31/vIII/11
Livio Oricchio, de Nice
Representantes das equipes e dos promotores das corridas reclamaram e a FIA, em comum acordo com Bernie Ecclestone, da Formula One Management (FOM), refizeram o calendário da próxima temporada. O novo foi anunciado ontem. O campeonato terá, em princípio, 20 etapas. A dúvida é o GP de Bahrein, quarto do ano, dia 22 de abril, em razão da situação política do país árabe.
Dificuldades logísticas e custos elevados. Esses foram os argumentos dos times para que FIA e FOM revissem o pré-calendário anunciado há pouco mais de um mês. Já promotores, com o da Índia, argumentaram que a prova em abril, como prevista, exporia todos a temperaturas excessivamente elevadas. Assim, o novo calendário representa uma solução de compromisso entre os vários interesses existentes na competição. Mas nem tudo certamente agradou e haverá reclamações, em especial porque serão sete dobradinhas, corridas disputadas em domingos consecutivos.
Duas grandes novidades: a saída do GP da Turquia, com seu espetacular circuito, Istambul Park, e a volta do GP dos Estados Unidos, num autódromo em construção em Austin, no Texas, com investimento estatal, o que está gerando protestos. Será a penúltima do campeonato, dia 18 de novembro, uma semana antes da prova de Interlagos, dia 25. Questões logísticas serão mais uma vez lembradas pelas escuderias.
Turquia saiu por causa de o governo turco não concordar com os novos valores cobrados pela FOM para assinar um novo contrato, bem mais elevados que os anteriores. Na Fórmula 1 comenta-se que passaria de US$ 13 para US$ 26 milhões (R$ 40 milhões), a taxa por ano para receber o evento.
Decidiu-se que o intervalo de paralisação será maior que este ano. A etapa da Hungria, 11.º, está programada para dia 29 de julho. Mas a seguinte, Bélgica, apenas dia 2 de setembro. Em agosto inteiro não haverá atividade de pista para a Fórmula 1.
O calendário:
Março, 18, Austrália, 25, Malásia; abril, 15, China, 22, Bahrein; maio, 13, Espanha, 27, Mônaco; junho, 10, Canadá, 24, Europa; julho, 8, Grã-Bretanha, 22, Alemanha, 29, Hungria; setembro, 2, Bélgica, 9, Itália, 23, Cingapura; outubro, 7, Japão, 14, Coreia do Sul, 28, Índia; novembro, 4, Abu Dabi, 18, EUA, 25, Brasil.
29/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
Amigos:
Tive um problema no meu laptop, ontem à noite na sala de imprensa de Spa, que me impediu de inserir posts no blog, até mesmo os textos já prontos que enviei ao jornal. Não é a primeira vez que meu Dell Latitude 630 trava e me deixa na mão. Este ano, no GP da China, nem mesmo os engenheiros de informática da Renault deram um jeito. Agora, em casa, em Nice, consigo resgatar os textos e disponibilizá-los aqui. Faltou um Diário de Bordo II. Culpa dos meus amigos da revista Autosport japonesa, para quem produzia muito, reduzi, mas nesse fim de semana atendi a um pedido especial deles. Não sobrou tempo para muita coisa.
O texto a seguir é o da minha coluna, hoje, no Jornal da Tarde.
Obrigado.
O diretor-técnico da Mercedes, Ross Brawn, disse ao Estado, na Hungria, que a pista de Spa-Francorchamps não era a ideal para a Fórmula 1 compreender como deverá ser o andamento do campeonato, “por ser bastante favorável aos carros da Red Bull”. De fato, Sebastian Vettel e Mark Webber, a exemplo do que fizeram no circuito Istambul Park, estabeleceram ontem uma dobradinha.
Como já escrevi, o trabalho da Red Bull é tão extraordinário que seria injusto se, por um milagre, Vettel perder o título de pilotos e o time o campeonato de construtores. Por méritos, a conquista deve ser deles. Mas a Fórmula 1 também é um esporte. Não como primeira definição, mas há nela, sim, atividade esportiva. E é natural que quem se interessa pela competição deseja entender o que vem por aí.
Apesar da vitória de Vettel e o segundo lugar de Webber, ontem, não apostaria que nas demais sete etapas do campeonato assistiremos a novas vitórias seguidas, sem maiores concorrentes, como no início da temporada. O ritmo da Red Bull ontem foi superior a todos, como não ocorreu nas três etapas anteriores, Grã-Bretanha, Alemanha e Hungria.
