O Occupy de São Paulo
- 13 de novembro de 2011|
- 18h35
Por Murilo Roncolato
‘Link’ passa noite entre acampados do Viaduto do Chá, filial do Occupy Wall Street na cidade
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SÃO PAULO – Às sete da manhã de quinta-feira, o responsável pela limpeza da Praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, recomeçava a espetar lascas de plásticos e papéis do jardim. Alexandre se acostumou às quase 100 barracas sob o Viaduto do Chá e às dezenas de placas e faixas com os dizeres “indignação não é suficiente” ou “somos muitos, não temos medo”. Ele via a cena há 26 dias e ainda não entendia o que era tudo aquilo. “Para mim é só ‘juntação’ de lixo. Mas parece que é um protesto, uma revolução, uma tal de democracia não-sei-o-quê…”
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No dia 15 do mês passado, pessoas de lugares variados se uniram para atender a um chamado mundial convocado via internet – sendo Facebook a principal ferramenta. A edição paulistana do movimento era influenciada pelos “indignados” da Espanha e pelo movimento de Nova York, o Occupy Wall Street. Na esteira, brotaram no mundo mais de mil outros Occupy espalhados em mais de 80 países. No Brasil não foi diferente. Por aqui nasceram “filiais” no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Natal, Campinas e São Paulo.
Nos Estados Unidos, o slogan do movimento ecoou como um meme na internet: “Nós somos os 99%”. A frase faz referência à distribuição de riqueza naquele país. Em sites como 4Chan, Reddit e Tumblr há fotos de pessoas, em geral desempregadas, segurando um papel com um resumo da suas histórias de desgostos e a frase “We are the 99%” ao pé da página.
A estratégia de espalhar uma ideia por meio de meme na internet contagiou os demais movimentos. Em São Paulo, por exemplo, o grupo faz uso de diversas ferramentas de divulgação online: Facebook, Twitter, blog, Livestream e Flickr. O canal do YouTube do Acampa Sampa, como eram chamados os ocupantes de São Paulo no início, conta com mais de 50 vídeos.
A comunicação, no entanto, sofre com as dificuldades de infraestrutura tecnológica típicas do Brasil, onde, ao contrário de Nova York, smartphones são mais caros e a rede 3G não sintoniza direito. O acampamento sob o Viaduto do Chá – entre a Prefeitura e um shopping – só tem energia quando há gasolina para alimentar o pequeno gerador. Os ocupantes possuem poucos laptops e celulares e é muito raro ver algum modem 3G.
Por causa das dificuldades, a divulgação do movimento e o diálogo com outras ocupações pelo mundo depende de amigos que moram nas redondezas e têm conexão à internet – sendo chamados de “bases de apoio”. Brasileiros ligados ao grupo Anonymous costumam fazer a ponte com os acampamentos internacionais, enviando relatórios da situação na cidade.
Causa. Os princípios do grupo são claros: são contra a representação política por partidos e acreditam na autogestão, sem hierarquia ou líderes, características da organização via internet. Já as reivindicações estabelecidas em um manifesto vão desde transporte público gratuito até exigências como a saída de Ricardo Teixeira da CBF, descriminalização do aborto, e o fim da homofobia, do racismo, do machismo e do uso de armas por policiais em manifestações populares.
“Isso tem que ser visto como um laboratório da democracia real. Se você perguntar a dez pessoas por que estão aqui você vai ouvir dez respostas diferentes”, diz a acampada Priscila Oliveira.
Há um mês, o grupo foi obrigado a acampar debaixo do Viaduto do Chá por causa da chuva que caiu sobre a manifestação. Após uma semana dormindo de forma improvisada sob o olhar atento da Guarda Municipal, os manifestantes decidiram montar as barracas e foram notificados de que aquilo era proibido, pois se caracterizaria como ocupação de patrimônio público. Não ligaram e também nunca foram retirados dali. Mudaram o nome de Acampa Sampa para Ocupa Sampa e seguem atraindo novos “indignados”.
Na quarta-feira – véspera da noite que o Link acampou com os manifestantes –, o grupo discutiu se participaria da passeata dos estudantes da Universidade de São Paulo (USP). Ambas manifestações foram confundidas por terem surgido na mesma época. O Ocupa faz questão de se diferenciar, já que as ações do grupo da USP são “aparelhadas por partidos”, como dizem.
O maior desafio dos ocupantes talvez seja lidar com as pessoas que já viviam naquele espaço antes deles: os moradores de rua, alguns sob efeito de drogas.
Mas foram eles que ensinaram como suportar o frio e como ligar o gerador de energia. “Li o manual e deu certo”, diz Alberto Roberto, o “Cazuza”, morador de rua que aprendeu sozinho a mexer em equipamentos de som e, hoje, é responsável pela rádio do acampamento. “O conhecimento liberta, está na Bíblia: ‘e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’, não é?”, diz.
Devagar, o dia amanhece e o barulho dos carros e ônibus na avenida Nove de Julho já ecoa pelo Viaduto. Pedestres, rumo ao trabalho, cruzam o acampamento se desviando das barracas com olhares de curiosidade e medo. Na cozinha, a equipe de Catarina Barbosa esquenta a água do café. Ela divide seu tempo ali com seu trabalho de chef em cozinhas finas. As luzes do Viaduto se apagam e começa mais um dia de aulas públicas, assembleias, oficinas de meditação e “facebookaços”.
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• Link no papel – 14/11/2011
• Ocupando Wall Street e o resto do mundo
Cool não, relevante
- 6 de novembro de 2011|
- 18h58
Por Camilo Rocha
Maior referência de música online, o site Pitchfork só cresce sem fazer concessões ou usar truques para inflar audiência
Nos últimos dez anos, a internet virou o cenário musical de cabeça para baixo. Essa história já foi contada em verso e prosa: a indústria fonográfica se esfarelou, artistas pararam de contar com vendas de discos como modo de ganhar dinheiro e passamos a consumir grandes quantidades de música em qualquer lugar e sem pagar nada por isso.
Um subproduto desse cataclismo que se abateu sobre um dos principais setores da indústria do entretenimento foi a perda de poder da crítica musical tradicional. Se antes, jornalistas e revistas especializadas estavam sempre na vanguarda das novidades e podiam influenciar o sucesso de um artista, com a web eles passaram a competir com uma série de novos canais, como vazamentos antecipados de discos, blogs de MP3, sites independentes, comunidades, fóruns de discussão e todo tipo de mídia social.

Natural. “É difícil saber em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança cresceu de forma orgânica”
E o mais importante desses novos sites é o norte-americano Pitchfork. Fundado em Minneapolis, em 1995, por Ryan Schreiber, então um estudante do ensino médio, o site cresceu e prosperou. A tal ponto que durante a década passada, se tornou a referência número um em jornalismo musical da internet se você gosta de rock independente e música de caráter mais alternativo.
Ágil, ligado e ousado, o Pitchfork ofuscou concorrentes de outras gerações como NME, Spin e Rolling Stone (em suas versões online). Numa era de congestionamento de fontes, o Pitchfork conseguiu se impor como um filtro com credibilidade.
“Na internet, todo mundo tem espaço para falar”, disse ao Link o presidente do Pitchfork, Chris Kaskie. “Eu posso ter um blog, você pode ter um blog, o problema é apenas que há tantos lugares que fica difícil saber onde ir, como ir, em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança que nossos leitores têm na gente cresceu de maneira orgânica, eles querem saber o que falamos sobre as coisas. Eles não precisam necessariamente concordar com nossa opinião, mas o que dissemos virou parte da sua experiência musical.”
