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26/VI/08

Acompanho a Fórmula 1 como fã da competição desde 1970, quando entrava na adolescência. Emerson Fittipaldi foi meu grande ídolo. Profissionalmente, como jornalista, desde 1987. E a partir da temporada de 1991, perdi bem poucos GPs, estive em quase todos. Me aproximo dos 300 GPs.

Nesse espaço de tempo, o estreante que mais me impressionou foi Lewis Hamilton. E o piloto mais completo que vi correr chama-se Michael Schumacher. Isso é que é não ficar em cima do muro e dar a cara para bater, hein?

Mas o assunto hoje não é o que penso ou não me atenho tanto, mas o próprio Hamilton. Depois de demonstrar potencial como nunca vi em alguém que disputava sua primeira temporada, ano passado, o vejo não só estagnar-se como andar para trás. Tinha comigo, e escrevi aqui, que seu segundo campeonato deveria ser mais difícil que o de estréia, por mais paradoxal que pareça. A McLaren lançou sobre ele a responsabilidade de conduzir o time, ditar os rumos, de desenvolver o carro, conquistar as vitórias, disputar o título.

Ano passado era o franco atirador. Todas essas tarefas eram bem mais cobradas de seu companheiro, o ultracompetente Fernando Alonso, o piloto que mais desejaria hoje na minha equipe, já duas vezs campeão. É bem diferente agir sabendo que de quem se espera mesmo é o outro piloto. O que Hamilton fizesse já estaria no lucro, afinal era inexperiente.

A função que lhe foi atribuída, este ano, impunha equilíbrio emocional elevado. Concorda comigo que não dá para cobrar de um menino que, de um momento para o outro, tornou-se a namoradinha dos ingleses? Mais: de um ano para o outro deixou de ter uma vida bastante limitada pela falta de dinheiro para passar a faturar alguns milhões de libras? De novo entra a questão do preparo pessoal. O que, em absoluto, não é o caso.

Amigos, agora na França tive contato com várias publicações de língua inglesa e é inacreditável o espaço dedicado a Hamilton. Chama a atenção em quantos anúncios publicitários está presente. De dar inveja a Gisele Bündchen. Para cada foto ou filmagem dessas, são dias e dias dedicados à vida de garoto-propaganda. Está sobrando pouco para sua real profissão: piloto de carros de corrida.

Pior: alguém que tenha uma agenda tão repleta fora dos autódromos dificilmente se mantém concentrado, ao menos como deveria, nos três dias de competição. Até porque mesmo na sexta-feira, no sábado e domingo a McLaren, a Mercedes e os patrocinadores da escuderia programam atividades para esse super-homem das agências publicitárias.

No seu subconsciente, há a obrigação de atender à expectativa de todos que investem nele, de Ron Dennis, sócio da McLaren e seu tutor no automobilismo, a todas as marcas que representa. Para não mencionar a imposição imperiosa a que deve submeter-se de corresponder a milhões de ingleses que o têm como ídolo. Só um lembrete: a Inglatera é, em essência, a terra da Fórmula 1.

Dentro desse contexto, não é difícil compreender Hamilton não conquistar nenhum ponto nas duas últimas etapas do Mundial e cair de líder, depois do GP de Mônaco, para a quarta colocação, com os mesmos 38 pontos.

Dia 6 vai correr em casa, no circuito de Silverstone. Posso imaginar como serão os dias que antecedem a prova, ou mesmo como já deve estar sendo a esta altura, tendo de atender a tantos compromissos programados por quem cuida de sua carreira e, como ele, também visa ganhar muito dinheiro diante de sua fantástica popularidade.

Desde já questiono se o foco de Hamilton no GP da Grã-Bretanha representará o máximo. Ele deveria estar desenvolvendo o que em 2007 pareceu ser seu ponto fraco, um dos raros, a inconstância emocional. Compreensível para um estreante. Procurar entender as razões de ano passado e este ano transferir para o momento de decidir, na pista, essa carga toda. É naquela fração de segundo que tudo se decide. E está escancarado em Hamilton que lhe falta clareza de raciocínio.

Essa conturbação mental é a base de seus equívocos de interpretação nas corridas de Montreal e de Magny-Cours, quando se envolveu em acidentes perfeitamente evitáveis. Tanto que acabou punido pelos comissários, nas duas.

Em Silverstone, Hamilton não pode errar. Terá carro para acompanhar de perto a Ferrari – a McLaren vai andar muito bem lá – e seu talento e conhecimento dos seletivos 5.141 metros podem levá-lo a realizar um grande trabalho. Tudo, porém, já está muito mais difícil para ele porque lá no fundo de sua mente espera atender a todos que investem ou apenas torcem pelo seu sucesso. Novo desastre acarretará pressões ainda maiores, de efeitos, provavelmente, devastadores.

Se Hamilton não retomar seu rumo, se os profissionais que o cercam não deixarem de se preocupar de faturar tanto em cima dele, bem como ele próprio e seu pai, Anthony, a Fórmula 1 poderá demorar bem mais tempo para assistir a Hamilton ser campeão. Se é que um dia a coisa terá jeito. E será um grande desperdício.

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25/VI/08

Acredito que teremos, ainda, mudanças no calendário da Fórmula 1 apresentado hoje pela FIA, em Paris. Vale lembrar que se trata, na realidade, de um pré-calendário. Pelo anunciado, serão 19 etapas em 2009 e o Brasil não mais termina a temporada. Caberá, nesse primeiro estudo, aos Emirados Árabes, Abu Dhabi.

O que primeiro me chamou a atenção foi a ausência do GP dos EUA. Tinha informações, na Europa, de que Tony George, proprietário de Indianápolis. estaria próximo de resolver o problema que tirou a prova do Mundial: pagar um valor um pouco mais alto do que repassava para Bernie Ecclestone, o mais baixo de todos depois de Mônaco.

