Estadão.com.br

Olhar inquieto

  • 24 de fevereiro de 2013|
  • 13h57

Por Redação Link

Do roteiro até a trilha sonora, diretor cria filme feito totalmente com o celular e leva projeto de inclusão digital para a África 

Adriana Carranca

SÃO PAULO – Giuliano Chiaradia fala sempre na primeira pessoa do plural. “Nós buscamos estar um passo à frente, inovar” ou “Nós ganhamos muito destaque em Cannes”. “Nós”, é importante esclarecer, refere-se a ele próprio e o seu celular. Inseparáveis, eles conquistaram espaço na última edição do principal festival de cinema do mundo, em Cannes, na França, com o primeiro filme 100% feito no celular. #5CALLS chegou também à Campus Party Brasil, passou pelo International Mobile Innovation Screening, da Nova Zelândia, e o Festival Internacional da Imagem, na Colômbia, e continua rodando os grandes eventos de cinema, tecnologia e inovação.

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O roteiro de 5#CALLS foi escrito por Chiaradia em cenas de 180 caracteres enviadas ao elenco via SMS (e assim também foi feito o convite para participar do filme). A equipe de gravação se resumia ao diretor – e seu celular, é claro. As imagens foram gravadas dos ângulos mais inusitados: aparelhos amarrados no corpo das atrizes. Assim, acompanha-se o percurso de Natalia Lage pelo metrô de Copacabana no horário do rush, os passos de Guta Stresser com um celular em seu All Star e os malabarismos de Julianne Trevisol, pendurada por tecidos de circo. As gravações foram transmitidas ao vivo na internet pelo site Qik.com.

O filme foi editado no Nokia N95 de Chiaradia durante as “esperas infinitas da ponte aérea Rio-São Paulo” – e, além de prêmios, o diretor ganhou uma tendinite que lhe rendeu três meses de fisioterapia. Toda a trilha sonora foi montada com ringtones. Na arte final, o diretor usou wallpapers. “Eu usei todos os recursos do celular até o seu limite”, diz. Tudo pronto, Chiaradia entrou pelo celular no site do Festival de Cannes, fez a inscrição online e também o upload do filme. Num clique, estava sentado ao lado de cineastas brasileiros como Walter Salles e dando entrevistas para canais de TV da Rússia, China e Canadá.

Até chegar ao telão de Cannes, o filme nunca havia saído da tela de 4 polegadas do celular de Chiaradia. “Eles sentiram que nós (ele e o celular) realmente buscamos estar na frente. O mais bacana foi ver como o Brasil é a bola da vez em inovação”, diz o diretor, que também usou BlackBerry e iPhone na gravação.

“Eu estava na onda de experimentar. Já tinha feito curta, videoclipe e até fotonovela com o celular. Mas eu queria ver até onde a plataforma podia ir”, diz o diretor, formado em cinema na Itália. Ele faz uma ressalva: “Você não pode gravar com celular por gravar. É preciso ter uma razão para aquilo, seja pelo imediatismo, pela praticidade, pela busca do minimalismo ou porque se quer algo inusitado. É preciso ter um argumento para utilizar essa mídia. #5CALLS, por exemplo, fala de relações virtuais.”

Inquieto. Chiaradia escreveu e dirigiu em 2004 o curta Beep…, projeto experimental considerado a primeira produção audiovisual em celular da América Latina. Foi filmado com um dos primeiros modelos de celular com câmera e contava a história de um personagem que havia perdido o aparelho. Quem o encontrava ia deixando mensagens na caixa postal.
Já na TV Globo, emissora onde trabalha como diretor no programa de Fátima Bernardes, Chiaradia fez ainda em 2004 um especial de fim de ano que trazia na abertura de cada programa um diário de bordo de Ivete Sangalo gravado direto do celular. Também fez o primeiro videoclipe de Roberto Carlos gravado com celular, para o Fantástico.

Em 2007, Chiaradia gravou os primeiros vídeos em celular das bandas Pato Fu e Detonautas. Ganhou prêmios e foi finalista de festivais – incluindo o de Gramado – com clipes feitos com celular para artistas como Fernanda Takai e Vivendo do Ócio.

No mesmo ano, quando estava em Miami para um festival de cinema brasileiro, Chiaradia lançou meio de brincadeira a primeira fotonovela do Twitter, que acabou se tornando um sucesso. A personagem era uma revista: a Playboy de Cleo Pires, que ele clicava em diferentes situações, como num restaurante ou “assistindo a um filme do festival”.

Chiaradia é um sujeito essencialmente criativo. Aos 5 anos, passou por uma série de exames médicos porque os pais acreditavam que tinha algum distúrbio – o menino não falava. As ideias passavam tão rápido por sua mente inquieta e investigativa que ele não conseguia acompanhar a velocidade em palavras. “Descobriram que meu cérebro era mais rápido do que a fala. Até hoje falo pausadamente, mas minha cabeça está a mil por hora”, diz, às vezes, saltando de um assunto para outro sem dar aviso. Sua mente já está lá na frente.

“Tudo o que tenho são minhas ideias”, escreveu em um bilhete que acompanhava uma chapa de ressonância magnética de seu próprio cérebro, enviada como currículo para a galeria La Chambre Blanche, no Canadá. Colou. Em 2011, ele passou uma temporada de 20 dias como artista residente. Lá apresentou o projeto de vídeo-instalação #microfugas, unindo arte e tecnologia. O projeto foi trazido para o Sesc paulista, onde foi adicionado um bar virtual com pessoas do mundo inteiro compartilhando drinks por videoconferência.

ArtMobile. O trabalho no Canadá rendeu a Chiaradia um convite da Embaixada do Brasil na Tanzânia para ensinar alunos da Universidade de Arte e Performance de Dar Es Salaam, capital do país africano, a usar o celular para fazer arte. Ao cruzar o oceano, surgiu a ideia do projeto ArtMobile, a menina dos olhos de Chiaradia. “Essa coisa experimental, ou seja, de tentar fazer de uma forma diferente, sempre esteve muito presente na minha vida. Mas estar no Canadá e de repente alguém na África Oriental me ligar porque viu o meu trabalho e uma semana depois eu desembarcar na Tanzânia me mostrou como a tecnologia não tem fronteiras. Assim surgiu a ideia de criar um workshop e levar isso para todo o mundo”, diz.

“Ontem, eu estava em Cannes, graças ao celular. Se eu pude, vocês também podem!”, disse a órfãos e jovens de uma comunidade em Casablanca, Marrocos, para onde levou o ArtMobile a convite de uma ONG. O workshop passou também pelo Uruguai e chegará à Nicarágua. “Foi muito bacana ver o brilho nos olhos daqueles jovens. Tudo é muito novo para eles. Me perguntavam: ‘Quer dizer que celular não é só para falar? Posso mostrar minha comunidade? Postar no YouTube para todo mundo ver?’”, conta Chiaradia, que pretende coletar imagens de celular feitas pelos alunos e transformá-las em um novo filme.

Cada edição do ArtMobile começa com uma “mobile symphony”, regida por Chiaradia com os diferentes toques do celular dos alunos. Além de música, videoclipe e cinema, ele ensina a fazer coisas como poesia por SMS e fotografia. “E se o seu celular não tem SMS para mandar poesia, não tem ringtone para fazer música nem wallpaper, não tem câmera para fotografar ou fazer vídeo, quebra essa porcaria e vamos fazer uma escultura!”, brinca, para o riso dos alunos. “Kaka, weka kwenye facebook?”, ele ouviu de um guerreiro da tribo Maasai, na Tanzânia. “Irmão, vai postar no Facebook?”

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• Link no papel – 25/02/13

Computação precisa ser reconstruída

  • 16 de dezembro de 2012|
  • 17h35

Por Redação Link

Ele conheceu Einstein. Bolou o nome Unix. E depois de seis décadas ainda é pago para repensar a segurança das redes em todo o mundo

Peter G. Neumann FOTO: Jim Wilson/The New York Times

Muitos citam o aforismo de Albert Einstein: “Todas as coisas devem ser feitas da forma mais simples possível, mas nem um pouco mais simples que isso”. Poucos, porém, tiveram a oportunidade de discutir esse conceito à mesa do café da manhã com o físico alemão em pessoa.

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Um deles foi Peter G. Neumann, que hoje trabalha como cientista da computação no SRI International, um laboratório de pesquisas da área de engenharia, com sede na Califórnia.

Neumman era estudante de matemática aplicada na Universidade de Harvard quando passou duas horas tomando café da manhã com Einstein. O que o jovem estudante guardou desse encontro, em 8 de novembro de 1952, foi uma filosofia que o acompanha há seis décadas e que ele usa como princípio para a área da computação e da segurança de redes e computadores.

