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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

01 de junho de 2014 20h00

Chegada do Spotify traz otimismo para negócio da música online no País

Surgida na Suécia em 2008, plataforma que contabiliza cerca de 40 milhões de usuários em todo o mundo aposta em playlists assinadas por celebridades da música, características de rede social e qualidade de som para atrair brasileiros

Por Redação Link

Bruno Capelas 
Camilo Rocha 

No Spotify, ‘a música da Beyoncé vale o mesmo que a minha, todos são iguais’, acredita o cantor Marcelo Jeneci. FOTO: Filipe Araújo / Estadão

SÃO PAULO – Na Suécia, o fenômeno do download ilegal de música que estourou no início da década passada com serviços como Napster, Kazaa e SoulSeek, foi especialmente forte. O país contou com banda larga de qualidade muito antes que os Estados Unidos, com velocidades como 10 MB já comuns nessa época. “Fui da primeira geração que passou a adolescência na internet”, lembrou em entrevista ao Financial Times, Daniel Ek, fundador do Spotify. “Vi tudo isso dez anos antes de todo mundo”.

Antes de fundar o Spotify em 2008, Ek foi CEO do uTorrent, ferramenta de compartilhamento de arquivos condenada pela indústria. O executivo só tinha 24 anos, mas já acumulava uma longa experiência em negócios, iniciada com uma pequena empresa de design aos 14.

Segundo Ek, músico desde a infância, o Spotify surgiu para solucionar uma situação em que “você tinha um produto legal que era pior que o roubado”. Na Suécia, onde música é produto nobre na pauta de exportação, pode-se imaginar a preocupação causada pelo consumo ilegal de música. “Me perturbava que a indústria musical tinha descido pelo ralo, apesar de que pessoas estavam ouvindo mais música do que nunca”, disse Ek à Forbes.

 

O Spotify se tornou uma força dominante na música sueca. “Em meu país, o Spotify é responsável não apenas por 70% da receita da música digital, mas de toda a música, incluindo venda de álbuns físicos”, declarou Ek.

Em 2009, o serviço começou a ser lançado em outros países. Hoje, em 53 nações diferentes, o Spotify é considerado o líder global do mercado de streaming musical pago e traz playlists de músicos famosos e canais de marcas como Rolling Stone, Victoria’s Secret e Disney Pixar. Além disso, fez nascer uma comunidade de sites, blogs, aplicativos e ferramentas que se integram com o site.

O barulho é grande, mas ainda há muito o que percorrer para materializar isso em números de usuários. Em todo o mundo, são 10 milhões de usuários pagos e 40 milhões de usuários totais. Embora sejam quantidades que colocam a empresa como líder no segmento de streaming pago, eles encolhem diante da audiência do YouTube, considerado o maior site de streaming musical do mundo. Totalmente gratuito e com muito conteúdo extra-musical, o site de vídeos pertencente tem 1 bilhão de visitantes únicos por mês.

Esperado desde meados de 2013, o Spotify foi lançado oficialmente no Brasil na última quarta-feira, 28, depois de ser oferecido para testes para formadores de opinião e artistas.

Estratégia
A principal meta do Spotify por aqui é arrebanhar os usuários de serviços ilegais de música, seguindo o exemplo de outros países por onde passou. “Nosso principal concorrente é a pirataria”, declarou Diament no lançamento. Como aconteceu em outros mercados, a indústria aplaude. Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD), que representa as gravadoras do País, Paulo Rosa, “o melhor remédio contra a pirataria online é o licenciamento de meios de acesso por streaming, e o Spotify e serviços similares são nossos grandes aliados”.

O YouTube é outro rival. O Brasil tem a segunda maior audiência do site de vídeos do Google, e foi nele que se popularizou um dos principais gêneros de sucesso no País hoje, o funk ostentação. Como armas nessa briga, o Spotify aposta na optimização e na personalização para o ouvinte. “Temos investimento pesado em algoritmos e curadoria humana para oferecer ao usuário o que ele pode querer ouvir daqui a um minuto”, acredita Gustavo Diament.