Enquanto os responsáveis pelas novas corridas, como China, Valência, Cingapura, pagam como taxa do promotor já mais de US$ 30 milhões, George não depositava na conta de Ecclestone sequer US$ 10 milhões. A alegação para conseguir manter os EUA na competição era o desejo de todas as equipes ter um GP nos EUA e uma certa compensação pelo investimento realizado no autódromo para receber a Fórmula 1.

Pode ser que essa história do GP dos EUA não termine com a divulgação do pré-calendário, hoje. Mas, ao mesmo tempo, se o negócio sair, o campeonato iria para 20 etapas já em 2009, enquanto se espera que atinja esse número apenas em 2010, com a entrada da Coréia do Sul e Índia e saída de alguém. Austrália e Canadá poderiam correr riscos por conta de dificuldades financeiras.

O GP da França foi mantido. E no anúncio, ainda em Magny-Cours. Domingo, Ecclestone declarou à TV francesa que tem contrato com os organizadores até 2010 e que o cumpriria. Falou também que defende a saída de Magny-Cours. Pelo andar da carruagem, penso que voltaremos a Magny-Cours em 2009.

Os mecânicos lutaram muito para conseguir três semanas de intervalo em agosto, a fim de uma breve pausa, pois a essa altura da disputa os filhos estão ainda de férias e seria uma forma de ter um mínimo de convivência com a família. Pelo calendário de ontem, o intervalo maior já não mais existirá. O GP da Turquia passou para 9 de agosto e dia 23 a Fórmula 1 irá correr em Valência.

Várias dobradinhas estão previstas, ao contrário deste ano. Digo isso porque a partir delas planejo a minha cobertura. Provas em domingos consecutivos teremos, Austrália e Malásia, 29 de março e 5 de abril, Grã-Bretanha e França, 21 e 28 de junho, Itália e Bélgica, 6 e 13 de setembro, e Japão e China, 11 e 18 de outubro.

Almocei, hoje, com o promotor do GP do Brasil, Tamas Rohonyi, que me disse não se importar com o fato de a corrida passar a ser a penúltima e não a última. “Estamos com os ingressos esgotados da prova do dia 2 de novembro. O público prefere ver a decisão do campeonato, claro, mas se não for o caso, não faz diferença, as pessoas querem ver o campeão do mundo na pista, teremos lotação máxima de novo em 2009. Para nós só não é o ideal, ainda que não seja o fim do mundo, abrir o campeonato”, comentou Tamas.

O campeonato começará dia 29 de março, em Melbourne, e terminará 15 de novembro, em Abu Dhabi.Ah, adorei a volta de Suzuka, agora com seu autódromo remodelado por Herman Tilke. O traçado espetacular, porém, será o mesmo.

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GP da França
Livio Oricchio, de Magny-Cours

Início
O talentoso Lewis Hamilton, da McLaren, aos poucos vai mostrando, também, seus pontos fracos. Instabilidade emocional, por exemplo, é um deles. Ontem, de novo, não marcou pontos. Havia largado em 13º por ter sido penalizado depois de bater em Kimi Raikkonen, no Canadá, e no GP da França cortou caminho por dentro da chicane das curvas 6 e 7 para ultrapassar Sebastian Vettel, da Toro Rosso. Recebeu um drive-through, o que o levou a terminar em décimo. “Foi uma interpretação extrema (dos comissários). Acho que minha ultrapassagem foi legal.”

Heikki Kovalainen, companheiro de Hamilton, realizou seu melhor trabalho na McLaren até aqui. Largou em décimo e acabou em quarto. Quase ultrapassa Jarno Trulli, da Toyota, para completar o pódio. “Perdi tempo atrás de carros mais lentos no início”, disse, referindo-se a Nelsinho Piquet. “Dei tudo para ultrapassar Jarno, mas ele se defendeu bem.”

Nem a competência de Robert Kubica conseguiu fazer o carro da BMW render mais, ontem. O polonês vinha de um segundo lugar em Mônaco e a vitória no Canadá. “Conquistei 4 pontos (quinto lugar), menos do que imaginava”, disse. “Sabia que seria na largada que poderia obter algo melhor e tentei passar Trulli duas vezes na primeira volta, mas não deu.” Falou que a hora é de tentar entender a razão de o carro apresentar rendimento tão distinto do das duas corridas. Seu companheiro, Nick Heodfeld, entrou mesmo em crise com a ascensão de Kubica. Ontem, sem problemas, foi apenas o 13º.

Fernando Alonso, da Renault, traduzia na face a decepção com o oitavo lugar. “Quando falei em pódio, ontem, dizia a verdade. Mas não poderia ter perdido o terceiro lugar na largada.” O ritmo de Trulli, pior que o seu, comprometeu sua prova, pois sua estratégia era parar cedo (15ª volta). “Precisaria estar mais perto das Ferrari”, explicou. Como Nelsinho, porém, elogiou a evolução do carro. “Um ponto é muito pouco, pensei em bem mais aqui.”

Lucas Di Grassi retornou à GP2 no GP da França. Sábado foi segundo, com o carro da equipe Campos, e ontem terminou em quarto. Junto do italiano Giorgio Pantano, da Racing, líder do campeonato com 35 pontos, foi o piloto que mais marcou pontos no fim de semana: 11. “Como há limitação de treinos na Fórmula 1, a equipe Renault pediu para eu voltar à GP2″, explicou. Bruno Senna, da ISport, estava irritado com as quebras no carro. Embreagem sábado, quando era segundo, e ontem problemas eletrônicos. Mesmo assim realizou ótima prova, ontem, ao se classificar em quinto, depois de largar em 23º. É agorar o vice-líder da GP2, com 28 pontos.
FIM

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GP da França
Livio Oricchio, de Magny-Cours

Início
Ayrton Senna, na McLaren, se apresentou para o GP de Mônaco de 1993, sexta etapa do Mundial, com 32 pontos. Havia sido 2º na África do Sul, vencido o GP do Brasil e da Europa e 2º na Espanha. Alain Prost, Williams, vencera na África do Sul, havia sido terceiro no GP da Europa e primeiro nas duas etapas anteriores a Mônaco, San Marino e Espanha. Tinha, portanto, por aquele critério de pontuação, 34 pontos, líder do Mundial.

