Estadão.com.br

Filantroponário

  • 19 de fevereiro de 2012|
  • 17h00

Por Redação Link

Depois de transformar o comércio eletrônico ao fundar o eBay, esse imigrante francês de 44 anos decidiu usar o mesmo conceito para mudar o mundo da filantropia

Por Jon Swartz (USA Today)

Em algum momento do discurso, Pierre Omidyar fez uma pausa. O bilionário fundador do eBay e ativista das boas causas respondia a questões de bolsistas da Casa Branca quando uma pergunta o pegou em cheio. “O que você quer alcançar na vida?”
Omidyar, 44 anos, fitou o autor da pergunta. “Vivemos uma vida confortável, mas são as relações que a enriquecem.”

Ele virou milionário da noite para o dia em 1998. Isso foi três anos depois de ele escrever o código que se tornaria o eBay. A companhia fez oferta pública de ações e, em suas próprias palavras, Omidyar ficou “ridiculamente rico”. Sua fortuna pessoal é estimada em US$ 6,2 bilhões, o que o posiciona como o 145º homem mais rico do mundo de acordo com a Forbes. Mas ele é um bilionário raro, que evita clichês associados aos ultrarricos.

“Chegou um ponto em que eu poderia, literalmente, comprar todos os carros. E eu não queria carro nenhum.” Sua mulher, Pam, tem uma minivan. ele, um Toyota Prius. Eles moram com os filhos em uma casa modesta em Honolulu, no Havaí. Pierre diz sentir desconfortável com o fato de ter acumulado tanto dinheiro tão rápido.

TIM SHAFFER/REUTERS

Enquanto refletia sobre o que fazer, pensou em como o eBay deu às pessoas uma plataforma para que elas virassem empreendedoras de sucesso. Por que não aplicar esse conceito à filantropia? Criou Fundação eBay em junho de 1998.

Até hoje, Pierre e Pam doaram mais de US$ 1 bilhão a centenas causas por meio de doações e de quatro organizações criadas por eles: Omidyar Network, Humanity United, Hope Lap e Olupono Iniative. “Ele é a nova cara da filantropia”, diz o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, que conhece Omidyar há mais de dez anos. O CEO do eBay, John Donahoe, emenda: “De maneira discreta, ele tem enorme impacto no mundo.”

A lenda do Vale do Silício que virou filantropo ficou muitos anos calado, dando uma ou outra entrevista e vivendo de maneira reclusa no Havaí. Por que falar agora? Para mostrar ao mundo de que forma sua organização cria equipes filantrópicas que podem gerar mudanças no longo prazo.

Ele também subiu o tom de seu discurso político: “Há um dramático declínio, uma total falência da liderança”, disse em um jantar vegetariano antes da sessão de perguntas e respostas. “Estou preocupado com o sonho americano”, disse o francês que imigrou para os EUA na década de 1970. “Pense nos mais brilhantes que vieram para cá”, diz, listando os fundadores do Google (Sergey Brin é russo) e do Yahoo (Jerry Yang, taiwanês).

Fanático por analisar números, Omydiar continua envolvido com o eBay. Presidente e principal acionista da empresa, vai a quatro reuniões anuais e intervém quando é preciso mudar alguma coisa. Ele gerou uma grande movimentação após a saída de Meg Whitman do cargo de CEO da empresa. Escalou Donaheo para substituí-la, contratou Mark Cages como CTO e nomeou Marc Andreessen como membro do conselho. Whitman, hoje à frente da HP, não quis dar entrevista. “Ele acredita que as pessoas são boas e acredita no indivíduo, no homenzinho, que impacta em escala global”, diz Donahoe, que conheceu Omidyar há sete anos, quando entrou no eBay.

A atuação de Omidyar na filantropia, baseada vagamente em uma abordagem de fundos de capital de risco, foi um poderoso agente de transformação social, da mesma forma como o eBay mudou o comércio. Suas doações são feitas a organizações com sólidos planos de negócios que geram ganhos que sustentam o trabalho não-lucrativo.

Para Bill Gates, Omidyar é uma figura central na intersecção entre filantropia e tecnologia. “Pierre aborda a filantropia com um espírito inovador e empreendedor, com o qual todos podemos aprender”, diz Gates. “Filantropia não é dinheiro”, diz Omidyar. “O dinheiro é importante, mas o impacto importa mais.”

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Link no papel – 20/02/2012

Furos e gatinhos

  • 12 de fevereiro de 2012|
  • 19h03

Por Redação Link

Criador do BuzzFeed e cofundador do Huffington Post, Jonah Peretti propõe fazer jornalismo seguindo a lógica do que você vê no Facebook: notícia séria ao lado de fotos engraçadas

David Carr
The New York Times

Na noite das prévias de Iowa, quando o BuzzFeed deu o furo de que republicano John McCain declarava seu apoio ao pré-candidato à presidência do partido Mitt Romney, mais do que um punhado de leitores coçaram as cabeças e se perguntaram: “O que é BuzzFeed?”.

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Eles estão prestes a descobrir. O BuzzFeed é a criação de Jonah Peretti, um pós-graduando do Media Lab do MIT (o laboratório de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts) especializado em conteúdo com potencial de se espalhar rapidamente pela rede.

Ele levou essas habilidades ao Huffington Post, onde atuava como o feiticeiro por trás da coxia, preparando uma poção borbulhante de notícias de gosto duvidoso envolvendo celebridades e fotos cômicas de gatos por trás de uma primeira página repleta de notícias e comentários sérios.

Usando um sistema de otimização de busca, ele sabia o que as pessoas estavam procurando quase antes que elas próprias o soubessem. No início, Peretti criou o BuzzFeed como um laboratório, voltando-o menos para o que as pessoas estavam buscando e mais para o que elas estariam inclinadas a compartilhar.

Ele desenvolveu tecnologias que permitiam ao BuzzFeed determinar com muita rapidez o tipo de conteúdo que estava sendo postado e compartilhado – itens contagiosos, o tipo de coisa que acaba na página do Facebook de alguém e, subitamente, na de muitas outras pessoas.

Quando o Huffington Post foi vendido à AOL no ano passado, Peretti saiu de lá e começou a se dedicar ao BuzzFeed em tempo integral.
Com sua mistura de curiosidades, “artigo-listas” (artigos em formas de lista) e memes da rede, o BuzzFeed era no começo algo parecido com o Huffington Post sem a pretensão de produzir notícias e comentários. Mas, em dezembro, Peretti contratou Ben Smith, o elogiadíssimo blogueiro e colunista do site Politico, para o cargo de editor-chefe. Pouco depois de começar, em janeiro, Smith deu o furo do apoio declarado por McCain a Romney na primária de New Hampshire.

A mensagem era clara: o BuzzFeed era um nome importante no jornalismo. (Smith ainda escreve sua coluna semanal no Politico).

Pouco tempo depois, o BuzzFeed captou US$ 15,5 milhões da Lerer Ventures, de Kenneth Lerer, da New Enterprise Associates, da Hearst Interactive Media, do Softbank e da RRE Ventures.

Imediatamente, Smith começou a contratar repórteres, entre eles Matt Buchanan, da Gawker Media; John Herrman, da Popular Mechanics; Rosie Gray, do Village Voice; e Doree Shafrir, da RollingStone.com. O BuzzFeed não estava apenas contratando nomes conhecidos para servir de ornamentos de luxo inspiradores de credibilidade, como fizeram Tina Brown e Arianna Huffington.

Jonah Peretti, criador do BuzzFeed<

As contratações no BuzzFeed foram mais como mastros enfeitados: jovens escritores naturais da rede que se tornaram pontos de referência em conteúdo porque se veem banhados no ethos e na prática das mídias sociais.

Depois de uma semana em que o Facebook anunciou uma oferta pública inicial de ações (IPO) que poderia definir o valor da empresa na casa dos US$ 100 bilhões, ficou claro que o setor social da rede – Facebook, Twitter e afins – vai rivalizar com o setor de buscas – Google, Bing e afins – enquanto força capaz de auxiliar as pessoas a encontrar conteúdo.

