Tudo de novo
- 20 de junho de 2010|
- 20h00|
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Por Tatiana de Mello Dias
Foram quatro anos de pausa. Quatro anos de composição, tragédia, recomeço e, finalmente, o Mombojó volta a lançar um novo álbum. Mas lançar um disco, aqui, é um processo virtual. Amigo do Tempo, terceiro álbum da banda, ainda não existe no meio físico. Os discos ainda estão na fábrica. Tudo bem: eles não têm pressa. “A gente achou melhor dar um tempo para as pessoas ouvirem”, diz o vocalista Felipe S.
Deu certo: em uma semana, foram 15 mil downloads. O site oficial da banda conta apenas com uma página e um link para baixar o disco. É só isso que o Mombojó quer. Depois de passar pela independência, uma gravadora e voltar quase ao princípio, eles sabem onde estão pisando.
A banda surgiu em 2001 em Recife e de cara chamou a atenção: com menos de 20 anos, faziam canções densas e bonitas, que misturavam flauta doce, cavaquinho, guitarras e eletrônicos. Nadadenovo, o primeiro disco, lançado em 2004, foi viabilizado com patrocínio público e, gravado com tempo, condensou em disco as canções que já faziam sucesso ao vivo.

O designer e ativista digital HD Mabuse, um dos pioneiros do mangue beat, foi a ponte para a banda conhecer as licenças Creative Commons – e a adesão foi imediata. “A gente achou legal a ideia de uma pessoa mexer legalmente na sua música”, conta o guitarrista Marcelo Machado.
Em 2004, vale lembrar, o Orkut ainda engatinhava – e o Mombojó, em Recife, ainda dependia de internet discada. Ainda assim, o disco se espalhou pela web – e o boca-a-boca virtual lotou shows em todo o País e culminou no contrato com a gravadora Trama. O lançamento do segundo disco, Homem-Espuma (2006), também chamou a atenção por ser liberal: todas as músicas foram liberadas na rede com uma licença Creative Commons.
No meio de 2007, porém, veio o primeiro baque: a súbita morte do flautista Rafael Torres, que sofreu um ataque cardíaco com apenas 24 anos. “Em vez de juntar forças para gravar um novo disco, tivemos que juntar forças para voltar a tocar”, diz Marcelo Machado. No início de 2008, outra baixa: Marcelo Campello, compositor e multi-instrumentista, deixou a banda. Foi um tempo difícil. O Mombojó estava no final do que Chiquinho, tecladista, chama de “ciclo do disco”: gravação, divulgação e apresentações ao vivo. O recomeço foi duro. Eles até procuraram por editais de incentivo, sem sucesso. E o tempo, ironicamente, pode ser inimigo. Os shows foram rareando. Havia gente que pensava que o Mombojó tinha acabado. “Chegou um momento em que ficou ‘velho, tem que lançar logo’”, ri o baterista Vicente.
Gravadoras? Nenhuma “aceitou a mentalidade” deles, como lembra Felipe. “A gente quer colocar o disco na internet. Aí perguntam ‘mas por que vocês não liberam uma semana depois para vender um pouco mais?’”. “É aquela velha história. Ganhar dinheiro com disco não é tão fácil”, completa Vicente.

O jeito foi fazer do próprio bolso – com amigos e dinheiro dos shows, que rarearam, mas não pararam. “Vimos como é ser independente, depois como é uma gravadora. É legal voltar e ter esse frescor, aprender com dois lados”, diz Felipe. “Hoje a gente é a nossa própria gravadora. O maior interesse de tirar o prejuízo é da gente, que botou do bolso, né?”, brinca Marcelo.
Amigo do Tempo começou a ser gravado no início de 2009. O disco, não por acaso, foi feito com mais calma. Algumas músicas surgiram em reuniões informais da banda, e a letra foi feita depois por Felipe. “É legal testar novos formatos”, diz ele. “A partir do momento em que você tem uma placa de som legal no computador de casa, não precisa chegar para o pessoal ‘ó o que eu fiz’, você manda pela internet mesmo”, diz Marcelo.
Diferente dos outros dois discos, Amigo do Tempo não está em Creative Commons. Mas não foi por opção – foi falta de tempo. “A gente já encara assim. Essa mentalidade é natural”, diz Vicente. O maior desafio, dizem eles, é tornar o público fiel. “Falam que as pessoas gostam do Mombojó porque a gente coloca as músicas na internet. Não é tão simples assim”, diz Chiquinho,
“Todo ouvinte é um divulgador em potencial”, diz Marcelo, maior responsável pela divulgação no Twitter. “Os cinco estão bem cientes do que é trabalhar com música hoje em dia. Temos a noção de que fazer o disco não é fácil. E a nossa união está muito forte”, diz Marcelo.
Eles têm ensaiado no porão da casa onde parte da banda vive no bairro da Pompeia, em São Paulo – apesar da reclamação dos vizinhos – e estão com uma agenda cheia de shows. Hoje partem para o primeiro, em Recife. É o recomeço do ciclo. Sem disco físico.
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