburgring…

Vou dormir. Amanhã tenho de ir cedo para o autódromo. A conexão da linha da rádio Estadão ESPN para a transmissão da corrida está menos estável do que precisamos. Tenho de resolver.

OK, vocês venceram. Garanti lá na primeira linha, ainda, descaradamente, que escreveria pouco. Menti, tudo bem, assumo! Mas meio sem querer, pô! Eu nunca havia contado essa história nesse nível de detalhamento. No Estado a reportagem teve 30 linhas apenas. Foi ficando gostoso resgatá-la dentro de mim e a coisa fluiu, fluiu… Se eu puder vou até lá no posto do Jochen e na cerca da pista velha tirar umas fotos para colocar no ar, combinado? Um forte abraço, amigos.

Bonne nuit!

PS: fotos inseridas no começo deste post

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21/VII/11

Livio Oricchio, de Nurburgring

A partir do momento que telefono para a operadora de táxi, no máximo em dez minutos o motorista está na porta do edifício que resido, em Nice. São três, essencialmente, os caminhos para ir ao aeroporto localizado sobre um aterro, semelhante em conceito ao Santos Dumont, no Rio: a autoestrada, cortando a cidade pelo norte, uma via expressa por entre bairros, e o meu favorito, a Promenade des Anglais, avenida que acompanha a orla da baía de Nice, com o Mediterrâneo e suas cores ao meu lado. Um dia vários tons de verde, outro, de azul. Bonito.

No máximo pago 30 euros. A maioria dos motoristas é cortês, utiliza carros Mercedes bem conservados e limpos. Curiosamente, se você embarca num táxi na fila do aeroporto, como faço com regularidade, na volta dos GPs, e digo para onde desejo ir, quase todos bufam, reclamam para si próprios, em francês, lógico, e não escondem a irritação. Não querem uma corrida de 30 euros, apenas, diante de poder receber 100 para o deslocamento até Mônaco, distante 30 quilômetros, ou 120 euros a Menton, um pouco mais para a frente, na fronteira com a Itália. Todas cidades litorâneas.

Voo Lufthansa 1059, de Nice a Frankfurt. Uma hora e meia. Decolamos, acentuada curva à direita, imediatamente depois de deixar o solo, para desviar da montanha no limite da orla e, na sequência, proa leste, acompanhando as praias. Em 15 minutos percorremos 200 quilômetros e abaixo de nós está a cidade de Gênova. Curva à esquerda, cruzamos o fim dos Alpes Marítimos e entramos no vale do rio Pó, no norte da Itália. Outros 10 minutos e vejo Milão, Como, o lago, Lugano, já na Suíça. Começa a travessia dos Alpes. Ainda há picos nevados apesar do calor na Europa. Estão a mais de 3 mil metros.

Os Alpes terminam, nessa rota, em pouco mais de 10 minutos. Estamos nivelados a 30 mil pés (cerca de 9 mil metros) e cruzando 460 nós (840 km/h). À minha direita está Stuttgart. Leve curva à esquerda e entramos na final de Frankfurt.

Vocês deram corda para eu escrever, agora aguenta. Não deixaria de falar de aviação. Só para rimar, uma paixão.

O Mercedes Classe B 180 alugado na Europcar vai custar 311 euros, de hoje, quarta-feira, 14 horas, até segunda-feira, no mesmo horário. Tenho tarifa especial com Europcar. Há muitos anos fiz um trabalho para a Ferrari, para um livro, eles alugaram um carro para mim na Europcar, empresa em que a Ferrari tem participação, e até hoje consigo descontos, sem que eu diga nada. Às vezes a atendente lê algo na minha ficha, não sei o que é, e diz para mim: “Oh, Ferrari!”. Eu apenas emito um sorriso do tipo… “e você não viu nada”. Ainda bem, porque não teria mesmo nada para ver.

Logo depois do estacionamento das locadoras no aeroporto de Frankfurt há um acesso para a autoestrada A3. Pode-se ir ao norte, na direção de Colônia, ou ao sul, Damstadt. Fiz meu plano de viagem através da A3 até Koblenz e planejei sair à direita na E48 direção de Trier para deixar a estrada na saída para Ulmen. Aí tomaria uma estradinha local até Nurburgring.