O serviço também põe suas fichas na aproximação entre artistas e fãs — pela plataforma, é possível saber o que cantores como Gilberto Gil e Lorde estão ouvindo e escutar listas feitas pelos músicos — e no lado social, com força na integração com o Facebook e no compartilhamento de playlists com os amigos. “O Spotify foi social desde o início, com ferramentas que te deixam dividir a música com quem você quiser”, disse Ek à revista Forbes. Segundo Maurício Bussab, diretor da distribuidora independente Tratore, além do lado “humano”, o Spotify tem a vantagem de ser um serviço mais específico. “O YouTube tem variedade, com versões raras, mas é desorganizado. O Spotify vai direto ao ponto”.

Bussab, entretanto, não vê diferenças entre o Spotify e serviços concorrentes, como o francês Deezer, o também sueco Rdio (fundado pelos criadores do ilegal Kazaa) e o Napster, que depois dos processos, se tornou legal. “Tecnicamente, são todos semelhantes. A diferença é a maneira de se comunicar com o usuário, que, aqui no Brasil, é alguém que hoje faz a troca ilegal de arquivos”, diz o diretor da Tratore.

Baixa renda
O Spotify e seus concorrentes já foram muito criticados por artistas como Thom Yorke, do Radiohead, pelo baixo pagamento oferecido pela execução de cada música – cerca de R$ 0,015, segundo dados divulgados pela empresa no final de 2013.

Lorde, autora de ‘Royals’, foi catapultada para o sucesso pelo Spotify. FOTO: EFE

Para Gustavo Diament, o baixo pagamento é um problema de escala, que será resolvido com o crescimento da plataforma. “É preciso fazer crescer a torta”, diz ele, que afirma que a empresa reverte 70% de sua receita para pagar aos donos dos direitos sobre as músicas (muitas vezes, fatiados entre gravadoras, editoras musicais e os artistas). O representante das gravadoras também defende o modelo proposto. “É algo muito novo, pulverizado em bilhões de micro-transações”, diz o presidente da ABPD.

Outra crítica frequente ao serviço é a de que ele não oferece oportunidades iguais a artistas novos e consagrados, ao contrário do que propagandeia. Questionado sobre o assunto, Marcelo Jeneci, que participou do lançamento, diz apreciar a horizontalidade da plataforma. “A minha música vale o mesmo que a da Beyoncé”, embora o músico afirme que o pagamento oferecido pela música digital, seja no YouTube, iTunes ou via streaming, “ainda nem faz cócega no bolso”.

Para o produtor Pena Schmidt, veterano da indústria brasileira, a igualdade proposta pelo serviço é uma falácia. “A maioria dos artistas é colocada num oceano horizontal de irrelevância, onde todos são iguais. No fim, as sugestões que o site faz acabam sendo cheias de estrelas comerciais na primeira página”.

Entretanto, a oportunidade de aparecer para mais gente é vista com bons olhos, seja qual for a plataforma. “A música independente é uma música incerta. No iTunes, poucos usuários vão gastar alguns centavos para ouvir algo novo, enquanto o streaming propõe uma experimentação maior, e faz com que os artistas novos sejam ouvidos”, avalia Maurício Bussab, da Tratore. “É bom ter mais gente no tabuleiro”, avalia Jeneci.

Tecnologia
Outro tema bastante discutido acerca do Spotify é que, apesar de lucrar com a música, a empresa não nega sua origem no setor da tecnologia. “Somos a junção de duas paixões, mas somos uma empresa de tecnologia. 70% dos nossos funcionários são programadores”, explica Diament. A tomada da música digital por companhias da área tecnológica, entretanto, não é uma novidade: desde o iTunes até o streaming, passando pelo YouTube, todas as grandes iniciativas desse mercado têm partido de tecnologia, e não da indústria fonográfica. (veja box acima)

Para Bussab, essa determinação é um fator positivo. “As gravadoras tentaram emplacar serviços, mas tinham rabo preso. As empresas de tecnologia estão distantes do negócio da música, mas são capazes de fazer um serviço útil para o usuário”, diz ele. O presidente da ABPD também vê esse movimento como algo benéfico: “os produtores de música precisaram de parceiros dentro do contexto digital, e essa solução me parece mais que natural”.

Entretanto, há quem acredite que a parceria não mostra nada de novo, mas sim repete velhos modelos da indústria fonográfica. Thom Yorke já disse que o Spotify é “a última flatulência de um cadáver desesperado”, fazendo menção às gravadoras. O produtor Pena Schmidt segue a mesma linha: “a velha indústria agora manda e lucra porque se mudou para o reino virtual da venda de licenças, cada vez mais imprescindíveis para qualquer que seja a tecnologia que transporte a música”.