O feed social do usuário médio do Facebook é – assim como o BuzzFeed – mistura de furos noticiosos e gatinhos fofos, funcionando como uma espécie de feed de notícias gerado pelo indivíduo que contradiz a arquitetura tradicional das agências de mídia.

Num certo sentido, Peretti está invertendo a fórmula do HuffPo. No Huffington Post, ele usou a otimização de busca para criar um chamativo ambiente divertido por trás da fachada séria de sua página inicial. No BuzzFeed, o ambiente divertido estava no centro da ideia. As abas classificando o conteúdo na página inicial davam o tom do que esperar do site: LOL, Cute, Win, OMG, Geeky, Trashy e WTF?.

Mas, com a chegada de Smith e seus novos contratados, o BuzzFeed está ganhando força no jornalismo sério por trás de uma aparência boba e inconsequente e acrescentou a aba “2012” como referência à cobertura das eleições. (Categorias mais tradicionais do jornalismo serão introduzidas nos próximos meses.)

De alto a baixo. As coisas vão bem até o momento, e a ComScore indica 10,8 milhões de visitantes únicos em dezembro, mais do que o dobro do número observado no mesmo mês em 2010. Em parte, seu modelo de negócios se vale da mistura de conteúdo de alto e baixo nível. Em vez de vender espaço para anúncios, o BuzzFeed trabalha com empresas como a Pillsbury – de alimentos – para criar conteúdo feito sob medida para o compartilhamento nas redes sociais, como artigos do tipo “Dez coisas que você nunca soube que poderia fazer com croissant recheado”.

Se for bem sucedido, o BuzzFeed vai gerar o tipo de tráfego capaz de rivalizar com gigantes como o próprio Huffington Post. Peretti diz que o BuzzFeed lucra em alguns meses, mas, levando-se em consideração o nível de investimento e crescimento – o escritório no famoso edifício Flatiron, em Nova York, abriga agora 78 pessoas –, é significativa a proporção do novo aporte de capital que foi queimada.

“É divertido acompanhar essas contratações”, disse Choire Sicha, fundador do site The Awl e veterano da indústria nova-iorquina da web. “Mas é importante que não gastem demais. Eles são uma empresa de publicidade na rede e isso não vai mudar.”

No escritório. Peretti diz que não está concorrendo com o Huffington Post e nem pretende fazê-lo, em parte porque isto seria estranho, já que ele e Lerer estão entre os fundadores do HuffPo. Sentado na cafeteria do escritório em Manhattan, ele destacou que não há nada mais viral do que as notícias que ninguém mais tem, de modo que faz sentido criar algum material deste tipo.

Com Smith sentado à mesa, ele disse que o BuzzFeed é uma resposta natural a um ecossistema em transformação.
“Depois que o alinhamento do mundo foi dos portais à busca e agora ao social, como fazemos para construir uma empresa de mídia para um mundo social?”, disse ele. “Uma grande parte disso envolve furos jornalísticos, matérias exclusivas e conteúdo original, mas existe também o lado dos gatinhos fofos num contexto cultural de entretenimento.”

Com o amadurecimento dos serviços da web voltados para o consumidor, os leitores se tornaram editores em miniatura, usando as plataformas de mídia social para compartilhar informações que considerem capazes de animar e informar seus amigos. O importante não é mais o chamado conteúdo fixo que mantém os leitores por perto e nem mesmo o conteúdo clicável que os leva a acessar um link; o desafio é oferecer um conteúdo com alto potencial de se espalhar pela rede.

Ao acertar o tom, os leitores funcionam como abelhas, passeando pelo site à procura de links e voltando para a rede para polinizar outras plataformas. Este comportamento se vale de algo visceral, um tipo de jogo no qual a pessoa que encontra algo delicioso ganha capital social ao compartilhar o achado.

“Lembro-me da primeira vez em que almocei com Jonah, ele falou muito a respeito da web social”, disse Smith. “Saí de lá pensando que ele tinha enchido minha cabeça de jargões, mas, gradualmente, percebi que este é na verdade o ambiente em que estou vivendo.” Antes de ir para o BuzzFeed, Smith era uma força importante no Twitter, contando com cerca de 60 mil seguidores. Ele era conhecido como um repórter que não apenas trazia furos de reportagem para o Twitter, mas também servia como uma espécie de torre retransmissora, oferecendo links para as notícias publicadas por outros.

Agora ele supervisiona um mundo editorial no qual ainda há artigos como “Os meninos mais gatos acompanhados de cães” (não confundir com “30 gatos sentados como humanos”) e “50 coisas que você nunca vai ver na vida real”, que inclui a foto de um chihuahua usando cheeseburgers como sapatos.

Esta estranha numerologia é uma atualização dos antigos truques do mercado editorial. Por alguma razão inexplicada, o acréscimo de um número no começo do nome de uma lista a torna irresistível. Faz décadas que as revistas femininas publicam matérias com títulos como “101 métodos de perder peso” e “18 segredos para conquistar o coração dele”.

Mas estas firulas com os números aparecem agora ao lado de matérias sérias a respeito de execuções hipotecárias fraudulentas. “Estou contratando pessoas que não querem desperdiçar o próprio tempo republicando o trabalho dos outros”, disse ele. “Ninguém vai se importar conosco se nos limitarmos a dar matérias quase tão boas quanto o furo que outra pessoa deu algumas horas atrás.”

Peretti já tinha uma equipe de editores que sabia como criar conteúdo comercializável e readaptá-lo a um novo formato, mas ele queria mais. O jornalismo é o melhor dos aplicativos, e suas vantagens não dependem da otimização voltada para as buscas: a rede aponta imediatamente para o seu site quando você publica um furo de reportagem. É aí que entram Smith e sua equipe de jornalistas versados na linguagem digital.

Assim, Peretti tem agora o conteúdo de alto e de baixo nível, o jornalismo e a diversão – e tudo pronto para ser compartilhado. “As pessoas estão acostumadas a receber tudo isto misturado num feed do Facebook”, disse Peretti. “Uma reportagem a respeito da Primavera Árabe aparece ao lado de uma foto do bebê de sua irmã. Por que não inventar um site cujas publicações reúnam estes dois mundos?”

Internet imperfeita

  • 29 de janeiro de 2012|
  • 19h02

Por Redação Link

A ideia de que a rede traz conhecimento, melhora a produtividade e nos conecta ao mundo está perdendo força. Para o escritor inglês, os efeitos negativos da internet vão criar um movimento de desconectados

Thais Caramico
Especial para o Estado

LONDRES – O escritor inglês Tom Rachman não é contra a tecnologia, mas acredita que há algo errado em como a utilizamos. “É como se a comida, essa maravilha, fosse descoberta agora. As pessoas, ansiosas, iam comer tudo o que vissem pela frente, até explodir. Isso é bom?”, indaga o autor do artigo Romantismo Offline, publicado no Link em setembro de 2011.

Movimento. Rachman antevê geração que rejeita os efeitos da rede. FOTO: THAIS CARAMICO/AE

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O encontro em Londres foi marcado por e-mail. Duas horas antes, Tom enviou uma mensagem de texto do celular para saber se a conversa estava de pé. Bom britânico – apesar de ter crescido no Canadá – chegou na hora e sabia qual chá ia tomar. Em um simpático café no bairro de Earl’s Court, zona oeste da cidade, foram dois bules de menta e cinquenta minutos de papo com o autor de Os Imperfeccionistas, seu livro de estreia – e já bestseller –, que chega ao Brasil neste mês pela Editora Record.

Rachman se anima ao falar que as reações anti-internet podem dar origem a um movimento. Ex-editor do International Herald Tribune, ele acredita que toda grande mudança social é correspondida por um efeito contrário. E antevê uma geração de “românticos offline”, que não apenas rejeitam as mudanças do mundo conectado, como fazem questão de alertar a sociedade sobre este mal.

