Sonho viável
- 15 de maio de 2011|
- 18h00|
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Por Tatiana de Mello Dias

O apelo é todo em cima do amor para fazer um filho – neste caso, um disco. E no caso do Letuce, banda carioca formada por um casal apaixonado, não poderia ter dado mais certo. Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos foram os responsáveis por inaugurar a plataforma de crowdfunding para músicos Embolacha, lançada na quarta, 12.
Crowdfunding é o nome que se dá à prática de arrecadar um pouquinho de dinheiro de um monte de gente, como se fosse uma vaquinha online. Em dois dias, juntaram mais de R$ 3 mil – e é bem possível que, nos dois meses de vaquinha, cheguem aos R$ 15 mil necessários para gestar o segundo disco da dupla.
“Adorei, adorei, tô empolgada”, diz Letícia, falando rápido ao telefone, animada por ver que um dos prêmios mais caros feitos pela banda para vender no Embolacha – um piquenique – havia sido comprado por alguém por R$ 1 mil.
O Embolacha permite que os artistas criem projetos e ofereçam recompensas ao público em troca de um valor – o Letuce oferece desde o link em primeira mão para baixar o disco (por R$ 20) até um show particular (por R$ 5 mil), passando por jantares e aulas de violão. “Alguém falou ‘vou doar’; eu disse ‘não, não vai doar, você está comprando algo’”, conta Letícia.
O elogiado primeiro disco do Letuce foi gravado na base do “paitrocínio”. Desta vez o valor é mais alto – a banda quer estúdio bacana, engenheiro de som, masterização e alugar “equipamentos e instrumentos que fazem toda a diferença, como os incríveis microfones de fita”.
O apelo está dando certo. O Letuce inaugurou a plataforma em grande estilo, e o burburinho fez que outras três bandas inscrevessem projetos no Embolacha. “Se funcionou para o Letuce, pode funcionar para muitos outros artistas. A questão do crowdfunding é muito em relação à qualidade do projeto e ao nível de interação do artista com o público”, diz Paulo Monte, coordenador do projeto. “Se o artista tem público formado, a chance dele realizar um projeto é maior, mas se não tem, é possível mobilizar um grupo a partir de uma ideia.”
Até o final de maio a expectativa é que haja pelo menos cinco projetos sendo financiados na plataforma. As doações são feitas através de cartão de crédito, mas o valor só é debitado se a arrecadação atingir a meta estipulada pelo artista. O Embolacha fica com 15% do valor arrecadado e só aceita projetos a partir de R$ 3 mil. “É para que as pessoas tenham condições de fazer as coisas bem feitas. Um sujeito dificilmente conseguirá executar algo com cem reais”, explica Monte.
Ele e sua equipe, que trabalham na Bolacha, escritório que agencia e distribui música, começaram a pensar no projeto em 2009, quando pouco se falava em crowdfunding. “Nós sempre pensamos que os novos caminhos para os artistas passavam muito pelas novas tecnologias e comunicação em rede.” E a Bolacha é um selo independente, que trabalha com artistas independentes, e por isso seus maiores empecilhos tinham uma causa: dinheiro. “Vi que várias plataformas estavam funcionando lá fora. Achamos que seria legal aplicar isso para os nossos artistas”, conta.
A empresa inscreveu o projeto em um edital da Finep, do Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovado no final de 2009. De lá para cá, ele cresceu e mudou. A ideia inicial – custear só a produção de discos – foi ampliada para qualquer criação artística. “A gente acredita que o artista tem sua própria demanda. Ele propõe o projeto e convida o público a participar”, diz Monte.
Galera. Iniciativas como o Queremos, que faz o público custear shows e já levou várias bandas ao Rio de Janeiro, serviram de inspiração. “Quando rolou foi uma revolução, a gente pensou ‘cara, que fácil, por que ninguém teve essa ideia antes?’”, conta Letícia, que foi no show do LCD Soundsystem custeado por crowdfunding. Eles também se inspiraram em casos de fora, como a garota de 13 anos que conseguiu US$ 7 mil para gravar um disco através de um apelo no YouTube e um luthier que pediu verbas em troca de dar aulas de como se faz um violão.
“Isso é uma coisa bem antiga, de quando o dinheiro não existia, de troca. É muito bom isso acontecer agora”, diz Letícia. Paulo Monte também está animado – ele falou ao Link pouco antes de ir a um debate sobre crowdfunding com outros criadores de plataformas semelhantes. “Pode parecer piegas, mas como nosso produto tem a ver com o comércio social, as redes, nossa filosofia é mesmo a de construir isso junto, e se tratar com parceiro mais do que competidor”, diz. Para ele, os desafios agora são ter mais projetos, mobilizar mais público e regulamentar o modelo juridicamente. “Precisamos construir um mercado forte para que esse modelo se torne uma alternativa viável de produção para a cultura.”
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