Teve a ver com o avanço do modelo RB7-Renault, sem dúvida, promovido pelo grupo coordenado por Adrian Newey, mas penso que muito também com o que me disse Brawn em Budapeste: a natureza do traçado, com várias curvas velozes e longas, compõe cenário perfeito para o refinado projeto aerodinâmico de Newey.
Dessa forma, já em Monza, dias 9, 10 e 11, acredito que McLaren e Ferrari sejam adversárias da Red Bull como foram em Silverstone, Nurburgring e Hungaroring. Quando chegarmos a Suzuka, dia 9 de outubro, 15.ª etapa do Mundial, faz sentido acreditarmos em nova vantagem de Vettel e Webber, como vimos ontem, também por causa do traçado.
Não estou seguro de que Jenson Button pudesse desafiá-los, como afirmou depois da bandeirada, se tivesse largado mais na frente do grid (largou em 13.º). Sua McLaren apresentou desempenho que o levou ao pódio, terceiro. Poderia, talvez, lutar com Mark Webber pelo segundo lugar, mas seria surpreendente vê-lo bater Vettel, um piloto capaz de explorar melhor o potencial do modelo RB7.
Mudando de assunto, questiono-me, como muitos brasileiros, a performance de Felipe Massa ultimamente. Todas suas justificativas para explicar, por exemplo, as dificuldades para ultrapassar parecem procedentes. Mas essas dificuldades Fernando Alonso também as tem e não se manifestam na mesma intensidade.
Por exemplo: por que Nico Rosberg costuma permanecer a sua frente enquanto Alonso, com o mesmo carro, descobre formas de ultrapassá-lo? Nunca escondi que considero Alonso um piloto mais completo de Massa, um dos maiores da história, e os números ratificam a avaliação, mas não a ponto de justificar tamanha diferença.
A postura de Massa sugere experimentar um desgaste emocional, afetado pela alta eficiência de um concorrente dentro de casa. Lidar melhor com isso o levaria a produzir mais e reduzir a diferença irreal entre ambos hoje. Procurar ajuda profissional não seria nenhum pecado.
28/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
A corrida de Bruno Senna, na sua estreia na Renault, não teve nem de longe o brilhantismo do trabalho no treino classificatório, sábado, quando, sob condições bem difíceis, em especial para ele, sem pilotar, a rigor, desde o ano passado e sem conhecer o carro, obteve ótimo sétimo lugar no grid, sob clima que variou entre chuvoso e seco.
Já na largada do GP da Bélgica, ontem, Bruno se envolveu num acidente que gerou não apenas o abandono do espanhol Jaime Alguersuari, da Toro Rosso, depois de excelente sexto tempo, sábado, como uma punição ao brasileiro. Teve de cumprir um drive through. Mas suas explicações são procedentes.
“Vou ligar para o Jaime e pedir desculpa”, disse Bruno. Na freada da primeira curva, travou as rodas e seguiu em frente, danificando o carro de Alguersuari e que por pouco não tira Fernando Alonso, da Ferrari, da prova também. “Eu nunca tinha simulado uma largada no seco com o carro da Renault. Choveu o tempo todo aqui em Spa, só hoje (ontem) tivemos pista seca”, disse.
“O comportamento do carro com 150 quilos de gasolina é completamente diferente, bem como o uso dos freios. Infelizmente tive de aprender tudo isso da pior maneira possível”, comentou. O Renault de Bruno, no entanto, não foi afetado a ponto de tirá-lo da prova. “Meu ritmo não era ruim, a cada volta fui aprendendo mais e mais.”
O sistema de recuperação de energia (Kers) e o flap móvel representavam grande novidade para Bruno. “Para a próxima etapa (Monza, dia 11), sinto-me bem mais confiante.” Bruno recebeu a bandeirada em 13.º, na mesma volta do vencedor, Sebastian Vettel, da Red Bull, mas quatro colocações atrás do companheiro de Renault, Vitaly Petrov, autor de bela corrida.
Felipe Massa, da Ferrari, obteve o oitavo lugar, depois de largar em quarto. “Meus pneus dianteiros se degradaram rápido, fazendo com que eu perdesse tempo na curva de acesso à reta da Eau Rouge, onde poderia ultrapassar o Nico Rosberg”, explicou. A exemplo de outras etapas, perdeu importante tempo atrás do alemão.