Kaskie acabara de palestrar sobre a experiência e sucesso do Pitchfork na Amsterdam Dance Event, a maior conferência mundial da música eletrônica hoje. Nada de estranho aí. Um dos segredos do sucesso do Pitchfork, em sintonia com os playlists ecléticos dos fãs de música de hoje, é sua abrangência de estilos. O site pode ter nascido no berçário do indie rock, mas ele cobre eletrônica, hip hop, country, metal, afro beat, jazz, entre muitas outras coisas. Um dos raros álbuns a levar nota dez numa crítica do site foi My Beautiful Dark Twisted Fantasy, do rapper Kanye West, de 2010.
“É impossível cobrir tudo e a tendência é cair em nichos, em ter veículos especializados para cada coisa.” Kaskie acredita em fugir da setorização. “Estamos sempre procurando maneiras de fazer tudo ser relevante, não importa se é country ou dance ou rap, o Pitchfork acha que tudo tem que ser tratado da mesma maneira, se tiver relevância ou for bom. Se for uma porcaria, quem se importa, melhor ignorar.”
Para manter essa abrangência, o site tem uma produção impressionante. A média de notas é de 15 por dia. Até o dia 3 de novembro desse ano, 1.046 resenhas de álbuns haviam sido publicadas. O esforço tem compensado. Em setembro, Kaskie conta que um novo patamar de audiência foi atingido: 4 milhões de visitantes únicos. Segundo o executivo, fruto de um conteúdo que preza sempre pela qualidade.
“Ignoramos estratégias para turbinar a audiência que não sejam criar bom conteúdo. Queremos criar uma boa galeria de fotos, mas de uma maneira que não seja invasiva. O que se costuma fazer por aí é que você clica na página e há uma nova impressão de publicidade (medida de contagem de audiência). Não é assim que operamos porque isso é muito irritante. Também não ficamos pensando ‘Como vamos fazer para ter leitores mais jovens ou mais velhos?’ O que queremos mesmo são fãs de música de todas as idades. Pode soar idealista, mas nossos números mostram que estamos acertando.”
Na palestra que deu em Amsterdã, Kaskie disse não se importar em ser cool, apenas relevante. Mas a música ainda é relevante hoje em dia, numa época em que parece que ela sai de todos lugares, sem nem ter que precisar pagar para ouvi-la? “Acho que a música continua sendo relevante como sempre foi”, explica.
“A diferença é que as pessoas a priorizam de modo diferente”, continua o executivo. “Ela está a caminho de se tornar outra vez algo que tem menos a ver com água da torneira. Isso obviamente não se aplica ao Top 40, à esfera mais pop. Mas em festivais e shows, as pessoas estão se envolvendo com música em grande escala agora, mais do que nunca. Considerando a quantidade de música que tem por aí, mais e mais pessoas querem descobrir mais música, conhecer coisas novas e ser o primeiro entre seus amigos a saber.”
Para Kaskie, os que têm criticado a falta de impacto ou relevância da música de hoje, como o crítico Simon Reynolds em seu livro Retromania, precisam sair mais de casa. E lembrar que, conforme a idade avança, ficamos mais exigentes e menos empolgados.
“Por exemplo, tem gente que começou a trabalhar para nós quando ainda estava no colegial. Nessa época, quando falavam sobre o Animal Collective, sobre a primeira vez que conheceram a banda, isso era a coisa mais significativa na história da música para eles.”
Kaskie admite que está mais difícil fazer as pessoas lerem sobre música. “Quanto mais jovem o público, mais querem só escutar o MP3 e depois passar para outra coisa. A ingestão e vômito de música vem acontecendo num ritmo tão rápido, que muita gente não vê a necessidade de ler sobre aquilo. O que é uma pena, pois é uma atitude preguiçosa e passiva.”
O Pitchfork faz questão de remar contra essa maré. “Não é o nosso jogo. Gostamos de ler sobre nossas coisas. Mesmo que seja só um MP3, queremos escrever sobre ele, mostrar contexto, explicar.”
E conclui: “Nossa essência é a crítica musical. Foi assim que construímos nossa reputação, conseguimos nosso público. Tudo que fazemos deve incluir abrangência jornalística e ter uma opinião.”
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• Link no papel – 07/11/2011
A emenda que ficou melhor que o soneto
- 30 de outubro de 2011|
- 19h45
Por Tatiana de Mello Dias
Cliente de banco usa verso para pedir informação no Facebook; banco responde seguindo a rima; o ‘Link’ conta a história do site de acordo com a métrica e leitores comentam o ocorrido no ritmo lírico de estrofes metrificadas
Cuidar de mídias sociais,
essa é sua função.
Tábata Cury é seu nome.
São cinco anos de dedicação.
Ela trabalha no Bradesco,
monitora as redes sociais.
E, para perguntas de clientes,
sempre dava respostas banais.
Eis que surgiu Mauro Júnior,
cliente assaz atrevido,
que decidiu investir em rimas
para falar de um cartão perdido.
O Facebook foi a plataforma
de vinte e quatro versos rimados.
Quando a equipe do Bradesco leu,
todos ficaram entusiasmados.
Tábata pensou na resposta-padrão.
Ela nunca havia escrito um poema…
Tinha de dizer o arroz-com-feijão…
E ficou às voltas com esse dilema.
O importante, com urgência,
era explicar com primazia:
O cliente deveria ir à agência
e esperar por sete dias.
Mas o padrão não satisfazia
e Tábata não foi burocrata:
contaminada pela poesia,
quis mudar a resposta chata.
Decidiu também ser poeta.
“Demorou cinco minutos, acho.”
E definiu logo uma meta:
“Rima em cima, rima embaixo”.
A equipe leu e achou graça.
Não teve um que não riu.
Publicaram a resposta rimada,
gerando um surto de poesia sutil.
Veja você que bela inversão,
rara, imprevisível e incomum:
um banco, preste bem atenção,
fazendo versos sem lucro algum.
Sem lucro de dinheiro
– é sempre bom frisar –
já que o verso matreiro
fez a fama do banco bombar.
A página no Feice ficou popular.
Mais três mil pessoas a curtiram.
É um número a se considerar,
já que aos então 11 mil se uniram.
Dali para frente, toda reclamação
ganhou forma de poesia.
Os clientes, sem perder a razão,
preferiram o lirismo à azia.
No site, o Link narrou a história
e seguiu os versos bancários.
E o lirismo confirmou sua vitória
em dezenas de comentários.
LEITORES DO LINK
“Mas que pedido criativo
Educado e nada hostil
Com o Itaú eu imagino
Que a rima não seria gentil”
Marcelo
“Hoje acordei mais cedo
Aproveitar o belo dia
Eis que sou surpreendido
Com essa historinha, que alegria
Feliz o que faz da vida
Não uma dura lida
A conta em prosa ou versos
Faz dela poesia”
Fabricio Cunha
“Então, eu até que gostei
A idéia foi bem utilizada
Mesmo sem ter o que falar
Consegui essa rima do nada”
Daniel Silva
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• ‘Link’ no papel – 31/10/2011
‘I’m fucking awesome’
- 23 de outubro de 2011|
- 18h45
Por Alexandre Matias
A criadora do principal evento de cultura da internet do Brasil comemora os cinco anos do YouPix levando o festival para os Estados Unidos nesta segunda
“Um safári na cultura de internet brasileira e nos memes do Brasil.” Assim é o subtítulo do primeiro YouPix realizado fora de São Paulo. O festival, que já pode ser considerado o maior evento sobre a cultura de internet do Brasil, desembarca hoje em São Francisco, nos EUA, para apresentar a cultura digital do País ao público californiano. E quem lidera o tal safári é a organizadora e curadora do festival, Bia Granja.
