Eletrônicos controlados pelo cérebro
- 2 de maio de 2013|
- 14h42
Por Filipe Serrano
Novas tecnologias poderão permitir que pessoas executem tarefas com seus aparelhos usando só o pensamento
THE NEW YORK TIMES
EUA – Na semana passada, engenheiros descobriram, vasculhando o código de programação do Google Glass, algumas maneiras ocultas de as pessoas interagirem com computadores sem precisar dizer uma palavra. Entre elas, um usuário poderia mexer a cabeça para ligar ou desligar os óculos. E uma simples piscada poderia ordenar o registro de fotografias.
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Mas não espere que gestos como esses sejam necessários por muito tempo. Em breve estaremos interagindo com nossos smartphones e computadores usando nossa mente. Dentro de alguns anos, poderemos apagar as luzes de casa apenas pensando nisso. Ou enviar e-mail do nosso smartphone sem sequer tirar o aparelho do bolso. Num futuro mais distante, o seu robô-assistente chegará perto de você com uma limonada porque sabe que você está com sede.
Pesquisadores do Emerging Technology Laboratory, da Samsung, estão realizando testes com tablets que podem ser controlados pelo cérebro mediante o uso de um capacete (semelhante ao de esqui) equipado com eletrodos de monitoramento. É o que foi relatado pela publicação Technology Review.
A tecnologia, chamada de interface computador-cérebro, foi idealizada para permitir às pessoas com paralisia e outras deficiências a interação com computadores e o controle de braços robóticos simplesmente pensando nessas ações. E não vai demorar muito para essas tecnologias estarem incluídas em produtos eletrônicos.
Alguns produtos de leitura pelo cérebro ainda imperfeitos já existem e permitem às pessoas jogar games fáceis ou mover um mouse na tela. A NeuroSky, empresa com sede em San Jose, Califórnia, lançou recentemente um fone de ouvido com Bluetooth que pode monitorar pequenas mudanças nas ondas cerebrais e que possibilita às pessoas jogar games, que exigem concentração, em computadores e smartphones.
Muse, um aro de cabeça leve, sem fio, pode interagir com um aplicativo que “exercita o cérebro”, forçando as pessoas a se concentrarem em todos os aspectos de uma tela. As fabricantes de carros estão explorando tecnologias instaladas atrás do assento do veículos que detectam quando o condutor dorme ao volante e envia sinais sonoros pela direção para acordá-lo.

Avanço. Os produtos comercializados hoje logo estarão ultrapassados. “As atuais tecnologias do cérebro são como tentar ouvir uma conversa num estádio de futebol a partir de um dirigível”, disse John Donoghue, neurocientista e diretor do Brown Institute for Brain Science. “Atualmente, para entender realmente o que se passa no cérebro de uma pessoa você necessita implantar cirurgicamente uma série de sensores nele.” Em outras palavras, para conseguir acessar o cérebro é preciso um chip na sua cabeça.
No ano passado, o projeto BrainGatte, de Donoghue, permitiu a duas pessoas com paralisia total usar um braço robótico por meio de um computador que respondia à atividade cerebral. Uma mulher que não usava seus braços há 15 anos conseguiu agarrar um bule de café, servir-se e recolocar o bule na mesa. Tudo imaginando os movimentos do braço robótico.
Mas o chip dentro da cabeça deverá em breve desaparecer à medida que os cientistas conseguirem uma maior compreensão do cérebro e, assim, de tecnologias que aprimoram as interfaces cérebro-computador. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO
Função possível hoje já foi tema de ficção científica
Um aparelho que lê pensamentos pode parecer algo sensacional, mas também pode deixar algumas pessoas receosas, já que ele traz um quê de ficção científica para a realidade do dia a dia. No filme Firefox, de 1982, Clint Eastwood interpreta um piloto de caça que parte numa missão para a União Soviética para roubar um protótipo de um caça que pode ser controlado por um “neurolink” no cérebro. Mas Clint tinha de pensar em russo para o avião funcionar e ele quase morre quando não consegue lançar os mísseis.
Embora a ideia não seja movimentar aviões com a mente, a possibilidade de navegar na internet com seu smartphone só usando o pensamento pode estar mais próxima. Para o neurocientista John Donoghue, uma das técnicas utilizadas para ler os cérebros é a chamada P300, em que um computador pode determinar em que letra do alfabeto alguém está pensando com base na área do cérebro ativada quando ela vê uma tela com várias letras.
Mesmo com avanços cada vez mais velozes, novos desafios surgirão à medida que os cientistas precisarem determinar se a pessoa deseja buscar na web algo específico ou se apenas está pensando num tópico aleatório. “Se estou pensando num filé ao ponto num restaurante, não significa que eu quero comer isso”, diz Donoghue. “Da mesma forma, os óculos do Google terão de saber se você está piscando porque tem algo no olho ou se realmente quer tirar uma foto.” / NYT
Cauda abana conforme ondas cerebrais
- 28 de setembro de 2012|
- 15h48
Por Diogo Antonio Rodriguez
Empresa japonesa lança um rabo peludo que interpreta sinais do cérebro e tem integração com redes sociais
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SÃO PAULO – Muitos experimentos e protótipos estão usando as ondas cerebrais para criar aparelhos sem fios, mais eficientes e fáceis de usar. A empresa japonesa Neurowear está acrescentando “bizarros” a essa lista.
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No ano passado veio o Necomimi, um par de orelhas de gato que, através de um dispositivo de eletroencefalograma, transforma suas emoções em movimentos. Se você fica concentrado, as orelhas se levantam. Quando relaxa, elas se abaixam.
Potencialmente estranho, o produto foi eleito uma das melhores invenções de 2011 pela revista Time e é sucesso de vendas no Japão e fora dele. As opções de animais se expandiram: por US$ 100 e quatro pilhas AAA (do tipo “palito) você pode ser um gato, uma raposa, um lobo ou um urso.
A Neurowear continua a investir na mistura de tecnologia, mangás e bichinhos. Há uma semana foi divulgado no Youtube o vídeo do próximo lançamento, o Shippo. O conceito é o mesmo, com algumas melhorias. Uma cauda é a responsável por mostrar o estado emocional do usuário dessa vez. Abanos rápidos denotam, claro, felicidade; a velocidade dos movimentos diminuii conforme aumenta o relaxamento do dono.
O Shippo usa a geolocalização para guardar os locais onde o usuário se sentiu melhor e pior. Quem quiser, ainda pode compartilhar sua felicidade canina nas redes sociais. Ainda não há previsão de lançamento nem de preço, mas as mais de 1,6 milhão de visualizações mostram o mercado em potencial para a novidade.
Veja o vídeo da novidade:
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Leia mais:
• Ondas cerebrais podem ser hackeadas
• Cérebro: no controle ou controlado?
Google cria rede que simula cérebro humano
- 26 de junho de 2012|
- 18h57
Por Redação Link
Projeto mostra que as máquinas podem aprender a identificar imagens sozinhas; o primeiro teste foi reconhecer gatos
SÃO PAULO – O cérebro humano muitas vezes é associado à figura de um supercomputador. Dessa vez, os pesquisadores do Google buscaram estreitar essa analogia: no laboratório de pesquisa Google X, no qual a empresa desenvolve tecnologias como o “Glass Project“, criaram uma simulação do cérebro humano capaz de reconhecer imagens.