Por muitos anos, Neumann foi uma voz solitária a chamar incansavelmente a atenção para o fato de que, na tecnologia, há uma forte tendência a repetir os erros do passado. Faz tempo que ele é um dos principais especialistas em segurança de computadores dos EUA. Previu, desde muito cedo, que as falhas de segurança que acompanharam a expansão desordenada da computação e da internet teriam consequências desastrosas.

“A maior contribuição dele foi chamar a atenção das pessoas para a característica ‘sistêmica’ dos problemas de segurança”, diz Steven Bellovin, executivo-chefe de tecnologia da Comissão Federal de Comércio (uma agência reguladora dos EUA). “Neumann mostrou que os problemas acontecem não por causa de uma falha, mas por causa do modo como várias peças interagem.”

Bellovin afirma que Neumann foi quem o fez ver que “sistemas complexos sofrem panes complexas” e que a complexidade crescente dos hardwares e softwares torna impossível identificar as falhas e as vulnerabilidades dos sistemas e garantir que eles sejam confiáveis.

O prognóstico se confirmou sob a forma de uma epidemia de malwares. Portanto, é admirável que, ao contrário da maioria de seus contemporâneos, Neumann continue na ativa.

Ele coordena uma equipe de pesquisa para reformular a maneira como é garantida a segurança de computadores e redes, num projeto de cinco anos financiado pela Darpa, agência de pesquisas avançadas em Defesa do Pentágono.

“Invisto contra os mesmos problemas há 40 anos”, disse Neumann durante um almoço num restaurante chinês de Palo Alto, na Califórnia, perto da casa repleta de obras de arte em que o cientista vive. “A minha sensação é a de que a maioria das pessoas que têm alguma responsabilidade nessa área fecha os ouvidos para a palavra ‘complexidade.’ Só se interessam por soluções fáceis e tacanhas.”

Desde cedo. Neumann, que se mudou para a Califórnia em 1970 levando consigo os três filhos pequenos de um casamento desfeito, ocupa há quatro décadas a mesma sala na sede do SRI.

Até pouco tempo atrás, antes de o edifício passar por uma reforma para a torná-lo resistente a terremotos, a sala de Neumann era conhecida pelas pilhas de livros sobre computação. Reza a lenda que os colegas que visitavam Neumann depois do terremoto de 1989 espantavam-se ao ver que, enquanto o tremor de 7,1 graus espalhara o caos, na sala dele tudo parecia no lugar.

Praticante de tai chi há décadas, Neumann é um homem esbelto e ágil, com olhos penetrantes e barba grisalha. Sua paixão, além da segurança de computadores, é a música. Domina diversos instrumentos, como o fagote, a trompa, o trombone e o piano, e toca em vários grupos. Nas conferências de segurança, os momentos em que Neumann estimula os colegas a soltar a voz já são tradição.

No mundo da computação, a segurança era uma área que vivia às moscas. Hoje é um setor multibilionário, e a tarefa de proteger a infraestrutura computadorizada dos EUA adquiriu uma importância maior. Barack Obama mencionou a questão na campanha eleitoral, dizendo que a segurança tecnológica é um assunto sobre o qual os norte-americanos “precisam começar a refletir” como parte da estratégia militar do país.

Neumann argumenta que a única solução definitiva e viável para situações de crise é estudar as pesquisas realizadas ao longo dos últimos cinquenta anos, selecionar as melhores ideias e então construir algo novo, começando da estaca zero.

Richard A. Clarke, autor de Cyber War: The Next Threat to National Security and What to Do About It (Ciberguerra: A Próxima Ameaça à Segurança Nacional e o que Fazer com Ela, sem edição brasileira) concorda que a ideia de começar do zero, como sugere Neumann, é essencial. “Faz 45 anos que as nossas redes não passam por uma reforma radical”, diz ele. “Refazer tudo custaria rios de dinheiro, mas o jeito é começar, ver se funciona e deixar a decisão para o mercado.”

Neumann é uma das pessoas mais qualificadas para liderar esse esforço de repensar a segurança. Ele participou de toda a trajetória da computação moderna. Seu primeiro emprego na área, em 1953, foi para trabalhar como programador com uma calculadora IBM que utilizava cartões perfurados.

Atualmente, o projeto feito pelo SRI em colaboração com a Universidade de Cambridge é uma das várias pesquisas financiadas pela Darpa como parte de um esforço de “resistência cibernética” iniciado em 2010. A premissa é: se o setor de computação pudesse ser reconstruído, o que deveria ser diferente?

A ideia é repensar por inteiro a computação, das pastilhas de silício em que os circuitos são gravados aos aplicativos utilizados pelos usuários e também aos serviços que guardam dados pessoais para data centers remotos.

Tempos modernos. Para Neumann, o aspecto mais frustrante é ver problemas que já foram tecnicamente solucionados – às vezes há quatro décadas – ainda atormentando. Um exemplo clássico é a “sobrecarga de memória”, em que um agressor manda um arquivo com uma longa sequência de códigos para inundar a memória do computador, travando o sistema e dando ao invasor a oportunidade de rodar um software malicioso.

Há quase 25 anos, Robert Tappan Morris, então aluno de pós-graduação da Universidade Cornell, empregou a técnica para espalhar um vírus pela internet, na época uma rede de 50 mil computadores. Neumann foi colega do pai de Morris e trabalhou com ele nos laboratórios Bell. Era amigo da família e se prontificou a testemunhar no julgamento do jovem programador, que dera uma de hacker sem a intenção de prejudicar ninguém. Morris foi condenado e multado e hoje é professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Esperança. A experiência deixou Neumann – que cunhou o termo “Unics” para descrever o esforço de programação que acabaria por desembocar na criação do sistema operacional Unix – ao mesmo tempo pessimista e otimista em relação ao futuro da computação.

“Sou otimista em relação ao que podemos fazer com a ajuda das pesquisas”, diz ele. “Mas sou pessimista quando me lembro do que fazem as empresas que devem satisfações a seus acionistas, pois estão sempre querendo fazer bonito no curto prazo.”

Agora Neumann está envolvido com as questões tecnológicas que cercam o voto eletrônico. Ao falar sobre os riscos a que esse tipo de voto está sujeito, ele gosta de citar Stalin: “Não é quem vota que conta, é quem conta os votos”.

Neumann cresceu em Nova York, mas sua família se mudou para a cidade de Rye, também no Estado de Nova York, onde ele cursou o ensino médio. Seu pai, J.B. Neumann foi um marchand de renome, primeiro na Alemanha e depois em Nova York, onde, em 1923, logo depois de chegar aos EUA, abriu a galeria New Art Circle. A mãe de Neumann, Elsa Schmid Neumann, era artista. O café da manhã que ele teve com Einstein aconteceu porque Einstein encomendou a Elsa um mosaico colorido, e os dois acabaram ficando amigos.

Atualmente o mosaico adorna uma das salas de leitura da principal biblioteca da Universidade de Boston. Para Neumann, a conversa com o físico ilustre foi o ponto de partida de um duradouro romance com a beleza e com os perigos da complexidade, algo a que Einstein fez alusão durante aquele café da manhã. “O que o senhor acha de Johannes Brahms?”, indagou Neumann ao físico. “Nunca entendi Brahms”, respondeu Einstein. “Acho que ele trabalhava até tarde tentando ser complicado.” / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

Menos óbvio, mas ainda ensolarado

  • 5 de agosto de 2012|
  • 19h02

Por Tatiana de Mello Dias

‘Tudo Tanto’, novo disco de Tulipa Ruiz, tem canções mais fortes

Tulipa Ruiz tem uma voz incrível. Também tem talento de berço – seu pai, guitarrista, tocou com Itamar Assumpção e seu irmão, guitarrista de sua banda, produziu seus dois discos. E ela tem bom gosto. Mas essa combinação de fatores sozinha não faz um bom disco.

Se Efêmera, o elogiado disco de estreia, é cheio de canções de amor, Tudo Tanto vai por outro lado. Tulipa fugiu do padrão que a consagrou, lançando canções mais fortes, com letras que remetem a questões existenciais, ao cotidiano e aos conflitos humanos.

Tudo Tanto tem uma pegada pop com as duas primeiras canções que abrem o disco – “É”, que já tem clipe, e “Dois cafés”, gravada com Lulu Santos e sua característica guitarra. A batida delas leva a uma letra que fala dos problemas comuns de São Paulo – a falta de dinheiro, a falta de vontade, a falta de tempo, a poluição. “Expectativa” fala de festa e nostalgia, com uma batida ótima para as pistas de dança.

E quem estava esperando uma balada como “Só sei dançar com você” é surpreendido com “Víbora”, um blues arrastado cheio de guitarra e uma letra rancorosa, cortada por sussurros de Criolo. A música é pesada, mas Tulipa a torna mais leve com seu agudo e suas brincadeiras com a voz – que, aliás, permeiam todo o disco.