O curtir do Facebook, por exemplo, banalizou os sentimentos, ao colocar as pessoas à espera da aprovação de suas escolhas para o jantar ou o destino da próxima viagem. Mas essa curtição não atende à ansiedade tremenda que se estende pela rede. E isso, com o tempo, pode resultar numa tribo desconectada. “Os offliners ainda não existem, mas conheço alguns que já se enquadram neste perfil”, diz.

Para ele, são pessoas com mais de 30 anos que irão dominar o movimento. Um grupo pequeno, uma simples revolução anti-digital que, vai saber, pode até ganhar força online. “Do mesmo jeito que se defende o uso de orgânicos, vejo um número de pessoas, num futuro próximo, fazendo críticas à tecnologia.”

Segundo Rachman, os mais jovens até pensam nisso, mas absorvem melhor a ideia de a internet mudar tudo. Para o escritor, quem está acima dos 30 ainda se surpreende com o quão diferente era a vida – e os computadores. São os efeitos que vão mexer com os saudosistas do mundo desconectado. “Eles criticarão aquilo que consideram ser a degradação da consciência humana: a capacidade cada vez menor de prestar atenção, a dificuldade de concentração”, explica. Que a nossa memória já está abalada e não mais condicionada a gravar o que vemos ou lemos, não é novidade. Rachman cita dois livros que tratam do fenômeno, A Geração Superficial (Ed. Agir), de Nicholas Carr, e A Arte e a Ciência de Lembrar de Tudo (Ed. Nova Fronteira), de Joshua Foer. “Hoje em dia, não sabemos nem nosso próprio número de telefone”, diz.

Isso não sai de sua cabeça. É comum ouvir que a tecnologia nos torna mais produtivos e nos põe em contato com o mundo, mas ele tem certeza de que nem todos pensam assim. A enciclopédia da internet e todas as suas possibilidades funcionam como uma injeção de ansiedade e trazem forte sentimento de solidão. Basta ver um grupo de amigos no bar. Sempre tem alguém que está ali, mas não está, pois está online. Ele chama isso de falta de presença.

Estar ativo nas redes sociais, muitas vezes mais preocupado com a foto que será postada do que o momento em que algo está sendo vivido, é um dos pontos sobre os quais Tom discorre. Mas o que está mesmo em questão é essa necessidade que as pessoas têm de ser reconhecidas. “O ser humano é incrivelmente sociável e essas ferramentas parecem melhorar essa vontade de se comunicar, mas, na verdade, só estimula esse desejo ainda mais. Não acredito que a rede faça você se sentir mais comunicativo. Não é uma resposta porque só gera angústia”, diz.

E assim se diz distante desta excitação digital. Aos 36 nos, ele não twitta, mas perde um tempinho lendo os jornais online e criou uma página no Facebook para divulgar o livro. E diz que a mídia exagera ao tratar a internet como o foco de toda e qualquer revolução.

Ouvir isso de alguém que foi correspondente na França, nos EUA, na Índia e na Itália é de se levar em conta. “Não é que eu não acredite em revoluções que começam no Facebook ou no Twitter. Só acho que os resultados não vêm só daí. É importante, sim, que exista um canal aberto que revele muitas coisas, principalmente quando se trata de um país em que as autoridades são as principais ou únicas fontes de distribuição de informação. Mas não venha dizer que só a internet faz isso.”

Ele também vê com desconfiança o WikiLeaks. “Muito se perde ali”, explica. “Jogar informações não é fazer jornalismo. E é difícil saber por que Julian Assange tomou as decisões que tomou, que tipo de jornalista ele é, e o que pretendia. Sinceramente, ele não me parece muito jornalista. Um veículo que está diretamente ligado à pessoa que o comanda, que o coordena? Não sei o que é política, mas acho que no final, tudo é uma questão de ética”, diz ao tentar separar informação de espionagem.

Já no final da conversa, Tom falou de como a tecnologia deslumbra e que isso está sob a autopromoção do governo do premiê britânico David Cameron, que diz querer transformar Londres em uma espécie de Vale do Silício, só porque está investindo US$ 23 milhões numa área batizada de Tech City.

Não que Tom seja contra a tecnologia e o que se ganha com ela. Ele só carrega, num discurso firme, expectativas que funcionam como uma projeção das ansiedades e das fantasias contemporâneas, como gosta de dizer. E repete: “Daqui a dez anos, as maravilhas da tecnologia terão alterado ainda mais o nosso cérebro e o nosso próprio ser, provocando uma feroz reação”, conclui.

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• Link no papel – 30/1/2012

Simplesmente funciona

  • 20 de janeiro de 2012|
  • 20h23

Por Redação Link

Com um programa simples que mantém arquivos sincronizados, Drew Houston está determinado a transformar o Dropbox no próximo Google

Jessica Guynn, do Los Angeles Times

Quatro anos atrás, Drew Houston era apenas mais um hacker esperto com a ambição de começar sua própria empresa. Ele colocava fones de ouvido para bloquear tudo, exceto o fluxo de endorfina, enquanto desenvolvia códigos noite adentro para um novo serviço que sincronizasse instantaneamente todos os arquivos de uma pessoa em todos seus aparelhos.

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Houston, guitarrista numa banda cover de rock dos anos 90 em bares e festas universitárias em Boston, apelidou o sistema de “Even Flow”, extraído de uma de suas canções favoritas do Pearl Jam. Num quadro branco em seu apartamento, em Cambridge, no Estado de Massachusetts, calculou que precisaria de muitas centenas de usuários para “não se sentir um idiota” por largar seu emprego com salário de US$ 85 mil anuais como engenheiro de software.

Hoje, Houston precisa de um software para rastrear quantas pessoas usam o serviço. O Dropbox tem mais de 50 milhões de usuários e acrescenta um a cada segundo. O crescimento da empresa é um dos mais acelerados na história do Vale do Silício.
Apple e Google o sondaram para tentar comprar o serviço. Mas Houston quer ele mesmo ser o próximo Google. E alguns dos investidores mais espertos em alta tecnologia apoiam sua visão.


O Dropbox é uma solução elegante para um problema incômodo. Com a explosão de smartphones e tablets, as pessoas têm mais dispositivos e aplicativos que nunca. Como ter acesso à versão mais recente de todo seu material – fotos, música, vídeos, arquivos – independentemente de qual aparelho estão usando e do lugar onde estão? Para milhões, a resposta tem sido o Dropbox. A cada dia, 325 milhões de arquivos são salvos por ali.

Em setembro, Houston embolsou US$ 250 milhões de sete importantes empresas de capital de risco do Vale do Silício. Essa quantia assombrosa valorizou a empresa em US$ 4 bilhões e o valor de seu patrimônio líquido – ao menos no papel – é de estimados US$ 600 milhões. E agora, seu presidente de 28 anos terá de assegurar que o Dropbox se transforme no próximo Facebook, e não no próximo MySpace.

O Dropbox enfrenta uma competição potencialmente mortal de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo e dezenas de iniciantes com pilhas de dinheiro e engenheiros de ponta. Mas ele já tem seu público – conquistado sem gastar um centavo em marketing, apenas oferecendo armazenamento grátis como incentivo para as pessoas convidarem amigos.

Proprietários de imóveis em reforma usam o serviço para vasculhar contratos e ajustar os planos de arquitetos e fornecedores. Casais que pretendem se casar trocam esboços de convites e fotos do bolo de casamento. Astrônomos carregam e compartilham imagens do céu de telescópios gigantes obtidas por todo o globo. Walter Isaacson chegou a usar o Dropbox para sua biografia best-seller Steve Jobs, apesar de a Apple ter um serviço semelhante.

Mas consumidores podem ser volúveis. O que vai acontecer quando Apple, Google e Microsoft apontarem seus grandes canhões para o Dropbox na disputa para se tornar o abrigo do material digital de todo o mundo? “É claro que o Dropbox vai ter uma competição séria não só dos grandes, mas de todo mundo”, disse Tim Bajarin, da consultoria Creative Strategies. “Eles precisam inovar para ficar à frente”. Houston sabe que não pode se dar ao luxo de descansar. E quer que o Dropbox chegue a qualquer aparelho que a pessoa use, do smartphone, câmera, TV e até o carro.