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Segundo reportagem do New York Times, foi nesse laboratório que um pequeno grupo de cientistas começou, há alguns anos, a desenvolver uma rede neural criada por mil computadores e 16 mil processadores, formando um bilhão de conexões.
O primeiro teste? Gatos. O “cérebro do Google” foi apresentado a 10 milhões de imagens aleatórias de vídeos do YouTube, sendo capaz de reconhecer e identificar o que é um gato. “Durante o treinamento, nós nunca dissemos: ‘isso é um gato’”, disse Jeff Dean, integrante da equipe do Google. “[A rede] basicamente inventou o conceito de um gato”.
A pesquisa mostrou que é possível criar uma tecnologia de reconhecimento de imagens sem “rotulá-las” previamente por categorização, uma vez que o sistema identificou os gatos a partir do zero.
“A ideia é que, em vez de pesquisadores tentarem descobrir como encontrar as beiradas, você jogue uma tonelada de dados no algoritmo e deixe-os falar, e assim o software automaticamente aprende a partir desses dados”, disse Andrew Y. Ng, cientista da Universidade de Stanford, que liderou a equipe do Google no projeto.
A pesquisa será apresentada nesta semana em uma conferência em Edimburgo, na Escócia, e poderá ser aplicada em técnicas como identificação de imagens, reconhecimento de voz, busca e tradução.
Abusar da internet pode danificar cérebro, diz estudo
- 13 de janeiro de 2012|
- 15h15
Por Agências
Pesquisa chinesa aponta que uso excessivo da rede pode causar danos comparáveis aos causados por álcool e cocaína no cérebro de adolescentes
PEQUIM – Um estudo elaborado por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências, cujos resultados foram divulgados nesta sexta-feira, 13, concluiu que o uso excessivo da internet pode causar graves danos cerebrais em adolescentes, comparáveis aos produzidos pelo consumo de cocaína e álcool.
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A pesquisa, que tomou 17 adolescentes “viciados em internet” como amostra e comparou os resultados com outro grupo que não era, determinou que o uso da rede entre jovens cujo cérebro ainda não se formou completamente pode causar danos na “matéria branca” deste órgão.
O uso excessivo da internet desgasta a mielina, uma substância que cobre e protege as fibras neuronais, segundo o professor Lei Hao, do Instituto de Física e Matemática de Wuhan, um dos autores do estudo citado pelo jornal independente South China Morning Post.
Lei explica que as fibras neuronais funcionam como “transmissoras elétricas” no sistema nervoso e, neste caso, a mielina seria comparável à cobertura plástica de um cabo: ao ser danificada, pode afetar a comunicação neuronal.
Os 17 adolescentes viciados que foram objeto do estudo são pacientes do Centro de Saúde Mental de Xangai.
A dependência em internet é considerada uma doença na China, onde existem centros de reabilitação, alguns dos quais geraram polêmicas pelo uso de técnicas como o eletrochoque e a violência física.
O estudo chinês esclarece que, por enquanto, a relação direta entre o uso de internet e os danos cerebrais foi comprovada apenas em adolescentes e não em adultos, pela diferente estrutura de seu cérebro.
/ EFE
Sob o domínio do Google
- 30 de outubro de 2011|
- 19h45
Por Redação Link
Empresa se transformou em uma máquina de capturar o inconsciente coletivo, mas estamos preparados para lidar com os desafios que isso nos impõe?
Por James Gleick, do New York Review of Books*
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Alain de Botton, filósofo, autor e agora aforista da rede, twitta: “Conclusão lógica do nosso relacionamento com os computadores: esperar uma resposta ao digitar ‘qual é o significado da minha vida’ no Google.”
É claro que todos podem fazer isso. Digite “o que é… ” e, antes mesmo de completar o “é”, o Google já fará sugestões: “a nuvem?”, “a filosofia?”, “o sonho americano?”, “Twitter?” O Google está tentando ler o pensamento. Não os seus pensamentos, mas os do Cérebro Mundial. E, seja o que isso for, sabemos que o Google está ligado a ele de forma indissociável.
É nele que buscamos respostas. Antes, as pessoas procuravam outras entidades ou seguiam o rumo sem saber. Hoje não há mais uma conversa sobre aquela atriz que ganhou o Oscar naquele filme em que ela interpreta uma atriz que não ganha o Oscar. Mais cedo ou mais tarde, alguém vai chamar o Google.
Descobrir informações sempre foi uma engrenagem importante no funcionamento do conhecimento humano e essa tecnologia foi incrivelmente aprimorada. Não surpreende que haja confusão sobre o papel específico do Google nesse processo – e também um medo cada vez maior em relação ao seu poder e às suas intenções.
Em pouco mais de uma década, o Google fez de si mesmo uma marca maior do que a Coca-Cola e a GE; criou riqueza mais rapidamente do que qualquer outra empresa na história; o Google domina a economia da informação. E isso ocorreu à luz do dia, diante de todos nós. O Google tem muitos segredos, mas os principais ingredientes do seu sucesso não foram secretos, e a história da empresa já rendeu assunto para dúzias de livros.
O relato de Steven Levy, In the Plex (ainda não publicado no Brasil), é o mais completo já lançado e, sob muitos aspectos, também o mais divertido. Ele registrou algumas conversas provocantes – ainda que pouco conscientes – como esta de 2004 na qual os criadores debatem suas esperanças para o Google:
“‘O serviço será incluído no cérebro das pessoas’, disse Page. ‘Quando pensarmos em alguma coisa a respeito da qual não sabemos muito, receberemos automaticamente as informações.’ ‘É verdade’, disse Brin. ‘No limite, enxergo o Google como uma maneira de aprimorar o cérebro com o conhecimento de todos. Atualmente, temos de digitar uma frase no computador, mas podemos imaginar que isso será mais fácil no futuro, quando haverá dispositivos que ativaremos somente com a voz ou, quem sabe, computadores que prestem atenção àquilo que ocorre perto deles’, ‘Teremos finalmente um implante, possibilitando que, ao pensar numa informação ou fato, esse equipamento simplesmente nos traga a resposta’, completa Page.”
Em 2004 o Google tinha cinco anos de idade, já valia US$ 25 bilhões e recebia 85% das buscas feitas na internet. A maior dentre todas as suas invenções foi o algoritmo chamado PageRank.
O PageRank é uma daquelas ideias que parecem óbvias depois de concebidas. Por mais jovem que o ramo das buscas na internet ainda fosse, ele já tinha caído em rígidas formas de ortodoxia. A principal tarefa de um buscador era compilar um índice. Naturalmente, as pessoas pensaram nas tecnologias já existentes para organizar as informações e estas podiam ser encontradas nas enciclopédias e dicionários. Elas perceberam que a ordem alfabética perderia sua importância, mas demoraram para perceber o quanto o seu alvo – a internet – era dinâmico. Mesmo depois de Page e Brin acenderem a luz, a maioria das empresas continuou sem ver nada.
Missão. A internet tinha entrado na sua primeira fase explosiva e, se havia algo que todos sabiam, era que o segredo para ganhar dinheiro estava em atrair e reter os usuários.