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“A web brasileira é uma das mais influentes e ativas no mundo”, explica Bia. “Como nós somos um evento que discute e celebra essa web, achamos que o YouPix tem um potencial imenso para se tornar algo mundial também. Somos o terceiro maior mercado de computadores no mundo, o que mais cresce no LinkedIn e no Facebook, estamos entre os três maiores países que usam o Google+ e temos a maior penetração no Twitter. Esse crescimento nas redes sociais e a inclusão digital têm feito com que o Brasil tenha se tornado cada vez mais influente na rede. E com a crise absurda rolando na Europa e nos EUA, todos os olhos estão focados no Brasil.”
Bia criou o YouPix há cinco anos, em São Paulo, fazendo pequenos debates na antiga Casa Gafanhoto, em Pinheiros, e aos poucos foi vendo o festival crescer e primeiro migrar para o Museu da Imagem do Som, nos Jardins, para, finalmente, chegar ao Porão das Artes, no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, onde realizou suas duas edições em 2011.
Nesses cinco anos, o festival conseguiu se livrar do ranço do nerd do século 20 – aquele antissocial, imerso em códigos de programação e aparelhos – para consagrar um novo tipo de nerd. O público-alvo do YouPix também passa o dia inteiro na frente do computador – atualizando o próprio blog ou frequentando redes sociais –, mas ao mesmo tempo sai à noite, tem amigos de carne e osso, fala besteira e dá vexame. E assim tornou-se uma verdadeira meca para a geração web 2.0 brasileira.
O YouPix também consagrou novos ídolos para este público em formação. Conseguiu reunir blogueiros célebres para serem curadores de áreas específicas (como Edney “Interney” Souza, Rosana Herrman e os caras do Jovem Nerd), facilitou a concretização da carreira de humoristas que usaram o YouTube para divulgar seus trabalhos (como Rafinha Bastos e PC Siqueira) e também trouxe para o Brasil protagonistas de alguns dos principais memes da história da internet, como o hippie do vídeo Double Rainbow, o garoto do vídeo David After Dentist, o criador do agregador de blogs de MP3 Hype Machine Anthony Volodkin e o criador do fórum 4chan, Chistopher “Moot” Poole.
Ela explica como será o evento em São Francisco, que acontecerá na Barrel House. “Eu vou abrir fazendo um passeio pelos memes e virais mais significativos e, a partir deles, tentar explicar algumas características do povo brasileiro em si. Depois de mim, a Rosana Hermann vai fazer uma apresentação mais profunda sobre o modus operandi do brasileiro na internet – o que nos motiva, o que nos define, etc. Depois teremos uma sessão meio maluca, coordenada pelo Jamie Wilkinson, que é um dos criadores do site Know Your Meme. E depois disso, vamos fechar a noite tomando Facebook Shots, um drink que fizemos especialmente para o evento, usando cachaça, e comeremos paçoquinha.”
O mais difícil de explicar a cultura da internet brasileira para estrangeiros é, segundo ela, a barreira da língua. “Vou mostrar, por exemplo, a Sonia do IuTubiu – que é intuitivo e não precisa ser traduzido –, o Lucas Fama Pop, alguns vlogueiros, a Stephany do Cross Fox, Jeremias Muito Louco e o funk ‘Sou Foda’, que traduzimos para o inglês (leia a versão abaixo da fotografia)”, explica.
Para ela, “Sou Foda”, hit do Bonde dos Avassaladores, que ela trouxe para a edição do primeiro semestre do evento em São Paulo, é o grande meme do ano. Mas faz uma ressalva e diz que o principal meme de 2011, na verdade, foi a consolidação deste termo na internet brasileira, substituindo descrições anteriores, como “modinha de internet” ou “vídeo viral”. E mostra a acentuada curva das buscas em relação ao termo em português, que praticamente inexistia até 2009, torna-se crescente em 2010 para, finalmente, subir de forma bem acentuada este ano.
Ela reforça que o humor é só a isca da transformação que está acontecendo. “Acho que a coisa mais legal deste mundo memético é que ele é a materialização dos conceito de democracia, colaboração e liberdade de expressão trazidos pela web. Sem participação das pessoas, ele não aconteceria. Isso é o melhor: o poder de construir uma nova cultura.”
NA ONU
Não é só o YouPix que representa a web brasileira nos EUA. Na sexta-feira, o governo brasileiro apresentou a experiência de elaboração do Marco Civil da Internet em um painel na 66ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. “Entre os segmentos que têm discutido liberdade de expressão e direitos na internet, o Marco Civil tem tido boa repercussão”, explica Guilherme Almeida, assessor da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça. O convite partiu da Missão da Suécia na ONU e da Open Society Foundation, que começaram a prestar atenção na legislação brasileira com a tradução do texto para o inglês.
“Há uma discussão sobre incluir o direito de acesso como um elemento do direito à liberdade de expressão. E no mundo todo faltam exemplos destas práticas. Ainda mais quando países do dito ‘primeiro mundo’ frequentemente têm iniciativas para cercear a divulgação de conteúdos”, explica. Ele falou no painel Internet Access for All? (Acesso à Internet para todos?) tanto sobre o processo de elaboração da lei (feita em consulta pública em forma de blog) quanto em relação aos resultados (um projeto de lei que regula direitos como liberdade, acesso e neutralidade). “Nos colocamos à disposição para cooperar. Há um consenso de que há caminhos necessários de regulação e faltam exemplos de boas práticas”, disse.
O texto foi discutido em um site construído com a plataforma WordPress. Os participantes apresentaram pontos e discutiram os temas horizontalmente. Os debates serviram como base para a elaboração do anteprojeto de lei, feito pelo próprio Ministério da Justiça. O texto ficou na Presidência da República até meados deste ano, quando foi apresentado à Câmara, onde agora está parado./ TATIANA DE MELLO DIAS
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• ‘Link’ no papel – 24/10/2011
A menina dos olhos
- 9 de outubro de 2011|
- 20h00
Por Tatiana de Mello Dias
Ela faz cálculos complicados em supercomputadores para desvendar as propriedades do grafeno, material considerado o futuro da indústria eletrônica e que deverá ser aplicado em chips menores e mais rápidos, telas touchscreen e internet ultrarrápida
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Ana Luiza Pereira estava terminando seu doutorado em nanociências quando ouviu falar pela primeira vez do grafeno. Era 2004. O material havia acabado de ser descoberto e casava perfeitamente com o que ela pesquisava: sistemas de base de elétrons em duas dimensões. “Foi uma alegria imensa”, descreve. E assim ela se debruçou sobre o material que ainda era desconhecido, mas que hoje é a menina dos olhos da indústria eletrônica.
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Embora as pesquisas estejam ainda no início, já se sabe que o grafeno tem potencial para ser o responsável pelo desenvolvimento da eletrônica daqui para a frente. Ele é visto como provável substituto do silício, e pode ajudar no desenvolvimento de itens que vão de uma tela sensível ao toque melhorada a uma rede de internet ultrarrápida.