“As pessoas podem nos conhecer hoje como a pasta mágica em sua escrivaninha ou o aplicativo em seu telefone. Mas nós nos vemos construindo o sistema de arquivar da internet”, disse ele.

Novo ícone. Uma razão para as pessoas estarem apostando no Dropbox é que os aficionados por tecnologia o adotaram com entusiasmo semelhante ao destinado a produtos da Apple. E adotaram Houston, que é hoje é uma espécie de astro do rock do mundo digital, abordado por estranhos na rua e no Starbucks.

Houston, que tem o penteado de Elvis Costello e raramente abandona sua calça jeans e moletom com o logo do Dropbox, diz que sua maior curtição é espiar por cima do ombro de alguém num café e ver o logotipo da sua empresa na tela do laptop.
Na sede do Dropbox em São Francisco, ele senta-se em volta de um mar de engenheiros sob um letreiro de néon que diz “ITJUSTWORKS” (simplesmente funciona) com “just works” brilhando em azul. Sua mesa é forrada por currículos com três centímetros de espessura e sua atenção se distribui constantemente por quatro monitores de 24 polegadas.

Seus antigos colegas dizem que o foco maníaco no Dropbox fez Houston sempre atrasar o aluguel. Ele raramente aparece no seu apartamento exceto para tomar banho e dormir, preferindo ficar no escritório.

Esse é o tipo de atenção obsessivo-compulsiva ao detalhe de que Houston e sua equipe precisavam para realizar uma façanha tecnológica: fazer o Dropbox funcionar em qualquer aparelho, com qualquer sistema operacional, em qualquer navegador e qualquer país. Seus engenheiros chegaram a invadir o sistema de arquivos da Apple para fazer o ícone do Dropbox aparecer em barras de menu de usuários, um feito ousado que soprou para longe a equipe de nuvem da Apple e chamou a atenção de ninguém menos que Steve Jobs.

O próprio senhor Apple convocou Houston e seu cofundador, Arash Ferdowsi, à sede da Apple em Cupertino, Califórnia, em dezembro de 2009. Eles foram na hora e sentaram-se nervosos na sala de conferências de Jobs.

Jobs, de calça jeans e malha preta com gola rolê, fez o que mais gostava. Avisou-os de que ia atrás do mercado deles. E, num momento de cair o queixo para Houston, fez uma oferta para comprar o Dropbox. Mas Houston herdou o sangue frio de seu pai e não caiu sob o feitiço de Jobs, embora admita ter sentido um frio na barriga quando Jobs anunciou o iCloud em sua última apresentação em vida, que ameaçava engolir o Dropbox.

“Sou mais o Windows”, disse Houston com um sorriso.

Solução. Criado nos subúrbios de classe média de Boston, ele começou a brincar com computadores aos 3 anos e aprendeu a programar aos 5. E aspirava ser um empresário antes mesmo de ter idade de se barbear.

O garoto que cravou 1.600 pontos em seus SATs (exame senelhante ao Enem e é usado como seleção nas universidades) saiu do Massachusetts Institute of Technology (MIT) por um ano para começar uma empresa de cursos preparatórios online para o SAT, mas ela não foi o ponto de virada que ele procurava.

Sentado na South Station, em Boston, em novembro de 2006, Houston abriu seu laptop e percebeu que tinha deixado seu pen drive em casa. E conta que fez então o que qualquer engenheiro de respeito faria: passou a viagem de ônibus de quatro horas a Manhattan escrevendo códigos para nunca mais se encontrar sem os seus arquivos.

Houston associou-se a Ferdowsi, aluno de ciência da computação no MIT, filho de refugiados iranianos do Kansas. Eles se candidataram e obtiveram um cobiçado local nas incubadora Y Combinator no Vale do Silício, plataforma de lançamento de muitas empresas do Vale.

Um dia, quando eles voltaram a seu carro alugado e descobriram que seus laptops tinham sido roubados, mas todo seu trabalho estava preservado no Dropbox, eles souberam que estavam no caminho certo. Ferdowsi largou o MIT um semestre antes de se formar.

Com US$ 15 mil da Y Combinator, eles passaram quatro meses escrevendo códigos 15 horas por dia num apartamento abarrotado. Em setembro de 2007, eles se mudaram para um prédio de apartamentos em São Francisco cheio de empresas da Y Combinator, que Houston apelidou de “Ilha de Ellis para empresas iniciantes” (em referência à ilha de Nova York que era o ponto de chegada de imigrantes nos EUA). Contrataram os engenheiros mais hábeis que puderam encontrar, a maioria alunos do MIT, e começaram o negócio.

A existência do Dropbox chegou aos ouvidos de Michael Moritz, investidor famoso por bancar tanto Apple quanto Google no início. Sua empresa, a Sequoia Capital, deu um cheque para o Dropbox e pediu instruções para a transferência eletrônica.
Houston e Ferdowsi se entreolharam. Foram até a agência do banco perto de seu apartamento e observaram os caixas de um lado e os assentos de couro dos gerentes de contas do outro. Foram até os assentos de couro e perguntaram se havia um limite para a quantia que uma conta bancária podia conter, e depois assistiram, com olhos esbugalhados, seu saldo saltar de US$ 60 para US$ 1,2 milhão.

Em março de 2008, eles postaram um vídeo de demonstração no site de troca de links Digg e obtiveram 70 mil usuários da noite para o dia. Seis meses depois do lançamento, já tinham 100 mil usuários. Depois vieram os milhões. E outros milhões de dólares de investidores. “O Dropbox provoca um momento de reconhecimento imediato em todos que o usam”, explica Ted Schadler, analista da Forrester Research.

O serviço já se tornou lucrativo e está ganhando dinheiro (Houston só não diz quanto). A cada dia, milhares de usuários esgotam seus 2 gigabytes de armazenamento gratuito no Dropbox e aumentam para 50 gigas por US$ 10 mensais ou 100 gigas por US$ 20 mensais.

No próximo mês, o Dropbox vai se mudar para um arejado espaço de 8 mil metros quadrados com vista para a baía e terá um café e uma academia próprios. Terá espaço suficiente para crescer de menos de 100 para algumas centenas de funcionários durante o ano. É aí que se determinará o futuro do Dropbox. Não admira que os cabelos de Houston estejam prematuramente grisalhos.

Houston diz que continua saindo com amigos, que são colegas e também empresários. Doze deles alugaram apartamentos no mesmo arranha-céu em São Francisco. E ele ainda arranja tempo para a música. Após as reuniões os diretores nas “Whiskey Friday” (sexta-feira com uísque liberado), Houston pega o velho violão acústico que foi do pai e faz sessões de improviso com outros músicos que também trabalham na empresa.

Ele faz uma expressão saudosa ao lembrar os primeiros dias do Dropbox quando tudo que tinha para fazer era tomar um chocolate gelado e debruçar-se sobre o teclado durante toda a noite. “Você só precisava sentar, criar alguma coisa, fazer ela funcionar e seguir para a coisa seguinte”, disse Houston. “A alegria é menos imediata quando as coisas ficam maiores.”

/TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* Atualização (23/1 – 16h30) : Uma versão anterior do texto dizia incorretamente que o valor ‘de sua rede própria’ (de Drew Houston) é US$ 600 milhões. O termo correto é ‘patrimônio líquido’. O texto foi corrigido.

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• Link no papel 23/01/2012

Simples como 2+2=4

  • 11 de dezembro de 2011|
  • 19h58

Por Redação Link

Filho de mãe solteira imigrante se apaixona pela matemática, frequenta as melhores universidades do país e propõe método de ensino usando YouTube e um programa para que alunos entendam a matéria tão temida

Por Somini Sengupta, The New York Times

Jesse Roe, professor de matemática em uma escola pública de San José (Califórnia) tem uma espécie de olho mágico para vasculhar o cérebro de seus 38 alunos. Ele pode ver que uma aluna resolve muito rapidamente os exercícios de geometria, enquanto um rapaz está entretido com a lição de equações longas.