O termo que mais provocava animação era “portal”, e eles não queriam que as suas funções de busca fossem boas demais. Parece burrice, mas, pensando bem, como o Google esperava ganhar dinheiro se não cobrava nada dos usuários?
Seus fundadores fizeram tudo à sua maneira e, como perceberam desde o início, a missão deles não se resumia apenas à internet, mas também a todos os livros e imagens do mundo. E em algum ponto da trajetória, deram a entender que não se importavam com a publicidade, mas publicidade sempre foi fundamental.
É verdade que a dupla desprezava o marketing convencional; sua atitude parecia sugerir que o Google faria sozinho o próprio marketing. E, de fato, foi o que ocorreu. O Google se tornou um verbo e um meme.
O quanto o Google já transformou completamente a economia da informação é algo que ainda não foi bem compreendido. A mercadoria da economia da informação não é a informação; é a atenção. Essas commodities são inversamente proporcionais. Quando a informação é barata, a atenção se torna cara. Atenção é aquilo que nós, usuários, concedemos ao Google, e a nossa atenção é aquilo que o Google vende – concentrada, focada e cristalizada.
O ramo do Google não é o das buscas, e sim o dos anúncios. Mais de 96% do seu lucro de US$ 29 bilhões no ano passado veio diretamente da publicidade, e a maior parte do restante veio de serviços relacionados à publicidade. O Google ganha mais com a publicidade do que todos os jornais americanos juntos. É importante compreender precisamente como isso funciona. Levy relata o desenvolvimento do sistema de anúncios: um “feito fantástico, a construção de uma máquina de ganhar dinheiro a partir da fumaça e dos espelhos virtuais da internet”.
Em A Googlelização de Tudo (E Por Que Devemos Nos Preocupar), Siva Vaidhyanathan, estudioso da mídia da Universidade da Virgínia, expõe a situação da seguinte maneira: “Não somos os fregueses do Google: somos o seu produto. Nós – as nossas preferências, predileções e gostos – somos aquilo que o Google vende aos seus anunciantes”.
A evolução dessa máquina de ganhar dinheiro única na história somou uma inovação brilhante a outra, em rápida sucessão:
1. No início de 2000, o Google vendia “links patrocinados especiais”: anúncios de texto vinculados a termos de busca. Um fornecedor de bolas de golfe poderia ter seu anúncio exibido para todos aqueles que buscassem a palavra “golfe” ou, melhor ainda, “bolas de golfe”. Outros buscadores já faziam isso. Seguindo a tradição, eles cobravam conforme o número que pessoas que via o anúncio. Representantes de vendas ofereciam anúncios às grandes contas, uma a uma.
2. Naquele ano, os engenheiros criaram um serviço de autoatendimento, batizado de AdWords. A chamada do produto dizia: “Tem cinco minutos e um cartão de crédito? Ponha o seu anúncio no Google hoje mesmo”. E, subitamente, milhares de pequenas empresas começaram a comprar seus primeiros anúncios na internet.
3. Duas novas ideias vieram da startup GoTo, comprada pelo Google em 2003. A primeira consistiu em cobrar por clique, e não por visualização. A outra ideia foi permitir que os anunciantes fizessem ofertas por palavras-chave concorrendo em rápidos leilões online. Esses leilões abriram uma torneira de dinheiro. Alguns estavam dispostos a pagar mais do que um representante de vendas poderia imaginar.
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4. Por meio do monitoramento sistemático do comportamento dos usuários, o Google sabia instantaneamente quais anúncios estavam fazendo sucesso e quais não estavam. A empresa podia observar a “proporção de cliques” para ter uma medida da qualidade dos anúncios. E, ao determinar os vencedores dos leilões, a empresa passou a pensar não apenas no dinheiro oferecido, mas também no apelo: um anúncio eficaz, que recebesse muitos cliques, seria mais visto.
“O sistema reforçava a ideia do Google de que a publicidade não deveria ser uma transação entre publicação e anunciante, mas um relacionamento tripartite, que também incluísse o usuário”, escreve Levy. Um relacionamento que, no entanto, estava longe de ser igualitário. Vaidhyanathan enxerga uma forma de exploração: “A googlelização de tudo corresponde à coleta, cópia, agregação e posicionamento ranqueado de informações a respeito de – e contribuições feitas por – cada um de nós”.
5. Até então, os anúncios apareciam nas páginas de busca do Google. Foi então que a empresa expandiu sua plataforma ainda mais. O objetivo era desenvolver uma forma de inteligência artificial capaz de analisar trechos de textos – sites, blogs, e-mails, livros – e encontrar neles correspondências com determinadas palavras chave. Com dois bilhões de páginas já indexadas e com o seu atento rastreamento do comportamento dos usuários, o Google contava precisamente com as informações necessárias para isso. O sistema previa quais anúncios seriam mais eficazes naquele contexto de um determinado site.
O Google batizou seu projeto de AdSense. Para todos aqueles interessados em “transformar em dinheiro” o seu conteúdo, era o Santo Graal. “O Google conquistou o mundo da publicidade sem usar nada além da matemática aplicada”, escreveu Chris Anderson, editor da Wired.
As buscas e a publicidade se tornaram os dois lados complementares de uma espada afiada. O mecanismo de busca perfeito lê a nossa mente e produz a resposta que queremos. O mecanismo de publicidade perfeito faz o mesmo: nos mostra os anúncios que queremos ver.
O sonho é o de uma publicidade virtuosa, pareando compradores e vendedores e beneficiando a todos simultaneamente. Mas, nesse sentido, a publicidade virtuosa é uma contradição. O anunciante está pagando por uma fatia da nossa limitada atenção. Se os nossos interesses e os interesses dos anunciantes estivessem num alinhamento perfeito, eles não precisariam pagar. Não existe utopia da informação. Os usuários do Google participam de uma complexa transação e, se há uma lição que podemos aprender com todos esses livros, esta seria a de que nem sempre somos conscientes.
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Bom ou mau? O lema do Google é “não seja mau”. A frase foi dita pela primeira vez em 2001 por um engenheiro, Paul Buchheit, numa reunião sobre os valores corporativos. “As pessoas riram”, lembra-se. “Mas eu disse, ‘Não, é sério’.” (Na época o mundo da tecnologia tinha seu bode expiatório, e funcionários do Google entenderam “não seja mau” como sendo “não seja a Microsoft”; ou seja, não seja um monopolista implacável.)
“Não seja mau” não pressupõe transparência. Nenhum dos livros é capaz de nos dizer quantas buscas o Google faz, nem sua capacidade de armazenamento, nem o número de ruas fotografadas e nem quantos e-mails o Google mantém armazenados; e nem podemos encontrar as respostas no Google, porque ele valoriza sua própria privacidade.
Quem, afinal, determina o significado de ser mau? “Mau é tudo aquilo que Sergey disser que é mau”, explicou Eric Schmidt, então CEO do Google, em 2002.
O Google foi um pouco mau na China. Ele colaborou com a censura. Desde 2004, a empresa fez alterações e distorções no algoritmo, filtrando os resultados de maneira que a versão local, Google.cn, omitisse páginas que desagradassem ao governo. Mas é também verdade que o Google contrariou o governo chinês. Quando certos resultados eram bloqueados, ele fazia questão de alertar os usuários por meio de uma notificação na parte inferior da página.