Mas Senna ganhou nas ruas do principado enquanto o francês recebeu a bandeirada em 4º. Com o resultado, Senna assumiu a liderança do campeonato, com 42 pontos, e Prost ficou em 2º, com 37. Desde então, apenas ontem um brasileiro voltou liderar do Mundial. A vitória de Felipe Massa no GP da França rompe uma série de mais de 15 anos do País distante da primeira colocação do campeonato de Fórmula 1.

A classificação final da etapa de Magny-Cours deixou marcas históricas, como foi o evento, o último no traçado da região da Borgonha. Não se sabe onde será disputado o próximo GP da França. Ao ser líder, ontem, Massa se tornou o quarto piloto nas quatro últimas provas do calendário a ocupar o primeiro lugar no Mundial. Depois do GP da Turquia, Kimi Raikkonen, da Ferrari, tinha 35 pontos e liderava.

A Fórmula 1 foi para Mônaco. A vitória levou Lewis Hamilton ao primeiro lugar no Mundial, com 38. O polonês Robert Kubica, da BMW, assumiu a liderança do campeonato depois da etapa de Montreal, ao atingir 42 pontos com sua primeira vitória na Fórmula 1. E ontem Massa deu sequência à saudável alternância de líderes na competição, representando três equipes distintas, Ferrari, McLaren e BMW.

Apesar do sucesso dos pilotos brasileiros na Fórmula 1 de 1972 a 1991, só venceram uma vez o GP da França. Nelson Piquet ganhou a edição de 1985, com Brabham-BMW Turbo, em Paul Ricard. E só. Já os franceses quase sempre fizeram festa no Brasil. Jacques Laffite, com Ligier, venceu em 1979, Rene Arnoux, Renault, em 1980, ambas em Interlagos, e Alain Prost foi primeiro nas edições de 1982, 1984, 1985, 1987, 1988, todas no Rio, e em 1990, na volta da Fórmula 1 a Interlagos. Foram oito vitórias.

Massa melhorou o desempenho brasileiro no GP da França, depois de 23 anos da única conquista. O 1-2 da Ferrari, ontem, representou a terceira dobradinha na temporada. Em 2007, a mesma dupla obteve quatro.

Mais da prova: Jarno Trulli não se classificava no pódio desde o GP da Espanha de 2005, terceiro, já pela Toyota. E o time japonês chegou ao pódio pela última vez no GP da Austrália de 2006, com Ralf Schumacher, terceiro. Ainda sobre o GP da França: apenas um piloto não recebeu a bandeirada: Jenson Button, da Honda, por ter tocado na Toro Rosso de Sebastian Bourdais e na sequência perder o aerofólio dianteiro na barreira de pneus da última chicane.

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GP da França
Livio Oricchio, de Magny-Cours

Início

Nelsinho Piquet demonstrou entusiasmo ao descrever uma manobra em particular, depois do ótimo sétimo lugar no GP da França, na terra da sua equipe, Renault: “No final, ultrapassei o Alonso e foi muito mais especial que se fosse o Webber. O Alonso cometeu um erro e eu aproveitei.”

O aluno falando do professor. Aconteceu a duas voltas da bandeirada. O campeão do mundo de 2005 e 2006 foi dar uma volta em Giancarlo Fisichella, da Force India, na freada da grande reta, brecou tarde demais e seguiu em frente. Nelsinho, oitavo, bem próximo do companheiro, colocou por dentro e o deixou para trás.

“Sua estratégia, parar logo no começo, era mais arriscada que a minha, perdeu muito tempo no tráfego”, comentou. Por não ter ficado entre os dez primeiros na classificação, Nelsinho pôde escolher com quanta gasolina largar, o que não foi o caso do espanhol. E isso certamente o ajudou.

“Estou muito feliz com os dois pontos, já deveria ter acontecido antes, consegui juntar tudo, um bom carro, boa estratégia, errei uma ou duas vezes, acho que será como uma bola de neve, as coisas irão melhorar cada vez mais”, falou Nelsinho. Até ontem, a única prova em que acompanhou de perto Alonso foi na Espanha, mas por pouco tempo, em razão de se envolver num acidente com Sebastian Bourdais, da Toro Rosso.

Em Magny-Cours, Nelsinho disputou posições com os dois pilotos da McLaren, Lewis Hamilton e Heikki Kovalainen no início. Luta dura, por seu carro ser menos rápido que o do time inglês. “Nós tínhamos boa velocidade de reta e freávamos bem, sabia que eles não conseguiriam me ultrapassar se eu mantivesse a calma e não errasse”, falou o piloto da Renault. “Foi bom para aprender que com um carro bom e boa corrida chego lá. Fazer uma prova perfeita, sem erro, como os líderes, não é fácil, a Fórmula 1 representa vários degraus acima da GP2.”

O piloto deu uma idéia de como são as exigências agora. “Minha equipe ficou muito contente, mas a Fórmula 1 busca a perfeição e o que primeiro vieram falar comigo foi o que eu fiz com o botão do neutro depois do primeiro pit stop (25ª volta)”, disse. Ele e Kovalainen disputavam o terceiro lugar por não terem parado ainda e foram para os boxes. Nelsinho saiu na frente, mas em seguida, ao cruzar a linha que libera a velocidade, sua Renault ficou lenta.

“No movimento de apertar o botão que tira o limitador de velocidade eu toquei no botão Neutro (ponto morto). O Kovalainen me passou”, explicou Nelsinho. “Foi um erro bobo. Mas apenas 10% foram de reclamações, os outros 90%, de parabéns.” Sua autoconfiança pode ser outra daqui para a frente, conforme falou: “Na GP2, a primeira vitória não chegava, veio e algo acontece no seu subconsciente que você relaxa”. Flavio Briatore, diretor da Renault, comentou sobre o trabalho de Nelsinho: “Marcante, consistente, agressivo, estou feliz por ele marcar seus primeiros pontos.”