Enquanto estive na A3, cerca de 100 quilômetros, choveu o tempo todo. Vim ouvindo a rádio Classic. Fui educado com música clássica e freqüento com regularidade o Nice Opera. Há bons espetáculos e os preços não são altos. Tudo bem na viagem até entrar numa zona de obras na A3, já próximo à saída para Koblenz. Havia uma fila de caminhões interminável. O respeito é máximo: não saem da direita. A A3 estava apenas com duas faixas em razão dos trabalhos de recapagem.

E não é que diante da barreira dos caminhões passei direto pela saída? Tudo bem, encostei o carro num posto quilômetros à frente e com o meu supermapa da Alemanha (adoro mapas e raramente uso GPS) estudei uma alternativa. Lembrei-me de Bonn, mais adiante. Já havia chegado a Nurburgring via Bonn. E afinal de contas estamos falando da cidade de ninguém menos de Ludwig van Beethoven. A cidade onde nasceu é aberta à visitação. Ao lado de Wolfgang Amadeus Mozart estão entre os meus compositores favoritos.

Estava com tempo. Quer saber? Vou entrar na cidade. Parei para comer numa daquelas casas de pães que me encantam na Europa. Aprecio pães. Vi no meu mapa que teria de sair pelo sul, através da 565 na direção de Meckenhm e depois tomar a vicinal 257 para Adenau. Esse caminho é muito bonito, com um pequeno afluente do Reno, que corta Bonn e Koblenz, ao lado da estradinha. Até Nurburgring são cerca de 80 quilômetros.

Meu destino, na realidade, hoje, não era o autódromo. Até por que a sala de imprensa estava fechada. Meu objetivo maior era chegar na nova guest house. Decidi não mais me instalar na casa da simpática dona Gertrud e seu ciumento marido Theodor. Um grupo de cidadãos há anos fica por lá também e há dois anos experimentei uma situação constrangedora. Dois desses homens – bem-sucedidos profissionais – vêm à Alemanha apenas para o GP. E formam um casal.

Até aí não tenho nada a ver com isso. Em termos, também. Em especial se o seu quarto se encontrar dentro da zona de interferência sonora, ainda que distante, do deles. Não há hoteis na região. Os que existem são bem pequenos e há anos têm sua clientela. Lembro-me de em 2009 lamentar a falta de estrutura ao redor do circuito.

Este ano o desafio foi localizar Gelenberg no mapa. Nem no meu supermapa da Alemanha não achei. Parei num hotelzinho em Adenau, distante 9 quilômetros da pista, e seu proprietário abriu um mapa da região, disposto a me auxiliar. Acredite: não encontramos. Liguei para a senhora que ofereceu a casa, Marlene, como tantos fazem por aqui. Ela arrastava-se no inglês mas deu para compreender que eu deveria procurar por Kelberg e só depois por Gelenberg.

Eu já viajava há quase quatro horas. A chuva dava sutis tréguas para voltar forte na sequência. O termômetro do carro indicava, às 17 horas, 14 graus. Bem mais quente que no dia anterior, segundo a minha amiga Heike Feldkamp, alemã, coordenadora da Hispania. Ontem, antes de arrumar a mala, em Nice, liguei para ela por saber que desde a terça-feira estaria em Nurburgring.

Heike me contou que estava congelando. Não passou de 10 graus na terça-feira. Agora são para mim 00h30 da quinta-feira. Estava gravando para a rádio Estadão ESPN lá fora, por causa do sinal fraco do celular, e a temperatura deve estar na casa dos 10 graus. É Nurburging, senhores. E estamos no meio do verão.

Em 1995 inventaram de realizar a corrida dia 1.º de outubro. O que aconteceu? Na madrugada de sábado para domingo nevou, o warm up foi cancelado e por pouco a corrida também. Frio de verdade.

Onde estava mesmo? Ah, depois que cheguei em Kelberg, sem dificuldade, não encontrei uma única indicação para Gelenberg, onde me aguardavam. Uma senhora, funcionária de um mercadinho, me orientou como chegar a Gelenberg. Ao me aproximar compreendi a razão de não constar no mapa. Senhores, a vila tem umas 20 casas, todas elegantes, grandes, típicas, mas é isso.

