Vigiar ou sumir
- 17 de março de 2013|
- 14h40|
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Por Anna Carolina Papp
Com o aumento do uso da web por grupos extremistas, Twitter e Facebook têm de se posicionar sobre o que é postado
SÃO PAULO – No início do mês passado, al-Shabaab, grupo radical da Somália ligado à rede terrorista Al Qaeda, publicou uma mensagem crítica em sua nova conta no Twitter: “A liberdade de expressão é apenas uma retórica sem significado. Vida longa, @HSMPress! Você pode ter acabado, mas o seu legado permanece”.
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No final de janeiro, a rede social suspendeu a antiga conta do al-Shabaab, que tinha mais de 20 mil seguidores, após o grupo twittar fotos de um francês executado e um vídeo no qual ameaçava matar reféns quenianos.
Soldado queniano servindo na Somália se depara com a bandeira do grupo radical al-Shabaab em aeroporto. FOTO: REUTERS
Dias depois, no entanto, o grupo criou uma nova conta – um padrão que tem se tornado cada vez mais recorrente. Um caso similar aconteceu em dezembro no Paquistão. O Facebook removeu a conta do grupo Umar Media, ligado ao Taleban. Duas semanas depois, uma nova conta apareceu com o mesmo nome.
“O caso do al-Shabaab destaca as dificuldades para policiar essa prática, já que é tão fácil criar contas novas”, aponta Aaron Zelin, especialista que recentemente lançou o estudo “The State of Global Jihad Online” (O estado da Jihad global online). A pesquisa aborda o uso da internet por grupos que têm como valor a “guerra santa”, genericamente considerada terrorismo, mas que pode ou não ter luta armada.
A discussão polariza governos que desejam que os provedores de conteúdo excluam esses grupos de suas plataformas e ativistas que exigem mais transparência em relação aos critérios utilizados por essas redes sociais para a suspensão de contas.
#Jihad. De acordo com a pesquisa de Zelin, o modo como grupos jihadistas usam a internet tem mudado. A passagem para os anos 2000 foi marcada pela popularização de fóruns de discussão – antes a informação ficava centralizada em sites.
No entanto, apesar de ainda serem a plataforma dominante neste meio hoje, os fóruns, muitas vezes restritos, vêm gradativamente dando lugar às mídias sociais para disseminar suas ideias – sobretudo o Facebook e o Twitter. Nelas, os membros compartilham notícias, artigos, fotos e vídeos refentes à sua causa.
O Twitter tem se mostrado o mais popular entre as mídias sociais escolhidas por ser uma ferramenta útil para divulgar eventos em progresso. Além disso, oferece a possibilidade do uso de hashtags, como a #JihadDispatches, usada pelo grupo al-Shabaab, para expandir sua audiência entre usuários do site.
Há porém um grande fator limitante: a língua. O idioma é uma barreira não apenas para o estudo de fóruns e contas jihadistas, mas para a análise de conteúdo por parte das plataformas. Al-Shabaab, por exemplo, tinha contas em três línguas: “A questão é: eles suspenderam a conta em inglês; não a em árabe ou em somali, mesmo que todas tenham dito exatamente as mesmas coisas”, diz Zelin.
Uma semana após a suspensão da conta do al-Shabaab, Sarah Kendzior, antropóloga que pesquisa Estados autoritários e escreve para a publicação Al Jazeera, twittou em inglês sobre a Islamic Jihad Union, um outro grupo radical. Originário do Uzbequistão, o grupo twittava apenas em uzbeque e estava na rede social há mais de um mês.
“Não havia ameaças ou imagens nos tweets; mas, cinco minutos depois do meu tweet, a conta deles foi suspensa”, disse. Uma hora depois, o grupo criou uma segunda conta, e Sarah twittou sobre ela novamente – mais uma vez, a conta foi suspensa.
Procurado pela antropóloga, o Twitter afirmou que “não comenta casos individuais por questões de privacidade e segurança”. A empresa também disse ao Link que não fala sobre o caso.
Para Sarah, a rede social não tem se mostrado transparente quanto aos seus critérios, uma vez que suspende alguns grupos e outros não. As contas no Twitter do Taleban e do Hezbollah, por exemplo, se mantêm ativas, assim como o grupo sírio Jabhat al-Nusra, ligado à Al Qaeda e que tem mais de 37 mil seguidores.
“Creio que as suspensões podem ser positivas em alguns casos, mas mantê-las também é importante para rastrear esses grupos, entender o que pensam, ver o que estão dizendo”, diz Zelin.
Para Jillian York, da organização Eletronic Frontier Foundation, as empresas só deveriam remover conteúdo mediante pedido judicial, para não ficarem reféns de suas próprias interpretações. “Nossa visão é que a melhor resposta a um discurso é mais discurso, não censura.”
Sarah Kendzior aponta a necessidade de políticas mais claras nas redes sociais. “Como é importante para discursos controversos, a rede social deve ser o mais transparente possível e justificar as suspensões, uma vez que o terrorismo é um assunto de segurança pública e, portanto, de debate público”, diz.
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Leia mais:
• Entrevista: Tweets ajudam investigação
• Link no papel – 18/3/2013
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