O GP da Grã-Bretanha, dia 6, o enche de confiança. “Gosto de Silverstone, o carro está melhorando, tenho tudo para marcar mais pontos.” Rubens Barrichello substituiu o câmbio do seu Honda, largou em último e terminou em 14º.

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GP da França
Livio Oricchio, de Magny-Cours

Restam, ainda, dez etapas para o encerramento do campeonato e pode acontecer de tudo. Mas ao menos ontem Felipe Massa resgatou um pouquinho daquele sabor que os brasileiros tanto aprenderam a apreciar e há um bocado já esquecido: a liderança do Mundial. Massa venceu o GP da França no circuito de Magny-Cours, atingiu 48 pontos, 2 a mais que o polonês Robert Kubica, da BMW, quinto ontem, e 5 na frente do companheiro de Ferrari, Kimi Raikkonen, segundo. Ser campeão? “É cedo, mas temos chances”, afirmou Massa.

Sincero, como sempre, Massa procurou não deixar dúvida depois do ocorrido com Raikkonen, líder até a 38ª volta de um total de 70. “A equipe me avisou que ele tinha um problema no escapamento, me aproximei, coloquei meu carro do lado do seu e ele não tentou me fechar, por não ter razão, o que eu também faria”, explicou. “Tive sorte hoje, mas às vezes é preciso contar com ela.” O finlandês campeão do mundo liderava com tranquilidade, com Massa em segundo, quando enfrentou o rompimento de um cano de escape.

“Simplesmente perdi potência. Estou desapontado por perder a corrida, embora chegar ao final com essas dificuldades seja também sorte, mostra como nosso carro é resistente”, comentou Raikkonen. A vantagem que o finlandês abriu para o terceiro colocado àquela altura, Jarno Trulli, da Toyota, era tanta, 26 segundos, que mesmo mantendo ritmo mais lento, não foi ameaçado. O italiano do time japonês conseguiu ótimo terceiro lugar. E quem também fez festa foi Nelsinho Piquet, da Renault, com uma convincente sétima colocação.

Apesar do desempenho impecável, Massa não era o máximo da emoção, ontem: “É um momento especial, fantástico, me vem à mente tantas coisas que trabalhei na carreira, hora de comemorar com as pessoas próximas, como minha mulher, e o público, em casa, torcendo bastante por ser brasileiro também”. Sua ascensão no Mundial é impressionante. Depois dos erros nas duas primeiras etapas, Austrália e Malásia, conquistou 48 pontos dos 60 possíveis nas seis corridas seguintes. “Tenho de olhar para trás e ver que aconteceram resultados negativos e podem voltar a ocorrer, sempre aprender com os erros. Num campeonato como esse, uma vitória como hoje é importante, como é da mesma forma classificar-se em segundo ou terceiro.”

Essa diferença de postura de Massa o levou a liderar a Mundial e pode, sim, torná-lo campeão do mundo. Agora sua posição muda: deixa de ser o caçador para ser a caça. “Minha cabeça será a mesma. Hoje a sorte estava do meu lado, da próxima vez que acontecer tentarei aproveitar de novo e
quando não, levar pontos para casa.”

Massa deu mais detalhes de sua corrida: “Seria difícil vencer. No início, Kimi era 3/10 de segundo mais rápido, o que não me permitiria ultrapassá-lo no primeiro pit stop (23ª volta).” Sua estratégia era parar duas voltas depois de Raikkonen. “Peguei trânsito na minha segunda volta a mais (Lewis Hamilton, retardatário) e depois do pit stop a diferença entre nós subiu para 6 segundos.” Nessa altura Massa colocou em prática sua filosofia de marcar pontos. “Estava contente com o segundo lugar, abaixei os giros do motor. De repente, vi o Kimi mais lento.”

Na 57ª volta, uma leve chuva começou a cair sobre o circuito. A vitória que parecia fácil para Massa, afinal tinha 14 segundos de vantagem para Raikkonen e 34 para Trulli, poderia entrar em xeque. “Em alguns locais os pingos eram maiores, reduzi até demais a velocidade”, contou Massa. “Não desejava correr riscos.” Logo em seguida, na 60ª volta, já não chovia mais e Massa voltou a andar no seu ritmo normal, o que o fez receber a bandeirada 17 segundos na frente de Raikkonen e 28 de Trulli.

Comparações com outros pilotos brasileiros que já lideraram o campeonato não agradam Massa. “Senna, Piquet, Emerson fazem parte da história do automobilismo, eu sou pequenininho perto deles, mas espero um dia chegar mais perto.” Foi sua oitava vitória na Fórmula 1, a terceira na temporada. A próxima etapa será em Silverstone, Inglaterra, dia 6, cenário perfeito para a maior eficiência do modelo F2008 da Ferrari manifestar-se de novo. “Adoro aquele circuito”, já declarou Massa, que participa dos treinos lá mesmo, de amanhã até quinta-feira.

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21/VI/08
Livio Oricchio, de Magny-Cours

Kimi Raikkonen e Felipe Massa nunca tiveram tantas possibilidades de estabelecer uma dobradinha, esta temporada, a terceira, como hoje no GP da França, na despedida do circuito de Magny-Cours do calendário da Fórmula 1. O finlandês conquistou a 200ª pole da história da Ferrari enquanto Massa, descontente com seu próprio desempenho, larga em segundo.

A questão é que seus eventuais adversários na luta pela vitória estão bem atrás no grid: Robert Kubica, da BMW, líder do Mundial, sai em quinto e Lewis Hamilton, McLaren, em 13º. O único fator que pode desestabilizar uma corrida relativamente tranquila da Ferrari é a chuva. E a meteorologia indica que pode chover.