Dona Ruth me esperava na porta da casa 11 da Ringstrade. Mas para dizer que minha guest house não era aquela, e sim 150 metros mais à frente. Lá fui eu. Heinz me recebeu com cordialidade. Aqui poucos alemães falam inglês. É uma exceção neste país notável. Mas logo em seguida chegou sua esposa, Marlene, que trabalha em Bonn, num banco.

Amigos, nunca me instalei tão bem por estas bandas. Quarto e banheiro são espaçosos, limpos, bem agradáveis. Galvão Bueno também tem belas histórias sobre acomodações em Nurbugring, em especial nos anos 80. A casa do Heinz e da Marlene é grande, bem distribuída e preservada. Está batendo aquele sono. Não tenho como colocar no ar este texto porque não há internet na casa. Marlene me explicou que a população há muito reivindica melhoras na estrutura de comunicação da região.


A residência da Marlene e do Heinz, onde estou hospedado, e o carro alugado. É uma típica casa da fria região. Dá para ver a cor do céu, cinza, predominante aqui, apesar do verão

Não sei se foi por causa do inglês da Marlene, mas o preço que me falou que cobrará não está batendo: 28 euros por dia e com café da manhã, até porque aqui não haveria mesmo onde tomar. Bem, talvez amanhã de manhã eu compreenda melhor. E conto para vocês. Combinado?

Boa noite. Ou melhor, bom dia, pois o texto estará disponível pela manhã a vocês. Deve ter passado erro no texto, escrevi rápido e não vou revisar por causa do sono. Dão licença a meus atenuantes?

Au revoir!


Há muitas casas de madeira também. O aquecimento, imperioso aqui, é por vezes através da queima de lenha, abundante na região, para uma caldeira. O gás custa caro

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07/VII/11

Amigos, obrigado pelos comentários. É muito bom saber que há quem aprecie dividir esses momentos de maior proximidade conosco. Acredite: é tão prazeroso quanto vivenciar isso tudo nas viagens. As fotos estão acima.

Combinamos de sair às 10 horas, hoje de manhã, e eu me apresentei ao grupo exatamente às 10 horas. Permaneci um bons minutos ao vivo na rádio Estadão ESPN com os simpáticos Leandro e Vanessa e, quando me dei conta, o pessoal esperava já no carro.

Da casa do Mike até o circuito temos algumas opções de deslocamento. A principal é a autoestrada, construída depois do fiasco da edição de 2002, creio, disputada propositalmente em abril, época das chuvas freqüentes, a estrada antiga, A43, com uma faixa que vai e outra que vem, e as que acompanham os limites de propriedades, estreitas, por dentre áreas de pastoreio.

A mais rápida, em condições normais, é a A43. Até 2002, se não me engano, era a única via de acesso ao autódromo de Silverstone. Imagine que para o tráfego de um dos lados entrar no circuito era necessário paralisar o corso do outro lado. E vice-versa.

Em 1996, estava hospedado em um hotel na maior cidade da região, Northampton, com meu amigo Lemyr Martins. Cronometramos o tempo perdido do hotel ao estacionamento da imprensa: 4 horas e 5 minutos. Distância? Cerca de 25 quilômetros. A partir daí passei a me instalar em guest houses próximas à pista.

Por muitos anos me hospedei na casa da Helen, mãe de Jonathan, integrante do marketing da Williams. Sábado à noite no fim de semana do GP Helen e o marido costumam fazer um churrasco inglês. Distinto do que estamos acostumados, mas agradável. Patrick Head, sócio e diretor de engenharia da Williams, sempre estava por lá. E contava-nos várias histórias.

Uma delas foi a bronca que deu em Nigel Mansell, no GP do Canadá de 1991. Redigi reportagem sobre os 20 anos do evento agora, na prova de Montreal, com personagens daquela época. “Eu disse ao Nigel, não pare de acelerar, o alternador não vai recarregar a bateria. Eu o via acenando para o público, acreditando que a vitória estava definida, e eu louco da vida, no muro dos boxes. Quando vi o carro não reacelerando, na saída do hairpin, dei um grito, mas era tarde.”

Com tantos recursos eletrônicos como havia naquele modelo de Fórmula 1, e sabendo-se que sua bateria era bastante diminuta, o alternador necessitava de um regime elevado de giros do motor para manter a bateria ativa. Mansell percorreu a última volta muito devagar. E o trecho final da pista tão lento que o Williams ficou sem energia elétrica e desligou todos os circuitos.

