Em toda parte
- 5 de agosto de 2012|
- 19h00
Por Murilo Roncolato
O uso de programas e sistemas de código aberto já é difundido e começa a abrir espaço para negócios que têm como base o software livre
PORTO ALEGRE – Durante quatro dias programadores, empresas de tecnologia e representantes do governo se reuniram em Porto Alegre (RS) para discutir os rumos das plataformas abertas no País, durante o Fórum Internacional do Software Livre (Fisl). O modelo de negócio que prevê o acesso irrestrito aos códigos de programação de softwares amadureceu e hoje não é apenas uma boa opção para o setor público, mas também para quem quer trabalhar na iniciativa privada.

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A prova disso é que a 13ª edição do Fisl teve, pela primeira vez, uma rodada de negócios entre empresas e desenvolvedores. A novidade mostra que é possível fazer dinheiro sem vender licença de software, como o Windows ou o Office.
A empresa Dextra é um dos muitos exemplos. “Não acho que softwares da Microsoft sejam ‘do mal’. É uma opção”, diz seu diretor de tecnologia, Bill Coutinho. “Mas software proprietário tende a amarrar o cliente e, para nós, a opção livre é mais interessante.”
Rodolfo Gobbi, diretor da 4Linux, que presta consultoria, dá cursos e suporte a soluções livres, aponta outro ponto. “Há a vantagem de formar profissionais melhores. Quem vem do software livre e aprendeu o que é sistema operacional no Linux, evolui mais rápido.”
A receita é indireta e vem dos serviços prestados depois. É um modelo mais difícil, mas que tem suas vantagens, como diz o administrador do Portal Android, Alexandre Antunes. “Tudo que já foi feito e pensado, não precisa ser feito e pensado novamente, funciona como um ciclo incremental.”
O peso dos governos é crucial pois é ele que decide se, nas escolas, os alunos aprenderão a mexer no Adobe Photoshop ou se farão seu próprio editor de imagens. E não só. Como o governo é um grande comprador destas ferramentas, definir se o dinheiro público será destinado a licenças de uso de softwares proprietários ou em capacitação para o outro modelo é definitivo.
“Governos devem buscar o melhor software, se será aberto ou fechado, não importa”, opina Jon “Maddog” Hall, diretor da Linux International e um dos principais embaixadores desta lógica. Além da questão econômica, ele cita a preocupação do governo em não perder o desenvolvimento de softwares porque uma empresa faliu ou deixou de atualizar seus programas. “Plataformas abertas também ajudam a evitar fuga de cérebros, incentivando estudantes a bolarem soluções nacionais em vez de ir para o Vale do Silício atrás de emprego.”
É por isso que tentativas de incentivo ao uso de software livre aparecem vez ou outra em Brasília. O projeto de lei 2269/1999, atualmente na Comissão de Constituição e Justiça, propõe que “órgãos da administração pública” sejam obrigados a “utilizarem software com código livre”.
A preferência é polêmica. Jorge Sukarie, vice-presidente do conselho da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), rejeita a ideia de governos darem preferência a um modelo de negócio de software em prejuízo a outro. “Não pode ser por uma questão de custo, porque pelo software aberto também se paga, só que em serviço. O governo tem que mostrar para a sociedade que ele é produtivo e eficiente e não determinar que tipo de modelo de software ele se identifica mais.”
A adoção do software livre pelas empresas é acompanhada de perto por ativistas, que recentemente ficaram furiosos com a compra de licenças da Microsoft pela Caixa Econômica Federal, até então um exemplo de uso de soluções abertas.
“Fomos contratados em 2006 para trabalhar por dois anos, o prazo se estendeu até o final de 2011 e aí decidiram abandonar tudo e comprar o Office e soluções da Microsoft”, conta Gobbi, cuja empresa, a 4Linux, foi contratada para desenvolver soluções livres para a Caixa e seus 70 mil terminais de atendimento. O valor pago à Microsoft foi de R$ 112 milhões; segundo Gobbi, todas as soluções adquiridas já haviam sido desenvolvidas pela sua equipe, que recebeu R$ 1,6 milhão pelo serviço.
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ENTREVISTA
Ricardo Fritsch, coordenador do Fórum Internacional do Software Livre
Software livre deve ser preferência do governo?
O software é usado por sua qualidade, não importa se proprietário ou livre. Muitas empresas tentam aprisionar repartições públicas e parte da sociedade com seus produtos. Vivem de vender licença de software. Mas perdem espaço para softwares como o LibreOffice, que substitui o Office, da Microsoft. Para o governo, o importante é pensar na sua soberania. Ele tem que ter a liberdade de escolher fornecedores.
O que fazer para o software livre ser mais popular?
Ele já é muito usado. É preciso mostrar para a população onde ele está. Precisamos oferecer programas educacionais abertos que compitam com os da Microsoft. Precisamos dizer à população que um outro mundo é possível.
No futuro, programar será algo muito mais comum?
Amanhã usaremos mais software do que hoje, assim como hoje usamos mais do ontem. Se todos vão saber programar no futuro, depende de uma aliança com as escolas. É preciso colocar disciplinas de lógica de programação no ensino médio pra que as pessoas se sintam motivadas a aprender e entender o universo da programação. Tendo acesso ao código, elas conseguirão entender como funciona. Problemas futuros só serão resolvidos se a “caixinha” dos softwares estiver aberta.
*O repórter viajou a convite da organização do Fisl
—-
Leia mais:
• Outra lógica
• O software livre está no centro do avanço tecnológico
• Link no Papel – 6/8/2012
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