Uma brasileira no olho do furacão
- 12 de dezembro de 2010|
- 18h27|
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Por Tatiana de Mello Dias
Sempre munida de gravador, notebook e câmera, ela já esteve com refugiados tibetanos no norte da Índia, indígenas sob massacre na Colômbia, cholas bolivianas e em favelas de Cancún. Agora, está no olho do furacão. Foi a brasileira escolhida por Julian Assange para traduzir e publicar em primeira mão documentos do WikiLeaks sobre o Brasil. Agora, a vida da jornalista Natalia Viana está, como define, uma “loucura”. Suspeita que celular e e-mails sejam monitorados. Mas conta, em entrevista por e-mail ao Link, que já tem certeza que esses documentos estão mudando a realidade dos governos mundiais.
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Natalia está publicando documentos do WikiLeaks em português. Também é a responsável por traduzi-los e produzir matérias diárias para um blog e para o wiki do projeto. Seu envolvimento com o WikiLeaks começou a ser traçado há quatro anos, quando ela foi fazer mestrado em Londres. Se envolveu com centros de jornalismo investigativo e começou a colaborar com veículos estrangeiros, como os jornais ingleses Independent e Guardian. “Participei de investigações interessantíssimas sobre corrupção transnacional, abusos de empresas multinacionais, guerra biológica”, conta. De volta ao Brasil, estreitou o contato com os jornalistas investigativos de fora. E conheceu o pessoal do WikiLeaks, “muito querido e respeitado neste meio”.
Natalia virou parceria do site recentemente, para ajudar na divulgação do Cablegate. Ela conta que, lá dentro, o trabalho é feito por diversos colaboradores voluntários que se comunicam “o tempo todo” através de mensagens seguras. É como uma agência de notícias. “Discutimos a pauta, como será o ângulo, quem vai editar e a hora. Como cada um está em um lugar, os horários são diferentes, então temos de coordenar para conseguir que o material saia na hora certa”, explica. Natália conta que não há rotina. “A coisa caminha de acordo com o que acontece no dia”, diz, exemplificando com os últimos acontecimentos desde que o WikiLeaks vazou 250 mil documentos diplomáticos dos EUA. “O site sofreu ataques hackers, foi tirado da Amazon, o dinheiro foi cortado e o Julian foi preso. Claro que tudo isso acaba prejudicando o trabalho, mas continuamos firme”.
Segundo ela, o trabalho é feito por todos, não apenas por Julian Assange. O fundador do WikiLeaks acabou virando uma figura emblemática do mundo atual – australiano, ele vivia na Suécia nos últimos meses e foi preso logo após a divulgação dos documentos, com a alegação de “crimes sexuais”.
Natalia diz que gosta muito dele. É uma pessoa, diz ela, que “nunca fala frivolidades. Nunca vai ficar horas falando sobre o tempo”. Ele não fala muito, mas fica ligado o tempo todo em quem está apoiando e “armando contra o WikiLeaks”. “Ele tem uma causa que é maravilhosa, porque questiona os limites do que é jornalismo, do que é transparência e do que deve ser privado e público, é uma compreensão única do potencial da internet. O Julian é um visionário”, diz.
Assange viveu em relativa tranquilidade mesmo com seu WikiLeaks, fundado em 2007, vazando documentos cada vez mais perturbadores. O site ganhou dois prêmios importantes, da revista Economist e da Anistia Internacional, e começou a incomodar os EUA neste ano, ao revelar abusos do exército americano no Iraque e Afeganistão.
O fundador do WikiLeaks pediu visto de residência na Suécia em agosto. Dois dias depois, foi emitido um mandado de prisão contra ele por “crimes sexuais”. A promotoria sueca recuou, até que em setembro outra promotora reabriu o caso. O pedido de visto foi negado e, em novembro, Assange recebeu outro mandado de prisão. Em 20 de novembro, o fundador do WikiLeaks entrou para a lista de procurados da Interpol; pouco depois, a justiça sueca recusou a apelação. E, no meio desse trâmite, o site soltou para o mundo os 250 mil telegramas secretos do Departamento de Estado norte-americano.
Entrevista. Natalia entrevistou Assange pouco antes de ele ser preso. Ele se entregou para a polícia de Londres na terça-feira, 7, e ficará sob custódia pelo menos até amanhã. Na entrevista, Assange negou as acusações de espionagem e crimes sexuais.