Helen passou a cobrar valores não compatíveis com a realidade econômica de ninguém, em especial para o que oferecia. Não pude mais ficar lá. Assim como muitos.

Enganam-se os que pensam que ingleses, alemães, franceses são essencialmente ricos. Têm, como regra, bom padrão de vida, mas não desfrutam das benesses que vários brasileiros pensam. No caso do Mike, por exemplo: o dinheiro arrecadado nesse período, pelo que posso compreender, investe na reconstrução de veículos antigos e clássicos que mantém na sua garagem, a exemplo de um Bentley extraordinário.

Como a agenda do autódromo reúne vários eventos importantes, Mike tem hóspedes com regularidade. Não cobra muito pelos quartos: 58 libras por noite, ou cerca de R$ 180, com um pequeno café da manhã. Para o padrão do exigido nos períodos de GP nos entornos das pistas não se trata de um valor elevado. Pelo contrário. Em Cingapura e Montreal, por exemplo, qualquer hotel não cobra menos de o equivalente a mil euros, algo como R$ 2.500 pelo pacote de cinco noites.

Deixa eu contar uma experiência que tive na A43 em 1992. Eu e Nilson Cesar, locutor da Jovem Pan, estávamos pacientemente aguardando, fora do carro, a fila se deslocar no dia da corrida. Havia tempo não saíamos do lugar. Atrás de nós estava Mika Hakkinen, piloto da Lotus.

Como o velho, bom e saudoso warm up estava por começar, nós não nos mexíamos e a faixa do lado, de quem vem no outro sentido, estava livre, Hakkinen pediu a um motociclista que estava na fila – imagine se no Brasil eles respeitariam uma fila de carros – uma carona, pois iria perder o treino de aquecimento.

O rapaz concordou. Com o finlandês como passageiro, o motociclista se deslocou lentamente, próximo aos veículos, com prudência, a fim de dar passagem a quem eventualmente viesse no outro sentido. Soube depois pelo próprio Hakkinen o que aconteceu.

Os policiais interceptaram a moto já perto da entrada do autódromo e levaram o motociclista e o piloto da Lotus para a delegacia. Só depois de a equipe intervir, Hakkinen foi liberado para voltar ao circuito a fim de disputar a corrida. “Prenderam, no entanto, meu passaporte”, contou-me.

E naquela época o telefone celular era raro e não funcionava direito. Lembro-me de o finlandês me contar sobre a dificuldade de, na delegacia, fazer contato com o pessoal da Lotus, já que eles deveriam estar meio sem saber o que pensar com a ausência do piloto no warm up.

Hoje, no autódromo, fomos conhecer as novas instalações dos boxes e da sala de imprensa. Gastaram 27 milhões de libras, quase R$ 70 milhões, e não estou certo de que não terão de rever parte do trabalho realizado, em especial a entrada e saída dos boxes. Escrevi sobre isso, hoje, num post.

Apesar de alguns quartos na casa do Mike terem seus próprios banheiros, como o meu, enfrentamos um problema: a água quente, imprescindível nesse frio, existe apenas nos dois banheiros sociais, um no térreo e outro no andar superior. Mas somos muitos na casa. Cinco para ser mais preciso. Seis com o dono.

É preciso agendar os horários do banho. E é bom não ser demorado para que o último não fique sem água quente. Mike reside sozinho e para suas necessidades a estrutura de que dispõe é mais que suficiente. Mas quando a casa fica cheia… Felizmente nosso grupo é bastante solidário.

O que não era o caso de um amontoado de cidadãos que nos anos 90 se instalava em Varennes-Vauzelles, acho que é essa a grafia, na França, perto de Nevers. O GP em Magny Cours era o mais sem estrutura do calendário. Havia um único banheiro na casa onde ficávamos e a solidariedade das pessoas era zero. Obviamente caí fora.

No ano seguinte solicitei ao serviço de turismo da região um local para me hospedar, pois houve um cadastramento para quem desejasse receber profissionais ligados à Fórmula 1. Eu me apresentei no centro de turismo, em 1993, conforme o combinado por fax, a Internet engatinhava, e me levaram a uma fazenda de gado charolês, abundante na área, dentre as propriedades escolhidas para hospedar interessados.