O grafeno, explica Ana Luiza, “tem propriedades químicas bastante diferentes das de outros materiais já conhecidos”. Em primeiro lugar, ele é um excelente condutor de eletricidade. “Ele conduz com uma velocidade muito alta, tem uma mobilidade muito elevada. É um excelente condutor tanto de eletricidade quanto de calor, então é um ótimo material para ser usado em dispositivos eletrônicos.”
Além disso, é o material mais impermeável que existe e é extremamente forte – 100 vezes mais do que o aço. O prêmio Nobel de física de 2010 foi para Andre Geim e Konstantin Novoselov, pesquisadores que estudam as propriedades do grafeno.
Colmeia de uma linha. Visto de perto, o grafeno nada mais é do que uma estrutura plana de átomos de carbono organizados em forma de colmeia. Cada nó é um átomo de grafeno. Só que a simplicidade em sua estrutura esconde um material com alto potencial para a indústria.
Sua estrutura é praticamente bidimensional – tem apenas a altura de um átomo. Por isso, é transparente, flexível e pode ser aplicado em chips minúsculos. Muito menores do que o silício. O material que até hoje foi o responsável pela criação de chips menores e mais potentes está chegando ao limite do processo de miniaturização.
Dentro da Lei de Moore (que prevê o desenvolvimento de hardwares), a capacidade dos chips dobra a cada dois anos pelo mesmo custo. Se a lei se mantiver (e está sendo cumprida desde a década de 60, quando o então presidente da Intel, Gordon Moore, criou o modelo), em quatro ou cinco anos o silício já não vai mais dar conta da capacidade dos processadores a um tamanho e custo reduzido.
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A solução pode ser o grafeno.
“Já se falava muito desse limite e dessa necessidade de substituição, por não se conseguir reduzir mais do tamanho do silício. Daqui a poucos anos se chegaria ao limite em que não se conseguiria mais reduzir o tamanho dos componentes eletrônicos. E com o grafeno seria possível começar uma nova escala, bem menor”, diz Ana Luiza.
O que está mais evoluído na parte de aplicação, porém, é o uso do grafeno em telas touchscreen. “Ele é maleável, resistente, não rompe as ligações”, explica a pesquisadora. Por isso, permite criar telas sensíveis ao toque com a espessura de uma folha de papel.
A aplicação mais recente descoberta é para a criação de uma internet bem mais veloz. Pensava-se que o grafeno não era bom para isso porque o material, praticamente transparente, não absorve luz. Mas os mesmos pesquisadores que ganharam o Nobel descobriram que misturar o grafeno com nanopartículas metálicas faz que ele se torne um excelente condutor de luz. “Ele ficou mais rápido do que a fibra ótica que é usada hoje em dia. Já se fala em internet ultrarrápida movida a grafeno”, afirma Ana Luiza.
Equipes de várias empresas já estão debruçadas no estudo do material. A IBM apresentou, no ano passado, um transistor feito de grafeno. Um grupo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) já havia feito um chip do tipo em 2009, mas a IBM ainda bateu o recorde de velocidade – o chip operou a 100 gigahertz. Estima-se que um processador feito de grafeno possa chegar à velocidade de até 500 GHz. Um chip de silício só iria até 5 GHz.
Ainda não dá para especular, porém, quando o grafeno estará presente em aparelhos comuns. Ana Luiza diz que é possível que a nova geração de eletrônicos já venha baseada no grafeno. “Não dá para dizer que no ano que vem estarão nas lojas, mas sim em menos de 50 anos.”
A pesquisadora de 35 anos é uma das poucas mulheres na área. “Eu gostaria de dizer que, enquanto mulher, eu gosto muito do que eu faço, eu acho muito interessante.”
Ela diz não entender por que, historicamente, as mulheres deixam de lado as ciências exatas.
“Dentro da física há tantas áreas, tem gente que gosta de laboratório, outros gostam de simulações em computadores, outros teoria mesmo, na caneta e no papel. Há tantos experimentos interessantes, em contato com as fronteiras do conhecimento.”
Ana faz simulações computacionais sobre características do grafeno – ela estuda seus defeitos (quando, por exemplo, a superfície tem alguma irregularidade ou falta um átomo na colmeia) e como isso reflete nas propriedades do material.
Ela está estudando, por exemplo, como o grafeno reage a essas imperfeições – ele continua um excelente condutor quando tem um átomo faltando ou está exposto a um campo magnético?
A investigação da pesquisadora, professora da Unicamp, deu a ela o prêmio de Mulheres na Ciência. “Nada é perfeito. Sempre há algum tipo de desordem. Dá para entender melhor algumas propriedades quando você considera as imperfeições”, ensina, numa máxima que vale para além do mundo nanométrico que ela estuda.
POTENCIAL
Do grafite | O grafeno foi descrito pela primeira vez em 1987 – foi o nome dado para uma das camadas do grafite. Foi só em 2004, porém, que os cientistas conseguiram separar e isolar o material. Andre Geim e Kostya Novoselov, da Universidade de Manchester, isolaram uma finíssima camada de grafeno (que tem a espessura um átomo) e a isolaram em uma base de silício, em um processo chamado de “técnica de fita adesiva”. Foram eles também que, ao adicionar nanoestruturas metálicas ao grafeno, notaram que cria-se um excelente condutor de luz – daí veio a possível aplicação em redes ultrarrápidas.
Nobel | Os dois pesquisadores receberam o prêmio Nobel de Física em 2010 por suas pesquisas.
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• Link no papel – 10/10/2011
Inacrebelievable
- 2 de outubro de 2011|
- 18h30
Por Filipe Serrano
Zé Graça, dono do 13º canal mais popular do YouTube no Brasil, fala ao ‘Link’ sob a condição de que sua identidade seja mantida em segredo
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O que começou em 2006 com uma vontade de fazer vídeos para comentar jogos de videogame virou um dos canais mais populares do YouTube – com mais de 37 milhões de visualizações. São centenas de filmes “míticos” que divertem os momentos “enfadonhos” da internet brasileira – dois dos bordões do Zé Graça, como é conhecido o personagem de voz esganiçada que narra vídeos do YouTube.
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A comunidade oficial do Orkut – bastante ativa – reúne mais de 89 mil participantes. O canal “zegraca3” é o décimo terceiro perfil do YouTube brasileiro com maior número de inscritos. São mais de 146 mil usuários que recebem um aviso a cada novo vídeo publicado.
E há muitos filmes. Desde que foi criado em março, o canal “zegraca3” fez o upload de mais de 330 vídeos. Mas o total já produzido é maior porque os outros dois canais anteriores (“zegraca” e “zegraca1”) abrigavam cerca de outros 300 vídeos e foram banidos do YouTube depois de violar os termos do site mais de uma vez, embora as filmagens originais continuem hospedadas sem a narração do Zé Graça.
Zé ninguém. O criador nunca quis sair do anonimato para manter parte da mística sobre o seu personagem de expressões marcantes, além de voz e risadas hilárias criadas por um efeito de edição de áudio. Agora, com planos de transformar o trabalho em algo menos caseiro e mais profissional, ele e sua equipe decidiram se expor um pouco mais.