Assim sendo, será que o Google é mau? Esta é a pergunta que paira no ar; ela nos inquieta, mesmo enquanto confiamos ingenuamente nas respostas dadas pela empresa – respostas que incluem mapas, traduções, imagens das ruas, agendas, vídeos, informações financeiras e indicações de bens e serviços.
A versão mais contundente das acusações contra o Google é exposta com clareza em Search & Destroy (ainda não publicado no Brasil), de Scott Cleland, autodenominado crítico da empresa. Ele não usa meias palavras.
“O mascote corporativo do Google é uma réplica de esqueleto de Tiranossauro Rex, exibida do lado de fora da sede da empresa. Com seus poderosos dentes e mandíbulas, o tiranossauro era um predador terrível.”
Levy é mais ponderado: “O Google se apresentou como empresa dotada de certa pureza moral… Mas parece ter havido um ponto cego sobre as consequências de sua própria tecnologia na privacidade e nos direitos de propriedade”.
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Todas as provas indicam que os fundadores do Google começaram com uma visão incomumente ética para a sua empresa incomum. Eles acreditam na informação – “universalmente acessível” – enquanto força benéfica; são visionários numa época em que tal palavra é empregada de maneira demasiadamente gratuita. Talvez agora eles se mostrem pouco inclinados a se submeter aos padrões éticos de outras pessoas, mas talvez isso não passe de uma questão de personalidade.
É bom lembrar que a corporação moderna é uma criatura amoral por definição, leal às finanças dos acionistas e não aos interesses do público.
O que sabemos é: precisamos decidir o que queremos do Google. Se ao menos nossa consciência coletiva pudesse tomar uma decisão. Neste caso, ainda é provável que não consigamos o desejado.
A empresa sempre diz que os usuários podem “optar por serem excluídos” de muitas de suas formas de coleta de dados, coisa que é verdade, até certo ponto, para os usuários de computador mais experientes; e a empresa fala na privacidade em termos de “barganhas”, algo a que Vaidhyanathan se opõe:
“A privacidade não é algo que possa ser contado, dividido ou ‘barganhado’. Não se trata de uma substância e nem de uma coleção de pontos de informação. Trata-se apenas de uma palavra que usamos desajeitadamente como substituta de uma ampla gama de valores e práticas que influenciam a nossa maneira de administrar nossa reputação em diferentes contextos. Não existe fórmula para interpretá-la: não posso dar ao Google três dos meus pontos de privacidade em troca de um serviço 10% melhor.”
Isso me parece correto, se acrescentarmos que a privacidade envolve não apenas a administração de nossa reputação, mas também a proteção da vida interior que talvez não desejemos compartilhar.
Seja como for, continuamos a fazer exatamente o tipo de barganha que Vaidhyanathan diz ser impossível. Será que queremos ser tratados como indivíduos ou como neurônios do cérebro mundial? Obtemos melhores resultados nas buscas e vemos anúncios mais apropriados quando deixamos o Google saber quem somos. E nos poupamos de digitar alguns caracteres a mais.
/ TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL
* É escritor, autor do livro The Information, que teve um de seus capítulos publicados pelo Link de 10 de agosto de 2011.
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Leia mais:
• ‘Link’ no papel – 31/10/2011
Sexto sentido
- 5 de outubro de 2011|
- 14h15
Por Rafael Cabral
Experimento de Miguel Nicolelis demonstra que é possível devolver tato com interface cérebro-máquina
SÃO PAULO – Um grupo do qual faz parte o pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis publicou um estudo pioneiro na capa da revista Nature desta semana, provando pela primeira vez em um experimento que o cérebro pode recuperar a sensação tátil através de uma microestimulação elétrica no córtex. O estudo demonstrou uma comunicação bidirecional entre o cérebro e um elemento externo, como explica um trecho da pesquisa publicada nesta quarta-feira, 5, pela revista cientifica:
“Interfaces cérebro-máquina gravam e usam a atividade neuronal do cérebro para estabelecer uma comunicação direta com elementos externos, como braços biônicos. Esperamos que esse mecanismo possa ser usado para reestabelecer as funções sensoriais e motoras dos membros, mas por enquanto ainda não havia sensação tátil nessa tecnologia. Aqui nós demonstraremos uma experiência com uma interface cérebro-máquina que pode reestabelecer o sentido de tato nos seres humanos através de uma microestimulação do córtex somatosensorial primário.”
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“A ideia é criar uma espécie de sexto sentido que vai possibilitar que um paciente quadriplégico recupere a sensação tátil ao usar uma veste robótica, podendo identificar o tipo de terreno que está pisando ou a textura de um objeto que segura com uma mão biônica”, explicou Nicolelis, em entrevista exclusiva ao Link.
O texto foi assinado por sete autores, quatro do Centro de Neurociência de Duke (Nicolelis, Joseph E. O’Doherty, Mikhail A. Lebedev, Peter J. Ifft e Katie Z. Zhuang) e dois da Escola Politécnica de Lausanne (Shokur Solaiman e Hannes Bleuler), todos eles ligados um consórcio internacional chamando Projeto Walk Again (voltar a andar), que pretende criar uma veste robótica que interprete sinais elétricos do cérebro e devolva o movimento para pacientes quadriplégicos.
“A veste terá sensores de pressão que criarão um padrão, e esse padrão será traduzido em um estímulo elétrico proporcional a textura dos terrenos ou objetos. Ao mesmo tempo que os sinais elétricos do cérebro podem ser usados para controlar o avatar do corpo, o órgão pode receber um feedback do que esse avatar encontra no espaço virtual. Partindo da mesma lógica, outras pesquisas, por exemplo, podem criar uma tecnologia que possibilite a identificação da temperatura, tornando as próteses biônicas mais sensíveis”, diz Nicolelis.
Ele afirma que novas etapas da pesquisa devem ser conduzidas no Instituto Internacional de Neurociências de Natal (RN) nos próximos anos e gradualmente apresentadas ao mundo em ambiciosas demonstrações que envolveriam a Copa do Mundo de 2014 (cujo pontape inicial pode ser dado por um quadriplégico que recuperou os movimentos) e as Olimpíadas de 2016.
A demonstração da teoria envolveu dois macacos, que foram treinados para movimentar um cursor virtual e, em uma tela de computador, identificar tres padrões associados a texturas.
“Eles conseguiram identificar os padrões muito rapidamente, por isso acreditamos que seres humanos devem ter uma resposta ainda mais rápida. O cérebro gera um modelo que incorpora todas as ferramentas que ele usa e molda o corpo que é reconhecido como sendo próprio. Temos a confirmação disso com esse estudo, pois o animal passa a usar o corpo virtual realmente como se fosse o deles”, explica o cientista.
Os macacos usaram a atividade elétrica de seus cérebros para controlar as mãos virtuais de um avatar e tocar objetivos que apareciam em uma tela de computador. Através da conexão, eles puderam identificar e diferenciar três texturas, produzidas por padrões de sinais elétricos e enviadas ao cérebro.
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Leia mais:
• Nosso Nobel
• Macacos conseguem movimentar e sentir objetos usando apenas seus cérebros
Google reduz a memória, aponta estudo
- 14 de julho de 2011|
- 17h23
Por Agências
Texto publicado na revista Science diz que apesar da perda de memória, o indivíduo ganha habilidades de procura
WASHINGTON – Os motores de busca como Google e as bases de dados na internet se transformaram em uma espécie de “memória externa” de nosso cérebro, segundo um estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science, que revela que perdemos memória retentiva de dados, mas ganhamos habilidades de procura.