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O trabalho de cada aluno aparece no laptop de Roe. O software usado é criação de Salman Kahn, um gênio da matemática de 35 anos que estudou nas melhores universidades do país. Filho de uma imigrante mãe solteira, Khan virou sensação online com a Khan Academy e suas aulas de ciências no YouTube, com 3,5 milhões de visitas por mês. Agora, ele quer integrar as aulas digitais ao currículo escolar – uma proposta mais ambiciosa.

Neste semestre, pelo menos 36 escolas nos EUA estão pondo em prática o experimento de Khan, que consiste em dividir a tarefa do ensino entre homem e máquina, e combina as aulas dadas pelo professor em palestras e exercícios via computador.
As aulas e as ferramentas são grátis – disponíveis para todos que têm acesso a uma conexão razoavelmente rápida. “Nosso objetivo é dar instrumentos às pessoas que precisam deles”, disse Khan. “Vocês poderiam perguntar: ‘Por que precisa ser de graça?’ Mas, por outro lado, por que não deveria ser de graça?”.

Por enquanto, a pequena equipe de Khan tem subsídio de mais de US$ 16,5 milhões oferecido por doadores como Bill Gates, Google e Fundação da Comunidade do Vale do Silício.

É muito cedo para saber se a Khan Academy é realmente inovadora em termos de aprendizado. Um estudo realizado neste ano entre estudantes de Oakland, Califórnia, concluiu que as crianças que não acompanhavam a classe em matemática, conseguiram tirar o atraso usando o software ou com aulas suplementares em pequenos grupos.

Os críticos de Khan dizem que o modelo é uma volta ao aprendizado normal com verniz de tecnologia, e que seria melhor ajudar as crianças a destrinchar um conceito do que enfiá-lo na sua cabeça. “Em vez de oferecer aos alunos uma palestra melhor, vamos procurar com que tenham algo melhor do que uma palestra”, escreveu Frank Noschese, professor de Física, em seu blog.

Seus defensores, destacam os resultados. “O que Khan representa é um modelo baseado no desejo de todos de ter uma experiência de aprendizado que seja pessoal e de tê-la rapidamente à sua disposição”, disse Jim Shelton, vice-secretário assistente de inovação e aperfeiçoamento do Departamento de Educação.

Khan cresceu num bairro de Nova Orleans, foi criado por sua mãe, que veio de Bangladesh, e frequentou escolas onde, lembra, alguns colegas tinham acabado de sair da cadeia enquanto outros iriam para as principais universidades.

A matemática virou sua paixão. Mergulhou nos livros e ingressou no clube de matemática. Para ele, dar aula de matemática era como contar uma história. As palestras pelo YouTube começaram há seis anos, quando Khan inventou uma maneira de ajudar um primo a entender a matemática no ensino médio. Elas têm dez minutos no geral e são muito simples. Os espectadores ouvem Khan falar, em seu tom de irmão mais velho. Mas nunca veem seu rosto, só rabiscos na tela.

Hoje, o site da Khan Academy tem 2.700 vídeos educativos e uma enorme quantidade de exercícios. Os professores têm um painel analítico que exibe uma imagem de conjunto de como a classe está se saindo e um mapa detalhado da compreensão de cada estudante. Em outras palavras, um olho mágico.

De volta à aula do professor Roe. Diante do quadro, na extremidade da sala, ele explica a ordem das operações – que dita a sequência em que devem ser feitos os cálculos numa equação longa. Em seguida, os estudantes se voltam a seus laptops para trabalhar.

No fundo da classe, duas meninas de fones de ouvido olham um dos vídeos de Khan. Um aluno demonstra dificuldade para fazer alguns exercícios e não conseguia prestar muita atenção, até que Roe se aproximou dele e o incentivou. A classe estava silenciosa, com exceção das exclamações de alegria quando alguém conseguia solucionar os problemas. “Seu cérebro ainda está doendo?”, uma das meninas perguntou à colega.

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Link no papel – 12/12/2011

O Occupy de São Paulo

  • 13 de novembro de 2011|
  • 18h35

Por Murilo Roncolato

‘Link’ passa noite entre acampados do Viaduto do Chá, filial do Occupy Wall Street na cidade

Por falta de espaço, barracas foram montadas fora do Viaduto. FOTO: AE

SÃO PAULO – Às sete da manhã de quinta-feira, o responsável pela limpeza da Praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, recomeçava a espetar lascas de plásticos e papéis do jardim. Alexandre se acostumou às quase 100 barracas sob o Viaduto do Chá e às dezenas de placas e faixas com os dizeres “indignação não é suficiente” ou “somos muitos, não temos medo”. Ele via a cena há 26 dias e ainda não entendia o que era tudo aquilo. “Para mim é só ‘juntação’ de lixo. Mas parece que é um protesto, uma revolução, uma tal de democracia não-sei-o-quê…”

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No dia 15 do mês passado, pessoas de lugares variados se uniram para atender a um chamado mundial convocado via internet – sendo Facebook a principal ferramenta. A edição paulistana do movimento era influenciada pelos “indignados” da Espanha e pelo movimento de Nova York, o Occupy Wall Street. Na esteira, brotaram no mundo mais de mil outros Occupy espalhados em mais de 80 países. No Brasil não foi diferente. Por aqui nasceram “filiais” no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Natal, Campinas e São Paulo.

Nos Estados Unidos, o slogan do movimento ecoou como um meme na internet: “Nós somos os 99%”. A frase faz referência à distribuição de riqueza naquele país. Em sites como 4Chan, Reddit e Tumblr há fotos de pessoas, em geral desempregadas, segurando um papel com um resumo da suas histórias de desgostos e a frase “We are the 99%” ao pé da página.

A estratégia de espalhar uma ideia por meio de meme na internet contagiou os demais movimentos. Em São Paulo, por exemplo, o grupo faz uso de diversas ferramentas de divulgação online: Facebook, Twitter, blog, Livestream e Flickr. O canal do YouTube do Acampa Sampa, como eram chamados os ocupantes de São Paulo no início, conta com mais de 50 vídeos.

A comunicação, no entanto, sofre com as dificuldades de infraestrutura tecnológica típicas do Brasil, onde, ao contrário de Nova York, smartphones são mais caros e a rede 3G não sintoniza direito. O acampamento sob o Viaduto do Chá – entre a Prefeitura e um shopping – só tem energia quando há gasolina para alimentar o pequeno gerador. Os ocupantes possuem poucos laptops e celulares e é muito raro ver algum modem 3G.
Por causa das dificuldades, a divulgação do movimento e o diálogo com outras ocupações pelo mundo depende de amigos que moram nas redondezas e têm conexão à internet – sendo chamados de “bases de apoio”. Brasileiros ligados ao grupo Anonymous costumam fazer a ponte com os acampamentos internacionais, enviando relatórios da situação na cidade.

Causa. Os princípios do grupo são claros: são contra a representação política por partidos e acreditam na autogestão, sem hierarquia ou líderes, características da organização via internet. Já as reivindicações estabelecidas em um manifesto vão desde transporte público gratuito até exigências como a saída de Ricardo Teixeira da CBF, descriminalização do aborto, e o fim da homofobia, do racismo, do machismo e do uso de armas por policiais em manifestações populares.

“Isso tem que ser visto como um laboratório da democracia real. Se você perguntar a dez pessoas por que estão aqui você vai ouvir dez respostas diferentes”, diz a acampada Priscila Oliveira.

Há um mês, o grupo foi obrigado a acampar debaixo do Viaduto do Chá por causa da chuva que caiu sobre a manifestação. Após uma semana dormindo de forma improvisada sob o olhar atento da Guarda Municipal, os manifestantes decidiram montar as barracas e foram notificados de que aquilo era proibido, pois se caracterizaria como ocupação de patrimônio público. Não ligaram e também nunca foram retirados dali. Mudaram o nome de Acampa Sampa para Ocupa Sampa e seguem atraindo novos “indignados”.