Tudo Tanto é mais experimental e menos óbvio, mas ainda é ensolarado, cheio de canções para se ouvir em um dia bom.

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• ‘Quer me baixar? Me baixa com dignidade’
• Link no Papel – 6/8/2012

‘Quer me baixar? Me baixa com dignidade’

  • 5 de agosto de 2012|
  • 19h00

Por Tatiana de Mello Dias

Desta vez, ela não esperou o segundo álbum vazar online e colocou ela mesma as músicas para download

FOTO: TIAGO QUEIROZ/AE

SÃO PAULO – Tulipa Ruiz nem tinha lançado seu segundo disco, Tudo Tanto, quando tocou em Brasília. No meio do show, ela não entendeu quando os fãs começaram a pedir: “É! É! É”. “O que essa galera está gritando?”, pensou.

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A ficha caiu em seguida: “É” é uma música de seu disco novo, que a própria cantora havia liberado para download. Ela não imaginou que, com apenas uma semana, tanta gente teria gostado a ponto de pedir a música em um show. “Tinha me esquecido de como a internet é poderosa”, ri, às vésperas de atravessar o mundo para apresentar-se no Japão.

Tulipa trabalhava em uma empresa de comunicação e participava esporadicamente dos shows do pai e do irmão, mas não havia se assumido como cantora até 2007. Incentivada pelo amigo e também cantor Thiago Pethit, ela criou um perfil no MySpace – e tudo mudou. “Me assumi como cantora quando dei o ‘ok’ para publicar o perfil”, conta. Ela colocou as músicas que havia gravado com o irmão (Gustavo Ruiz, que toca guitarra em sua banda e é produtor de seus discos) e, a partir de então, começaram a aparecer os convites – e os contatos. “No MySpace começou um intercâmbio grande entre músicos e bandas”, lembra.

 

Tulipa começou a tocar em São Paulo e um ano depois já não conseguia conciliar o jornalismo e as artes (ela também é artista plástica). Passou todo o ano de 2009 compondo e fazendo shows, até que gravar o primeiro disco mostrou-se inevitável.

Efêmera saiu em 2010. No dia do lançamento, um amigo a avisou pelo Facebook: “Vazou na internet”. “Aquilo me desesperou. Não por estar na internet, mas porque tinham ripado o disco em uma resolução tosca”, reclama. “Pô, você fica não sei quanto tempo no estúdio, escolhe o microfone, tem o maior cuidado com o som para a pessoa baixar em baixa resolução.”

Auge e decadência. Ela passou aquela madrugada colocando uma versão melhor do próprio disco à disposição de seus fãs. As pessoas começaram a replicar e a cópia ruim foi substituída aos poucos. “O meu desespero era que as pessoas não podiam ouvir meu disco em baixa qualidade. Quer me baixar? Me baixa com dignidade”, diz, rindo da própria campanha. “Vivemos uma época muito louca”, filosofa a cantora. “Temos TV e som de alta resolução, caixas potentes. E assistimos a vídeos no YouTube e escutamos MP3 tosco. Estamos no auge da técnica e na decadência da resolução.”

Ela acha que o artista tem de se preocupar com todos os tipos de público – há aqueles que consomem música apenas na web e outros que preferem comprar o disco em lojas. Ao lançar Tudo Tanto, vários fãs reclamaram no Facebook dizendo que “não baixavam música” e queriam comprar o disco. “Temos que pensar em todo mundo. Se não permitir o download, estou restringindo e dificultando o acesso ao meu trabalho. Acho que isso é um pensamento de 2012”, diz.

Contudo, deixar um disco para download não é uma prática automática para os artistas. Tulipa conta que procurava o novo disco da Fiona Apple para ouvir na web – ela queria mesmo era comprar o disco, porque ela é daquelas que gostam do encarte.

Mas, na pressa, apelou para a internet. “Que trampo!”, lembra. Ela foi no iTunes e encontrou apenas um preview de 30 segundos da música. Ficou indignada. “Eu estava ali, de coração aberto, com todo o interesse e vontade de prestigiar o artista, e foi o maior trabalho. Fiquei chateada. E achei o preview uma falta de respeito”, opina. “Acho que a gente tem que pensar diferente. Antes do disco físico eu tinha as minhas músicas no mundo virtual. Elas nasceram ali”, diz.

Início de relação. “Quando procuro um artista para baixar, e eu baixo, e é como um começo de relação. Posso dar play de novo ou não. Posso dar play uma ou 40 mil vezes. Posso postar um vídeo, ir ao show. O download é o começo da relação entre artista e público”, diz.

Ela não crê que o CD vá morrer – ainda. Ex-vendedora de loja de discos, ela vê esse tipo de comércio fechar as portas aos poucos. “O CD descasca. Ninguém tem mais o primeiro CD que comprou. Mas eu ainda tenho o meu primeiro vinil – e os do meu pai e os do meu avô. Fico entre o digital e o vinil”, diz.
Tulipa também não descarta o modelo de negócio das gravadoras – desde que a deixem pôr o disco para download. Ela registrou suas músicas no Ecad e recebe por elas, mas não tem controle sobre isso. “Não tem nada que fiscalize o Ecad. E acho que a arrecadação por amostragem (quem toca mais ganha mais) não é democrática, não incentiva o artista”, critica.

Efêmera foi sucesso de público e crítica. Tulipa ganhou prêmios e tocou no exterior. E diz que imediatamente após o lançamento do primeiro disco, começaram os questionamentos sobre o próximo trabalho. “Acho isso engraçado”, diz.

Mas a sua tranquilidade em relação aos críticos é exceção. “Ainda há um determinado número de pessoas responsável por dar nota de 0 a 10”, diz – uma relação que ela considera injusta. “Há uma pressão. Você pode prestar atenção e pirar.”

Mas a internet, de novo ela, está mudando isso. A importância da crítica especializada está se diluindo com a possibilidade de as pessoas publicarem opiniões em redes sociais. “Todo mundo pode dar opinião. Isso é mais democrático e eu acho mais interessante”, conclui.

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• Novo disco é menos óbvio, mas ainda ensolarado
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Bicho-papão

  • 15 de julho de 2012|
  • 16h01

Por Redação Link

O milionário fundador do Megaupload vê sua reputação mudar de vilão da internet para herói cult

Jonathan Hutchison, do The New York Times

No mês passado, o desenvolvedor de software neozelandês Ben Gracewood respondeu a uma mensagem postada no Twitter pelo magnata Kim Dotcom, fundador do site de troca de arquivos Megaupload, fechado pelo FBI. Perguntou: “Vocês por acaso passam o dia pilotando carrões e posando para fotos?”, referindo-se à foto que Dotcom, 38 anos, tinha acabado de postar mostrando três de seus sócios em carrinhos de golfe e num Segway. “Não me incomodaria de passar a vida assim”, escreveu.

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Vinte minutos depois, recebeu uma resposta chocante: “Venha cá imediatamente!” Assim, ele foi com um amigo até a casa mais cara do país – uma mansão avaliada em US$ 24 milhões (R$ 48,7 milhões) alugada por Dotcom – para nadar na piscina e comer bolinhos. A Nova Zelândia acompanhou fascinada as atualizações no Twitter sobre a visita.

O episódio, registrado pela hashtag #swimatkims, foi apenas uma de uma série de reviravoltas bizarras no caso que transformou Dotcom numa espécie de herói cult desde a sua prisão.

Em janeiro, dois helicópteros da polícia aterrissaram no gramado de sua mansão para uma batida em sua propriedade, ao norte de Auckland. Na época, a maioria dos neozelandeses nunca tinha ouvido falar em Dotcom. Ele manteve um estilo de vida relativamente discreto pelos dois anos em que morou ali.

O caráter público da operação – realizada sob os termos do acordo de extradição entre Nova Zelândia e EUA – pareceu ter como objetivo chamar atenção. A prisão foi acompanhada por descrições surpreendentemente completas nos noticiários, incluindo o relato de como os policiais abriram caminho até encontrar Dotcom num quarto do pânico, onde ele teria sido encontrado sentado ao lado de uma espingarda.
Dotcom – nascido Kim Schmitz, na Alemanha – e três outras pessoas ligadas ao Megaupload foram detidos na operação decorrente do seu indiciamento nos EUA por violações da lei de copyright e lavagem de dinheiro. O Departamento de Justiça dos EUA disse que os indivíduos e duas empresas – Megaupload e Vestor – eram acusados de “envolvimento na formação de quadrilha, na conspiração para cometer infrações contra a lei de direitos autorais, conspiração para cometer lavagem de dinheiro e duas acusações substanciais de infração criminosa da lei de direitos autorais”.