“E depois tive de fazer um pit stop a mais por causa de um furo no pneu traseiro.” Massa fez sua segunda parada na 30.ª volta, conforme o programado, quando era o sexto colocado. Mas duas mais tarde regressou aos boxes para substituir o pneu furado e caiu para 11.º. Fez algumas ultrapassagens, mas não disputou um grande GP da Bélgica.
Rubens Barrichello, da Williams, da mesma forma não esteve bem, ao terminar em 16.º, depois de largar em 14.º.
28/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
Sebastian Vettel não soube responder, ontem, depois da bela vitória no emocionante GP da Bélgica, se a volta do seu veloz ritmo de corrida, semelhante ao das seis primeiras colocações anteriores na temporada, decorreu do avanço do carro da Red Bull ou das características do circuito de Spa-Francorchamps, favoráveis aos modelos projetados pelo diretor-técnico da equipe, Adrian Newey. Contrariamente à tradição da prova, ontem não choveu, o que permitiu algumas das mais espetaculares ultrapassagens do ano.
A resposta à questão proposta a Vettel é determinante para o que pode se passar nas sete etapas restantes do campeonato, a começar pela próxima, dia 11, no veloz traçado de Monza, na Itália, casa da Ferrari, quarta colocada, ontem, com Fernando Alonso, e oitava com Felipe Massa. Mark Webber, companheiro de Vettel, segundo no GP da Bélgica, confessou a apreensão do time antes da prova de Spa. “Havia tensão no grupo. Algumas pistas que também deveriam ser favoráveis a nós, como Silverstone, acabaram não sendo.”
Por isso, na sua visão, as várias novidades introduzidas no RB7 durante as “férias” o tornaram mais veloz, a ponto de vencer a McLaren e a Ferrari, para quem havia perdido as corridas da Grã-Bretanha, Alemanha e Hungria, as três últimas do calendário. “O resultado de hoje é muito especial para a equipe”, afirmou. Vettel acrescentou que seu carro se tornou mais rápido onde normalmente não era, “no primeiro e terceiro segmento do circuito”, em que a velocidade nas retas é o mais importante.
Em seus 11 anos de Fórmula 1 Jenson Button, da McLaren, poucas vezes expressou tanto desapontamento quanto ontem. Completou o pódio em terceiro, tendo largado por um erro da McLaren, na classificação, em 13.º. “É uma pena. Tínhamos velocidade para desafiar esses dois rapazes”, disse, olhando para Vettel e Webber, durante a entrevista coletiva. “Se tivesse largado mais na frente no grid, a história da prova poderia ser outra.”
Parece proceder, o que permite imaginar que o terço final do campeonato vai ser mais semelhante às corridas em que Red Bull, McLaren e Ferrari lutaram pela vitória que a conquista sem maior resistência de Vettel, ontem, embora com todos os méritos. Button registrou a segunda melhor volta do GP da Bélgica, 1min50s062, apenas 179 milésimos mais lento de Webber, o mais veloz, e 389 melhor que Vettel.
O dado combinado com a segunda colocação de Lewis Hamilton no grid, sábado, atrás de Vettel, mas na frente de Webber, reforça a ideia de que não fosse também Hamilton se envolver em outro acidente, desta vez com Kamui Kobayashi, da Sauber, a Red Bull e a McLaren lutariam pela vitória no circuito de Spa-Francorchamps. O acidente de Hamilton gerou a entrada do safety car, na 12.ª volta, o que ajudou Vettel. O alemão, atual campeão do mundo, fez seu segundo pit stop e perdeu menos tempo. Necessitava disso, por realizar três paradas enquanto Webber, duas. O desgaste de pneu era tal para a Red Bull que já na quinta volta Vettel fez o primeiro pit stop.
Alonso foi claro quanto ao que a Ferrari poderia fazer ontem: “Aqui na Bélgica não daria para pensar em vencer”. O espanhol chegou a liderar a corrida. “Depois, com os pneus médios, equivalentes aos duros, mostramos de novo nossas deficiências.” Enquanto utilizou pneus macios, sua velocidade era equivalente à da Red Bull e McLaren. “É fundamental para nossa equipe entender as razões de nós não atingirmos a temperatura de aderência dos pneus mais duros e nossos adversários sim, a fim de resolver o problema no carro de 2012”, falou Alonso.