Depois de troca de e-mails pelo endereço eletrônico disponível em seu site oficial, aceitaram se encontrar com o Link em um bar de São Paulo no mês passado. Mas só dariam a entrevista desde que a identidade não fosse revelada, ainda que pelo menos uma pessoa da equipe faça parte da comunidade oficial do Orkut usando um perfil pessoal com foto e nome reais.
Tanto segredo já provocou boatos na rede de que os vídeos do Zé Graça são feitos por comediantes famosos, como Fábio Rabin (stand up e VJ), Marcos Chiesa (o Bola, do Pânico) e até Marcos Mion – que já fazia no passado narrações engraçadas de videoclipes na MTV.
Mas nenhum boato pegou tanto quanto o de que Zé Graça é Rafinha Bastos, depois que o canal publicou uma entrevista com o apresentador que já tem mais de 500 mil visualizações. Há vídeos no YouTube que chegam a reverter o efeito de áudio para descobrir a voz original do Zé Graça e compará-la à voz do comediante de stand up que também faz sucesso na internet.
Rafinha disse ter se encontrado com Zé Graça pessoalmente duas vezes depois de se interessar em ajudar o verdadeiro dono do canal a recuperar a audiência quando a segunda conta foi banida do YouTube. “Mas pelo amor de Deus, eu não sou o Rafinha Bastos”, disse Zé Graça, que, claramente, não tem qualquer semelhança física, nem de voz, com o apresentador do CQC.
“Ninguém quer acreditar que eu não sou um cara famoso”, disse, apesar da fama conquistada na web com vídeos como “Mario na fase do cogumelo do sol tunado” (origem do bordão “mostarda, ketchup, maionese” ao fim dos vídeos), “Trenzinho carreta bizarro”, “Fuga alucinada”, “Imitações enfadonhas” e dezenas de outros vídeos com centenas de milhares de visualizações.
Nos comentários das filmagens e nas mensagens trocadas no fórum da comunidade do Orkut, é possível perceber a influência de Zé Graça sobre seus fãs, que têm o apelido de Zé Graças Masters, para homens, e Zégracetes, para mulheres.
‘Quiéisso’. Os fãs retribuem chamando Zé de “guru do Himalaia” – um de seus apelidos. Gostam de contar que deram risada e reproduzem as expressões engraçadas e sempre gritadas, como “inacrebelievable”, “mííííítico”, “tunaado”, “bisonho”, “quiiié isso, jovem?!”, além de outras ainda mais elaboradas como “jóquei de jiboia”, “backfilp mortal maldito”, “infinitazarrézimo”, “triplo carpado twist”.
São tantas palavras há até o dicionário ‘zé graçal’ em seu site, que explica o significado delas. Segundo o criador – uma pessoa específica da equipe (ele pediu para não dizer em quantos são) –, as expressões vêm das reações na hora de jogar games com amigos e são usadas nos vídeos.
O primeiro, “Os 10 piores jogos de luta de todos os tempos” publicado em 2008, já tinha o formato. “Aí, Luke Skywalker com seu sabre pipa-do-vovô-não-sobe-mais” é uma das frases do vídeo, que foi removido por violar direitos autorais. “Hoje, ele está na conta de outra pessoa, não na minha, porque senão eu tomo penalidade”, explica.
E penalidade demais significa risco de perder a conta, como as outras duas que foram apagadas. “Hoje, a gente recebe a primeira penalidade e já arranca”, diz. Zé Graça conta que entrou em contato com o Google por e-mail e até foi ao escritório da empresa responsável pelo YouTube, mas não conseguiu recuperar os vídeos perdidos.
“O que a gente não entende é que o Ray William Johnson, que é o cara mais famoso do YouTube, com maior número de inscritos, é parceiro do YouTube. Ele faz exatamente o que o Zé Graça faz. Comentar vídeos virais e famosos”, pelézou, referindo-se a si mesmo na terceira pessoa.
Os anúncios veiculados nos vídeos “só servem para pagar a conta da banda larga do site”, disse. Por isso, Zé Graça vive agora o dilema comum a muitos outros quando ganham um nome notório na internet: como ganhar dinheiro com isso. E, ao mesmo tempo, manter o anonimato.
Apesar da característica amadora dos vídeos, ele diz ter vontade de depender menos da audiência do YouTube e transformar o site em um portal de comédia. “O site do Zé Graça faria muito sucesso se fosse tipo um Charges.com”, disse, se referindo ao site de animações de Maurício Ricardo.
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• Link no papel – 03/10/2011
O infiltrado
- 25 de setembro de 2011|
- 19h02
Por Tatiana de Mello Dias
Brasileiro que mora na Alemanha desde os anos 90 se uniu aos piratas por causa das bandeiras de arco-íris e foi um dos responsáveis pela campanha política que garantiu ao partido 15 cadeiras no Parlamento na última eleição estadual em Berlim
Foi durante um protesto nas ruas de Berlim, no ano passado, que o brasileiro Fabrício do Canto descobriu o Partido Pirata. Ex-executivo da área de marketing, morando na Alemanha desde os anos 90, ele estava no último ano de sua década “nômade sabática” quando a política entrou em sua vida. “Cheguei lá, tinha um monte de bandeiras de arco-íris, e eu me senti em casa vendo aquele povo. Me uni a eles”, contou ele. Um ano depois, Canto se tornaria um dos responsáveis pela maior vitória da história do Partido Pirata no mundo.
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Os piratas abocanharam 9% dos votos para as eleições estaduais de Berlim – isso deu a eles 15 cadeiras no Parlamento. Uma vitória que nem eles, nem os políticos tradicionais, imaginariam. Foi o quarto partido mais votado – atrás apenas do Partido Social Democrata, União Democrata-Cristã (CDU) – da chanceler Angela Merkel – Partido Verde e A Esquerda. “A principal força do Partido Pirata nessas eleições foi a transparência, além da insatisfação com a política que está sendo feita aqui”, explica Canto.
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O voto na Alemanha é facultativo. Por isso, a insatisfação com a política provocava uma apatia que se refletia no alto nível de abstenção nas urnas. “As pessoas estavam tão descontentes que mais da metade não ia votar. E o que aconteceu foi que as pessoas vieram votar porque viram uma alternativa diferente.”
O brasileiro naturalizado alemão foi responsável pela campanha política. Foi tudo baseado na web e em cartazes – todos com fotos dos membros do Partido (Fabrício entre eles) e frases como “direito a voto para todos” e “por que eu estou na parede se você não vai votar?”. Foram impressos 12 mil cartazes, e os próprios membros do partido se encarregaram de distribuí-los. “A principal ferramenta de campanha na Alemanha é o cartaz”, diz Canto. Os piratas passaram a semana passada recolhendo o que espalharam pela cidade.
Nestas eleições, o Partido Pirata alemão foi além das questões tradicionalmente abordadas – flexibilização do copyright, direito ao anonimato, liberdade na rede – e incluiu em sua plataforma propostas sociais e de inclusão. Como passagens de ônibus gratuitas e direito universal ao voto. “As pessoas acham que os piratas são pela liberação dos copyrights. Não é assim. Queremos uma nova regulamentação adequada ao nosso tempo. É uma nova forma de se fazer, como foi com o software livre”, explica o brasileiro.