Lugar lindo, campos de girassol, trigo, mas com um probleminha: o quarto era sobre o estábulo. Havia um vão entre as réguas de madeira do piso e podíamos ver os animais embaixo. Para não comentar o cheiro.

A própria moça do serviço de turismo ficou horrorizada e se perguntava como a fazenda havia passado na seleção. Imaginamos os reprovados! Por sorte, minha grande amiga Ruth Muller, suíça, levou-me para seu hotel, onde havia vaga, numa diminuta cidade medieval, distante cerca de 50 quilômetros, parada no tempo. Inacreditável o lugar: Bourbon-L’Archambault. Total de habitantes: 900. Quase tudo na vila ainda é como há 700 anos. Acredite!

Bem, voltemos para Wood Burcote, próximo a Silverstone. Hora de dormir. Amanhã minha senha para o banho é a primeira. Estou ansioso com o que pode acontecer na pista sem o escapamento aerodinâmico. Boa noite a todos.

Abraços!

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Livio Oricchio, de Wood Burcote

1590. Essa é a data de construção da casa em que me encontro, agora, em Wood Burcote, próximo ao circuito de Silverstone. Passa da meia noite. Quinta-feira, portanto. Há na casa vários quartos, salas, ampla área externa, garagem com carros antigos em reparação. Localiza-se no meio de propriedades rurais.

Faz frio. Não mais de 10ºC. Venta forte e cai aquela típica garoa da região. É o verão inglês. A primeira vez em que cá estive foi em 1978, como espectador. Como jornalista, em 1989. Desde então não perdi mais um GP da Grã-Bretanha. Amo intensamente este lugar. A atmosfera no autódromo é única.

Várias ocasiões fui assistir aos treinos livres junto do torcedor, nas arquibancadas ou sobre as vastas áreas de grama espalhadas pela pista. Chama muito a atenção o entusiasmo do inglês pelo automobilismo e o seu grau de conhecimento. Não há nada similar no mundo.

Foi aqui mesmo, em Silverstone, que ouvi de Ayrton Senna, em 1989, que “o GP da Grã-Bretanha é disputado em meio às ovelhas”. Até hoje o cenário é exatamente o mesmo. Enquanto o entorno do Circuito da Catalunha é o que mais se modificou desde a estreia na Fórmula 1, em 1991, o de Silverstone quase nada foi alterado nesse período.

Mike é o proprietário da casa, engenheiro especializado em energia nuclear aplicada em submarinos. Ele pede para não pularmos aqui no andar de cima por não saber o que pode acontecer. As vigas de madeira são as mesmas da construção da propriedade. Impressionante. Há alguns anos passei um dia inteiro na Renault, em Enstone, não distante daqui, e me hospedei num pequeno hotel cujo prédio era de 1475, ou seja, de antes da descoberta do Brasil.

Estão aqui, cada um num quarto, Tatiana Cunha, da Folha de S.Paulo, Luis Fernando Ramos, o Ico, do Lance! e da rádio Bandeirantes, Felipe Motta, da rádio Jovem Pan e do site TotalRace, e Kethy, um jornalista chinesa de 24 anos que pela primeira vez começou a sair de seu país para descobrir o mundo. Imagine como ela se sente com essa enxurrada de valores novos e radicalmente distintos de tudo o que viu na vida até agora. É inteligente, interessada e está aprendendo muito.

Nesta quinta-feira coloco no ar as fotos do local que farei antes de ir para o autódromo. Havia já pouca luz quando cheguei, hoje.

Com o carro alugado, saímos do aeroporto de Heathrow às 16h30 e às 18h30 estávamos aqui. Direção M25 Norte e então M40 sentido Oxford, com saída para Silverstone na junção com a A43. Cerca de 150 quilômetros de deslocamento.

Da casa até o circuito são cerca de oito quilômetros e há um caminho por entre os pastos de gado ovino e bovino que nos deixa na porta de Silverstone. Nesta quinta-feira iremos conhecer os novos boxes, paddock e sala de imprensa. Pelas fotos que vi ficou funcional e bonito.

Mas Bernie Ecclestone vai continuar reclamando da corrida aqui. Não é difícil compreender a razão. Trata-se do GP que paga a menor promoter fee do campeonato, ou a taxa do promotor. Menos até mesmo de Mônaco.