A natureza do circuito associada às características dos pneus Pirelli expuseram melhor os dotes de perícia e coragem de vários pilotos, ontem, dentre eles Michael Schumacher, da Mercedes (ler ao lado). O GP da Bélgica registrou ultrapassagens marcantes, todas sob elevadíssima velocidade, como a de Webber em Alonso, na nona volta, na Eau Rouge, de Vettel em Nico Rosberg, Mercedes, um dos destaque da prova, sexto, na Blanchmont, por fora, e de Hamilton em Massa, na sexta volta, na também veloz curva Pouhon. Agora todos vão para Monza que, pelo histórico de ultrapassagens do ano, não deverá ser diferente.
28/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
Se havia um piloto feliz, depois da bandeira, ontem no circuito de Spa-Francorchamps, além dos vencedores, claro, era Michael Schumacher. O piloto de melhores números em todos os tempos, sete vezes campeão do mundo, por exemplo, largou em 24.º e último e recebeu a bandeirada, ao final da 44.ª volta, em quinto. O GP da Bélgica tinha forte carácter emotivo para o alemão: foi na lendária pista, favorita da maioria dos pilotos, que estreou na Fórmula 1, em 1991, pela Jordan, e modificou a história da competição.
“Um fim maravilhoso para um fim de semana especial”, definiu Schumacher. Suas melhores colocações desde a volta à Fórmula 1, no ano passado, pela Mercedes, foram três quartos lugares, na Espanha, Turquia e Coreia do Sul. Nesta temporada, também obteve uma quarta colocação, no Canadá, mas os 10 pontos de ontem, do quinto lugar, certamente são os mais representativos desde sua volta, pela maneira com que os conquistou. As razões das suas seis vitórias no circuito belga ficaram mais evidentes ontem.
“É uma sensação deliciosa ver que, de alguma forma, deixei 19 adversários para trás. A presença de toda a minha família aqui representou uma motivação extra para mim.” Sábado à noite Schumacher recebeu amigos da convivência nos 20 anos de Fórmula 1, reunião aberta à imprensa. Eddie Jordan, dono da equipe na qual estreou na competição, levou uma caixa com um presente. Ao abrir, Schumacher estranhou. Jordan, então, lhe explicou: “É a embreagem do seu carro naquela corrida (estreia)”.
Logo depois da largada, Schumacher abandonou por quebra daquele componente, a embreagem do modelo da Jordan. Todos deram risada, mas o piloto guardou a peça.
Ao falar da corrida, ontem, Schumacher comentou: “Foi incrível passar tanta gente”. Recordou-se da edição de 1995 do GP da Bélgica. “Faz tempo. Sim, larguei em 16.º e venci.” Ganhou com uma vantagem de 19 segundos para Damon Hill, da Williams. Não demonstrou lembrar: naquela prova, manteve o piloto inglês atrás de si por algumas voltas usando pneus slick, para asfalto seco, quando já chovia fino. Detalhe: Hill tinha pneus de chuva.
De piloto a Mercedes esteve bem, ontem. Nico Rosberg, quinto no grid, fez uma largada tão eficiente que liderou a corrida até a terceira volta. “Avançamos, não há dúvida, com as modificações no carro, mas não a ponto de me manter na frente de Red Bull, McLaren e Mercedes, como vimos”, disse Rosberg. Terminou em sexto.
28/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
Lewis Hamilton, da McLaren, ultrapassou Kamui Kobayashi na 13.ª volta, na freada da grande reta. Mas deslocou o carro para a esquerda a fim de tomar a curva seguinte sem considerar que parte da Sauber do japonês ocupava ainda aquele espaço. O choque o lançou no guardrail. “Perdi a chance de terminar no pódio”, disse.
Sábado Hamilton bateu rodas com Pastor Maldonado, da Williams, na classificação. Injustamente, apenas o venezuelano perdeu cinco colocações no grid. Curiosamente, Hamilton já declarou sentir-se “perseguido”, mas os dois episódios na Bélgica tiveram sua responsabilidade também.
A associação das equipes decidiu em reunião, ontem, voltar a realizar testes durante a temporada. Serão três dias no circuito de Mugello, Itália, de propriedade da Ferrari, de 1 a 3 de maio, antes das provas na Europa. A pré-temporada será assim: de 7 a 11 de fevereiro, em Jerez de la Frontera, na Espanha, de 21 a 24 em Barcelona, e de 1 a 4 de março em Barcelona, também. O campeonato vai começar dia 18 de março na Austrália.