“Exigi demais, cometi alguns pequenos erros, com mais gasolina que na Q1 e Q2 o carro mudou, meu tempo de volta não foi o ideal”, explicou Massa, com cara de não ter gostado nada do segundo lugar. Havia sido o mais veloz nas duas primeiras partes da sessão (Q1 e Q2) que definiu o grid da oitava etapa do campeonato. “A prova será longa, tenho boa chance de um grande resultado, pensando no campeonato.”

E o que parece ter sido a causa de Massa perder algum tempo nas curvas foi o fator que fez Raikkonen superar o companheiro de Ferrari no final. “Nós treinamos o tempo todo com o nível de gasolina da corrida e em Q1 e Q2, na classificação, tínhamos bem menos, o que muda o comportamento do carro”, falou o campeão do mundo. “Na parte final da classificação, com mais gasolina, como treinamos, voltei a ter o carro 100% na mão”, completou Raikkonen. “Depois de duas etapas sem pontos, preciso deles aqui.”

Na pista, Hamilton foi, ontem, o terceiro, mas por ter batido na traseira de Raikkonen nos boxes, no GP do Canadá, largará em 13º. Perdeu dez colocações. Sexta-feira disse: “A quinta colocação é a mais realista para mim no fim de semana, mas não descarto o pódio”. Seu parceiro, Heikki Kovalainen, mostrou solidariedade ao inglês. Ontem, percorreu os 4.411 metros do circuito com velocidade abaixo do permitido, o que acabou por prejudicar Mark Webber, da Red Bull, na sua volta lançada. Assim, Kovalainen, que havia registrado o sexto tempo, cai, penalizado, para 11º.

Surpresa mesmo, em Magny-Cours, foi a Renault, com Fernando Alonso. O campeão do mundo de 2005 e 2006 demonstrou sua enorme competência para obter o quarto tempo. Com a pena de Hamilton, larga em terceiro e na parte limpa do asfalto. “E a primeira vez, este ano, que temos uma chance real de terminar no pódio”, afirmou. “Demos um grande passe adiante depois das modificações introduzidas nos testes de Barcelona, semana passada.” A evolução pôde ser sentida também pelo fato de Nelsinho Piquet, seu companheiro, ficar em 11º. Como a dupla da McLaren perderá colocações, Nelsinho passa para nono.

“Tenho, amanhã, boa oportunidade de marcar meus primeiros pontos”, afirmou, animado. Disse que com os pneus macios seu carro produziu menos do esperado, o que explica ter ficado de fora dos dez mais rápidos. “Ao menos posso estudar com quanta gasolina vou largar, o que nessa pista de difícil ultrapassagem pode ser uma ajuda importante”, comentou. Apenas os dez primeiros largam com a gasolina que restou no tanque depois da classificação.

O polonês Robert Kubica não se mostrou surpreso com o fraco rendimento da BMW no GP da França até agora, sétimo ontem, mas quinto com as punições a Hamilton e Kovalainen. “Diferentemente da etapa de Montreal, em nenhum momento tive o carro na mão aqui, falta aderência. Parece que nossos concorrentes avançaram depois dos testes de Barcelona e nós ficamos onde estávamos”, definiu Kubica. “Só me resta tentar marcar o máximo de pontos, o que não será fácil.” Ele lidera o Mundial com 42 pontos diante de 38 de Hamilton e Massa. Raikkonen soma 35.

Depois de marcar pontos nas duas últimas corridas, em Mônaco e no Canadá, Rubinho terá de realizar todas as danças da chuva que conhece para dar sequência, hoje, à boa fase recente. Ontem não foi além do 18º tempo. “O pior é que tanto eu q uanto o Jenson Button tiramos o máximo do carro.” O inglês fez o 17º tempo. Os dois avançam uma posição em razão da pena de dez colocações a Nico Rosberg, da Williams, 15º ontem, por como Hamilton bater na saída de box em Montreal.

A TV Globo transmite o GP da França (70 voltas) ao vivo, hoje, a partir das 9 horas, horário de Brasília.

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Livio Oricchio, de Magny-Cours

O que vale mesmo é ser o mais rápido hoje, na sessão classificatória do GP da França e, principalmente, ser primeiro amanhã, depois das 70 voltas da corrida. Mas ontem Felipe Massa iniciou bem a disputa da oitava do campeonato, no circuito de Magny-Cours, ao estabelecer o melhor tempo do dia, 1min15s306, obtido ainda na sessão da manhã. À tarde, o surpreendente Fernando Alonso, da Renault, foi o mais rápido, com Massa em segundo.

“Estamos no caminho certo”, definiu Massa, que reclamou de torcicolo. Viu também que conforme o histórico dos três times que se revezam nas vitórias sugere, Ferrari, McLaren e BMW, as possibilidades de sucesso, hoje e amanhã, são maiores para Massa e seu companheiro, Kimi Raikkonen, terceiro à tarde. “De fato estamos com um carro muito bom, mas é melhor esperar. Já aconteceu de o fim de semana começar assim e depois mudar”, comentou Massa, segundo no Mundial, com 38 pontos, junto de Lewis Hamilton.

O líder do campeonato, Robert Kubica, da BMW, com 42 pontos, reclamou do carro, ontem. “Está estranho”, disse. O polonês perdeu tempo nos boxes, à tarde, até os mecânicos resolverem um problema elétrico. “O carro se comportou bem diferente de como reagiu em Montreal, está difícil de guiar”, disse Kubica. Já Lewis Hamilton elogiou o avanço da McLaren. A escuderia inglesa testou com êxito mudanças no modelo MP4/23 em Barcelona, semana passada.

“Seremos muito rápidos aqui”, afirmou Hamilton. De manhã ficou em segundo e à tarde, quarto, 1min16s232. Seu desafio, agora, comentou, será escolher uma estratégia que lhe permita ser veloz na definição do grid, hoje, mesmo sabendo que, com mais gasolina, suas chances de melhor resultado amanhã são maiores, já que perderá dez posições no grid. Hamilton foi punido por bater em Raikkonen na saída de box, no GP do Canadá.