“A alegação de estupro é falsa e vai acabar se extinguindo quando os fatos reais vierem à tona”, disse. Ele ainda explicou que o que seu site faz não é espionagem. “O WikiLeaks recebe material de ‘whistle-blowers’ (pessoas que denunciam algo errado onde trabalham) e jornalistas e os entrega ao público. Nos acusar de espionagem quer dizer que teríamos de trabalhar ativamente para adquirir o material e o repassar a um estrangeiro.”
Natalia conta que, durante a entrevista, “ele estava bastante irritado” por causa das retaliações das empresas ao site. A Amazon suspendeu a hospedagem, e o PayPal cancelou a conta que o site usava para coletar fundos. “Mas ele também não é de perder a cabeça. Ele simplesmente põe a cabeça dele e de outros membros para funcionar a bolar o próximo passo”, descreve Natália.
Antes do vazamento, a jornalista conta que o pessoal de dentro do WikiLeaks sabia que algo grande estava por vir. “Os colaboradores tiveram acesso ao material antes do lançamento. Todos sabiam que era muito relevante e potencialmente bombástico”. Ela conta que Assange a procurou porque sabia que o Brasil “é uma referência para quem luta por software livre ou trabalha com cultura digital”. “O WikiLeaks me perguntou se eu tinha interesse em participar do projeto, lendo os documentos, elaborando uma estratégia de divulgação aqui no Brasil e, principalmente, estudando os documentos para fazer matérias em português.” Os documentos vazados falam sobre a gestão Lula entre 2003 e 2010. “Até agora o público pôde ver casos de lobby a favor de empresas americanas, como os EUA procuram usar a proximidade com o ministro da Defesa e o chefe das Forças Armadas, como o governo esconde que faz operações de contraterrorism, e que os EUA pretendem lucrar com a segurança nas Olimpíadas”, conta a jornalista.
Ela já imaginava que o vazamento teria uma grande repercussão, mas não tinha ideia do tamanho da reação dos EUA, que responderam com pressão sobre as empresas, bloqueio de fundos e ameaças a Assange. “Poxa, isso só mostra que eles não sabem como lidar com algo que é novo”, diz. O WikiLeaks é um opositor inédito e está fora dos enquadramentos legais normais. Por isso, Natalia acredita que os vazamentos já estão mudando a realidade. “Ficam tentando arrumar um conceito penal para poder dizer que o que o WikiLeaks – e o Julian especificamente – faz é crime. Mais que o conteúdo dos telegramas em si, o desespero dos EUA vem de não saber como lidar com esse conceito de transparência radical possibilitada pela internet”, reflete.
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Leia mais:
• Link no papel – 13/12/2010
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12/12/2010 - 22:37 Enviado por: finha
que engraçado isso! wikileaks é considerado criminoso mas os donos dos documentos criminosos não… humoristas de natal são os melhores!
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12/12/2010 - 22:38 Enviado por: Letácio Jansen
Excelente a entrevista. Estamos presenciando uma revolução na mídia.É muito bom ver uma brasileira, aparentemente tão lúcida, participando desse processo.
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12/12/2010 - 22:42 Enviado por: jose carlos
Quem se lembra da primeira Guerra contra o Iraque, no início dos anos 90 -a guerra que parecia jogo de videogame – tem uma boa noção do quanto as informações públicas são indigentes em todo o mundo. Nós conhecemos muito pouco e mal nossa realidade de hoje, apesar da enorme quantidade de informações jornalísticas produzidas todo o dia. Acontece que face à transição da Internet e à crise econômica mundial,grandes empresas jornalísticas fecharam sucursais, reduziram fortemente seus quadros jornalísticos, e muitss empresas centenárias inclusive fecharam. Há continentes inteiros sem sucursais. O WikiLeaks vem nos sacudir da pasmaceira da nossa desinformação. Claro que com isso incomoda muito as enormes máquinas de propaganda e relações públicas que sustentam a imagem de governantes e de governos em todo o mundo. Quando se mostra informações que eles guardaram a sete chaves, o pânico é geral.
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12/12/2010 - 23:40 Enviado por: Gino Seito
O secreto, cria o pensamento da impunidade, no ser humano o mais nefasto arbitrio.
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Mensagens secretas criados por funcionários que em muitas vêzes para garantir seu “status quo”, junto ao seu governo.
Essa nova forma de divulgar pela internet dos documentos dito secretos pela Wikileads coloca Nú as intrigas e as perfídias. Casos de intervenções em Países de pouco poder aquisito, mas com riquezas naturais são alvos preferênciais desses objetos secretos.