A equipe Renault distribuiu comunicado para informar que Robert Kubica, seu piloto, foi submetido, ontem na Itália, a uma cirurgia no cotovelo direito, bastante afetado no acidente de rali sofrido pelo polonês em fevereiro. Era o último obstáculo para voltar a tentar recuperar os movimentos necessários à pilotagem.
Um tabu foi quebrado ontem no GP da Bélgica. Desde 1998 uma equipe que não fosse Ferrari ou McLaren não vencia a corrida no circuito Spa-Francorchamps. Em 1998 ganhou Damom Hill, com Jordan. Depois disso, venceram David Coulthard (1999), Mika Hakkinen (2000), Kimi Raikkonen (2004, 2005) e Lewis Hamilton (2010), McLaren. Michael Schumacher (2001, 2002), Kimi Raikkonen (2007, 2009) e Felipe Massa (2008), com Ferrari.
27/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
O abraço longo, sentido, de Eric Boullier, diretor da equipe Renault, e Gerard Lopez, sócio, em Bruno Senna, ontem depois de seu surpreendente e notável trabalho, na classificação, foi revelador da sua gratidão ao piloto brasileiro. Ambos precisavam de um resultado desses, Bruno em sétimo, na frente do companheiro, Vitaly Petrov, décimo, para atenuar as críticas à decisão de dispensar o alemão Nick Heidfeld, a quem Bruno substituiu. Pode até ajudá-los judicialmente, pois Heidfeld processou a escuderia, requerendo o lugar de volta. Na realidade, visa a sair da Renault com mais dinheiro.
O sobrinho de Senna estava entusiasmado. Sabe que foi muito além do que se poderia esperar de um piloto que não disputa uma classificação desde o GP de Abu Dabi do ano passado, com um carro desconhecido e sob condições realmente difíceis, numa pista rápida e desafiadora, como Spa. “Chamei o time, pelo rádio, e comuniquei que gostaria de arriscar colocar os pneus para asfalto seco, por haver uma trilha.” Decisão de alto risco e que exige muita autoconfiança, em especial num traçado como o belga.
“Em dois momentos levei grandes sustos, nas curvas velozes, mas controlei bem o carro. No fim, deu tudo certo, estou muito, mas muito feliz com o que conquistamos”, disse Bruno. Desabafou: “Também estou de boca aberta”.
Mas fez questão de pedir calma com relação à corrida, hoje. Sua análise é realista: “Eu não treinei largada com pista seca, ainda, não conheço o carro da Renault sem chuva em Spa, assim como os pneus Pirelli em séries longas de voltas, terei de descobrir tudo em plena corrida. Será muito difícil, não dá para esperar milagre”. O apoio da equipe ao seu trabalho tem importância grande na confiança demonstrada por Bruno com o sétimo tempo, ontem. “Se conquistar alguns pontos amanhã já estarei feliz diante de tudo ser novo para mim no carro da Renault.”
Por enquanto, o contrato prevê sua presença na escuderia francesa apenas em Spa e na etapa seguinte, Itália, dia 11, mas outro desempenho convincente hoje, como ontem, pode mantê-lo até o final da temporada, apesar da concorrência do francês Romain Grosjean, campeão da GP2, ontem, como o terceiro lugar na prova de Spa.
Ainda que seja outra realidade, outro tempo, Ayrton Senna, tio de Bruno, era um especialista em Spa. Ganhou cinco vezes: em 1985, com Lotus, e de 1988 a 1991, McLaren, quatro oportunidades seguidas. A imagem de Bruno controlando o carro da Renault no asfalto molhado de Spa, ontem, lançou muita gente de volta a um passado que marcou a história do esporte no Brasil. O próprio piloto da Renault, no entanto, manifesta não apreciar as comparações com o tio. “Para mim ele foi o melhor piloto que já existiu. Mas se chamava Ayrton Senna e eu, Bruno Senna. Outra pessoa, outro tudo”, comentou, no ano passado, ainda.