Estima-se que seja apenas 5 milhões de libras, ou cerca de 6 milhões de euros. Pelo que se sabe, Mônaco passou a pagar, este ano, o dobro, 12 milhões. E nações mais recentes como Bahrein, Coreia do Sul, Índia, pagam a bagatela de 30 milhões de euros por edição do GP.

Cheguei há pouco do restaurante. Fomos jantar no famoso Rice Bowl, comida chinesa, em Towcester, mais ou menos três quilômetros da casa do Mike até lá, pela estradinha que corta os pastos. A primeira vez que ouvi falar no Rice Bowl foi ainda em 1989. Quem nos indicou foi Ayrton Senna.

O vi várias vezes lá, sempre na mesma mesa, mais retirada um pouco, com sua turma. Dentre eles, claro, Galvão Bueno. Nunca jantei com o Ayrton, ao menos informalmente, apenas nos eventos profissionais. Mas foi aqui em Silverstone, em 1989, que pela primeira vez conversei com o Ayrton, sem aquela barreira jornalista-entrevistado.

O prato de hoje foi o recomendado pelo Ayrton em 1989: pato. Crocante, saboroso, macio, acompanhado de discos com massa de panqueca, uma verdura e arroz frito. Absolutamente delicioso. Pena que hoje eu não comi o pato.

Explico: o Rubinho, Rubens Barrichello, nos convidou para jantarmos juntos lá no Rice Bowl. Refiro-me a essa turma que está na casa. Estavam com ele o Felipe Massa e o Pietro Fantin, menino de 19 anos que estreia este ano no automobilismo, na Fórmula 3 britânica.

Como eu precisava escrever para o jornal, cheguei mais tarde, quando eles estavam terminando de comer o pato. Pedi hoje frango com limão. Come-se muito bem no Rice Bowl.

O Rubinho é muito divertido nesses encontros. Hospeda-se no seu requintado motorhome, estacionado ao lado do paddock. O Felipe está num hotel um pouco mais retirado e chegou com uma linda Maserati que a Ferrari disponibiliza para seus pilotos nos fins de semana de corrida. Os dois contaram cada história.

Falaram muito de uma competição que participam pela internet. Sobre Fórmula 1, bem pouco. O que cada um acha que vai acontecer no fim de semana, o frio, a possibilidade elevada de chuva até sábado, por exemplo.

Bem, tá batendo um soninho… quase não dormi no voo de São Paulo a Zurique e depois para Londres. Vou desligar. O texto já está grande demais e acredito que a maioria não o vai ler até o fim.

Como faço sempre, preciso ler antes de dormir. Gosto intensamente do tema Segunda Guerra Mundial. Já li várias publicações a respeito. Leio agora um livro chamado Dresden. Quem se interessa pelo conflito sabe que o ataque aéreo aliado à cidade alemã de Dresden, em 13 de fevereiro de 1945, destruindo-a por completo, não teve fins militares. Isso é o que se diz.

Frederick Taylor fez um estudo profundo da questão utilizando documentos raros e tomando vários depoimentos para tentar explicar melhor o que parte dos próprios aliados condenou na época. Quem gostou foi o povo inglês, em especial. Por se tratar do que pareceu ser uma revanche dos ataques aéreos alemães sobre Londres e, na época, fim já do conflito, das temidas bombas V1 e em especial a V2, capazes de aniquilar quarteirões da cidade inglesa.

Mike me disse que sua mãe, de 90 anos, quando soube que não sobrou pedra sobre pedra de Dresden, esfregou as mãos de satisfação, a exemplo de milhões de britânicos. O livro conta as várias nuanças dessa história.

Boa noite, amigos. Nos falamos, agora, da nova sala de imprensa de Silverstone.

Abraços!

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08/VI/11

Olá amigos:

Escrevo já do meu hotel, em Montreal. Agora passa das 21 horas e a temperatura lá fora deve estar na casa dos 29 graus Celsius. Está quente. Se em condições normais o traçado já é exigente quanto a pneus e freios, estou curiosíssimo para ver como será este ano. Pneus macios e supermacios, de desgaste elevado, e freios que aqui no Canadá trabalham sempre no limite.

Se existe uma corrida em que Sebastian Vettel pode ser vencido na pista é aqui. O tempo que os carros passam em curva no circuito Gilles Villeneuve é muito pequeno, um dos menores do calendário. E há apenas uma curva de média velocidade. O restante é tudo de baixa. Falta o substrato para o modelo RB7 da Red Bull expor suas maiores virtudes: curvas de média e alta velocidade. Em Montreal, nesse aspecto, é mais crítico que Mônaco.