Neste mês, os advogados de Kim tentam suspender o processo contra a empresa, argumentando que os indiciamentos não valem porque devem ser entregues a um escritório das empresas em território americano, coisa que o Megaupload nunca teve. Mesmo que a argumentação seja aceita, o caso contra Dotcom e os outros réus prosseguiria. Os quatro detidos estão livres depois de terem pago fiança e aguardam audiência para determinar sua extradição.

A audiência estava programada para começar em agosto, mas na semana passada foi adiada para março de 2013 para que as questões legais sejam resolvidas. Após o adiamento, Dotcom se ofereceu em mensagem pelo Twitter a ir voluntariamente aos Estados Unidos para responder ao processo, mas exigiu que seu dinheiro seja desbloqueado para que possa pagar os seus advogados, que dizem estar sem receber desde o início do processo.

Entre os itens apreendidos pela polícia nas batidas de janeiro estavam 18 veículos de luxo avaliados em 6 milhões de dólares neozelandeses (R$ 9,7 milhões), computadores e até 11 milhões de dólares neozelandeses (R$ 17,8 milhões) em dinheiro. Em entrevista por e-mail, Dotcom disse ter sido maltratado pelo governo e pela polícia do país, e os acusou de estarem apenas atendendo os interesses americanos.
“Dois helicópteros e 76 policiais fortemente armados para prender um homem acusado de infrações contra a lei de direitos autorais – imagine a cena”, escreveu. “Hollywood está importando seus roteiros de cinema para o mundo real, enviando forças armadas para proteger seu ultrapassado modelo de negócios.”

Depois de um mês de detenção, foi fixado o valor da fiança de Dotcom, apesar de os promotores apontarem para o alto risco de fuga. Nos meses seguintes os advogados dele triunfaram numa série de audiências, conseguindo o relaxamento dos termos da fiança e a liberação de parte do dinheiro de seu cliente para o pagamento de despesas.

A maior vitória veio no fim de junho, quando um juiz da Suprema Corte decidiu que a polícia de Auckland tinha usado o tipo errado de mandado de busca, o que torna a operação ilegal.

O professor de estudos políticos Gavin Ellis, da Universidade de Auckland, disse que, com o passar do tempo, o público passou a apoiar cada vez menos a operação policial.

“A reação inicial foi de espanto e surpresa. ‘Uau, vejam só o que a polícia fez, apanharam um suposto chefão do crime’. Mas, conforme o retrato do caso e do réu pintado pela mídia começou a mudar, o olhar retrospectivo fez com que toda a operação começasse a parecer exagerada. Houve uma clara mudança na forma de caracterizá-lo, fazendo com que passasse de suspeito a herói cult”, disse Ellis.

Dotcom deu sua primeira entrevista à TV em março, num programa de variedades. Ele se mostrou afável, falando articuladamente num inglês quase impecável, com um discreto sotaque alemão. Durante a entrevista, descreveu o indiciamento americano contra si como “nada além de um comunicado à imprensa repleto de informações fora de contexto, elaborado para manchar ao máximo minha imagem”.

Em e-mail enviado no início do mês, disse que “o povo da Nova Zelândia fez com que eu e minha família nos sentíssemos muito bem-vindos. Os neozelandeses sabem que fui tratado de maneira injusta e que seu governo faz qualquer coisa para agradar aos EUA”. “Antes eu respeitava os EUA e o sonho americano”, continuou. “Agora os considero a maior ameaça mundial à paz e à liberdade na internet.”

Até há pouco, Dotcom nem sequer podia usar a internet. Depois que o tribunal lhe concedeu o acesso, ele começou a usar o Twitter no dia 19 de junho, alcançando quase 50 mil seguidores em duas semanas, e passou a postar fotos de sua família, além de caçoar da operação policial que o prendeu. Indagado sobre o motivo de sua nova atividade online, Dotcom disse que estava usando a maneira mais eficaz de responder a todas as mensagens de solidariedade que recebeu.

No dia seguinte ao #swimatkims, disse, via Twitter, que faria uma versão do evento para “todos”. “Precisamos de uma grande piscina pública”, escreveu. “Um ótimo DJ. Caixas de som e iluminação. Alguém se habilita?”

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Todos juntos

  • 8 de julho de 2012|
  • 18h50

Por Anna Carolina Papp

Pioneira no crowdfunding no Brasil, o Catarse completa um ano e meio de atuação com mais de 200 projetos aprovados

Diego Reeberg e Luis Otávio Ribeiro, criadores do Catarse. FOTO: NILTON FUKUDA/AE

SÃO PAULO – É ótimo quando uma boa ideia dá certo. Agora, quando 249 delas se concretizam de fato, melhor ainda. Criado para tirar esboços do papel e colocá-los em prática, o Catarse comemora seu um ano e meio de existência proporcionando financiamento de projetos de forma colaborativa. O site é a primeira plataforma de crowdfunding do Brasil – como são chamados os serviços com esse propósito.

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A ideia já rondava os recém-formados administradores Diego Reeberg e Luis Otávio Ribeiro desde 2010. Inspirados pelo norte-americano Kickstarter e interessados no tal crowdfunding que despontava lá fora, se juntaram a Daniel Weinmann, de Porto Alegre, e colocaram o site no ar em 17 de janeiro de 2011.

Vingou: em um ano e meio, mais de R$ 3 milhões foram arrecadados e 249 projetos alcançaram a meta de financiamento.

Crowdfunding consiste em arrecadar um pouquinho de dinheiro de um monte de gente para pôr uma ideia em prática. No Catarse é assim: o idealizador envia seu projeto, diz o quanto precisa e até quando. Interessados fazem doações a partir de R$ 10. Se até o fim do prazo o valor for atingido, o criador recebe o dinheiro. Os apoiadores ganham uma recompensa em troca, que pode ser um adesivo, um jantar, uma camiseta. Se o projeto não vingar, o dinheiro é devolvido ou pode ser revertido em crédito para financiar outros projetos.

A colaboração não se limita ao financiamento. O Catarse abriu seu código, que foi usado por pelo menos outras 50 plataformas. “É uma forma de quebrar uma barreira, para o cara não pensar: tenho de começar minha plataforma do zero, então não vou fazer”, diz Luis Otávio.

Sete pessoas trabalham no site: três em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e uma em Belo Horizonte. Para se manter, o Catarse fica com 7,5% do valor arrecadado pelos projetos bem-sucedidos. Segundo os fundadores, o site não dá lucro, e nem é essa a proposta.

Diego diz que não gosta de definir o Catarse como uma startup que tem modelo de negócio e visa à expansão. “Podemos crescer devagar, organicamente. Não queremos quantidade, e sim projetos em que acreditamos.” Ele conta que já recebeu uma proposta de fusão, recusada por “não ter nada a ver com a ideologia” do site.

Projetos. Os fundadores dizem que o Catarse aceita projetos de qualquer tipo e que são abertos em sua curadoria, mas há critérios básicos. Primeiro de tudo: tem de ser um projeto, não uma ideia solta. “Tem de ter começo, meio e fim bem definidos. Eu (o idealizador) pego esse dinheiro, executo e entrego o quê para a comunidade? E o resultado tem de ser de acesso coletivo”, diz Luis. É preciso ter um vídeo de apresentação. Sem ele, a proposta é rejeitada.

Entre elas, não faltam casos curiosos. Alguém sugeriu levantar R$ 19 bilhões para comprar o Yahoo; outro queria ser o primeiro brasileiro a ir à Lua; fora ajuda para comprar um iPhone e para pagar a cirurgia da mãe. “Nesses casos, indicamos sites como o vakinha.com.br”, diz Diego.

Os fundadores contam que um dos planos é distribuir a curadoria. “A gente fala de colaboração, é bonito, mas quem decide quantos e quais projetos entram na plataforma são só duas pessoas; é até meio ditadura!”, brinca Luis.
Outra questão a ser melhorada é o relacionamento entre as pessoas envolvidas. Hoje o Catarse apenas encaminha e-mails de apoiadores aos criadores, que ficam responsáveis por responder e entregar a recompensa. “Queremos que esse processo de gerenciamento aconteça na própria plataforma”, diz Luis.

Na terça-feira, o Catarse realizou o primeiro “Rendezvous Catarse”. A confraternização aberta reuniu cerca de 400 pessoas em um bar na Vila Madalena, em São Paulo, em clima descontraído. Projetos foram expostos e houve até performance burlesca, além da exibição de vídeos de iniciativas concluídas.