A exemplo de Bruno, Felipe Massa realizou uma classificação como raras, desde 2008, ao obter o quarto lugar no grid. “É para comemorar porque com a baixa temperatura e a chuva nossos pneus não aquecem como deveriam. Amanhã (hoje), com o asfalto seco, como prevê a meteorologia, poderemos ser ainda melhores.” A exemplo de vários pilotos, segundo acredita, sua Ferrari está acertada bem mais para as condições esperadas para hoje, pista seca, que as da classificação, ontem: “Pódio é algo concreto aqui na Bélgica para nós.” Seu último pódio foi no GP da Coreia do Sul, no ano passado, terceiro. Em Spa, Massa venceu em 2008 e chegou em segundo em 2007, com Ferrari.
Apesar de ter sido visivelmente atrapalhado pelo finlandês Heikki Kovalainen, da Lotus, ontem na classificação, o que o impediu de melhorar a 14.ª colocação no grid, Rubens Barrichello, da Williams, não o criticou. “Ele também estava na sua volta lançada, embora com um carro bem mais lento.” Dentre os que torcem para chover hoje, ao longo das 44 voltas do GP da Bélgica, está Rubinho. Em 2002 e 2004, com Ferrari, terminou em segundo. “O carro da Williams está lento aqui em Spa. Quem sabe com chuva temos alguma chance de pontos.” Rubinho pediu calma com relação ao que esperar de Bruno. “Ele não vai ser campeão com um sábado em Spa.” Os dois têm bom relacionamento.
27/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
O cenário mudou, Spa-Francorchamps, pista à moda antiga, larga, veloz, desafiadora. O clima também variou, chuva, garoa e tempo seco, no final. O que não alterou foi o autor da pole position, ontem na Bélgica: Sebastian Vettel, da Red Bull, atual campeão do mundo e líder do campeonato. Foi a nona pole, este ano, em 12 disputadas. Mas além de um treino empolgante, a sessão que definiu o grid mostrou um Bruno Senna espetacular na sua volta à Fórmula 1, agora na Renault, com o sétimo tempo, o piloto do dia em Spa, e Felipe Massa, Ferrari, quarto, de novo na frente do companheiro, Fernando Alonso, oitavo.
Como manda a tradição das provas no circuito favorito da maioria dos pilotos, as condições do tempo variaram, deixando-os, bem como suas equipes, sem saber ao certo o que fazer, qual pneu utilizar: o de asfalto para chuva intensa, os do tipo intermediário ou arriscar tudo com os de pista seca. Para não se mencionar os elevados riscos de decisões equivocadas: velocidades superiores a 300 km/h são comuns nos 7.004 metros do belo traçado belga.“Foi uma sessão bem difícil, estava fácil errar. Por isso estou muito contente com essa pole (24.ª da carreira)”, disse Vettel, que registrou 1min48s298.
Lewis Hamilton, da McLaren, combativo como sempre, levou sua McLaren à segunda colocação, superando o companheiro de Vettel, o aniversariante e de contrato renovado para 2012, Mark Webber, terceiro.
Vettel fez festa ontem, mas sabe que hoje terá de dar tudo certo para voltar a vencer uma corrida. As últimas três vitórias ficaram com Ferrari, Inglaterra, com Alonso, e McLaren, Alemanha, Hamilton, e Hungria, Jenson Button. A facilidade de cometer um equívoco, ontem, levou a McLaren a chamar Button para os boxes antes de terminar o Q2, segunda parte da classificação, acreditando estar garantido no Q3, enquanto a maioria melhorou. Resultado: Button, um dos candidatos à vitória, larga em 13.º. Ficou mais difícil.
Hamilton comentou seu treino: “Não tivemos a chance, aqui, de compreender bem o quanto avançamos, por causa da chuva o tempo todo, mas vencer de novo é uma realidade para nós”. Não exagerou. No ano passado venceu em Spa. O inglês campeão do mundo de 2008 recebeu apenas uma advertência por se envolver num incidente com o venezuelano Pastor Maldonado, da Williams. Hamilton perdeu tempo atrás dele na última curva, antes da reta dos boxes, ao final do Q2, e o fechou depois da bandeirada, deu o chamado “chega prá lá”. Maldonado não só revidou como tocou a Williams na McLaren, que seguiria no treino, no Q3. O venezuelano perdeu cinco colocações no grid e larga, agora, em 21.º. Ficou no ar a sensação de que Hamilton também deveria ser penalizado.
Webber sabe que não será fácil para a Red Bull se impor, ao menos como antes. “Amanhã (hoje) a pista deve estar seca, segundo a previsão. Se confirmada, pode ser um pouco melhor para nós, embora esses caras aqui (Hamilton, da McLaren) chegaram de vez.”