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Os educadores e cientistas já advertiam que o homem estava se tornando cada vez mais dependente das informações online, mas até agora havia poucos estudos que o confirmavam, assinala a psicóloga Betsy Sparrow, professora adjunta da Universidade de Columbia (Nova York) e autora do estudo.
Foi justamente sua experiência pessoal – ao perceber que recorria com frequência à base de dados de cinema IMDB para lembrar o nome de alguns atores – que a levou a analisar ainda mais os hábitos de estudo e aprendizado das novas gerações.
Sparrow menciona o doutor em Psicologia Daniel Wegner e professor Universidade de Harvard, que há 30 anos já havia elaborado a teoria da “memória transacional”, referente à capacidade de dividir o trabalho de lembrar certo tipo de informações compartilhadas.
Como exemplo, ele apontava um casal em que o marido confia que a esposa lembre datas importantes, como consultas médicas, enquanto ela confia que ele lembre nomes de parentes distantes. Assim, ambos não duplicam informações nem “ocupam” memória.
Por causa desta teoria, Sparrow se perguntou se a internet estava desempenhando esse papel com todo internauta, como uma grande memória coletiva. Junto com sua equipe, ela realizou uma série de experimentos com mais de 100 estudantes de Harvard para examinar a relação entre a memória humana, a retentiva de dados e a internet.
A equipe descobriu que, quando os participantes não sabiam dar respostas às perguntas, automaticamente pensavam em seu computador como o lugar para encontrar as informações necessárias.
Os pesquisadores descobriram que, se os estudantes sabiam que as informações poderiam estar disponíveis em outro momento ou que poderiam voltar a buscá-la com a mesma facilidade, não lembravam tão bem a resposta como quando achavam que os dados não estariam disponíveis.
Outro dos padrões de comportamento indicados no estudo é que as pessoas não lembram necessariamente como obtiveram certas informações. No entanto, tendem a lembrar onde encontraram os dados que precisam quando não são capazes de lembrar exatamente as informações.
O estudo “Google Effects on Memory: Cognitive Consequences of Having Information at Our Fingertips” sugere que a população começou a usar a internet como seu “banco pessoal de dados”, conhecido como o “efeito Google”, e os computadores e motores de busca online se transformaram em uma espécie de sistema de “memória externa”.
Sparrow diz que não ficou surpresa ao constatar que cada vez mais pessoas não memorizam dados porque confiam que podem consegui-los com suas habilidades de busca. “Somos realmente eficientes”, destaca.
/ EFE
Cérebro: no controle ou controlado?
- 19 de junho de 2011|
- 19h00
Por Redação Link
▪▪▪ A fusão do sistema nervoso humano com a internet pode criar uma rede mundial de mentes ou um sistema totalitário
Por Sue Halpern
The New York Review of Books
Em abril, quando pesquisadores da Universidade Washington, em St. Louis, nos EUA, relataram que uma mulher com eletrodos sobre a região do cérebro responsável pela fala moveu um cursor na tela do computador apenas ao pensar em certos sons, sem pronunciá-los, parecia que a Singularidade – o antigo sonho que origina o homem-máquina – havia chegado. Na mesma época, na Universidade Brown, cientistas testaram com sucesso outra interface entre cérebro e computador, que permitiu que uma mulher movesse um cursor só com o pensamento. Enquanto isso, na Universidade do Sul da Califórnia, uma equipe de engenheiros biomédicos teve sucesso na confecção de nanotubos de carbono para construir uma sinapse, primeiro passo na marcha rumo a um cérebro sintético.
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No mesmo câmpus, o dr. Theodore Berger, que pesquisa há décadas próteses neurais, começou a implantar em ratos um dispositivo que contorna o hipocampo de um cérebro danificado e trabalha no lugar da região afetada. O hipocampo é crucial na formação das memórias, e tal invenção promete uma solução tanto para a perda normal da memória corriqueira quanto à perda patológica associada a doenças como o mal de Alzheimer. Se essa for a Singularidade, ela é mais do que benigna: é benéfica.
Prótese. Michael Chorost ficou surdo em 2001 e tem implantes cocleares em seus ouvidos internos. O resultado do implante, como diz em suas memórias, Rebuilt: How Becoming Part Computer Made Me More Human (Reconstruído: como me tornar parte computador fez de mim mais humano), de 2005, mudou sua vida. E como deixa claro seu novo livro, World Wide Mind: The Coming Integration of Humanity, Machines, and the Internet (Rede mundial de cérebros: a integração vindoura entre humanidade, máquinas e a internet), ele é defensor da ideia de instalar computadores intracerebrais em todos. Assim a internet “seria parte integral do ser humano e seu uso seria tão natural quanto o de nossas próprias mãos”.
Binário. Há mais de 25 anos, um autor científico chamado David Ritchie publicou The Binary Brain (O Cérebro Binário) que celebrava “a síntese da inteligência humana e da inteligência artificial” a partir de algo a que chamou de “biochip”: “É maravilhoso contemplar essas possibilidades”, escreveu. “Plugaríamos à memória de um computador tão facilmente como calçamos sapatos. Nossa mente seria preenchida pelas informações armazenadas no computador e poderíamos virar especialistas em qualquer assunto instantaneamente. É possível que vejamos isso antes mesmo do fim do século.” Vinte e seis anos depois, Chorost diz quase o mesmo: o cérebro é limitado demais. “A velocidade do aprimoramento é inferior à vista no âmbito da tecnologia”.

O sonho da “transmutação” de Chorost tem suas raízes num equívoco ingênuo do que é o mecanismo de busca online, em particular o Google. A maioria de nós não pensa muito no algoritmo que controla o site. Faça uma pergunta, receba uma resposta – não parece muito diferente de uma consulta a uma enciclopédia ou ao índice de um livro. Mas a rede não é um livro, e sim um volume aleatório, desorganizado cada vez maior sobre tudo. Fazer uma busca é mergulhar neste caos e, ao usarmos o Google, estamos recorrendo à sua fórmula, patenteada e vigiada, composta por “500 milhões de variáveis e 2 bilhões de termos”.
As cifras sugerem uma defesa impermeável contra influências tendenciosas, uma objetividade científica que permite que a resposta certa venha à tona. Parece tratar-se de um sistema que perpetua a si mesmo, já que usa a popularidade (o número de links para uma página) como substituto da importância – quanto mais um link é clicado, maior a probabilidade de ele aparecer entre na busca.
Isto criou uma indústria que tapeia esse sistema. Há relatos de empresas que pagaram para distribuir links num grande número de páginas para galgar posições no ranking. E os sites só chegam ao topo dos resultados de busca porque uma mão invisível os empurra até lá.