Viajei com o pessoal da Sauber, como de costume, partindo de Zurique, minha base para voos. Por muitos anos, mais de 15, utilizei-me do aeroporto de Frankfurt. Tenho dois amigos, em especial, na Sauber, Francesco e Gianpaolo, os engenheiros de Kamui Kobayashi e Sérgio Perez. Conversamos bastante, em especial com Francesco, com quem, por vezes, saímos para jantar. Sua esposa é brasileira, ex-assessora da Toyota, a competente Fernanda.

Francesco me fez os maiores elogios a Kobayashi. Minha bateria está no fim e estou sem adaptador para o carregador. Emprestei o meu a um colega na Turquia, não o recebi de volta, compreendi apenas agora, e o hotel já distribuiu aos hóspedes os que possuía. Amanhã eu conto a visão do engenheiro de Koba a respeito de Koba.

Gianpaolo foi o primeiro engenheiro de Massa, no seu teste com a Sauber, em Mugello, em 2001. Lá estava eu. Gianpaolo me disse que Sergio Perez esteve na sede da Sauber, em Hinwill, meia hora de carro de Zurique, esta semana, e o viu muito bem. Reclamou um pouco de dor, ainda, na perna direita, mas se sentia em condições de disputar o GP do Canadá. Deve mesmo correr.

O alerta de bateria fraca apitou. Amigos, até amanhã na sala de imprensa. Em Montreal não alugo carro. Vou de metro. De onde estou, é apenas uma estação. Não dá para ir a pé porque é longe e o metro passa em baixo do rio São Lorenzo, bastante largo. Da saída da estação do metro, já na ilha artificial de Notre Dame, onde está a pista, espero o shuttle da imprensa. Você vê vários (três palavras com V) marmotas no parque da ilha. Para ver os castores, um dos meus animais preferidos, basta sair um pouco da cidade.

 Queria lembrar, amigos, que foi o que assistimos aqui, no ano passado, aquele sem número de pit stops, que levou Ecclestone a solicitar à Pirelli pneus de breve vida útil a fim de tornar a competição menos previsível. Como será este ano, então, com pneus que se desgastam mais que em 2010? Você consegue me dizer?

Ah, passaremos a nos encontrar com maior frequência no blog. Tomei algumas providências para viabiliar esse maior contato, como deixar de traballhar para a revista japonesa Autosport. Sobrará mais tempo para nós.

Abraços!

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Amigos:

Estou no extremo norte da ilha de Okinawa, a principal do arquipélago que lhe dá o nome, distante cerca de 2h40 horas de vôo de Tóquio, na direção Sul. É o Havaí japonês. Encontra-se praticamente na latitude do Trópico de Câncer. Faz calor intenso.

Cheguei ontem à noite no limite do cansaço. Explico: saí do autódromo, domingo, no ônibus da meia noite, o que me fez chegar em FujiYoshida, onde me achava, 1h35. Isso mesmo, perdia 1h35 para ir e 1h35 para voltar, eu, Tatiana Cunha, da Folha, e Felipe Motta, Jovem Pan. Com uma fome daquelas, fomos a pé a uma loja de conveniência comprar algo para comer.

Ao regressar ao hotel, até comer, arrumar mala e tomar banho já eram 3h30. E meu ônibus para Shinjuku, em Tóquio, saía às 6h40. Resultado: praticamente não dormi. Falei a mim mesmo que o faria no ônibus. Mas sentei ao lado de uma senhora que decidiu me falar de sua atividade como professora do ensino básico.

Não é comum alguém conversar tão bem em inglês. Ela me impressionou pelo entusiasmo. Respeito ainda mais quem vibra com o que faz. Acho que é porque me identifico. Vi seus livros didáticos, como a filosofia faz parte do aprendizado ao lado dos temas curriculares, enfim, ótima conversa.

Duas horas e 25 depois já estava no elegante bairro de Shinjuku, em Tóquio. Carreguei minha pesada mala mais a bolsa de mão e a do laptop para o outro lado de uma enorme praça a fim de seguir de ônibus até o aeroporto de Haneda, pois ao meia dia tinha vôo cá para Okinawa.

