“Os computadores do futuro serão inspirados na dinâmica do cérebro”, diz Nicolelis
- 30 de novembro de 2009|
- 17h43|
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Por Rafael Cabral

O fim da inteligência artificial como a conhecemos, uma computação cada vez mais inspirada nos avanços da neurociência e o começo da popularização da fusão entre homens e máquinas, que promete devolver movimentos aos quadriplégicos. Essas são algumas das ideias do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, chefe do setor de neurociência da Universidade de Duke, criador do ‘Campus do Cérebro’ de Natal e um dos maiores especialistas na mente humana no mundo. Confira a entrevista completa:
A inteligência artificial morreu?
Sim. Ela não abarca a complexidade da cognição humana. Os pesquisadores acharam que ela poderia reduzir tudo em uma série de regras de produção, em uma automação. Quando eu era aluno de pós-graduação, o pessoal achava que podia resumir todos os diagnósticos dos médicos em uma série de regras e padrões. Vendiam a ideia de que, em pouquíssimo tempo, seríamos capazes de simular um ser humano por completo. Poderíamos dialogar com um computador e achar que estávamos falando com uma pessoa comum, já que o robô poderia ter todas aquelas características. Ninguém mais dá atenção para essas idéias. Eu até pensei em pesquisar a inteligência artificial, mas, logo que cheguei nos EUA, vi que a coisa já estava desmoronando. Foi uma moda.
O que computador pode aprender com o cérebro?
Ultimamente, estamos investigando o sistema nervoso como uma forma distribuída, e com isso estamos aprendendo o que acontece quando colocamos milhões ou bilhões de elementos trabalhando juntos. É uma ciência completamente nova. Os computadores têm muito a aprender com isso. Acho que daqui pra frente vai haver um novo ramo da ciência da computação que vai se basear nos mecanismos do cérebro. A intenção é fazer com que os computadores façam justamente o que a mente faz: generalizar e entender o contexto. Eu estou terminando um livro que fala da mente como filtro, como simuladora da realidade. Não existem computadores que pensem dessa maneira, que tenham uma visão crítica e ativa dos fatos. Acho que é nesse sentido que eles têm que evoluir: seguindo os passos do cérebro.
O homem vai se adaptar facilmente à interface cérebro-máquina?
Sim. O exemplo que eu dou é o do tenista com a raquete. Com o uso freqüente, o cérebro acaba assimilando aquela ferramenta como uma parte do corpo, como uma extensão. Com a interface cérebro-máquina, isso já está ocorrendo. Alguns experimentos nossos dizem que o corpo pode se acostumar de forma mais rápida do que nesse exemplo que eu dou, já que a ligação entre a mente e o robô é direta, não passa por intermediários.
Já faz quase 10 anos que a sua equipe conseguiu conectar o cérebro de um macaco a um computador e fazer com que o primeiro controlasse o segundo, apenas com pensamentos. Quanto falta para que esse tipo de pesquisa chegue aos humanos? Quando isso será parte do nosso cotidiano?
Já faz. Nós publicamos um trabalho recentemente mostrando a devolução do sinal de um computador diretamente para o cérebro humano. Isso mostra que essa assimilação é muito rápida, que a mente aprende rapidamente a dar um significado para esses sinais que, de início, não significam nada. Além disso, estamos começando a dar forma ao projeto Walk Again, que foca nessa interação, mas com um aspecto mais clínico. Por isso, em vez de chips, estou focando minhas pesquisas em processos não-invasivos. 
Como funciona, exatamente, esse chip cerebral que foi implantado em macacos e fez com que um deles, da Califórnia, pudesse controlar um robô no Japão, apenas com as freqüências cerebrais?
O chip é um sistema de condicionamento dos sinais neurais, que amplifica, filtra e redireciona essas freqüências. Com o uso de um dispositivo wireless, você pode transmitir esses sinais para outro dispositivo, outro corpo. Se fizermos com que um chip capte as frequências do cérebro e as transmita para um membro artificial rapidamente, o cérebro acaba reconhecendo aquela prótese como parte do corpo. A ideia é essa. Para os humanos, estamos desenvolvendo uma tecnologia em que esses sinais sejam captados e transmitidos sem a necessidade de fios, e que fique tudo dentro do crânio. É como um marca-passo cardíaco, que fica preso apenas no tecido (e não acoplado no órgão em si).
A sua ideia é que essa interface cérebro-máquina poderia devolver os movimentos aos quadriplégicos, criando uma espécie de exoesqueleto controlado pela mente. Você pode me explicar isso melhor e falar em que pé está o desenvolvimento dessa estrutura?