Mas não é só isso que molda a busca. Como documenta Eli Pariser em seu assustador livro The Filter Bubble: What the Internet is Hiding from You (O filtro-bolha: o que a internet está escondendo de você), desde dezembro de 2009 o Google tenta adaptar cada busca ao perfil da pessoa que a faz. Em outras palavras, o processo de busca se tornou “personalizado”, o que equivale a dizer que, em vez de ser universal, ele é idiossincrático e imperativo. “A maioria de nós supõe que, ao buscar um termo usando o Google, todos nós obtemos os mesmos resultados”, observa Pariser. Assim, “recebemos o resultado que o algoritmo do Google sugere como o melhor para você – e outra pessoa pode obter resultados completamente diferentes para uma busca idêntica. Ou seja, não há mais um Google padrão”. É como se consultássemos o mesmo tema numa enciclopédia e cada um encontrasse resultados diferentes – sem supor essa diferença, já que usamos uma referência padrão.
Filtro. Entre as consequências negativas disso está o fato de, por meio do ajuste das informações recebidas à percepção que o algoritmo tem de quem você é, o Google lhe orienta a acessar material que apenas reforça sua visão de mundo. Uma busca por provas do aquecimento global feita por um ambientalista trará resultados diferentes do que uma pesquisa idêntica feita por um executivo do petróleo. (E sem declarar sua opção, o mecanismo a descobrirá isto por conta própria.) E a internet começa a nos isolar dos pontos de vista contrários aos nossos, enquanto passa a impressão de ser neutra.
A preocupação de Pariser é: ao termos nossas ideias refletidas para nós mesmos, estamos nos doutrinando com nossas próprias posições, sem perceber. “A democracia exige que vejamos as coisas a partir do ponto de vista uns dos outros. Em vez disso, estamos cada vez mais envolvidos por nossos filtros-bolha”.
Não é difícil ver aonde tudo isto poderia levar – o quão facilmente qualquer grupo dotado de uma pauta (lobistas, corporações, governos) seria capaz de inundar o debate com informações centrais para a sua causa. Quem seria capaz de perceber? Não Michael Chorost, com sua lealdade cega ao Google – que ele crê ser parte central do “novo encéfalo, hipocampo e centro de armazenamento de memória explícita de longo prazo” da futura Rede Mundial das Mentes –, é comparável à sua ingenuidade política. Um governo “que usasse a Rede Mundial das Mentes para exercer abertamente o controle social teria de ser mais ameaçador e totalitário que qualquer governo atual”, escreve. “A evolução tende a extinguir sociedades totalitárias porque, a longo prazo, elas são ineficientes e afeitas ao desperdício.”
Agora compare isto às palavras do homem que inventou a world wide web, o inglês Timothy Berners-Lee, publicadas no fim do ano passado na revista Scientific American: “A rede como a conhecemos está sob ameaça. Alguns de seus habitantes mais bem sucedidos começaram a erodir seus princípios. Os governos – tanto democráticos quanto totalitários – estão monitorando a navegação das pessoas na rede, colocando em risco importantes direitos humanos.” Em sua infância, a web era uma coleção de páginas pessoais que não dependia das grandes empresas de mídia e nem do seu dinheiro, e que não era impulsionada por interesses comerciais.
O cientista Jaron Lanier testemunha essa mudança em seu livro, Gadget – Você Não é um Aplicativo (Ed. Saraiva), e recorda esta época: “Aprendemos muito sobre o potencial humano. Quem imaginaria que milhões de pessoas investiriam tanto num projeto sem motivação comercial, ameaça de castigo ou quaisquer outros fatores clássicos de motivação humana? Fizemos algo coletivamente só porque era uma boa ideia. E foi lindo.”
Renda. O comércio entrou na dança, quase por acidente, quando Larry Page e Sergey Brin, pais do Google, decidiram associar anúncios ao site para financiá-lo. Não queriam criar a maior plataforma de publicidade da história, nem deslocar a estratégia de marketing da tentativa de empurrar (‘pushing’) produtos aos consumidores para o esforço de atraí-los (‘pulling’) individualmente para certos produtos. Mas foi isto que ocorreu. Tais anúncios parecem inofensivos – afinal, se a publicidade é inevitável, não seria preferível receber anúncios que sejam de fato mais relevantes? Mas, para atrair o consumidor, as empresas acreditam que precisam conhecer não só seus interesses, mas também aquilo que o agradou antes, idade, gênero, onde mora, escolaridade, etc.
Há cerca de 500 empresas capazes de rastrear cada movimento seu na internet, extraindo a matéria-prima da rede e vendendo-a aos marqueteiros. (“Pare de chamar a si mesmo de usuário”, alerta Lanier. “Você está sendo usado.”) Saber que você sofre de sobrepeso, deixou de pagar uma prestação do carro, lê romances históricos e passa muito tempo a bordo de aviões é um conhecimento que não apenas chega a outras pessoas, como também é de grande valor monetário para elas.
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O mesmo pode ser dito a respeito de dados de localização como onde você está e onde esteve, como descobrimos com a revelação de que tanto Apple quanto Google estavam rastreando usuários de tablets e smartphones e armazenando esses dados.
Até dispositivos de leitura como o Kindle, da Amazon, prestam atenção àquilo que o usuário está fazendo: sublinhe um trecho num livro do Kindle, e este trecho é enviado de volta à Amazon. O potencial para abusos das liberdades civis é vasto neste ponto. Enquanto o FBI, por exemplo, precisa de um mandato para vasculhar seu computador, Pariser alerta que “se usa o Yahoo, o Gmail ou o Hotmail, você ‘perde imediatamente suas proteções constitucionais’”.
Na esfera comercial, os marqueteiros estão indo além dos fatos na tentativa de determinar não apenas aquilo que você comprou, mas porque você realizou aquela compra. Depois que tiverem elaborado seu “perfil de persuasão”, estes anúncios serão refinados ainda mais. E, se as empresas de marketing são capazes de fazer isto, por que não políticos, governo e empresas que desejam influenciar a opinião pública? “Há certos momentos e lugares e estilos de argumentação que nos tornam mais suscetíveis a acreditar naquilo que nos dizem”, observa Pariser.
Uma coisa que nós – habitantes da internet – passamos a aceitar sem muita reflexão é que o comércio seja um aspecto bastante positivo da guinada da rede no sentido das redes sociais. Sites como Foursquare, Loopt e Groupon fazem compras e marcam o centro do encontro social. Usuários do Foursquare sonham em se tornar os “prefeitos” de padarias e lojas de roupas ao visitá-las mais do que os outros. Eles exibem “distintivos” que “conquistaram” ao se tornarem clientes habituais de certos estabelecimentos, como se fossem troféu. Usuários do Facebook que clicam no botão “curtir” na página de um produto podem disparar a exibição de um anúncio do produto na página de seus “amigos”. Empresas como Twitalyzer e Klout analisam dados do Twitter, do Facebook e do LinkedIn para saber quem são as pessoas mais influentes da rede e vendem esta informação a empresas que então seduzem os mais influentes a vender seus produtos, ou “fazer o proselitismo de sua marca”.
Isso, de acordo com o Wall Street Journal, “detonou uma corrida entre os junkies das mídias sociais que, ansiosos para receberem privilégios e terem motivos de fanfarronice, trabalham duro para tapear o sistema e melhorar a própria pontuação”. Como destaca Lanier: “Do ponto de vista empresarial, a única esperança para os sites de rede social é encontrar uma fórmula mágica na qual alguma forma de violação da privacidade e da dignidade se torne aceitável”. Ao que parece, a mágica já está em ação.