Raikkonen falou pouco até agora, mas há um consenso de que a luta pela vitória será entre ele e Massa. Os tempos de ontem ratificaram essa impressão. “Estou bastante contente com meu carro. Não tirei o máximo do pneu na primeira volta (a mais veloz), mas nosso ritmo de corrida é muito bom”, falou o finlandês. Ele é o quarto no Mundial, com 35 pontos.

Todos estão cientes de que um bom resultado, hoje, será importante para o que poderão fazer amanhã, na corrida. “É difícil ultrapassar nessa pista”, explicou Hamilton. E ele deverá ser o piloto que mais deverá tentar a manobra por largar atrás. Em outras oportunidades, Alonso também reclamou das dificuldades de ganhar posições nos 4.411 metros do traçado francês onde a Fórmula 1 se apresenta pela última vez. O treino classificatório começa às 9 horas, com transmissão ao vivo pela TV Globo.

Nelsinho Piquet, da Renault, poderia estar feliz com o nono tempo, 1min16s543, afinal vem de resultados ruins. Mas seu companheiro, Alonso, marcou o melhor tempo à tarde, 1min15s778. Foram 765 milésimos de diferença para o espanhol. “Sim, as coisas estão melhores, mas eu tenho de ser mais rápido”, afirmou Nelsinho. “O Alonso usou um acerto bem diferente do meu, experimentado em Barcelona, e funcionou bem. Agora vamos seguir seu caminho.” Previu, no entanto, que não será fácil para ele passar para a fase final do treino, onde chegam apenas os dez melhores.

Rubens Barrichello e Jenson Button, da Honda, não esperavam um carro tão lento em Magny-Cours. Rubinho ficou em 19º, penúltimo, e o inglês, 17º. “Para Silverstone teremos uma evolução desse modelo e depois está prevista outra versão, mas a equipe já viu que esse carro não será campeão e trabalha no de 2009″, falou Rubinho.

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Notas do GP da França
Livio Oricchio, de Magny-Cours

Bruno Senna conquistou, ontem, sua primeira pole position na GP2. E de forma inusitada: bateu na barreira de pneus depois de cruzar a linha de chegada, com o carro da equipe ISport atravessado. “É incrível, a equipe me avisou que aquela era minha última oportunidade de ser o mais rápido e dei tudo mesmo”, explicou. “Toquei a zebra, o carro saiu do chão e quando voltou a tocar ficou difícil controlá-lo.” Foi a primeira vez, também, que um time celebrou depois de seu piloto colidir contra os pneus. A linha de chegada encontra-se a poucos metros de onde Bruno rodou. Com a pole, Bruno somou mais dois pontos e lidera sozinho o campeonato. A corrida, nesta sexta-feira, será às 11 horas de Brasília, com transmissão ao vivo pela SporTV.

Outros quatro brasileiros disputam a GP2: Lucas Di Grassi, vice-campeão ano passado, agora piloto de testes da Renault, voltou a competir. Corre pela equipe Campos. Vai largar em sexto. Diego Nunes, da DPR, obteve ontem o 15º tempo, Alberto Valério, da Durango, o 22º, e Carlos Iaconelli, da BCN, o 25º.

Os pilotos testaram ontem à tarde, no fim da sessão livre, um novo regulamento para o safety car. As reclamações são muitas, em especial com o fechamento da entrada e da saída dos boxes, que já causou vários incidentes. Agora, assim que o safety car é acionado, os pilotos receberão uma informação no painel do carro, uma luz se acende. Eles têm cinco segundos para acionar um botão que lhes dirá o tempo máximo para as voltas seguintes, cerca de 30% mais lentos do ritmo original. Quem excedê-lo paga com drive-through. Com esse sistema, tanto a entrada quanto a saída de box permanecerão o tempo todo liberados. É apenas um teste por enquanto.

Kimi Raikkonen, da Ferrari, gostou da nova regra do safety car, ainda em estudos. “Creio que evita de alguém ser muito privilegiado ou mesmo punido, me parece que aumenta as chances de as condições serem as mesmas para todos.” Nico Rosberg, da Williams, vítima da atual regra no Canadá, comentou que o sistema precisa de aperfeiçoamentos. “Teremos de observar o painel do carro, o que pode fazer com que passemos sobre detritos de outros monopostos.”

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20/VI/08
Amigos, esse post deveria estar no blog desde quarta-feira à noite, quando cheguei aqui na França. Mas em razão dos problemas técnicos, só agora foi possível. Mostro um pouco da nossa aventura de viajar pelo mundo cobrindo a Fórmula 1. Obrigado.

Assim que cheguei à pracinha em frente à casa da Lyse e do Bernard, hoje, quarta-feira, havia creio 20h30, aqui em Saint Parize le Chatel, lembrei-me da experiência do ano passado. Contei nesse espaço, lembra? Eu conversava, ainda, com a Lyse, ao lado do carro e diante do estábulo onde mantém seus cavalos, quando ouvi o rugido de um leão. Tão intenso que disse a mim mesmo não estar a mais de 30 metros. E era isso mesmo. Um cirquinho bem mambembe, ou melhor, dois de seus caminhões, os com os animais, encontrava-se bem ali, a metros da imponente residência secular de pedra da Lyse.

Anos assistindo aos extraordinários documentários do Animal Planet, Discovery Channel e Geographic Channel, bem como meu interesse por sua sociedade antes mesmo de começar a cursar Medicina Veterinária na USP, deram-me boa compreensão geral de como os leões se comportam na natureza. Ia esquecendo: ano passado, estive na reserva de Pillanesburg, na África do Sul, quase na fronteira com Botsuana, e compreendi ter boa base de conhecimento, mas distante, ainda, dos que trabalham diretamente com vida selvagem, antiga paixão.

O que primeiro me veio à mente tão logo saí da A6 e A77 que me trouxeram de Paris para cá foi que este será o último ano do GP da França em Magny-Cours. A cidade fica do outro lado da estrada, margem direita de quem vem de Paris. É tão pequena que em 1991, na estréia do circuito no calendário da Fórmula 1, aluguei um carro no aeroporto Charles de Gaulle, comprei um bom mapa da França e simplesmente não localizei Magny-Cours. O rapaz da locadora me auxiliou, telefonando para alguém, e recebi como indicação seguir a direção de Nevers, a maior cidade da região, distante cerca de 20 quilômetros.