Já começamos a desenvolver esse exoesqueleto, para o projeto Walk Again, para o ano que vem. Nós estamos com colaboradores em diversas universidades e já estamos começando o processo de construção dessa estrutura, que poderia ser ligada ao corpo humano e controlada pelo cérebro. Ele é uma espécie de ‘veste robótica’ que passa pelo corpo inteiro e que tem um controle híbrido, em parte por sinais cerebrais, em parte por alguns mecanismos de reflexos robóticos.
Você disse uma vez que, em longo prazo, esses estímulos poderiam passar da mente para o corpo sem a necessidade desse aparato robótico. Como isso funcionaria?
Em longo prazo, sim. Evidentemente, o ideal seria que devolvêssemos esses sinais do cérebro para o corpo. Mas é bem complicado coordenar toda a estrutura para dar essa sustentação, conseguir controlar o balanço, a locomoção, os braços, as mãos. Estamos falando de um número muito grande de variáveis. É muito difícil controlar o espalhamento do sinal elétrico que vai para os nervos e os músculos. Por isso essa idéia do exoesqueleto, semelhante ao do besouro e que ‘carregaria’ o corpo humano, é a mais factível para nós hoje.
O que você acha dessas tentativas, como a da IBM com o projeto Blue Gene, de criar computadores que imitam o cérebro humano? Eles dizem que já conseguiram sintetizar toda a atividade cerebral de um gato, mas que ainda estão em 1% do cérebro humano. Será que já é possível sintetizar algo que nós não conhecemos inteiramente?
Estamos trazendo um supercomputador Blue Gene, o mesmo usado nesse projeto, para o Brasil. Só que, infelizmente, ele está sendo usado nos Estados Unidos em um projeto no qual eu não acredito. Acho que o pessoal da IBM perdeu a razão. Isso virou muito mais uma propaganda da marca, uma ação do marketing, do que algo sério. Ninguém sabe se você pode reduzir a atividade cerebral a um algoritmo para computadores. O pessoal do laboratório da IBM se baseia em um diagrama dos anos 80 que nem é mais aceito pelos neurocientistas como correto. Usam a neurociência do século 20, ultrapassada. Conhecemos muito pouco dos princípios que comandam a dinâmica do cérebro e, antes de conhecermos, é impossível montar algo como o que eles propõem.
O cientista Ray Kurzweil afirma que, em 35 anos, já poderemos nos conectar à internet sem a necessidade de um dispositivo externo e que teremos acesso ao cérebro uns dos outros, online. O que você acha disso? Será que é possível algo assim em tão pouco tempo (ou algum dia)?
Factível do ponto de vista teórico, até que é. O problema é que nós não temos, hoje, um método para retirar os sinais cerebrais de uma forma não-invasiva, como um gesso consegue reproduzir o formato do corpo humano. No caso dos macacos, nós temos que implantar eletrodos no cérebro. No entanto, já estamos começando a fazer alguns experimentos com animais que vão ser interessantes para essa linha de pensamento do Kurzweil. Na hora que concluirmos, eles vão permitir que essa especulação tenha um pouco mais de base. No entanto, isso ainda não é possível de ser realizado de uma maneira não-invasiva, o que vai demorar bastante.
Leia mais:
Um terno robótico para voltar a andar. Nicolelis e o projeto Walk Again
O que o cérebro ensina às máquinas
Como o computador e a web estão alterando a nossa mente
No futuro, as cabeças estarão em rede
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01/12/2009 - 09:56 Enviado por: Cláudio Gonzaga
Excelente entrevista de Nicolelis, essa grande inteligência brasileira.
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Sempre tive esta intuição a respeito da AI, as tentativas de simular a mente com o formalismo matemático, a desproporção entre a simplicidade das redes neurais artificiais e a riqueza do “tear encantado”.
Interessante, ainda, o comentário ligeiramente positivo de Nicolelis a respeito das previsões de Kurzweil, geralmente visto como pura ficção por círculos mais tradicionais. -
03/12/2009 - 16:40 Enviado por: Robson Garcia Formoso
Muito boa a entrevista, mas não consigo ter essa visão sobre a IA. O fato de haver uma interface cérebro-máquina não anula os estudos de IA. A IA vem tentando simular o processo de cognição humana e certamente estamos longe de conseguir isso, mas quem sabe daqui a umas 3 eras do gelo isso não seja possível ou não. Ninguém sabe.
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26/01/2011 - 16:35 Enviado por: Vagner
Nicolelis é um cientista único e excelente… na sua área! Porém, a IA nunca esteve tão viva e presente na nossa rotina. Da mesma forma que os aviões não voam como os pássaros, as máquinas não precisam pensar como os humanos. Durante toda história da humanidade aprendemos com a própria natureza como supera-la e não é agora que será diferente.
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