Na quarta-feira – véspera da noite que o Link acampou com os manifestantes –, o grupo discutiu se participaria da passeata dos estudantes da Universidade de São Paulo (USP). Ambas manifestações foram confundidas por terem surgido na mesma época. O Ocupa faz questão de se diferenciar, já que as ações do grupo da USP são “aparelhadas por partidos”, como dizem.

O maior desafio dos ocupantes talvez seja lidar com as pessoas que já viviam naquele espaço antes deles: os moradores de rua, alguns sob efeito de drogas.

Mas foram eles que ensinaram como suportar o frio e como ligar o gerador de energia. “Li o manual e deu certo”, diz Alberto Roberto, o “Cazuza”, morador de rua que aprendeu sozinho a mexer em equipamentos de som e, hoje, é responsável pela rádio do acampamento. “O conhecimento liberta, está na Bíblia: ‘e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’, não é?”, diz.

Devagar, o dia amanhece e o barulho dos carros e ônibus na avenida Nove de Julho já ecoa pelo Viaduto. Pedestres, rumo ao trabalho, cruzam o acampamento se desviando das barracas com olhares de curiosidade e medo. Na cozinha, a equipe de Catarina Barbosa esquenta a água do café. Ela divide seu tempo ali com seu trabalho de chef em cozinhas finas. As luzes do Viaduto se apagam e começa mais um dia de aulas públicas, assembleias, oficinas de meditação e “facebookaços”.

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Link no papel – 14/11/2011
Ocupando Wall Street e o resto do mundo

Cool não, relevante

  • 6 de novembro de 2011|
  • 18h58

Por Camilo Rocha

Maior referência de música online, o site Pitchfork só cresce sem fazer concessões ou usar truques para inflar audiência

Nos últimos dez anos, a internet virou o cenário musical de cabeça para baixo. Essa história já foi contada em verso e prosa: a indústria fonográfica se esfarelou, artistas pararam de contar com vendas de discos como modo de ganhar dinheiro e passamos a consumir grandes quantidades de música em qualquer lugar e sem pagar nada por isso.

Um subproduto desse cataclismo que se abateu sobre um dos principais setores da indústria do entretenimento foi a perda de poder da crítica musical tradicional. Se antes, jornalistas e revistas especializadas estavam sempre na vanguarda das novidades e podiam influenciar o sucesso de um artista, com a web eles passaram a competir com uma série de novos canais, como vazamentos antecipados de discos, blogs de MP3, sites independentes, comunidades, fóruns de discussão e todo tipo de mídia social.


Natural. “É difícil saber em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança cresceu de forma orgânica”

E o mais importante desses novos sites é o norte-americano Pitchfork. Fundado em Minneapolis, em 1995, por Ryan Schreiber, então um estudante do ensino médio, o site cresceu e prosperou. A tal ponto que durante a década passada, se tornou a referência número um em jornalismo musical da internet se você gosta de rock independente e música de caráter mais alternativo.

Ágil, ligado e ousado, o Pitchfork ofuscou concorrentes de outras gerações como NME, Spin e Rolling Stone (em suas versões online). Numa era de congestionamento de fontes, o Pitchfork conseguiu se impor como um filtro com credibilidade.

“Na internet, todo mundo tem espaço para falar”, disse ao Link o presidente do Pitchfork, Chris Kaskie. “Eu posso ter um blog, você pode ter um blog, o problema é apenas que há tantos lugares que fica difícil saber onde ir, como ir, em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança que nossos leitores têm na gente cresceu de maneira orgânica, eles querem saber o que falamos sobre as coisas. Eles não precisam necessariamente concordar com nossa opinião, mas o que dissemos virou parte da sua experiência musical.”

Kaskie acabara de palestrar sobre a experiência e sucesso do Pitchfork na Amsterdam Dance Event, a maior conferência mundial da música eletrônica hoje. Nada de estranho aí. Um dos segredos do sucesso do Pitchfork, em sintonia com os playlists ecléticos dos fãs de música de hoje, é sua abrangência de estilos. O site pode ter nascido no berçário do indie rock, mas ele cobre eletrônica, hip hop, country, metal, afro beat, jazz, entre muitas outras coisas. Um dos raros álbuns a levar nota dez numa crítica do site foi My Beautiful Dark Twisted Fantasy, do rapper Kanye West, de 2010.

“É impossível cobrir tudo e a tendência é cair em nichos, em ter veículos especializados para cada coisa.” Kaskie acredita em fugir da setorização. “Estamos sempre procurando maneiras de fazer tudo ser relevante, não importa se é country ou dance ou rap, o Pitchfork acha que tudo tem que ser tratado da mesma maneira, se tiver relevância ou for bom. Se for uma porcaria, quem se importa, melhor ignorar.”

Para manter essa abrangência, o site tem uma produção impressionante. A média de notas é de 15 por dia. Até o dia 3 de novembro desse ano, 1.046 resenhas de álbuns haviam sido publicadas. O esforço tem compensado. Em setembro, Kaskie conta que um novo patamar de audiência foi atingido: 4 milhões de visitantes únicos. Segundo o executivo, fruto de um conteúdo que preza sempre pela qualidade.

“Ignoramos estratégias para turbinar a audiência que não sejam criar bom conteúdo. Queremos criar uma boa galeria de fotos, mas de uma maneira que não seja invasiva. O que se costuma fazer por aí é que você clica na página e há uma nova impressão de publicidade (medida de contagem de audiência). Não é assim que operamos porque isso é muito irritante. Também não ficamos pensando ‘Como vamos fazer para ter leitores mais jovens ou mais velhos?’ O que queremos mesmo são fãs de música de todas as idades. Pode soar idealista, mas nossos números mostram que estamos acertando.”

Na palestra que deu em Amsterdã, Kaskie disse não se importar em ser cool, apenas relevante. Mas a música ainda é relevante hoje em dia, numa época em que parece que ela sai de todos lugares, sem nem ter que precisar pagar para ouvi-la? “Acho que a música continua sendo relevante como sempre foi”, explica.

“A diferença é que as pessoas a priorizam de modo diferente”, continua o executivo. “Ela está a caminho de se tornar outra vez algo que tem menos a ver com água da torneira. Isso obviamente não se aplica ao Top 40, à esfera mais pop. Mas em festivais e shows, as pessoas estão se envolvendo com música em grande escala agora, mais do que nunca. Considerando a quantidade de música que tem por aí, mais e mais pessoas querem descobrir mais música, conhecer coisas novas e ser o primeiro entre seus amigos a saber.”

Para Kaskie, os que têm criticado a falta de impacto ou relevância da música de hoje, como o crítico Simon Reynolds em seu livro Retromania, precisam sair mais de casa. E lembrar que, conforme a idade avança, ficamos mais exigentes e menos empolgados.

“Por exemplo, tem gente que começou a trabalhar para nós quando ainda estava no colegial. Nessa época, quando falavam sobre o Animal Collective, sobre a primeira vez que conheceram a banda, isso era a coisa mais significativa na história da música para eles.”

Kaskie admite que está mais difícil fazer as pessoas lerem sobre música. “Quanto mais jovem o público, mais querem só escutar o MP3 e depois passar para outra coisa. A ingestão e vômito de música vem acontecendo num ritmo tão rápido, que muita gente não vê a necessidade de ler sobre aquilo. O que é uma pena, pois é uma atitude preguiçosa e passiva.”

O Pitchfork faz questão de remar contra essa maré. “Não é o nosso jogo. Gostamos de ler sobre nossas coisas. Mesmo que seja só um MP3, queremos escrever sobre ele, mostrar contexto, explicar.”

E conclui: “Nossa essência é a crítica musical. Foi assim que construímos nossa reputação, conseguimos nosso público. Tudo que fazemos deve incluir abrangência jornalística e ter uma opinião.”

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Link no papel – 07/11/2011

A emenda que ficou melhor que o soneto

  • 30 de outubro de 2011|
  • 19h45

Por Tatiana de Mello Dias

Cliente de banco usa verso para pedir informação no Facebook; banco responde seguindo a rima; o ‘Link’ conta a história do site de acordo com a métrica e leitores  comentam o ocorrido no ritmo lírico de estrofes metrificadas

Cuidar de mídias sociais,
essa é sua função.
Tábata Cury é seu nome.
São cinco anos de dedicação.