A mudança começa pela simples presença dos piratas no Parlamento – inicialmente vista com descrença e estranheza pela sociedade. Mas a visão pode mudar. “Sempre há partidos novos entrando. Eles quase sempre são ignorados. Nas pesquisas, os piratas sempre ficavam naquela coluna ‘outros’, nunca tiveram uma fatia no bolo da pesquisa. Na primeira vez que passamos os 5% dos votos, ganhamos uma fatia. Mas a cor ainda era ‘cinza’, a mesma dos outros. Agora, em todos os lugares, já há a cor laranja, a cor do partido. Eles estão no Parlamento. Não podem mais ser ignorados”, diz Canto. As eleições em Berlim foram a segunda grande vitória para o partido internacionalmente. Em 2009, o Partido Pirata da Suécia (primeiro do mundo) conseguiu uma cadeira no Parlamento com 7% dos votos.
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Os piratas de Berlim, diz ele, “ultrapassam pela esquerda”. Embora o partido não se alinhe fielmente a nenhuma ideologia política, essa é a maneira como os berlinenses são vistos – diferente, por exemplo, dos piratas do sul da Alemanha. O que o Partido propõe é um tipo novo de fazer política, explica Canto, que os cientistas sociais chamam de política baseada nos fatos: centrada da opinião direta e na participação.
“É outra forma de dialogar, interessada nos resultados. Vejo os partidos brigando pelo poder, como se fosse uma disputa de posições no mercado político, em vez de discutir como trabalhar com o povo. E nessa questão de transparência e participação eu acho que todo mundo tem a ganhar com o movimento pirata.”
As propostas do Partido Pirata lá foram construídas com um software livre chamado Liquid Feedback, que possibilita discussões e votações em tópicos. A plataforma do partido já foi discutida internamente com essa ferramenta. E, agora, a proposta é usar o software para fazer as discussões com a própria população. O software foi criado na Alemanha, mas já é utilizado por outros partidos piratas do mundo. “É outra forma de lidar com a democracia”, diz o brasileiro.
“O que o mundo não entende é que são pessoas que têm diversão na política, mas é sério. E agora o pessoal que está entrando é qualificado. Estão mostrando que não é brincadeira. E os políticos não estão sabendo lidar”, diz.
Nômade. Fabrício do Canto vive na Alemanha desde os anos 90. Ex-membro de banda punk, ex-executivo de multinacional e recém-saído de seu período sabático, agora ele cogita trabalhar para o Partido Pirata internacional e não descarta vir fazer política no Brasil. “Os piratas têm essa questão da anonimidade, acesso à informação e competência em classificar e avaliar a informação. Acho que isso seria bem interessante para o Brasil.”
Aqui, porém, ainda há muito o que se avançar. Ele reparou que os brasileiros ainda veem hackers como marginais – na Alemanha, conta, existem até cursos de hacktivismo. “É apenas uma escola para buscar informação. Se o uso é bom ou ruim, essa é outra questão. É ter consciência, e capacitar os jovens para a tecnologia é interessante”, diz.
A entrevista é interrompida pela filha dele, que chega pedindo um beijo e um abraço. Filha de mãe indiana com pai brasileiro, ambos com dupla nacionalidade, a garota tem quatro passaportes. E essa, para Fabrício, é uma “outra forma de viver o planeta”. Como a internet: sem fronteiras geopolíticas. “O Partido Pirata está em 37 países, está se articulando, e tem uma capacidade de gerar informação. Essa eleição vai se refletir na Europa e no mundo”, aposta Canto.
O ministro e os hackers
- 18 de setembro de 2011|
- 19h20
Por Tatiana de Mello Dias
Ministro, que foi um dos articuladores da Lei Azeredo, agora defende a cultura digital, anuncia lançamento de plataforma aberta com dados do ministério e promete diminuir o déficit de engenheiros no Brasil
Aloizio Mercadante quer mostrar que não caiu de paraquedas no ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O ex-senador foi articulador para a aprovação da polêmica Lei Azeredo em 2008, para a qual propôs dez emendas. Agora corre para fazer valer o cargo. Participa de encontro com hackers, defende a cultura open source, enfatiza que foi o responsável por trazer a fábrica da Apple para o Brasil e promete aumentar o número de engenheiros no País, que tem um déficit histórico na área. Em entrevista exclusiva ao Link, ele diz querer que seu ministério seja um laboratório de transparência para o governo. Mas foge de assuntos espinhosos como a reforma da lei de direitos autorais ao dizer que estes “não lhe competem” – embora seu ministério participe da formulação da nova versão proposta pelo Ministério da Cultura.
Qual sua familiaridade com a cultura hacker? Como aconteceu esta aproximação?
Fui ao Fórum Internacional do Software Livre. E, agora, com os responsáveis pela plataforma Lattes estamos desenvolvendo o projeto Aquarius. A ideia é informatizar todo o ministério e criar uma concepção de governança compartilhada. Estamos trabalhando com o Tribunal de Contas da União, para tornar disponíveis todos os indicadores de gestão e permitir a análise de dados financeiros e administrativos. Com os dados abertos, esperamos não só receber críticas e novas reflexões mas incorporá-las, para aumentar a eficiência do ministério e mudar o padrão de governança.
Há resistência à abertura?
O que estamos fazendo é um risco, mas vale a pena. É um risco que aponta para a transparência e a eficiência do gasto público.
O senhor vê seu ministério como herdeiro das políticas de cultura digital, iniciadas na gestão passada no Ministério da Cultura?
Tenho um respeito imenso (pela cultura digital) porque acho que a internet só é o que é por causa da cultura hacker. É preciso reconhecer que parte do desenvolvimento da tecnologia não está nas empresas e universidades e sim nessa rede colaborativa. O Estado às vezes se sente ameaçado pela luta por liberdade. Um ministério que é da tecnologia tem de estar aberto ao novo, ao diálogo, e tem de buscar incorporar essa reflexão. Outros ministérios têm outra inserção, que respeito. Mas queremos o diálogo. Mesmo porque não temos programas para apoiar essas iniciativas. Tudo parece que só pode ser aprovado se for uma empresa ou instituição de pesquisa pública. Precisamos criar novas formas de participação.
Há três anos o senhor propôs emendas para a Lei Azeredo*. O que acha hoje do projeto de lei?
Minha intervenção à época foi no sentido de flexibilizar, mediar, assegurar a liberdade. Não de criminalizar e restringir. E mantenho que crimes que existem na sociedade existem na internet. Achei fundamental que se tipificasse o crime de pedofilia. Assim como existe uma série de outros atos ilícitos que acontecem na rede. Mas não podemos confundir crime com uma juventude que tem uma cultura libertária, que deve ser valorizada. Há quem, com o pretexto do crime, tente criminalizar a essência da internet, que é a liberdade.
O senhor é favorável a uma mudança na nossa legislação de direitos autorais?
Não sou mais parlamentar, essa é uma agenda que não me compete. Mas no meu ministério vamos tratar todas as informações como direito público, absolutamente abertas, para que qualquer um possa usá-las da forma que achar conveniente. O cidadão já paga imposto, e o que produzimos de informação é direito da sociedade.
O que muda com a inserção do termo “Inovação” no nome do ministério?
Pela primeira vez o governo elegeu ciência, tecnologia e desenvolvimento como eixo estruturante no desenvolvimento. É a terceira macrometa do Brasil. Acho que nós elegemos um novo patamar para esse desafio: usar a condição de grande produtor e exportador de commodities para definir a nova economia brasileira.
A formação de recursos humanos é um desafio?