Lá pelas 10h30 desembarquei no aeroporto e quando entrei no saguão e cheguei à área da ótima All Nippon Airways (ANA), não acreditei. Havia o mundo lá. Meu vôo transportaria estudantes do nível médio para uma excursão de escolas. Imagine um Jumbo com assentos apenas de configuração da classe econômica. Nada menos de 500 passageiros.

Mas até que o check-in fluiu bem. O avião tinha a pintura do desenho amimado Pokemon (é essa a grafia?), todo amarelo, colorido, e todas as crianças tiravam fotos.

Por não haver tempo de tomar café da manhã, àquele horário que saí do hotel, às 6 horas, e em razão da hora perdida no aeroporto, não comi. Tudo bem, vou almoçar a bordo. Lego engano, amigos. Um suquinho e olhe lá. Esqueci de que nos vôos internos no Japão não servem refeições. Pousei em Okinawa por volta das 15 horas com o estômago nas costas e sem dormir. Não sei a razão de perder o sono no vôo. Vim navegando com meu supermapa do Japão.

Toda a costa da ilha de Honshu, onde está a baía de Tóquio, o monte Fuji logo a seguir – tudo à minha direita -, a pequena ilha de Shi-Ko-Ku, o aeroporto Kansei, na ilha artificial na baía de Osaka, Kobe, Hiroshima, o estreito para ilha de Kiushu, de Fukuoka e Nagasaki, e depois só mar, o oceano Pacífico até encontrar as primeiras ilhas do aquipélago de Okinawa. São 180, das quais 60 habitadas.

Vim para cá por dois motivos principais: conhecer um dos maiores parques oceonográficos do mundo, o Churaumi, fazer uma bela matéria para o Estadão, e realizar outra reportagem sobre o pólo petrolífero que a Petrobras tem aqui, ponta de lança de seu projeto de vender álcool na Ásia.

Churaumi, amigos, é um superaquário. Estou escrevendo para vocês, agora, 5 horas da manhã de terça-feira para mim (17 horas de segunda-feira para a maioria de vocês no Brasil), e vejo do terraço do meu hotel, o resorte Mahaina, parte das instalações do oceonográfico. Não sei se um dia inteiro será suficiente para conhecê-lo.

Caracteriza-se pela profundidade das pesquisas. Agora, por exemplo, estão reproduzindo pela primeira vez na história o tubarão-baleia, um peixinho de 14 metros de comprimeiro, para vocês terem uma idéia das dimensões científicas e orçamentárias da coisa. Agendei uma entrevista com o diretor do Churaumi para hoje.

Ontem cheguei aqui às 18 horas depois de pousar em Naha, a capital de Okinawa, ao redor das 15 horas, como disse. É longe. Mas vim de carro, contornando a ilha, que é maravilhosa. Os norte-americanos estão presentes por todo lado. Aliás, apenas em 1972 devolveram o arquipélago ao Japão. Hoje mantêm, no entanto, bases militares em todo lugar por aqui, uma delas próxima ao centro de Naha, de onde decolam F15, inacreditável.

Estava, portanto, sem dormir e comer quando fiz o check in no hotel. Decidi tirar um soninho de uma hora para tomar um banho, jantar e depois dormir, sim, até hoje. Mas, amigo, cai na cama e fui acordar ainda há pouco, 4 horas da manhã.

Acessei à Internet, reuni informações com as que trazia comigo do circuito e enviei texto para o jornal, o mesmo que disponibilizei no blog há instantes. Estou esperando o dia raiar para tomar um belo banho, o café da manhã do hotel abrir e na sequência atravessar a avenida à beira mar para chegar na entrada principal do Churaumi, voltado para o mar.

Há tempos não me sentia ansioso para conhecer um lugar de natureza tão intensa. A última vez, eu contei, foi ano passado, na volta do GP da China. Parei em Johanesburg, na África do Sul, aluguei um carro e fui a uma reserva de vida selvagem na fronteira com Botsuana.

Que experiência! Uma noite entrei sozinho, com meu carro, na reserva. Bárbaro! Agora, aqui em Churaumi, não há esse espírito de aventura, risco, mas igualmente é contato com natureza de acesso complexo, com a do fundo do mar. Depois lhes conta como foi. Grande abraço, amigos. Obrigado por me ouvir.

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