Ela trabalha no Bradesco,
monitora as redes sociais.
E, para perguntas de clientes,
sempre dava respostas banais.

Eis que surgiu Mauro Júnior,
cliente assaz atrevido,
que decidiu investir em rimas
para falar de um cartão perdido.

O Facebook foi a plataforma
de vinte e quatro versos rimados.
Quando a equipe do Bradesco leu,
todos ficaram entusiasmados.

Tábata pensou na resposta-padrão.
Ela nunca havia escrito um poema…
Tinha de dizer o arroz-com-feijão…
E ficou às voltas com esse dilema.

O importante, com urgência,
era explicar com primazia:
O cliente deveria ir à agência
e esperar por sete dias.

Mas o padrão não satisfazia
e Tábata não foi burocrata:
contaminada pela poesia,
quis mudar a resposta chata.

Decidiu também ser poeta.
“Demorou cinco minutos, acho.”
E definiu logo uma meta:
“Rima em cima, rima embaixo”.

A equipe leu e achou graça.
Não teve um que não riu.
Publicaram a resposta rimada,
gerando um surto de poesia sutil.

Veja você que bela inversão,
rara, imprevisível e incomum:
um banco, preste bem atenção,
fazendo versos sem lucro algum.

Sem lucro de dinheiro
– é sempre bom frisar –
já que o verso matreiro
fez a fama do banco bombar.

A página no Feice ficou popular.
Mais três mil pessoas a curtiram.
É um número a se considerar,
já que aos então 11 mil se uniram.

Dali para frente, toda reclamação
ganhou forma de poesia.
Os clientes, sem perder a razão,
preferiram o lirismo à azia.

No site, o Link narrou a história
e seguiu os versos bancários.
E o lirismo confirmou sua vitória
em dezenas de comentários.

LEITORES DO LINK

“Mas que pedido criativo
Educado e nada hostil
Com o Itaú eu imagino
Que a rima não seria gentil”
Marcelo

“Hoje acordei mais cedo
Aproveitar o belo dia
Eis que sou surpreendido
Com essa historinha, que alegria
Feliz o que faz da vida
Não uma dura lida
A conta em prosa ou versos
Faz dela poesia”
Fabricio Cunha

“Então, eu até que gostei
A idéia foi bem utilizada
Mesmo sem ter o que falar
Consegui essa rima do nada”
Daniel Silva

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‘Link’ no papel – 31/10/2011

‘I’m fucking awesome’

  • 23 de outubro de 2011|
  • 18h45

Por Alexandre Matias

A criadora do principal evento de cultura da internet do Brasil comemora os cinco anos do YouPix levando o festival para os Estados Unidos nesta segunda

“Um safári na cultura de internet brasileira e nos memes do Brasil.” Assim é o subtítulo do primeiro YouPix realizado fora de São Paulo. O festival, que já pode ser considerado o maior evento sobre a cultura de internet do Brasil, desembarca hoje em São Francisco, nos EUA, para apresentar a cultura digital do País ao público californiano. E quem lidera o tal safári é a organizadora e curadora do festival, Bia Granja.

‘A coisa mais legal deste mundo memético é o poder de construir uma nova cultura’, diz Bia Granja, curadora do YouTube. FOTO: ALEX SILVA/AE

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“A web brasileira é uma das mais influentes e ativas no mundo”, explica Bia. “Como nós somos um evento que discute e celebra essa web, achamos que o YouPix tem um potencial imenso para se tornar algo mundial também. Somos o terceiro maior mercado de computadores no mundo, o que mais cresce no LinkedIn e no Facebook, estamos entre os três maiores países que usam o Google+ e temos a maior penetração no Twitter. Esse crescimento nas redes sociais e a inclusão digital têm feito com que o Brasil tenha se tornado cada vez mais influente na rede. E com a crise absurda rolando na Europa e nos EUA, todos os olhos estão focados no Brasil.”

Bia criou o YouPix há cinco anos, em São Paulo, fazendo pequenos debates na antiga Casa Gafanhoto, em Pinheiros, e aos poucos foi vendo o festival crescer e primeiro migrar para o Museu da Imagem do Som, nos Jardins, para, finalmente, chegar ao Porão das Artes, no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, onde realizou suas duas edições em 2011.

Nesses cinco anos, o festival conseguiu se livrar do ranço do nerd do século 20 – aquele antissocial, imerso em códigos de programação e aparelhos – para consagrar um novo tipo de nerd. O público-alvo do YouPix também passa o dia inteiro na frente do computador – atualizando o próprio blog ou frequentando redes sociais –, mas ao mesmo tempo sai à noite, tem amigos de carne e osso, fala besteira e dá vexame. E assim tornou-se uma verdadeira meca para a geração web 2.0 brasileira.

O YouPix também consagrou novos ídolos para este público em formação. Conseguiu reunir blogueiros célebres para serem curadores de áreas específicas (como Edney “Interney” Souza, Rosana Herrman e os caras do Jovem Nerd), facilitou a concretização da carreira de humoristas que usaram o YouTube para divulgar seus trabalhos (como Rafinha Bastos e PC Siqueira) e também trouxe para o Brasil protagonistas de alguns dos principais memes da história da internet, como o hippie do vídeo Double Rainbow, o garoto do vídeo David After Dentist, o criador do agregador de blogs de MP3 Hype Machine Anthony Volodkin e o criador do fórum 4chan, Chistopher “Moot” Poole.

Ela explica como será o evento em São Francisco, que acontecerá na Barrel House. “Eu vou abrir fazendo um passeio pelos memes e virais mais significativos e, a partir deles, tentar explicar algumas características do povo brasileiro em si. Depois de mim, a Rosana Hermann vai fazer uma apresentação mais profunda sobre o modus operandi do brasileiro na internet – o que nos motiva, o que nos define, etc. Depois teremos uma sessão meio maluca, coordenada pelo Jamie Wilkinson, que é um dos criadores do site Know Your Meme. E depois disso, vamos fechar a noite tomando Facebook Shots, um drink que fizemos especialmente para o evento, usando cachaça, e comeremos paçoquinha.”

O mais difícil de explicar a cultura da internet brasileira para estrangeiros é, segundo ela, a barreira da língua. “Vou mostrar, por exemplo, a Sonia do IuTubiu – que é intuitivo e não precisa ser traduzido –, o Lucas Fama Pop, alguns vlogueiros, a Stephany do Cross Fox, Jeremias Muito Louco e o funk ‘Sou Foda’, que traduzimos para o inglês (leia a versão abaixo da fotografia)”, explica.

Para ela, “Sou Foda”, hit do Bonde dos Avassaladores, que ela trouxe para a edição do primeiro semestre do evento em São Paulo, é o grande meme do ano. Mas faz uma ressalva e diz que o principal meme de 2011, na verdade, foi a consolidação deste termo na internet brasileira, substituindo descrições anteriores, como “modinha de internet” ou “vídeo viral”. E mostra a acentuada curva das buscas em relação ao termo em português, que praticamente inexistia até 2009, torna-se crescente em 2010 para, finalmente, subir de forma bem acentuada este ano.

Ela reforça que o humor é só a isca da transformação que está acontecendo. “Acho que a coisa mais legal deste mundo memético é que ele é a materialização dos conceito de democracia, colaboração e liberdade de expressão trazidos pela web. Sem participação das pessoas, ele não aconteceria. Isso é o melhor: o poder de construir uma nova cultura.”

NA ONU

Não é só o YouPix que representa a web brasileira nos EUA. Na sexta-feira, o governo brasileiro apresentou a experiência de elaboração do Marco Civil da Internet em um painel na 66ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. “Entre os segmentos que têm discutido liberdade de expressão e direitos na internet, o Marco Civil tem tido boa repercussão”, explica Guilherme Almeida, assessor da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça. O convite partiu da Missão da Suécia na ONU e da Open Society Foundation, que começaram a prestar atenção na legislação brasileira com a tradução do texto para o inglês.