Você não faz ciência e tecnologia sem recursos humanos. Estamos expandindo e desconcentrando o sistema de pós-graduação. Em 2002, apenas 1,4% dos sistemas de pós estava no Nordeste. Hoje são 10%. E lançamos o Ciência sem Fronteiras, com 75 mil bolsas de estudo. São R$ 3,2 bilhões de orçamento. Colocaremos os melhores estudantes do País nas 50 melhores universidades do mundo nas áreas estratégicas: ciências básicas, engenharia e ciências tecnológicas.
No MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA) tínhamos 143 doutorandos. Agora teremos 200. Na Fundação Fraunhofer na Alemanha teremos 400 vagas de engenharia. Há um déficit em engenharia. Na Coreia há um formando em engenharia para cada quatro alunos de graduação. Aqui, há um em cada 50. As bolsas de pós-graduação para engenharia cresceram apenas 1% na última década, enquanto para humanidades cresceu 70%. Vamos lançar um programa específico para isso.
Como incentivar a pesquisa dentro das empresas?
Há um projeto piloto da Empresa Brasileira de Pesquisa Industrial (Embrapi). É uma coordenação com laboratórios selecionados: a empresa que precisa de inovação procurará os institutos e o custo da pesquisa é dividido entre o ministério, empresa e laboratório.
Há algum projeto de incentivo a startups?
Sim. Há um programa específico com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), de venture capital. Temos também parques tecnológicos e incubadoras de empresas de base tecnológica. A inovação é o nosso maior desafio. As empresas aqui investem pouco em pesquisa. Sem elas não avançaremos nessa agenda.
A desoneração tributária pode estimular a indústria no País?
O Brasil é o sétimo mercado mundial em tecnologia da informação. Com a política dos tablets, 25 empresas já pediram autorização para produzir nas novas regras: 20% dos insumos têm de ser brasileiros no primeiro ano, a proporção sobe para 80% em três anos. Cinco empresas estão produzindo nessas condições. O desconto em impostos será de 36%.
E o que o senhor pode dizer sobre a vinda da Apple ao País?
Ela ainda está montando a sua fábrica aqui, com a Foxconn. É a primeira fábrica a produzir iPads fora da China, em uma área de 20 mil metros quadrados em Jundiaí (inteiror de São Paulo). São dois grandes galpões: um produzirá o iPhone, que diria que em breve estará sendo entregue; e o outro, o iPad, que o presidente da empresa assegura que chegará no Natal. Eles têm mais dificuldades, o tempo da Apple é maior do que o de outras empresas. O importante é que haverá concorrência, preços reduzidos e conteúdo nacional para esses produtos. Esse ecossistema é muito importante.
Quais as chances de trazer a indústria de componentes para o País?
Estamos com negociações avançadas com a Foxconn para fabricar telas de LCD aqui. É um investimento muito complexo, equivale a três indústrias automotivas. No Rio Grande do Sul, estamos implantando o Ceitec, uma indústria para iniciar a produção de semicondutores. É uma fábrica-laboratório, para formar recursos humanos que nós não temos. Vai demorar pelo menos um ano. É como a Embraer: primeiro precisamos aprender a fazer. Só há 20 países no mundo que fazem. E displays, apenas quatro.
O setor de games reclama há muito tempo em relação à alta carga tributária. Há algum plano para a área?
Nós desoneramos a folha de pagamento. Essa foi uma condição fundamental para ampliar a área de softwares. Iremos anunciar ainda em setembro um grande investimento na área de games. Uma indústria de ponta, bem importante, está vindo para o Brasil e se instalará na Zona Franca de Manaus.
*O segundo nome na Lei Azeredo
Em 2008, então senador pelo PT paulista, Mercadante foi um dos articuladores pela aprovação no senado do PL 84/99, a Lei Azeredo. Ele acrescentou dez emendas ao projeto – alguns chegaram à apelidá-lo de “Lei Mercadante-Azeredo” por causa da participação do senador petista. Ao apresentar suas emendas, Mercadante disse que “nós não podemos mais tolerar crimes que estão se instalando no interior da internet e que precisam de uma resposta enérgica”.
Ele alterou os polêmicos artigos 285-A e 285-B, que falam sobre acesso de redes de computadores e transferência de arquivos, para que o crime só fosse caracterizado se houvesse expressa proibição de acesso (caso contrário, o compartilhamento de arquivos poderia ser criminalizado). Mercadante, porém, foi um dos defensores da guarda de logs.
“O que está sendo proposto? É que eles serão obrigados a guardar durante três anos os acessos à rede mundial de computador”, disse. “E guardar os acessos, um provedor como o UOL, que tem três milhões de acessos diários, com seis CDs é capaz de guardar todas essas informações”, declarou.
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• Link no papel – 19/09/2011
Arte do software
- 11 de setembro de 2011|
- 17h24
Por Heloisa Lupinacci
Criador do algoritmo que ordena os nomes no Memorial do 11 de Setembro define o programa como um objeto artístico em si
Com Eduardo Asta
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Em outubro de 2009, o canadense Jer Thorp morava em Vancouver e recebeu um e-mail que tinha como assunto: Potencial trabalho freelance. Ele respondeu dizendo que amaria fazer o trabalho, mas que não tinha certeza se aquilo daria certo. Quase dois anos depois, o resultado dessa troca de mensagens estampa páginas de jornal de todo mundo.
A proposta no e-mail era para ele criar um algoritmo para ordenar os nomes das vítimas no Memorial do 11 de Setembro (veja abaixo), inaugurado ontem em Nova York, para onde Thorp se mudou há um ano e onde é artista residente do New York Times.
Thorp levou um mês para criar o algoritmo e seis meses para desenvolver o programa. É pouco comparado aos quinze anos que ele diz ter levado para fazer as pazes com suas duas áreas de interesse: ciência e arte.
“Olhando para trás, eu sempre me envolvi com arte, até que o meu orientador no colegial, Mr. Jack, disse que eu tinha de fazer uma escolha entre ciência e arte. Levei quase 15 anos para perceber que o que ele disse não era verdade”, disse em entrevista ao Link por e-mail.
Ele estudou genética na faculdade, mas achou a academia decepcionante e largou tudo para formar uma banda de rock. Depois se embrenhou pela internet e trabalhou como designer e programador por quase uma década. “Nos últimos 5 ou 6 anos, foquei no uso artístico do software, o que permitiu retomar minhas raízes científicas.” E se livrar da sentença de Mr. Jack.
E assim Thorp virou artista. Artista digital, mais precisamente. As obras que cria, diz ele, não são o resultado gráfico, a visualização de dados, tão em voga no momento. “O objeto de arte em si é o software”, resume, em um raciocínio desenvolvido a partir da citação a artistas, como Sol LeWitt, conhecido por criar instruções detalhadas de desenhos que são executados por outras pessoas, seguindo as regras definidas como se fossem um computador rodando um algoritmo.
Uma vez que o centro de sua obra é o algoritmo, pedimos a Thorp que o definisse. “Você pode resumir a definição de algoritmo em dois comandos: ‘faça isso’ e ‘até que’. É um conjunto de instruções que você repete até que o problema seja resolvido.”