Uma das intenções era incentivar o contato mais próximo, que já existia online, entre projetos aparentemente desconexos. “A internet aproxima as pessoas, mas por outro lado, afasta o contato pessoal, o olho no olho.”
Para os fundadores, apesar de novo, o crowdfunding tem grande potencial no País. Novos sites têm aparecido e o receio em colaborar tem diminuído. “A gente fala de financiamento, mas o dinheiro é só uma das moedas. Acontecem um monte de outras coisas (de valor): serviços e ações de voluntariado”, diz Luis.

Diego completa: “Queremos servir como ferramenta de mudança social, para organizar comunidades e potencializar ações”. E, meio sem graça, cita Nietzsche: “Que as pessoas, através do Catarse, possam viver o que Nietzsche chamava de ‘eterno retorno’: aquele momento que eles gostariam que durasse para sempre. Muitas vezes, a ideia que a pessoa propõe é o projeto da vida dela. Essa é a nossa satisfação”.

DEU CERTO! 

Alguns dos projetos que foram realizados graças à plataforma:

Belo Monte | O filme levantou a maior quantia até agora – R$ 140 mil – e já está na internet.
BaixoCentro | Festival levou eventos culturais ao Centro. Foram levantados R$ 17 mil.
Pimp My Carroça | Com R$ 64 mil, carroças foram reformadas e catadores, amparados.
Ônibus Hacker | Com R$ 58 mil, ônibus promove atividades do grupo Transparência Hacker.

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• Link no papel – 9/7/2012

Mais perto dos números

  • 29 de abril de 2012|
  • 18h27

Por Tatiana de Mello Dias

A matemática é mais um desafio de desvendar o mundo do que fazer contas e, para o escritor, jornalista e – também – matemático, o gosto pela área se reflete no desenvolvimento tecnológico de um país

‘Não há nada mais criativo do que a matemática’. FOTO: Andre Lessa/AE

SÃO PAULO – A tarefa: entrevistar um matemático. Matemático? Exatas nunca foram o meu forte – muito menos matemática, com sua lógica ilógica para mim e suas fórmulas (que nunca aprendi, só passei no vestibular por puro decoreba) Por isso, entrevistar um matemático me soou como um desafio.

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Aí descobri que o inglês Alex Bellos também é jornalista. Assisti à sua palestra na edição mais recente da Campus Party – em que explicava o relacionamento de diferentes povos com os números, com direito a crianças orientais fazendo contas dificílimas como mágica –, e comecei a achar aquilo tudo mais interessante. Mas o despertar veio em uma pergunta da plateia, quando uma mulher, diretora de um curso de informática em uma faculdade do interior paulista, perguntou: “Os estudantes que chegam do ensino médio para aprender programação vêm sem nenhuma base de matemática. Como reverter isso?”

Na hora de escolher a área de trabalho, o gosto pelos números conta muito – e é o que acaba afastando os estudantes de cursos mais técnicos, como computação e engenharias. E isso se reflete diretamente no desenvolvimento de um país.

Bellos respondeu que a Inglaterra vive um problema crônico: os professores do ensino infantil não gostam de matemática. E, por não gostarem, não transmitem o amor aos números às crianças. “Na Inglaterra não há paixão por matemática”, lamenta o jornalista. Os estudantes crescem aprendendo fórmulas prontas que as afastam do propósito inicial da matemática – resolver problemas. No Brasil, talvez, a questão seja a mesma.

A entrevista estava marcada para começar logo depois do fim da palestra, mas uma fila enorme atrasou o encontro em 40 minutos. O público se enfileirou para pegar um autógrafo do matemático. Bellos virou pop com seu livro Alex no País dos Números (Companhia das Letras, 412 págs., R$ 44).

As pessoas querem saber o que acontece no mundo nos números. E isso pode ser explicado, também, pelo aumento do interesse pela computação e pela vida digital. Segundo Bellos, na Inglaterra livros científicos vendem muito mais hoje do que na década passada. “Há quinze anos Steve Jobs não era ninguém. Hoje todo mundo quer entender este mito que há em torno dele”, diz Bellos, cujo livro foi traduzido para mais de 20 idiomas. “Fez muito mais sucesso do que eu esperava”, diz. Agora, ele prepara o segundo livro – também sobre matemática.

Alex no País dos Números é resultado de uma faculdade de matemática e de andanças pelo mundo aprendendo como a humanidade se relaciona com os números desde os tempos mais remotos. Como vive uma tribo que não desenvolveu um sistema numérico? O autor parte daí para explicar que a matemática não é um conjunto de fórmulas e nem um sistema pronto – mas, sim, uma ferramenta para questionar, aprender, e que está mais próxima da filosofia do que os amantes de Humanas podem imaginar.

“Não há nada mais criativo do que a matemática”, diz Bellos, que é formado em jornalismo e matemática. “No colégio, eu era bom em inglês e matemática. Todos falavam que a aula de inglês é mais criativa, porque é algo que nós lemos e escrevemos histórias. Mas a matemática é ainda mais criativa. Você tem de inventar uma linguagem própria para solucionar um problema.”

Na escola, diz Bellos, estuda-se matemática apenas para “fazer provas”. “Mas a matemática tem ideias muito interessantes. Antigamente, era associada à filosofia. A religião e a matemática vinham da mesma coisa”, explica. A ideia do infinito, por exemplo, explicita a ligação entre as duas ciências. “O infinito faz parte tanto da religião quanto da matemática. Você pode ficar em um boteco discutindo o que é infinito por muito tempo”, diz.

Ele cita também a relação da matemática com o corpo. Existem dez dígitos porque os humanos têm dez dedos. “E há campanhas para incluir mais dois números no sistema”, conta. “Ah, é?”, respondo, espantada. “É, e as pessoas ficam ‘ah, é?’ porque elas não pensam nisso”, responde. Alex Bellos diz que a matemática deve ser estudada pelas mesmas razões que estudamos Shakespeare. “É nossa herança intelectual e cultural. A matemática nos deixa mais criativos e nos dá um entendimento mais profundo da maneira como as coisas realmente são”, escreveu em um artigo publicado no jornal The Guardian, do qual Bellos foi correspondente no Brasil.

Andanças. Alex Bellos percorre o mundo para explicar que a matemática não é um sistema com fim em si próprio e nem um conjunto de regras. Pelo contrário. “O gostoso da matemática é quebrar as regras. Quebrar regras para fazer coisas. O melhor da matemática é feito do espírito da brincadeira”, diz.

É aí que entra o Brasil. Matemática – Exatas, em geral – não é o forte do País, que tem uma dívida histórica na educação nessas áreas. E isso se reflete na procura pela área de engenharia, por exemplo.

Nos últimos dez anos, o número de alunos formados na graduação foi multiplicado por dez. Na área de engenharia, porém, o aumento foi de apenas 6%. A cada 50 alunos formados na faculdade, apenas um saiu de uma faculdade de engenharia. Na Coreia do Sul, país líder em tecnologia da informação e dono do título de internet mais veloz do mundo, a proporção é de um engenheiro para outros quatro formados em outras áreas.

Mas Bellos é otimista com o País. Especializado em Brasil e autor de um elogiado – e esgotado – livro sobre a relação do brasileiro com a bola (Futebol – O Brasil em Campo, Zahar, 352 págs., R$ 59) –, Alex diz que esse espírito de brincadeira é o que aproxima a matemática do brasileiro. “No Brasil não há preconceito como na Inglaterra. As pessoas de ciências, de cultura, todo mundo, comem pizza juntos”, brinca. E a informalidade do brasileiro se reflete diretamente na maneira como nos relacionamos com os números. O mercado informal, diz ele, é quem forma milhões de brasileiros em matemática, pois as pessoas são obrigadas a fazer contas. “Tem de ser muito bom em números. Na Inglaterra você não precisa saber disso nunca.”

Na Inglaterra, segundo ele, há até um preconceito contra quem se especializa nos números. “Nós inventamos tantos gêneros musicais, moda, valorizamos isso muito. E não valorizamos a ciência. Esse preconceito é mais forte na Inglaterra do que em outros países da Europa. Por isso Alemanha e França não produzem tantos gêneros musicais, que foi o que nós fizemos. A gente quer ser ‘cool’”, diz. Para ele, a cultura nerd criada nos EUA, na França e na Alemanha contribuiu para aumentar o interesse por matemática nesses países.

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Link no papel – 30/04/2012

Como o online muda o offline

  • 22 de abril de 2012|
  • 18h21

Por Alexandre Matias

Teórico pioneiro em cultura hacker e comunidades virtuais, Howard Rheingold vem ao Brasil dez anos depois do lançamento do livro que anteviu os movimentos políticos organizados online no ano passado e fala de sua preocupação com a privacidade na rede

FOTO: Divulgação

SÃO PAULO – Howard Rheingold escreveu um livro sobre comunidades virtuais quando a internet ainda saía da fase dos BBSs e fóruns frequentados por acadêmicos e entusiastas da nova mídia. The Virtual Community, de 1993, não só funcionou como guia teórico sobre o funcionamento cultural da internet exatamente no momento em que ela começava a se popularizar, como consolidou a importância do escritor como visionário digital.