A previsão meteorológica prevê que não deverá chover ao longo das 44 voltas da corrida, hoje. “Eu não colocaria dinheiro nisso”, afirmou Vettel. “Em geral somos surpreendidos aqui e penso que amanhã não será diferente.” Disse que o acerto dos carros, hoje, não muda muito se a pista está molhada, como ontem, ou provavelmente seca, hoje. Há quem pense de forma diferente e esse fator pode ser determinante, hoje, na corrrida, como Ross Brawn, diretor-técnico da Mercedes. Seus pilotos tiverem estão em colocações opostas no grid. Nico Rosberg demonstrou a eficiência de sempre, ao obter o quinto tempo, enquanto Michael Schumacher vai celebrar seus 20 anos de Fórmula 1 largando em 24.º e último. No Q1, ainda, seu carro aquaplanou e bateu na grande reta.
Quem pode entrar nessa luta pela vitória com Vettel, Hamilton e Webber, além de Massa, é Alonso, apesar de largar apenas em oitavo. “No melhor momento da pista perdi tempo. Enfrentei tráfego, como Perez (Sergio Perez, da Sauber), mais lento na minha frente”, explicou o espanhol. De qualquer forma, sua perspectiva, hoje, é boa: “A temperatura deve subir, teremos menos dificuldades para aquecer os pneus, um problema para nós, como hoje, com a chuva”.
Outro time que cresceu com os novos componentes levados à Bélgica foi a Toro Rosso. Jaime Alguersuari, em ascensão, completou excelente volta para estabelecer o sexto tempo da classificação.
Se Alonso olhar para trás, verá que a história do GP da Bélgica, em Spa, registra surpresas que justificam seu otimismo com relação à corrida. Em 1995, Michael Schumacher, que celebra este ano 20 anos da estreia na Fórmula 1, no circuito belga, largou, com Benetton, em 16.º e ganhou a prova com uma vantagem de 19 segundos para o segundo colocado, Damon Hill, da Williams. A largada, hoje, será às 9 horas, horário de Brasília.
26/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
Como encarar o GP da Bélgica? “É melhor acertar o carro para eventual chuva amanhã (hoje), na classificação, esperando pista molhada também na corrida, domingo, ou sacrificar a classificação, com um acerto de asfalto seco, por apostar que não choverá na corrida?” Essa foi a questão que Michael Schumacher, da Mercedes, propôs, ontem, depois de ser o mais veloz no treino livre da manhã, e 11.º à tarde, com asfalto molhado a maior parte do tempo, típico do circuito Spa-Francorchamps.
“Quem melhor responder a esse desafio tem boa chance de vencer a prova”, disse ontem, ao Estado, o diretor-técnico da sua equipe, Mercedes, o inglês Ross Brawn. De hoje para amanhã o que mais vai preocupar pilotos e técnicos é em que apostar. “Não é algo novo em Spa”, lembrou Schumacher, claramente feliz por celebrar no fim de semana 20 anos desde a sua estreia na Fórmula 1, em 1991, no mesmo autódromo onde conquistaria seis vitórias, dentre elas a primeira das impressionantes 91 na carreira, em 1992, com Benetton.
“Em Spa faz grande diferença, mais de na maioria dos circuitos, acertar o carro para mais ou menos pressão aerodinâmica”, explicou Brawn. Na chuva busca-se o máximo de pressão aerodinâmica. No seco, menos, para ser mais rápido nas longas retas. Os times trabalham com a previsão de chuva para hoje, na definição do grid, como manda a tradição do GP da Bélgica, mas há incertezas sobre como deverá ser a evolução do clima. “Quando chegamos aqui a previsão era de tempo seco domingo. Mas já mudou”, disse Brawn. “Não dá para garantir nada.”
Apesar de na maior parte das três horas de treinos livres, ontem, o asfalto ter estado molhado, pouco antes do fim da sessão da tarde formou uma trilha seca, a ponto de quase todos arriscarem os pneus lisos. Mas a festa durou pouco: começou a chover de novo logo depois. Mark Webber, da Red Bull, o mais rápido, 1min50s321, ratificou o que afirmara no dia anterior. “O campeonato deve recomeçar como terminou para as miniférias, conosco, McLaren e Ferrari dividindo as vitórias até o fim do ano. Não temos mais a vantagem inicial.” Sebastian Vettel, companheiro de Red Bull, ganhou seis e foi segundo nas outras três das nove primeiras etapas.