E dá para fazer, por exemplo, que um algoritmo componha uma sinfonia? “Um algoritmo pode ser criado para fazer uma sinfonia. A palavra-chave é ‘criado’ – um homem pode criar um conjunto de regras que resulte em uma sinfonia, mas ainda é um homem criando algo. Há muitas pessoas procurando tirar o homem da equação. Mas minha sensação diante da maior parte dessas iniciativas é a de que a distância entre o homem e o resultado está sendo apenas aumentada – às vezes de maneira tão exagerada que podemos ser enganados e pensar que o computador está criando algo novo”, conclui.
Clique na imagem para ampliá-la.
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• Link no papel – 12/09/2011
Garotas de programa
- 4 de setembro de 2011|
- 19h00
Por Redação Link
Nos anos 1960, programação era coisa de mulher. Hoje, há menos mulheres na área do que há 40 anos. O que houve?
Anna Lewis, especial para o Washington Post*
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“É como planejar um jantar”, disse a almirante Grace Hopper, pioneira da informática, num artigo para a revista Cosmopolitan em 1967. “Você precisa planejar com antecedência e programar cada coisa para que esteja pronta quando você precisar dela.” Carne de panela ou programação de computador – ambas poderiam ser trabalho de mulher.
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Na primeira vez que vi esse artigo, estava trabalhando num recrutamento para uma empresa de software. Passei o último ano tentando conseguir que mais mulheres com formação universitária se candidatassem a um programa de estágio de verão. Continuei vendo relatórios dizendo que a proporção de mulheres que em cursos de informática estava crescendo. Era cerca de 25% em algumas instituições de elite, como Harvard, MIT, e Carnegie Mello. Isso pareceu uma boa notícia, mas não foi um aumento triunfante. Foi só um leve aumento em relação ao que havia.
Quando a matéria “The Computer Girls” (As garotas do computador) saiu em Cosmopolitan, 11% das graduadas em informática eram mulheres. No fim dos anos 1970, a porcentagem superou o mesmo número que estamos aplaudindo hoje: 25%. A proporção de mulheres formadas em informática atingiu um pico de 37% em 1984.
Depois, as mulheres deixaram a informática aos bandos – enquanto seus números cresciam em todos os outros campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Em 2006, as mulheres eram somente 20% das pessoas em informática.
Os números sugerem que há mulheres aptas; elas simplesmente não estão escolhendo a informática. Talvez um olhar para trás, para o momento “garota do computador” possa ajudar a reverter essa tendência – tanto por companhias que formam esse talento, como para as jovens que não estão querendo codificar.
A programação costumava ser um campo que atraía mulheres, mesmo quando a sociedade era menos favorável à ideia de mulheres buscando carreiras de toda a vida nas ciências.
Nasa. A era da esposa caseira foi também a era da corrida espacial da Guerra Fria. Na coleção de ensaios Gender Codes: Why Women Are Leaving Computing (Códigos de gêneros: por que as mulheres estão abandonando a computação), os ambientes de computação na Nasa são descritos como a própria definição de uma divisão profissional por gênero.
Os sistemas de controle que lançavam homens ao espaço eram dirigidos por computadores mainframe (de grande porte) comandados por instruções de programação escritas em blocos de codificação de papel.
Fileiras e mais fileiras de “perfuradoras de cartões” abarrotavam salas quentes de porão traduzindo as instruções nas folhas em cartões perfurados. Operadores de máquinas (homens) aguardavam em salas espaçosas e frescas acima os mensageiros entregarem os maços de código traduzido que eles alimentariam em leitoras de cartões.
As “perfuradoras de cartões” não tinham perspectiva; elas conservavam seus empregos por alguns anos entre a formação universitária e o casamento. Pensem na série de TV Mad Men com um viés tecnológico e sem vez para Peggy Olson.
Ao mesmo tempo, porém, a indústria de computadores comerciais estava em franca expansão. O setor logo enfrentou uma escassez atroz de programadores e analistas de sistemas. Como muitos setores durante a 2ª Guerra, a informática precisava de força de trabalho, e as mulheres contavam como força de trabalho.
Mulheres formadas começaram a acorrer para aulas de informática, onde poderiam se esquivar das legiões de “perfuradoras de cartões” e entrar diretamente nas fileiras de programadores e analistas de sistemas. Outros fatores também encorajaram sua opção. Por exemplo, muitos programas acadêmicos de informática eram abrigados inicialmente não em divisões de ciência ou engenharia, mas nas faculdades de artes liberais, onde mulheres haviam feito incursões culturais.
Os homens ainda não haviam entrado em quantidades significativas na informática; eles também estavam apenas começando a reagir à demanda do setor. A informática era uma nova fronteira na qual as regras sociais e profissionais ainda estavam indeterminadas.
Controle. No artigo de Cosmopolitan, programadoras se descreveram como “profissionais plenamente aceitas”. Diferentemente de outras profissões tradicionalmente femininas ou outros campos científicos, a programação oferecia às mulheres um grau sem precedente de controle: controle sobre máquinas – “dizer a máquinas milagrosas o que fazer e como fazê-lo” – bem como o controle sobre bons salários e carreiras impulsionadas pela aspiração intelectual.
Será possível que, como nos anos 60, a demanda de programadores pela indústria possa estar alimentando um interesse renovado de mulheres pela informática? As mulheres de hoje enfrentam bem menos elementos de dissuasão que suas antecessoras nos anos 60 e 80. Universidades tentaram recrutá-las para a informática com programas de extensão no ensino médio, oportunidades de networking e um currículo reformado que retira a ênfase da experiência em programação antes da universidade. Mas as mulheres com quem conversei em feiras de emprego lamentam o computador doméstico como um brinquedo de menino, a dominação dos laboratórios de computadores escolares por adolescentes masculinos intimidadores e a desagradável combinação de sexo e violência na maioria dos jogos de computador.
A maioria das mulheres graduadas começou seus cursos introdutórios com menos experiência que seus colegas masculinos, que são tipicamente hackers desde a pré-adolescência. E como as mulheres formadas em cursos de graduação em informática são poucas e muito dispersas, e porque elas tendem a fazer amigos fora de seu campo principal, a falta de amizades pessoais que ajudam a informar escolhas profissionais iniciais colocam as mulheres em desvantagem.
Conversei recentemente com uma estagiária que recordou como o GNOME Project, um projeto de software de fonte aberta e gratuito, recebeu, em 2006, quase 200 inscrições para o Google Summer of Code – todas masculinas. Quando o GNOME anunciou um programa idêntico para mulheres, enfatizando as oportunidades de aprendizado e não a competição dura, ele recebeu pedidos de inscrição de mais de 100 mulheres altamente qualificadas.
O que me espantou ainda mais foi quando ela sugeriu que nosso próprio slogan de campanha – “Nós ajudamos os melhores desenvolvedores do mundo a fazer software melhores” – poderia afastar candidatas em potencial. No mundo da informática, “quando se ouve a expressão ‘os melhores desenvolvedores do mundo’ a gente pensa num rapaz”, disse a estagiária.
A programação oferece desafios intelectuais, a chance de mudar a vida mediante a tecnologia – e um polpudo salário inicial. Décadas atrás, mulheres bem remuneradas programavam com paixão e imaginação ao lado de homens que as recebiam como iguais. As “garotas do computador” de hoje, e seus congêneres masculinos, estão prontos para fazer o mesmo.
*ANNA LEWIS, RECRUTADORA DE TALENTOS FREELANCE E ESCRITORA, FOI ATÉ RECENTEMENTE DIRETORA DE RECRUTAMENTO NA FOG CREEK SOFTWARE.
/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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• Link no papel – 05/09/2011
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