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Na época, ele já tinha passado pelo mítico laboratório PARC da Xerox (berço de grande parte dos itens da computação pessoal que usamos até hoje, como a interface gráfica e o mouse) e havia publicado outros dois livros: Out of the Inner Circle: A Hacker’s Guide to Computer Security (Fora do Círculo Interior: Um Guia sobre Segurança de Computadores para Hackers, em tradução livre) ao lado de Bill Landreth e Tools for Thought: The History and Future of Mind-Expanding Technology (Feramentas para o Pensamento: A História e o Futuro da Tecnologia de Expansão da Mente), ambos publicados em 1985. Nenhum teve edição brasileira, nem os que foram lançados depois.

De lá para cá, estabeleceu-se como cronista do mundo digital e futurista do comportamento online, aura consolidada com suas colunas para o jornal San Francisco Examiner nos anos 90. Em 2002 escreveu seu visionário livro Smart Mobs: The Next Social Revolution (Multidões Inteligentes: A Próxima Revolução Social),que já antevia os movimentos populares e organizados online que ocorreram no ano passado, como a Primavera Árabe e o movimento Occupy Wall Street.

Rheingold vem ao Brasil para falar de seu quinto livro, Net Smart: How to Thrive Online (Esperteza de Rede: Como Prosperar Online), lançado no mês passado, durante o festival Arte.mov, que é realizado nesta semana em Belo Horizonte. O Link conversou com ele por e-mail sobre as mudanças políticas e sociais que estão acontecendo graças à nova realidade digital.

Qual sua visão sobre as redes sociais, do ponto de vista de um dos pioneiros das comunidades virtuais?
Na minha opinião, redes sociais como o Facebook são uma espécie de bênção mista. Elas permitem que as pessoas se conectem entre si, embora, em alguns casos, isso não é um benefício positivo, Basta lembrar das pessoas chatas que você deixou para trás quando mudou de casa, escola ou emprego. As rede sociais também tornam muito mais fácil compartilhar informação com pessoas com quem mantemos vínculos sociais. Este aspecto fortalece o tal “capital social” – a capacidade de grupos conseguirem atingir metas coletivas fora de instituições formais como contratos, leis, governos – que depende de “redes de confiança e normas de reciprocidade” de acordo com sociólogos. Contudo, tais serviços não fazem aquilo que era feito em comunidades virtuais que permitiram o crescimento rápido da internet e que tornavam possível conectar pessoas com interesses em comum mas que não se conheciam. O Facebook restringe a comunicação, transforma a privacidade em produto e comercializa toda ação de seus usuários. Ao mesmo tempo, há milhares, talvez milhões, de listas de e-mail, fóruns online, salas de bate-papo, blogs e wikis com área de comentários.

Meu maior medo em relação ao Facebook é que ele tenta fechar a internet aberta. Sir Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web, recentemente nos alertou sobre isso em um artigo. Berners-Lee não precisou pedir permissão a ninguém para criar a web e os criadores do Google não tiveram de pedir a ninguém para reprogramar um serviço controlado para transformá-lo em uma companhia multibilionária a partir de um alojamento universitário. A inovação depende da natureza aberta da internet, mas o Facebook está caminhando diariamente para transformá-la em um sistema fechado em que ele dita as regras.

Você acha que estes serviços ameaçam a privacidade? O conceito de privacidade mudou?
Como colunista, sempre alertei sobre as ameaças à privacidade, há 15 anos. Muito pouca gente nos EUA parece se importar. Nós estávamos despreocupados – para não dizer ansiosos – em trocar nossa privacidade pela conveniência e, especialmente depois do 11 de Setembro, pela ilusão de segurança. Os avanços tecnológicos de hoje rastreiam todos os nossos passos online e constroem poderosos portfólios de informação sobre bilhões de pessoas. Câmeras de vídeo nas maiores cidades do mundo podem reconhecer rostos de pessoas específicas. E agora não tememos mais apenas o Estado – nossos vizinhos, ex-cônjuges, estranhos que ficam com raiva da gente no trânsito e anotam nossas placas, todos eles podem descobrir muita coisa sobre qualquer um de nós. Acho que está claro que a privacidade não significa mais o que significava antes das rede sociais. Quando o Facebook acionou seu feed de notícias – permitindo que você veja atualizações instantâneas sobre o que todas as pessoas na sua lista de amigos estão fazendo naquele momento –, as pessoas se sentiram ultrajadas e houve uma espécie de revolta. Seus usuários sabiam que qualquer pessoa poderia ver o que elas haviam postado em seus perfis, mas a simples ideia de que estas informações poderiam ser publicadas em suas redes de forma instantânea aborreceu o senso de privacidade de muitas pessoas que já usavam a rede social. Mas agora o feed de notícias é aceito por todos. Os limites da privacidade vão mudando. Acho que é importante distinguir entre informações que podem ser constrangedoras para outras pessoas e aquelas que podem dar poder a outras pessoas em relação a nós mesmos. É muito tarde para parar essa vigilância tecnológica e as violações de privacidade promovida pelos governos e por iniciativas comerciais. O melhor que podemos fazer é educar as pessoas de forma que elas possam tomar as providências necessárias para proteger suas privacidades. Eis a razão de eu ter escrito o livro Net Smart, que ainda não tem uma edição no Brasil.

Você acha que as comunidades online podem melhorar a vida fora da internet? O mundo digital pode fazer as pessoas se sentirem parte de uma comunidade mesmo quando não estão conectadas à internet?
Sem dúvida. Sou um sobrevivente do câncer e posso garantir que isso funciona. Há pessoas no Brasil e em qualquer país do mundo que têm recebido muitos benefícios desta comunidade – informação necessária, apoio emocional, sensação de pertencimento – de comunidades virtuais.
Uma pesquisa recente feita pelos sociólogos Barry Wellman, Keith Hampton, entre outros revelou que as pessoas que passam mais tempo se comunicando online com seus vizinhos também se envolvem mais com eles fora da internet. Esta questão era usada como jurisprudência por filósofos de escritório e juristas, mas pesquisas científicas recentes revelaram que a participação em comunidades online não é necessariamente alienante e em muitos casos pode trazer benefícios para a vida fora da vida conectada da internet.

Uma vez que todos estão online, a tendência para o futuro é que nos tornemos mais isolados ou gregários?
Sei que as pessoas que realmente criam uma cultura na qual elas participam – seja comentando num blog, organizando uma wiki, participando de uma comunidade virtual ou outras centenas de formas de contribuir com a cultura online –, se veem como cidadãos ativos, comparados a pessoas que se veem apenas como consumidores passivos de uma cultura criada por outros. A incerteza crítica vem do fato de não sabermos a forma como este conteúdo será disseminado. As pessoas saberão que existem formas de participar? Estas habilidades não são ensinadas nas escolas, apesar de muitos ensinarem isso uns aos outros. De outra forma, não teríamos a web! Novamente, este elemento educacional foi um dos motivos pelo qual escrevi meu livro. Eu até criei um currículo para professores de universidade ensinarem essas habilidades.

Como você acha que os levantes populares organizados online durante o ano passado vão evoluir nos próximos anos?
Escrevi um livro sobre este fenômeno há dez anos e notei que a combinação entre telefonia móvel, internet e computador pessoal estava criando uma nova mídia que diminuiu bastante as barreiras para tornar a ação coletiva possível. Mesmo antes dos eventos que você mencionou, as eleições na Coreia e na Espanha mudaram devido ao uso deste tipo de mídia. As pessoas têm como organizar ações com pessoas que nunca tiveram contato. Da mesma forma que a imprensa escrita permitiu que as pessoas criassem democracias nas quais os cidadãos podiam decidir pelo futuro de seus governos, as tecnologias de hoje têm permitido novas formas de organização política. E não apenas política – a Wikipedia, a comunidade do software livre, a resposta voluntária a catástrofes e muitas outras formas de ação coletiva ainda estão apenas surgindo. Multidões inteligentes não são necessariamente multidões sábias, e as pessoas se organizam tanto para construir quanto para destruir coisas. De novo, acredito que a educação – o que as pessoas sabem sobre seus novos poderes – fará a diferença.

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Link no papel – 23/04/2012

A internet está cada vez mais política

  • 25 de março de 2012|
  • 18h02

Por Tatiana de Mello Dias

Marcel Leonardi, do Google, fala da relação entre o gigante digital e a legislação brasileira

‘Muitas vezes a pirataria nada mais é do que uma demanda reprimida que o mercado não está cumprindo’. FOTO: Divulgação

SÃO PAULO – O advogado Marcel Leonardi foi um dos principais colaboradores na discussão pública que elaborou o Marco Civil da Internet, projeto de lei proposto pelo Ministério da Justiça para traçar princípios como neutralidade e privacidade na internet brasileira. Tempos depois, Leonardi foi chamado para assumir o posto de diretor de políticas públicas do Google no Brasil.