A marca de Fernando Alonso, da Ferrari, ontem, segundo, reforça a impressão de Webber: apenas 140 milésimos mais lento para um traçado de 7.004 metros. Mas Alonso aposta na pole position, hoje, de Webber ou Vettel, décimo, ontem. “Eles estão 6 ou 7 km/h mais velozes nas retas, onde não é o seu forte. Devem repetir a pole aqui, como em todas as etapas este ano.”
Os 449 milésimos de desvantagem de Jenson Button, da McLaren, terceiro ontem, não refletem o avanço do seu carro. “Difícil avaliar num treino como o de hoje. Tivemos breves instantes para entender se o que temos de novo tornou o carro mais rápido. A primeira impressão é de sim.” Lewis Hamilton, companheiro, quarto, atribuiu às dificuldades de acerto os 517 milésimos para Webber.
Como o australiano da Red Bull, prevê a McLaren lutando pela vitória amanhã. “Ganhei aqui no ano passado. Com o carro das últimas etapas ao que parece, hoje, melhorado, não há razão para não acreditar podermos vencer de novo.” A McLaren foi primeira com Jenson Button na Hungria, dia 31, e com Hamilton, na Alemanha, dia 24 de julho.
O treino de classificação do GP da Bélgica, 12.º do calendário, hoje, começa às 9 horas, horário de Brasília. Até agora, apenas os pilotos da Red Bull largaram na pole position: Vettel, 8 vezes, e Webber, 3.
26/VIII/11
Livio Oricchio, de Spa
Bruno Senna revelou ter experimentado uma situação desconhecida, ontem, e muito importante para o equilíbrio de um piloto, em especial jovem. “Eu cheguei no muro dos boxes da Renault, durante o treino livre da manhã, para pedir desculpas à equipe por ter errado depois de apenas sete voltas”, contou. “Eles me disseram que essas coisas acontecem, que era para eu tirar isso da cabeça a fim de trabalhar bem à tarde. Foi o que de melhor eu poderia ouvir. Fui para o carro com outra cabeça, a tarde foi muito produtiva.” Fez 1min53s835 (21 voltas), 17.º.
Claramente era uma referência aos desgastes profundos, no ano passado, vividos com o chefe da Hispania, Colin Kolles, conhecido por cobrar desmedidamente de seus pilotos, a ponto de desequilibrá-los. “Eu coloquei a roda na linha branca, que quando molhada se torna muito escorregadia, e rodei. Besteira minha”, contou Bruno, ao descrever o que se passou de manhã. Com a pista molhada à tarde seu ritmo era bom. “Para mim será bem melhor se chover na classificação e na corrida. Hoje (ontem) de novo não tive chance de conhecer os pneus para pista seca. Se na classificação for assim, terei de descobrir na hora como funcionam. Será muito difícil.”
Seu objetivo é estabelecer um tempo semelhante ao do companheiro de Renault, o russo Vitaly Petrov. Ontem o russo quase não treinou por causa de um problema na direção hidráulica.
A classificação para Felipe Massa, da Ferrari, hoje, será diferente do treino livre de ontem, quando ficou com o quinto tempo, e o companheiro, Fernando Alonso, segundo. “Trabalhamos com estratégias distintas e fiz experiências com um assoalho novo, o que me fez ficar parado um tempo nos boxes.” Ratificou a evolução do modelo F150. “Apesar das dificuldades de avaliação, vamos manter as novidades no carro para amanhã (hoje).”
O que mais preocupa Rubens Barrichello, da Williams, visando a classificação, hoje, é que os novos componentes não tornaram seu carro mais rápido. Em 1994, na Jordan, fez a pole position em Spa, em condições semelhantes às de ontem, com uma trilha seca no asfalto molhado. Ontem, apenas o 16.º tempo. “Não avançamos”, afirmou.
Quanto ao futuro, não escondeu ter esperado um chamado da Williams nas três semanas de intervalo do calendário, que não aconteceu. “Agora é com eles, já fiz a minha parte nessa história. Penso que a equipe não está preparada para dois pilotos jovens.” A necessidade de dinheiro de Frank Williams pode levá-lo a optar por um novato, mas com grande patrocinador.
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