Individualidade. O paradoxo da personalização e da expressão de si promovidas pela internet por meio do Twitter, do Facebook e até mesmo do Chatroulette está no fato de que isso diminui ao mesmo tempo o valor da pessoa e da individualidade. Basta ler os comentários em posts de blogs e artigos: fica óbvio que violar a dignidade – a de outra pessoa e, por conseguinte, a própria dignidade – virou moeda barata em ampla circulação.
O objetivo deste tipo de ataque é desferir um golpe contra a personalidade de alguém, minando sua integridade. Chorost sugere que o motivo pelo qual a internet atual não fomenta o tipo de empatia que ele vislumbra para o futuro, quando “sentiremos eletronicamente as vidas íntimas dos outros”, está no fato de ela ainda não ter se tornado parte integral de nossos corpos, mas a explicação de Lanier parece mais convincente.
A “mente coletiva” criada por meio de nossas conexões eletrônicas sublima o indivíduo – e é isto que define uma consciência coletiva. Como observa a socióloga Sherry Turkle: “em rede, estamos juntos, mas nossas expectativas em relação uns aos outros são tão reduzidas que podemos nos sentir totalmente sós. E há o risco de passarmos a enxergar os outros como objetos – nos quais procuramos só o que consideramos útil ou divertido.”
Chorost descreve as maravilhas de uma amizade no âmbito neural. “Ter cérebros semelhantes a computadores simplificaria muito o processo de extrair informações de um cérebro e enviá-las a outro. Suponha que você tenha um computador deste tipo, e que esteja conectado a outra pessoa por meio da Rede Mundial das Mentes. Você vê um gato na calçada diante de si. Seu sistema percebe a atividade numa grande parte dos neurônios que constituem no seu cérebro a representação invariável de um gato. Para permitir que sua amiga saiba que você está vendo um gato, o sistema envia quatro letras – G A T O– ao sistema implantado na outra pessoa. O sistema desta pessoa ativa a representação invariável de um gato no cérebro dela, e a pessoa então a vê. Ou, para ser mais preciso, ela vê uma memória de um gato que será elaborada a partir de seus circuitos neurais. Seriam tantos os detalhes perdidos numa transmissão deste tipo: a raça do gato, o que ele está fazendo. Mas uma informação fundamental seria transmitida: sua amiga saberia que você está vendo um gato.”
É claro que, se você tivesse dito isto por meio de um telefonema, SMS ou e-mail, sua amiga também saberia que você estava vendo um gato, e saberia também qual era a aparência do animal, aquilo que ele estava fazendo, e também que aquele era um acontecimento importante a ponto de você falar daquilo. Será mesmo que desejamos ser informados a cada vez que uma pessoa conhecida vir um gato?

Extensões. É fácil fazer piada com isso, assim como é fácil descartar a Singularidade como uma mera fantasia de ficção científica, mas isso é uma tolice ainda maior. É claro que um dos grupos mais atraídos pela ficção científica é o dos programadores de computador, que conseguiu, em menos de uma geração, mudar a forma com a qual fazemos pesquisas, lemos livros, nos comunicamos uns com os outros, pagamos nossas contas, etc. Como aponta Lanier: “Nós (programadores) inventamos extensões para o seu ser, como olhos e ouvidos remotos (webcams e celulares) e memória expandida (o universo das pesquisas em rede). Elas se tornam estruturas por meio das quais a pessoa se conecta ao mundo e aos outros. Alteramos sua filosofia por meio de uma manipulação direta de sua experiência cognitiva. É preciso só um pequeno grupo de engenheiros para criar uma tecnologia capaz de moldar toda a experiência futura da humanidade com uma velocidade incrível.”
As previsões dizem que só perto de 2015 será impossível instalar mais circuitos num chip de silicone sem superaquecê-lo. Mas, até lá, é possível que os computadores já tenham migrado para chips magnéticos de memória de acesso aleatório (MRAM), que operam com circuitos subatômicos. Um dos principais criadores do MRAM foi Stuart Wolf, que desenvolveu a tecnologia na Agência de Pesquisa de Projetos Avançados de Defesa (Darpa), a mesma que inventou a Arpanet, precursora da internet como a conhecemos. Em entrevista concedida à Fortune há alguns anos, Wolf vislumbrava o futuro da computação e imaginou que logo estaríamos usando faixas na cabeça que se ligam diretamente ao cérebro e nos permitem, entre outras coisas, conversar sem falar, ver aquilo que está depois da esquina e até dirigir só com o pensamento.
Outro ramo da Darpa está investindo milhões de dólares no desenvolvimento de um “capacete telepático” para o campo de batalha, que permitiria aos soldados se comunicarem sem recorrer às palavras, usando só a tradução das ondas cerebrais, que seriam “lidas” por sensores incorporados ao capacete e distribuídos no couro cabeludo, transformando-as em mensagens de rádio audíveis.
Sinais. Já no ano 2000, a Sony começou a trabalhar numa forma de transmitir sinais de games para o cérebro usando pulsos de ultrassom para modificar e criar imagens sensoriais, proporcionando assim uma experiência de jogo envolvente e inescapável. Recentemente, cientistas da Freie Universität de Berlim chegaram a uma amostra da visão de Stuart Wolf ao prever um carro pilotado somente com o pensamento. Sensores de encefalograma decodificavam os padrões de ondas cerebrais correspondentes a “direita”, “esquerda”, “frear” e “acelerar”, que foram conectados a um veículo controlado por computador, de modo que o motorista “pôde controlar o carro sem problemas, com só um pequeno atraso entre o pensamento do comando e a resposta do carro”.
Além disso, um grupo da Universidade de Southampton, no Reino Unido, desenvolveu uma interface entre cérebro e computador que permite que as pessoas se comuniquem de cérebro para cérebro sem recorrer ao pensamento, mais uma vez usando sensores de eletroencefalogramas para possibilitar que uma pessoa pense em “esquerda” (representada por um zero) ou “direita” (representada por um 1), envie um destes dígitos a uma segunda pessoa, também ligada a eletrodos que também estão conectados a um computador. O sistema recebe o dígito e, depois que ele é entendido, permite que a segunda pessoa devolva o dígito à primeira por meio de um diodo luminoso, que é “lido” pelo córtex visual daquela primeira pessoa. Não é uma integração sem som, sem palavras e quase sem pensamentos entre nós, mas trata-se de um quarto ou quinto passo rumo a um futuro que está se tornando cada vez mais visível.
Jaron Lanier tem razão: você ainda não é um aplicativo – ainda. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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• Link no papel – 20/06/2011
Celular x cérebro
- 26 de fevereiro de 2011|
- 15h11
Por Agências
Passar 50 minutos com o celular colado ao ouvido pode ser suficiente para alterar a atividade das células na porção do cérebro que fica mais próxima da antena do aparelho.
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Não se sabe, no entanto, se a prática causa danos, segundo cientistas norte-americanos do National Institutes of Health, cujo estudo não esclarece dúvidas recorrentes quanto a um possível vínculo entre celulares e câncer de cérebro.
“O que demonstramos é que o metabolismo da glicose (um sinal de atividade cerebral) se intensifica no cérebro de pessoas expostas a celulares, na área mais próxima à antena,” disse Nora Volkow, do NIH, que teve o estudo publicado pelo Journal of the American Medical Association.