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Em outras palavras, ele é o responsável por conversar com o governo, articular a defesa dos usuários em casos como o da cobrança do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) sobre vídeos do YouTube embedados em blogs e levar à esfera pública princípios básicos da internet.

Tanto é que ele vive entre idas e vindas de Brasília e participa de audiências públicas para expor a opinião do Google – e a sua – sobre projetos de leis em discussão que afetam a maneira como as pessoas usam a internet, como o Código de Defesa do Consumidor, a Lei de Direitos Autorais e o próprio Marco Civil da Internet.

O advogado também responde questionamentos em nome do Google. Recentemente, o Ministério da Justiça exigiu explicações sobre as mudanças das regras de privacidade. A empresa, afinal, é custeada por publicidade – e neste modelo, os dados pessoais dos usuários têm muito valor. E é neste ponto em que os interesses da empresa e o dos usuários se distanciam. Leonardi diz que é uma questão de conscientização dos usuários sobre as novas regras.

Vestindo camiseta e calça jeans, sem o terno habitual, o articulador do Google deixa claro: hoje as empresas também fazem política. Cada vez mais.

O Ministério da Justiça questionou as mudanças na política de privacidade do Google. O que vocês responderam?
A gente está disposto a trabalhar com as autoridades. Há muita apreensão do que a gente faz em relação à privacidade, mas há pouca compreensão. Antes o Google tinha políticas separadas por produtos. Mas todas elas, com exceção de duas, já diziam que dados de um serviço poderiam ser utilizados em outros serviços. Então a unificação não alterou nada. Os dados que a gente coleta são os mesmos. As exceções eram o YouTube, que tinha uma política própria, e o histórico de buscas, que hoje expressamente pode ser usado em outros produtos do Google.

O que é preocupante.
A gente não considera assustador porque damos ao usuário as ferramentas para ele controlar isso. O usuário acessa o painel de controle e diz se quer ou não manter o histórico da busca. A pessoa pode desativar completamente. Seria assustador se acontecesse sem o usuário saber o que tá acontecendo. Todas as empresas do setor adotam esse modelo.

Os dados pessoais são valiosos, e as pessoas não têm ideia do que é feito com as informações.
A mudança passou pelo maior esforço de notificação da história do Google. Anunciamos no dia 24 de janeiro, e elas só entraram em vigor no dia 1º de março. Durante todo esse período, tinha um aviso em todas as páginas. A lógica era reduzir o “legalês”, porque a indústria de internet sempre ouviu que as políticas e termos de uso tinham de ser mais claros. Enxugamos radicalmente, só que cai nesse problema: em que momento você consegue forçar alguém a ler? As pessoas sempre dizem que estão preocupadas com a privacidade, mas agem diferente.

O Google foi condenado recentemente por causa de uma postagem no Orkut. A responsabilização de empresas por conteúdo de usuários é recorrente?
É um debate antigo. Mundialmente existe o conceito de que a plataforma não é responsável. Nos EUA e na Europa a lei diz isso expressamente. O Brasil ainda não tem uma lei específica. Uma das propostas é o Marco Civil da Internet, que diz que a responsabilidade só será derivada do descumprimento de uma ordem judicial. Na ausência de leis, os tribunais analisam caso a caso. O Google sempre recorre para mostrar que, pela lógica e pelo bom senso, não existe responsabilidade da plataforma.

Como funciona o processo de remoção de conteúdo, por exemplo, um post de um blog?
Em casos de direito autoral, o Google recebe a notificação de alguém que demonstra que é titular daquele direito e que aquilo não foi autorizado, e existe a verificação se isso viola ou não. Mas existem alguns requisitos. Na lei americana, há os requisitos do DMCA (Digital Millenium Copyright Act, lei de direitos autorais sancionada em 1998). No Brasil, da lei autoral.

O próprio Google verifica?
Existem os times internos que avaliam. Se há infração, a remoção acontece sem intervenção judicial, porque está de acordo com a nossa política de não permitir violação de direito autoral.

Concorda com a proposta do Ministério da Cultura, na nova Lei de Direitos Autorais, de institucionalizar um mecanismo de notificação?
Ainda é controverso. Eles pretendiam incluir o mecanismo que transforma em lei uma prática que muitas empresas adotam. O problema desse modelo é que dá margem para muito abuso. A gente vê muito isso nos EUA. Todo mundo tenta enquadrar própria situação em uma violação para justificar uma remoção.

Por que vocês se posicionaram contra a cobrança do Ecad sobre vídeos do YouTube?
Percebemos uma distorção na postura do Ecad. Achamos importantíssimo deixar pública a nossa posição de que não compactuávamos com aquilo, de que a interpretação da lei estava errada. O grande problema é que os novos modelos de negócio querem florescer, mas eles veem uma interpretação antiga da lei autoral e isso impede que eles cresçam. O Spotify é um exemplo. O sujeito paga 10 euros e tem acesso à milhões de músicas. Muitas vezes a pirataria nada mais é que uma demanda reprimida que o mercado não está cumprindo.


A reforma da lei de direitos autorais é um avanço?
É uma incógnita. Tenho a impressão de que a versão intermediária é um pouco mais aberta e amigável para esses modelos. Tinha a licença compulsória, que era interessante, e uma linguagem que permitiria um uso mais flexível.

Vocês opinaram nesse texto?
A gente participa dos debates, mas depois da consulta pública a coisa fica fechada. No Congresso dá para conversar. É importante. Inclusive, se não fossem os ativistas, muita coisa de regulação de internet no Brasil teria sido diferente. Toda a oposição à lei Azeredo, toda a pressão para o Marco Civil, é fruto do engajamento. Nos EUA, a o caso Sopa foi interessante. O fato da Wikipedia ter saído do ar apavorou muita gente. Foi só aí que houve conscientização sobre os riscos da lei.

Essa lei nos EUA provocou um movimento em defesa dos princípios da internet. As empresas estão assumindo uma postura política?
Não tem como a gente não pensar politicamente hoje. Não dá para olhar para o próprio umbigo e pensar que enquanto o negócio vai bem não é preciso conversar. Porque existem questões acima. Quando a gente pensa politicamente é isso, todas as empresas do setor tendem a conversar e entender melhor como isso funciona.

Há necessidade de uma lei atualizada de cibercrimes?
Existe a necessidade do juiz ou de quem trabalha com direito criminal entender melhor a internet. Porque a maior parte do que está na lei já funciona. Não podemos correr o risco de adotar um texto tão genérico ao ponto de você estar lá fuçando no celular, sem querer você invade um sistema e vão dizer que você cometeu um crime.

O Brasil ainda é líder nos pedidos de remoção de conteúdo?
Sim. No nosso relatório de transparência constam todas as requisições do governo ou da Justiça de remoção de conteúdo. O Brasil é líder em remoções porque aqui é fácil. Você pode ir sem custo e sem advogado a um tribunal de pequenas causas e pedir uma liminar para tirar um blog do ar. Além disso, muita gente está acostumada com a cultura de “na dúvida, vamos pedir para remover”.

O que pode instituir a censura.
É. A gente já se deparou com casos assustadores. Está crescendo o número de empresas criticadas por consumidores que entram com uma ação para remover qualquer referência negativa.

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Link no papel – 26/03/2012

O país mais offline do mundo

  • 11 de março de 2012|
  • 19h50

Por Redação Link

Mianmar tem menos celulares por habitantes do que a Coreia do Norte e lá é ilegal ter um modem. O resultado é uma população carente de informação e tecnologia, apesar da recente abertura política

Jeremy Wagstaff, da Reuters

Mianmar (ex-Birmânia) é o país com a menor quantidade de telefones por habitante e também, provavelmente, o menos conectado à internet do mundo. Por trás das estatísticas, porém, há algo mais do que um mercado a ser explorado por empresas de tecnologia com água na boca.

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Mianmar foi governado por militares durante décadas. E isso provocou não só um atraso nos serviços de conexão como também deixou uma complexa rede de interesses.

Menos restrição. Depois da repressão a blogueiros, após a Revolução do Açafrão em 2007, governo dá sinais de abertura. FOTO: REUTERS

Um recente encontro de tecnologia em Rangum, antiga capital e maior cidade do país, ilustra as promessas, mudanças e problemas de Mianmar como a próxima fronteira dos investimentos. O encontro foi organizado por um grupo ligado a empresas, blogueiros e profissionais de tecnologia que deixaram o país atrás de oportunidades.