“Há uma discussão sobre incluir o direito de acesso como um elemento do direito à liberdade de expressão. E no mundo todo faltam exemplos destas práticas. Ainda mais quando países do dito ‘primeiro mundo’ frequentemente têm iniciativas para cercear a divulgação de conteúdos”, explica. Ele falou no painel Internet Access for All? (Acesso à Internet para todos?) tanto sobre o processo de elaboração da lei (feita em consulta pública em forma de blog) quanto em relação aos resultados (um projeto de lei que regula direitos como liberdade, acesso e neutralidade). “Nos colocamos à disposição para cooperar. Há um consenso de que há caminhos necessários de regulação e faltam exemplos de boas práticas”, disse.

O texto foi discutido em um site construído com a plataforma WordPress. Os participantes apresentaram pontos e discutiram os temas horizontalmente. Os debates serviram como base para a elaboração do anteprojeto de lei, feito pelo próprio Ministério da Justiça. O texto ficou na Presidência da República até meados deste ano, quando foi apresentado à Câmara, onde agora está parado./ TATIANA DE MELLO DIAS

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• ‘Link’ no papel – 24/10/2011

A menina dos olhos

  • 9 de outubro de 2011|
  • 20h00

Por Tatiana de Mello Dias

Ela faz cálculos complicados em supercomputadores para desvendar as propriedades do grafeno, material considerado o futuro da indústria eletrônica e que deverá ser aplicado em chips menores e mais rápidos, telas touchscreen e internet ultrarrápida

“Eu gosto muito do que eu faço. Eu acho que as mulheres estão precisando descobrir que há espaço para elas também na física”. FOTO: Divulgação/Unicamp

Ana Luiza Pereira estava terminando seu doutorado em nanociências quando ouviu falar pela primeira vez do grafeno. Era 2004. O material havia acabado de ser descoberto e casava perfeitamente com o que ela pesquisava: sistemas de base de elétrons em duas dimensões. “Foi uma alegria imensa”, descreve. E assim ela se debruçou sobre o material que ainda era desconhecido, mas que hoje é a menina dos olhos da indústria eletrônica.

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Embora as pesquisas estejam ainda no início, já se sabe que o grafeno tem potencial para ser o responsável pelo desenvolvimento da eletrônica daqui para a frente. Ele é visto como provável substituto do silício, e pode ajudar no desenvolvimento de itens que vão de uma tela sensível ao toque melhorada a uma rede de internet ultrarrápida.

O grafeno, explica Ana Luiza, “tem propriedades químicas bastante diferentes das de outros materiais já conhecidos”. Em primeiro lugar, ele é um excelente condutor de eletricidade. “Ele conduz com uma velocidade muito alta, tem uma mobilidade muito elevada. É um excelente condutor tanto de eletricidade quanto de calor, então é um ótimo material para ser usado em dispositivos eletrônicos.”

Além disso, é o material mais impermeável que existe e é extremamente forte – 100 vezes mais do que o aço. O prêmio Nobel de física de 2010 foi para Andre Geim e Konstantin Novoselov, pesquisadores que estudam as propriedades do grafeno.

Colmeia de uma linha. Visto de perto, o grafeno nada mais é do que uma estrutura plana de átomos de carbono organizados em forma de colmeia. Cada nó é um átomo de grafeno. Só que a simplicidade em sua estrutura esconde um material com alto potencial para a indústria.

Sua estrutura é praticamente bidimensional – tem apenas a altura de um átomo. Por isso, é transparente, flexível e pode ser aplicado em chips minúsculos. Muito menores do que o silício. O material que até hoje foi o responsável pela criação de chips menores e mais potentes está chegando ao limite do processo de miniaturização.

Dentro da Lei de Moore (que prevê o desenvolvimento de hardwares), a capacidade dos chips dobra a cada dois anos pelo mesmo custo. Se a lei se mantiver (e está sendo cumprida desde a década de 60, quando o então presidente da Intel, Gordon Moore, criou o modelo), em quatro ou cinco anos o silício já não vai mais dar conta da capacidade dos processadores a um tamanho e custo reduzido.

Representação do grafeno. FOTO: Wikimedia Commons

A solução pode ser o grafeno.

“Já se falava muito desse limite e dessa necessidade de substituição, por não se conseguir reduzir mais do tamanho do silício. Daqui a poucos anos se chegaria ao limite em que não se conseguiria mais reduzir o tamanho dos componentes eletrônicos. E com o grafeno seria possível começar uma nova escala, bem menor”, diz Ana Luiza.

O que está mais evoluído na parte de aplicação, porém, é o uso do grafeno em telas touchscreen. “Ele é maleável, resistente, não rompe as ligações”, explica a pesquisadora. Por isso, permite criar telas sensíveis ao toque com a espessura de uma folha de papel.

A aplicação mais recente descoberta é para a criação de uma internet bem mais veloz. Pensava-se que o grafeno não era bom para isso porque o material, praticamente transparente, não absorve luz. Mas os mesmos pesquisadores que ganharam o Nobel descobriram que misturar o grafeno com nanopartículas metálicas faz que ele se torne um excelente condutor de luz. “Ele ficou mais rápido do que a fibra ótica que é usada hoje em dia. Já se fala em internet ultrarrápida movida a grafeno”, afirma Ana Luiza.

Equipes de várias empresas já estão debruçadas no estudo do material. A IBM apresentou, no ano passado, um transistor feito de grafeno. Um grupo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) já havia feito um chip do tipo em 2009, mas a IBM ainda bateu o recorde de velocidade – o chip operou a 100 gigahertz. Estima-se que um processador feito de grafeno possa chegar à velocidade de até 500 GHz. Um chip de silício só iria até 5 GHz.

Ainda não dá para especular, porém, quando o grafeno estará presente em aparelhos comuns. Ana Luiza diz que é possível que a nova geração de eletrônicos já venha baseada no grafeno. “Não dá para dizer que no ano que vem estarão nas lojas, mas sim em menos de 50 anos.”

A pesquisadora de 35 anos é uma das poucas mulheres na área. “Eu gostaria de dizer que, enquanto mulher, eu gosto muito do que eu faço, eu acho muito interessante.”

Ela diz não entender por que, historicamente, as mulheres deixam de lado as ciências exatas.
“Dentro da física há tantas áreas, tem gente que gosta de laboratório, outros gostam de simulações em computadores, outros teoria mesmo, na caneta e no papel. Há tantos experimentos interessantes, em contato com as fronteiras do conhecimento.”

Ana faz simulações computacionais sobre características do grafeno – ela estuda seus defeitos (quando, por exemplo, a superfície tem alguma irregularidade ou falta um átomo na colmeia) e como isso reflete nas propriedades do material.

Ela está estudando, por exemplo, como o grafeno reage a essas imperfeições – ele continua um excelente condutor quando tem um átomo faltando ou está exposto a um campo magnético?

A investigação da pesquisadora, professora da Unicamp, deu a ela o prêmio de Mulheres na Ciência. “Nada é perfeito. Sempre há algum tipo de desordem. Dá para entender melhor algumas propriedades quando você considera as imperfeições”, ensina, numa máxima que vale para além do mundo nanométrico que ela estuda.

POTENCIAL

Do grafite | O grafeno foi descrito pela primeira vez em 1987 – foi o nome dado para uma das camadas do grafite. Foi só em 2004, porém, que os cientistas conseguiram separar e isolar o material. Andre Geim e Kostya Novoselov, da Universidade de Manchester, isolaram uma finíssima camada de grafeno (que tem a espessura um átomo) e a isolaram em uma base de silício, em um processo chamado de “técnica de fita adesiva”. Foram eles também que, ao adicionar nanoestruturas metálicas ao grafeno, notaram que cria-se um excelente condutor de luz – daí veio a possível aplicação em redes ultrarrápidas.

Nobel | Os dois pesquisadores receberam o prêmio Nobel de Física em 2010 por suas pesquisas.

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