O estudo tinha por objetivo examinar de que maneira o cérebro reage ao campo eletromagnético gerado por sinais de telefonia sem fio.
Volkow disse ter sido surpreendida pelo fato da baixa radiação eletromagnética dos celulares afetar a atividade cerebral, mas disse que as constatações do estudo não oferecem indicações de que celulares causam ou não câncer.
“O estudo nada indica quanto a isso. O que faz é demonstrar que o cérebro humano é sensível à radiação eletromagnética gerada pela exposição a celulares,” disse.
O uso de celulares explodiu desde a metade dos anos 80, e hoje existem mais de 5 bilhões de aparelhos no mundo.
Alguns estudos vinculam exposição a celulares e maior risco de câncer de cérebro, mas um grande estudo conduzido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) teve resultados inconclusivos.
A equipe de Volkow avaliou 47 pessoas que passaram por tomografia cerebral com um celular ligado perto do ouvido por 50 minutos, e por uma segunda tomografia com o aparelho desligado.
Embora não tenham sido registradas mudanças gerais no metabolismo cerebral, na região mais próxima à antena do celular houve aumento de 7 por cento na atividade metabólica, quando os aparelhos estavam ligados.
Especialistas afirmaram que os resultados são intrigantes mas devem ser interpretados com cautela.
“Ainda que a importância biológica, se há alguma, do metabolismo de glicose acelerado por exposição aguda a celulares seja desconhecida, o resultado justifica novas pesquisas,” escreveram Henry Lai, da University of Washington, em Seattle, e Lennart Hardell, do Hospital Universitário de Orebro, na Suécia, em comentário que acompanhou o estudo.
“Há muito a fazer para investigar e compreender melhor esses efeitos,” afirmaram eles./REUTERS
VD: Que som é esse?
- 26 de setembro de 2010|
- 18h00
Por Tatiana de Mello Dias

Luciana e o cérebro visto com o IVBA (foto: Arquivo pessoal)
Quando era adolescente, Luciana Haill teve uma meningite viral. E foi por causa da dor de cabeça provocada pela doença que ela voltou a atenção pela primeira vez para seu cérebro. “Fiquei obcecada em imaginar o que estava acontecendo na minha cabeça”, diz a britânica de 37 anos.
Luciana se recuperou da doença, mas nunca mais parou de prestar atenção no cérebro. Fez disso uma profissão. E não, ela não é neurologista nem psiquiatra. É artista. E transforma as ondas cerebrais em música.
O processo começa com o IVBA (Interactive Brainwave Visual Analyser), aparelho de eletroencefalograma que gera uma visualização em 3D a partir das ondas cerebrais. Luciana – ou um voluntário disposto a, literalmente, abrir a cabeça – fixa os sensores e relaxa. Os pensamentos viram ondas em três dimensões, que são transformadas em sons orgânicos por um software.
E que tipo de som o cérebro produz? “São muito subjetivos”, explica Luciana. Nas apresentações, ela seleciona alguns samplers e deixa todo o trabalho de acionar o volume e a sobreposição de sons ao efeito do cérebro. “Imagine que é como tocar teremins”, diz ela, fazendo referência ao instrumento russo da década de 20, muito usado pelos Mutantes, que cria sons com o movimento das mãos no ar. “A performance é como uma tecelagem transitória por pensamentos, com múltiplos teremins aparecendo fantasmagoricamente.” Luciana parece uma pin-up ciborgue. Estudou artes na faculdade em Londres, mas foi o curso de arte interativa do pioneiro Roy Ascott – que faz arte cibernética desde os anos 60 – que “mudou sua vida”. Outra referência foi Marvin Minsky (co-criador do laboratório de inteligência artificial do MIT), que se comunicava com ela por meio do sistema rudimentar de e-mails Janet, do inicio dos anos 90. Mas sua pesquisa ganhou um novo sentido ao descobrir a arte de dentro do cérebro. “Os eletroencefalogramas são tão bonitos. São como corais e rostos. Cada um é diferente”, diz.
Mão na massa
Ela guarda várias impressões de imagens do seu cérebro tiradas quando foi voluntária de um teste com ressonância magnética. Foi em 1995, porém, que resolveu construir seu próprio aparelho para investigar o cérebro. Seguiu as instruções de revistas para eletricistas amadores dos anos 80 e tentou fazer um detector simples de ondas Alpha (as mais lentas, que aparecem em estados mais relaxados). “Se você fechasse seus olhos, ele fazia um bip! Claro que não era sofisticado o suficiente para as minhas necessidades como artista”, ri. “Então, eu achei esse sistema IVBA nos EUA. Usei para fazer meu trabalho de conclusão na graduação”. Hoje, além de usar os scanners em seu trabalho como artista, ela criou uma empresa para vender o aparelho.
O IVBA foi desenvolvido no Japão por Masahiro Kahata, a quem Luciana define como amigo. O aparelho é usado para pesquisas em várias universidades, e também é útil, diz Luciana, para técnicos de esporte, hipnoterapeutas, treinadores de programação neurolinguística, médicos do sono, além dos artistas visuais e músicos.
Rumo ao inconsciente
As formas em três dimensões, para Luciana, são “análogas à escrita e à música”. “Os padrões têm diferentes formatos e velocidade. O EEG se tornou o meu Paintbrush”. Os pensamentos, porém, não são constantes – e cada alteração provoca sons diferentes. Por isso, nada como uma mente com padrões diferentes para gerar uma música singular, certo? É isso que Luciana faz. Ela tem interesse em alterações de consciência. Foi ao Havaí estudar a técnica de sonhos lúcidos de Stephen LaBerg, que permite às pessoas experimentarem conscientemente universos fantásticos durante o sono.
A artista também provoca padrões de pensamento diferenciados usando a Dream Machine, máquina desenvolvida nos anos 50 que provoca hipnose através de padrões de luzes piscantes (há, inclusive, uma versão online desse sistema). As luzes estroboscópicas induzem as ondas alfa e teta do cérebro, responsáveis por “introspecção, devaneio e hipnose”. O sistema, porém, não serve para todos. “Eu sempre aviso o público: não deixe os olhos abertos na sala se for suscetível a epilepsia”.
Nas apresentações, o voluntário instala os sensores eletromagnéticos na cabeça e se deixa levar pela “máquina dos sonhos”. “Nós todos ouvimos em tempo real os sons se alterando conforme sua entrada no estado hipnótico”, diz Luciana. “Eu convido a audiência a participar e me autorizar a enviar as ondas produzidas por seu cérebro à galeria”, explica. O resultado disso está no MySpace.
O novo projeto de Luciana é The Dream Machine, música feita sobre as gravações do escritor veterano Brian Barritt (amigo de Timothy Leary que, aliás, já experimentou a engenhoca). Também está focada em projetos sobre consciência fora do corpo.
Transitando no limite entre arte e ciência –e, claro, experimentação –, Luciana ainda faz parte do Institute of Unnecessary Research (Instituto da pesquisa desnecessária), que reúne artistas e pesquisadores de áreas alternativas. Não por acaso, o lema do Instituto é a frase de Albert Einstein: “se nós soubéssemos o que estávamos fazendo, aquilo não seria chamado de pesquisa, seria?”.
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Leia mais:
• Link no papel – 27/09/2010
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