O encontro foi um “BarCamp” – um formato mais descontraído idealizado pelo pessoal da Califórnia cansado das reuniões exclusivas a portas fechadas, típicas do Vale do Silício. A ideia espalhou-se pela Ásia, mas em nenhum lugar ela pegou tanto como em Mianmar.

Em outubro de 2009, Emily Jacobi, fundadora do BarCamp, viajou a Rangum em parte para estimular o interesse. Blogueiros independentes e uma entidade empresarial abraçaram a ideia, mas não foi fácil superar as suspeitas. Os empresários estavam acostumados há anos a construir laços com o governo.

O primeiro BarCamp, em 2010, reuniu três mil pessoas – um recorde – e isso antes de qualquer sinal de mudança política. A líder da oposição Aung San Suu Kyi ainda estava em prisão domiciliar. Na época da terceira edição, no mês passado, ela já era uma mulher livre prestes a disputar uma eleição – e convidada de honra do encontro.

A popularidade da conferência também reflete o quanto a população local é privada de informação e de conexão. Para Thar Htet, um consultor de Cingapura que palestrou na primeira edição, ficou claro que a maioria dos participantes não compreendia tópicos relativamente básicos. “Dava para ver em seus olhos”, disse. Quando ele voltou neste ano, encontrou as coisas mudadas – um pouco. “As pessoas agora entendem melhor. Mas eu também simplifiquei as apresentações.”

Embora as lan houses tenham proliferado desde 2003, ajudando a criar uma geração de blogueiros e programadores autodidatas, há limites para o que eles podem fazer com conexões lentas e sem treinamento.

Quando Pyae Phyo Maung, por exemplo, frequentou a Universidade de Estudos da Computação, em Rangum, ele tinha de levar o seu próprio computador. Para aprender mais, os que podem vão para o exterior. Pyae Phyo Maung partiu para Cingapura em 2009, onde ele trabalha como consultor de informática. De sua classe de 10 alunos, apenas dois continuam em Mianmar.

Isolado. Até pouco tempo atrás, o governo restringia severamente o acesso às comunicações, tanto por telefone como na internet. A restrição aumentou após a Revolução do Açafrão em 2007, quando ativistas enviaram fotos, vídeos e reportagens dos protestos ao mundo exterior por telefones celulares e pela internet. Seguiu-se uma pronta repressão aos blogueiros.

Este é um país onde, como adverte o Departamento de Estado dos EUA, é ilegal possuir um modem e onde todos os computadores com conexão à rede precisam ser registrados no Departamento de Correio e Telecomunicações (MPT). Sem autorização, a pessoa está sujeita a multas e prisão de até 15 anos.

Em 2000, o MPT mudou seus termos de serviço e passou a filtrar todo o conteúdo online com a mesma rigidez que controla a mídia offline. Também passou a exigir permissão para qualquer um que quisesse criar um site.

O resultado é um setor cheio de gargalos. Por exemplo, não há uma fonte padrão para texto em birmanês. Isso significa que os usuários precisam instalar fontes especiais para ler páginas da internet. A taxa de uso de celulares está da ordem de 1% a 3% da população. Na Coreia do Norte, ela é de cerca de 4%.

As companhias que prosperam tendem a ser bem relacionadas com o governo ou parcialmente estatais. A primeira rede GSM do país foi construída por uma empresa que tinha laços com a família de um general.

Apesar de o setor móvel ser pequeno, ele é muito lucrativo. Os chips de celular são produzidos e vendidos por negócios do empresário Tay Za, segundo um telegrama da embaixada americana de julho de 2009 que vazou para o WikiLeaks. Embora os chips descartáveis sejam mais baratos que um celular CDMA (sem chip) de US$ 1.400, eles só valem por apenas dois meses e as ligações são caras. Tay Za está na lista negra tanto da União Europeia (UE) como dos EUA.

O acesso à internet é extremamente limitado. Só dois provedores têm permissão para operar. Um deles, Red Link Communications, pertence a dois filhos de Thura Shwe Mann, ex-número três na junta militar que governa o país e atual presidente da Câmara. Os três estão na lista negra de concessão de vistos da UE.

Transitar entre esta rede de interesses é vital para as empresas locais e estrangeiras. Organizar o BarCamp sob o nome da associação garantiu-lhe as autorizações necessárias e o patrocínio das principais empresas do setor. Seus dois parceiros principais foram o Ministério das Comunicações, Correios e Telégrafos e um dos principais bancos do país, o Asia Green Development Bank – que também pertence a Tay Za. Outro patrocinador foi o Red Link.

Mudanças. As companhias estrangeiras têm duas opções: ou seguem a mesma estratégia ou esperam por mudanças. Mas há sinais de que o governo está respondendo à demanda popular por conexões melhores.

Mais empresas em Rangum, que há anos têm lidado com blecautes parciais de energia, agora têm eletricidade por 24 horas. No mês passado, uma empresa começou a oferecer conexão WiMAX (com tecnologia sem fio) por US$ 30 mensais. “Há alguns anos ela custaria US$ 1.500 e teria demorado duas semanas para ser instalada”, disse Thaung Su Nyein, diretor da empresa de tecnologia Inforithm-Maze. “Hoje leva um dia.”

Se antes serviços de e-mail, Facebook e Skype eram bloqueados, agora até sites de exilados críticos ao regime podem ser acessados. Quando o exilado Aung Zaw, fundador e editor da revista online Irrawaddy, visitou o país pela primeira vez em 24 anos em fevereiro, ele percebeu que até agentes de imigração no aeroporto conheciam seu site.

Há ainda o caso de Nay Myo Zin, um soldado que virou ativista. Ele recebeu anistia no início do ano e foi declarado inocente em fevereiro da acusação de ter aceitado receber uma camiseta e um chaveiro com a imagem da opositora Aung San Suu Kyi enquanto estava preso.

Tão logo ficou livre, ele usou a fama recém-adquirida para criticar seu provedor por limitar a velocidade de conexão em sua pequena lan house em Rangum. “Eu disse a eles: se cortarem minha internet, vou denunciá-los ao mundo”, contou. “Eles ficaram com medo e devolveram minha conexão.” Ele agora pretende abrir um serviço WiMAX em seu bairro para fornecer conexões sem fio a casas próximas.

Onde é| No Sudeste Asiático, entre Bangladesh e Tailândia.
Qual o tamanho | São 676 mil quilômetros quadrados. Equivalente às áreas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo somadas.
Quantas pessoas vivem lá | 54,6 milhões de habitantes, um pouco mais do que a população do Nordeste brasileiro (53,5 milhões em 2010, segundo o IBGE). A população é 69% birmanesa. E 89% é budista.

Mas há limites. Quando uma empresa se propôs, no começo deste ano, a vender chips para celulares a preços menores, o pedido foi rejeitado pelo MPT que alegou falta de infraestrutura. Segundo o site Irrawaddy, 11 pessoas foram brevemente detidas em Rangum no fim de fevereiro depois de fazer campanha por celulares mais baratos.

Não é que o governo não tenha uma estratégia para a tecnologia. É que ela parece distante das reais necessidades da maioria dos birmaneses.

Um exemplo claro está na chamada Cidade Cibernética Yatanarpon, uma área de cerca de 100 hectares erguida na selva em 2006 e projetada para ser o centro de tecnologia de Mianmar. Ela tem conexões de banda larga em toda a extensão, acomodação para 50 mil pessoas e uma universidade, mas até agora só atraiu um punhado de empresas – e nenhum dos investidores estrangeiros que prometia.

O consultor de empresas Zaw Min Htwe, que escreveu um trabalho sobre o parque empresarial no ano passado, diz que o governo não conseguiu oferecer incentivos além de espaço e telecomunicações. O lugar ficar longe de tudo. “A maioria das empresas não quer ir para lá por causa da falta de infraestrutura.”

As companhias que têm uma presença em Mianmar são na maioria chinesas, como ZTE e Huawei. Poucos nomes ocidentais têm presença no país.

Mas o Ocidente está afrouxando suas sanções em resposta às mudanças no governo e isso pode ser crucial para companhias que agirem rápido para estabelecer parcerias locais.

Muitos esperam que a chegada de empresas ocidentais forneça empregos para as legiões de trabalhadores de tecnologia desempregados e mal formados. Por enquanto, a maioria toca pequenos negócios, criando sites ou consertando computadores.

Mas também há certo receio sobre a competição com os estrangeiros. “Durante boa parte do século, Mianmar ficou praticamente isolado. Quando abriu as portas, só vieram para cá companhias chinesas e asiáticas. Portanto, as empresas de Mianmar sempre estiveram neste ambiente protegido”, diz Thaung Su Nyein da Inforithm-Maze.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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• Link no papel – 12/3/2012

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