Estou na Borgonha. Do aeroporto de Paris, Charles de Gaulle, ao norte da cidade, até o autódromo são exatos 302 quilômetros. Sabe quanto tempo necessitei para chegar aqui? Quatro horas. Mesmo contornando Paris pela A104 e A86 para atingir a A6, na altura do aeroporto de Orly, no sul, ou seja, bem por fora da Cidade Luz, foram mais de duas horas só nesse trecho. O tráfego é terrível. E é sempre assim. Imagine se eu fosse pela Peripherique, via sem cruzamento que circunda mais internamente Paris?

Estou na Idade Média

Saint Parize le Chatel tem meia dúzia de ruas estreitas. Suas edificações nos remetem de imediato à Idade Média. Tenho comigo que se circulasse por aqui, digamos aí pelo ano de 1350, talvez não fosse muito diferente de hoje. Há um dado emblemático para mim. Toda construção medieval, ou quase toda, encontrava-se num nível distinto da área que a circunda atualmente. Como regra, o tempo as coloca, hoje, num plano inferior.

A elegante e muito bem conservada cripta romana que há a uns 150 metros do quarto de onde escrevo agora acha-se exatamente no mesmo nível da rua. Para mim isso tem significado especial: estou numa vila em que sua disposição geral quase não se alterou desde a origem. Outro detalhe: o desenho das janelas das residências representa outra informação da sua antiguidade, bem como o material usado nas construções: pedra. Não sei se pela antiguidade da obra, mas o prumo das paredes não era o forte dos pedreiros.

Vamos falar de Fórmula 1 só amanhã, quinta-feira, tá? Mesmo porque estou fora do ar desde ontem no início da noite, quando o motorista do Estadão me levou para o aeroporto de Cumbica para voar com a TAM a Paris. Até agora, amigos, não posso reclamar da empresa. A não ser por eles não localizarem a minha ficha de inscrição no programa de milhas, o que exigiu novo registro, só tenho elogios à TAM. Tomara que continue assim.

A indisponibilidade de hotéis para atender à enorme demanda da Fórmula 1 faz com que muita gente se instale em residências das áreas próximas ao circuito. Saint Parize le Chatel encontra-se a cerca de 1.500 metros da entrada principal do autódromo, o que para o trânsito intenso local, por conta de reduzida malha de estradas, é um ótimo negócio. Mais importante: o carinho com que a Lyse e o Bernard nos recebem.

Na casa deles estão, este ano: Livio Oricchio (sou eu), Felipe Motta, da rádio Jovem Pan, e uma estreante em Magny-Cours, nossa amiga Tatiana Cunha, da Folha de São Paulo. Somos concorrentes, sim, mas dentro do autódromo. Não imagino as pautas que trabalha, bem como ela em relação ao que faço. Conseguimos distinguir bem as coisas, o que deixa minha superamiga suíça Ruth Müller impressionada.

A Cortina

Nós ocupamos os quartos do andar superior da casa da Lyse e do Bernard, casal de professores do nível médio em Nevers. Permaneço com eles há anos. Há outro quarto no andar, onde os amigos dos dois filhos de Lyse e Bernard se acomodam por vezes. Há ocasiões que são muitos. Temos um problema comum: só existe um banheiro. E quer saber? Sem porta. Apenas uma delicada cortininha de tecido separa o banheiro do hall para onde dão as portas dos quartos. A disputa pela ocupação da nobre dependência é respeitosa. Mas voraz. É compreensível.

Outro inconveniente: os sons produzidos no banheiro parecem reverberar intensamente nesse hall, nos quartos, quando não lá em baixo, já que algumas das paredes não são estruturais e me parecem construídas com uma espécie de dry wall, uma divisória apenas. Em outras palavras, se você for do tipo de se sentir constrangido ao encarar as pessoas depois de realizar uma sinfonia no banheiro, é recomendável verificar se há gente na fila antes de deixar o recinto, embora não resolva muito porque os sons se propagam por toda parte.

Ao longo dos anos, desenvolvi algumas técnicas para evitar de as pessoas que me ouvem imaginarem, mesmo sem desejar, o que estou fazendo lá dentro. Por exemplo: contenha o desejo de fazer pum por alguns instantes, o suficiente, apenas, para acionar a descarga. Pronto. Agora já é possível. Assim, o barulho de a água escorrendo pelo vaso sanitário encobrirá o produzido pela emissão de gases do seu intestino. Que alívio!

Ok, verdade, dependendo do que você comeu, ou do seu estado geral, pode não ser suficiente. Mas ainda não é o caso de se atirar pela janela porque todos irão rir de que você peidou muito alto no banheiro. O acionamento da descarga acompanhado de um ataque de tosse repentino, forte, da queda do armário com as toalhas, do rompimento do espelho com uma sabonetada, tudo sincronizado, tende a ser eficiente.

No caso de o ruído do pum ainda suplantar o do desastre que você provocou, o que levará a Lyse e o Bernard a se preocuparem com a integridade da estrutura da residência, afinal já tem alguns séculos nas costas, o melhor a fazer é procurar, urgente, um gastroenterologista. Sua vocação para homem-canhão tem causas médicas. Atingiu estágio patológico.

“É o próprio”

Por mais que disfarçassem, já surpreendi residentes momentâneos da casa da Lyse se cutucando, discretamente, no café da manhã, quando determinado cidadão se apresentou sorridente, pinta de quem se sentia leve, cheio de energia, com um “Bonjour”. Posso apostar que disseram entre si, em francês: “É o próprio”. Fiz força para não rir.