Creio que as divulgações desses arquivos secretos, fará um bem social aproximando mais a verdade. -
13/12/2010 - 02:44 Enviado por: Oliveira Jr
Aí, nesse caso, a situação se altera. Se não foi o pessoal do Wiki que hackeou o governo americano. Há crime da parte deles apenas na divulgação? O verdadeiro espião é o soldado Bradley Manning, que disse estar irritado com o exército americano porque era gay e tinha um caso mal resolvido com outro gay no exército. Isso foi a motivação dele para usar sua senha e copiar os arquivos secretos americanos. O Wikileaks não agiu com espionagem direta, apenas como divulgador de informações sigilosas. Acho que a lei internacional não contempla esses casos.
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13/12/2010 - 05:12 Enviado por: NYLSON FILHO
O que me admira é que o Estadão e o resto da mídia brasileira não protestam contra este atentado à liberdade de expressão que é a perseguição à Julian Assange. Acho uma surpresa que este jornal, que está sofrendo com um embargo da justiça com relação às atividades do filho do Sarney, fique quieto este tempo todo. A conclusão a que posso chegar é que liberdade de expressão só interessa quando afeta um veículo comercial que ganha dinheiro com a informação. Quando a restrição é com terceiros faz corpo mole.
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13/12/2010 - 08:29 Enviado por: Luiz Miranda
Como parte interessada nas questões politicas que permeiam nosso dia a dia, e atento ao que acontece pelos noticiários mas também sabendo ques estes estão direcionados a esta ou aquela corrente politica ( dos amigos do rei) creio que este site e seus colaboradores veêm corroborar com um novo tipo de resistencia aos mandos e desmandos da classe dominante da era pós guerra mundial, e certamente será um leme para uma nova direção da sociedade comum.
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13/12/2010 - 08:40 Enviado por: Leonardo
A VERDADE SEMPRE IMCOMODOU AS GRANDES POTENCIAS , AS PESSOAS TEM O DIREITO DE ENTENDER QUE NESTE MUNDO ESTAMOS MUITO LONGE DE SER UMA SOCIEDADE HONESTA E COM BOAS INTENÇÕES .
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QUE O FUTURO SEJA MELHOR , QUE NOSSOS FILHOS POSSAM VIVER EM UM MUNDO MAIS JUSTO
EXISTEM PESSOAS BOAS …
DEVEMOS APOIAR ESTAS PESSOAS .
QUE A VERDADE PREVALEÇA … -
15/12/2010 - 11:28 Enviado por: Ozama
Esse pessoal do Wikileaks merece uma taça, pela divulgaçao desses fatos e nao cadeia como estao propondo.Ah se todos fossem no mundo iguais a voces. Verdades tem de ser divulgada, doa a quem doer. Nao quer estar na midia, jornal , internet etc. nao fale abobrinhas.
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15/12/2010 - 11:33 Enviado por: Ozama
Porque o Estadao nao faz uma enquete a respeito desses que hoje fazem a historia do mundo real vir a tona. Perguntem na enquete quem é a favor dos Wikileaks, tenho certeza que 99% vai responder que SIM. A FAVOR.
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15/12/2010 - 13:03 Enviado por: Leonardo Branco
Pois é… dizem que os governos dos principais “impérios” mundiais possuem mega-computadores que rastreiam e vasculham bilhões de emails e telefonemas todos os dias em busca de informações.
Porque é que o WikiLeaks não pode simplesmente jogar na rede esses dados “sigilosos” dos “imperialistas” que acometem brutalidades e lobbys mundiais lesando milhões de pessoas ao redor do mundo?
Parabéns Assange!!! Você é o anti-herói norte-americano!!!
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31/12/2010 - 18:11 Enviado por: wagner
É galera. Essa de divulgar documentos sigilosos e muito comprometedores, irrita muita gente poderosa. E, sabe-se lá se acontece algum acidente com o Assange: “um carro pega fogo numa estrada pouco movimentada”, ou, “está desaparecido Julian Assange. “A polícia local supeita de terroeismo, a explosão de uma carta bomba numa lanchonete(em tal lugar), e isto, claro, a galera do Bin Ladem que leva a culpa. Eu quero dizer, os Kras não vacilam, mas, e os meninos do tio San? Como foi divulgado imagens no Iraque e Afeganistão… Bem, não me entendam mal, estou apenas comentado o assunto, ok?
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