Eu agora também já sabia quem havia sido o maestro da noite passada. Mesmo sem desejar. Com um agravante: o friozinho fez com que nosso amigo não abrisse a janela do banheiro. Assim, além dos acordes nas mais antagônicas frequências, nada harmônicas, diga-se, restaram os odores do concerto. Não concordo, mas há quem defenda que as fragrâncias distinguem os autores. Seriam como o DNA do pum; e daí para a identificação é um pulinho.

O ser humano tem reações bastante particulares. Várias histórias ricas surgem na mesa nesses encontros de culturas tão diversas. Como regra, damos gostosas risadas. Mas se tem algo que gera gargalhadas é estar ao redor da mesa e ouvir um pum que vem do banheiro. Quanto mais longo, mais disforme suas nuances, mais engraçado se torna. É como se aquele conjunto de sons disformes encerrasse uma história bem mais divertida que as contadas pelo grupo. De repente, um ruído natural do ser humano parece reunir apresentação, desenvolvimento e desenlace de um tema, tudo bem composto, concatenado e denso de conteúdo, pela receptivada gerada. Mas é apenas um pum.

Uma ocasião fiquei com a sensação de a Lyse e o Bernard não entenderem bem o que ocorria no banheiro. Entreolhavam-se. Nunca ouviram a descarga ser acionada tão longamente. Um entupimento, talvez, devem ter imaginado. Ledo engano, amigos. Aposto que o indivíduo usou a mesma técnica que desenvolvi. E estava mal, viu. Também nunca se viu os ocupantes do banheiro cantar tanto. Durante o banho tudo bem, é normal, as pessoas ficam mesmo mais felizes, mas enquanto estão sentadas no trono é sintoma de algo estranho, de quem pretende esconder algo. Quiçá seus ruídos, tão audíveis do lado de fora.

Nos vôos não enfrentamos esses problemas. Seguimos como se todos fossem surdos. É uma festa. A pressurização da cabine em 8 mil pés (cerca de 2.600 metros) faz com que haja mesmo uma tendência de fazermos pum. Experimente abrir um iogurte durante a viagem. Repare que ao levantar o papel alumínio espirra sempre um pouquinho. É porque o frasco foi fechado num ambiente de pressão maior da que se encontra naquele instante, dentro da cabine. Nós somos como o frasco de iogurte. A pressão externa diminui, equivalente a 8 mil pés, e nossos gases internos se expandem.

A diferença é que, diferentemente da casa da Lyse, há nos jatos, graças a Deus, pelo menos duas turbinas funcionando no mínimo com 80% da sua capacidade, não importa o estágio do vôo. A expansão de nossos gases se anula, num certo sentido, à do ar nas turbinas. Os passageiros, no entanto, não estão imunes aos odores de nossos puns. É preciso saber para onde aproar o canhão.

Atenção ao código

Há quem se inibe apenas por saber que pode ser observado no banheiro. E sem privacidade garantida, evacuar nem pensar. Até rimou. Faz sentido. Funciona como um tampão. Quase ato reflexo, acontece independente da vontade. O código de entrada para os usuários do banheiro único do segundo andar é: cortina fechada tem gente dentro. Não interessa se apenas para escovar os dentes ou faxina completa.

Mas sabe como são essas cortinas de tecido mais antigas. Se dobram, se dobram, reduzem suas dimensões e, se quem está fora olha para a cortina, mesmo acidentalmente, fácil fácil depara com uma brechinha. Nem todos acreditam que quem passou pelo hall, ao ver a cortina supostamente fechada, irá captar que há gente dentro e o que tem a fazer é voltar para o quarto. Sempre fica uma pontinha de desconfiança de que você será surpreendido no instante de maior privacidade.

Eu mesmo já andei perguntando, do lado de fora, se havia alguém mesmo no banheiro. Afinal, apesar da cortina fechada, não havia um único som lá dentro há tempos. Me dei mal. Perguntei: “Is there anybody there?” Parti de uma premissa falsa: de que todos os usuários compreendem inglês. A pessoa imaginou que quem perguntava não se referia a alguém dentro do banheiro, até porque não entendeu nada, e não se manifestou. Resultado: lá estava o cara cagando, lendo e, agora, pálido com minha entrada triunfante e feliz no banheiro. O pedido de desculpas foi tão veloz quanto a minha fuga do local.

Coisas da Fórmula 1 que os apaixonados pela competição nunca imaginam existir. Tudo nesse universo milionário do Mundial remete o fã ao glamour dos mais diferentes cenários e situações. Será que os pilotos que os jornalistas entrevistam também, dentre eles campeões do mundo – alguns jornalistas vão a suas residências, em países como a Finlândia –, sabem que eles se submetem, por vezes, à códigos do tipo cortina aberta ou fechada, nem sempre funcionais, para usar um simples banheiro?

Cuidado poliglota

Amigos, faz bom tempinho que a cortina está fechada e não ouço sons emitidos do banheiro. A regra da cortina não é absoluta. Muitos deixam o local e esquecem de abri-la. Vou aproveitar para me aproximar e recorrer a minha mais recente arma para evitar constrangimento: criei uma colinha, é…escrevi num papel como se diz “há alguém aí, atenção, posso entrar?” em vários idiomas. No avião, treinei um pouco, reproduzindo a pergunta em algumas línguas.

Reparei que a comissária me observava discretamente, desconfiada. Talvez por eu estar com os fones de ouvido e para ouvir minha própria voz precisasse falar mais alto do normal. Não consigo esquecer a forma como me olhava. Nitidamente questionava a segurança de todos. Agora estou pensando: o que um comissário pode imaginar ao assistir a um passageiro dizendo, sozinho, em voz alta, o que parece ser a mesma frase diferentes idiomas?

Seja como for, desta vez não surpreenderei ninguém. Nem a mim mesmo. Se não der certo eu conto, tá? Mas vocês, também, nem são tão amigos assim, né? Em vez de ficar só lendo, por que não sugerem novas técnicas para mascarar os puns e para ter certeza de que não há mesmo gente dentro do banheiro com a cortina fechada?

Fico no aguardo, hein?

Abraços!

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