Sem ‘Eureka’
- 24 de outubro de 2010|
- 17h19|
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Por Redação Link
Oliver Burkerman, The Guardian
Comecemos com o ar-condicionado. Esse é apenas um dentre os zilhões de temas abordados pelo escritor Steven Johnson durante o almoço num restaurante italiano no centro de Manhattan; entre os outros temos a evolução darwinista, a criação do YouTube, a densidade populacional curiosamente perfeita de Park Slope, no Brooklyn, a Revolução Francesa, a epidemia de cólera londrina de 1854, o primeiro computador, o seriado Lost e os motivos pelos quais o 11 de Setembro não foi evitado. Mas o ar-condicionado proporciona uma maneira útil de apresentar a grande obsessão atual de Johnson – a questão misteriosa da origem das boas ideias -, pois sintetiza a forma com a qual estamos acostumados a pensar nos inventores e nas invenções.
Certa noite, em 1902, o jovem engenheiro americano Willis Carrier esperava pelo trem, observando a neblina que envolvia a plataforma, quando teve um súbito lampejo de criatividade: ele poderia explorar o princípio da neblina para resfriar edifícios. Patenteou a ideia, protegeu-a com todas as forças, pôs em produção seu novo invento e ganhou uma fortuna. Em 2007, a Carrier Corporation, fundada por ele, gerou um volume de vendas da ordem de US$ 15 bilhões. Em se tratando de momentos “Eureka”, até Arquimedes concordaria que aquele lampejo criativo foi impressionante.
Mas, para Johnson, o aspecto realmente interessante é o fato de ele ser muito incomum: apesar do momento “Eureka” ser um clichê, as grandes ideias raramente vêm assim. “É estranho”, diz Johnson, ignorando o carpaccio e lançando-se numa envolvente quase-palestra que se expande sem esforço até dominar a maior parte do restaurante, “mas a inovação é um dos casos em que a imagem definidora, toda a retórica e todos os pressupostos a respeito de como as coisas ocorrem se revelam atrasados. É extremamente raro encontrar casos em que uma pessoa consiga, trabalhando sozinha e valendo-se dos próprios recursos, num momento de clareza súbita, chegar a uma grande revolução capaz de transformar o mundo. Ainda assim, parece haver um bizarro desejo de contar a história desta forma.”
Johnson, que mora no Brooklyn com a mulher Alexa Robinson e os três filhos do casal, escreveu sete livros de sucesso e lançou três empresas iniciantes de destaque na rede, entre elas a revista pioneira Feed. Ele faz cerca de 50 palestras por ano e escreve um bom número de colunas opinativas em veículos renomados, tendo realizado tudo isso com a idade surpreendente de 42 anos. Enquanto falamos, ele conta com impressionantes 1,4 milhão de seguidores no Twitter, mais do que celebridades como Kanye West, Sarah Palin, Hugo Chávez e o Dalai Lama.
Seu novo livro, Where Good Ideas Come From (De Onde Vêm as Boas Ideias, sem previsão de lançamento no Brasil), é uma tentativa de definir uma teoria radicalmente diferente, que condiz com sua política pessoal de subversão do conhecimento recebido da forma mais abrangente possível: uma de suas obras de maior sucesso é o livro Surpreendente: a Televisão e o Videogame nos Tornam mais Inteligentes (Campus, 2005).
A origem da vida. Seu mais recente livro deve aprofundar ainda mais a posição dele no exército contemporâneo de autores na casa dos quarenta e poucos anos que atingiram o sucesso comercial escrevendo sobre temas amplos e ideias ocasionalmente grandiosas (o capitão é Malcolm Gladwell e o time ainda reúne Clay Shirky e os autores de Freakonomics). Mas seu livro é ainda mais audacioso, pois busca explicar também a origem das ideias destes outros autores. Ah, e também a origem da vida.
E algumas outras origens.
No núcleo dessa história alternativa está a noção de “possível adjacente” – ideias que parecem, de início, senso comum, mas que gradualmente se revelam uma forma absolutamente nova de encarar praticamente tudo. Cunhada pelo biólogo Stuart Kauffman, a expressão se refere ao fato de que num dado momento – em se tratando da ciência e da tecnologia, mas talvez também no caso da cultura e da política – somente são concebíveis certos tipos de próximos passos.
“A história do progresso cultural”, escreve Johnson, “é, quase sem exceção, a história de uma porta que leva a outra, explorando o palácio ao ritmo de uma sala por vez”. Pense numa partida de xadrez: num dado momento do jogo, várias jogadas engenhosas são possíveis, enquanto incontáveis outras não o serão. O mesmo se aplica às invenções: a prensa móvel só foi possível – e talvez só tenha se tornado concebível – depois de já existirem os tipos móveis, a tinta e o papel.
Quando foi lançado em 2005, o YouTube foi uma grande ideia; se tivesse surgido em 1995, antes da disseminação da banda larga e das câmeras baratas, o site de vídeos teria sido um fracasso. E o princípio vale também para a cultura: para os telespectadores dos anos 50, explica Johnson, seriados complexos como Lost seriam considerados praticamente incompreensíveis, como uma espécie de obra de arte de vanguarda, porque certas formas de envolvimento com a mídia ainda não tinham sido aprendidas.
E tudo isto se aplica também à mais básica das inovações: a própria vida. Em algum momento, ainda no caldo primordial, um bando de ácidos graxos deu lugar a uma membrana celular, o que possibilitou o mais simples dos organismos, e assim por diante. Aqueles ácidos não teriam sido capazes de se transformar espontaneamente num peixe ou num rato: isso não fazia parte do seu possível adjacente.
Se isso parece óbvio, diz, pense em como isso explica o assustador fenômeno do “múltiplo” – a forma como certas invenções e descobertas ocorrem ao mesmo tempo em diferentes lugares, aparentemente por acaso. As manchas solares foram descobertas em 1611 por quatro cientistas em quatro países diferentes; baterias elétricas foram inventadas duas vezes, separadamente, com um intervalo de um ano entre elas e casos similares ocorreram nos primeiros dias do motor a vapor e do telefone.
As pessoas tentaram explicar este fenômeno por meio de termos vagos como o inconsciente coletivo, “zeitgeist” ou dizendo simplesmente que certas ideias estariam “no ar”.
Mas há uma possibilidade mais direta: a de que a inovação simplesmente se tornado parte do possível adjacente. Boas ideias, diz Johnson, “são construídas a partir de uma reunião dos elementos existentes”, em termos literais ou metafóricos.
Na prática, isso significa que a melhor maneira de incentivar (ou ter) novas ideias não é reforçar o fetiche do “lampejo genial” e nem se recolher num chalé nas montanhas para “dar espaço à criatividade”, nem matraquear incessantemente a respeito do pensamento “que foge aos parâmetros” e “ultrapassa fronteiras da clareza criativa”.
Em rede. Em vez disso, devemos ampliar o alcance de nossas próximas jogadas possíveis – o perímetro do nosso potencial – por meio da maior exposição possível ao pensamento aleatório, aos debates e conversas, a um grande número de ideias rivais e correlacionadas; emprestando, recondicionando, recombinando. Essa é uma das maneiras de explicar a criatividade gerada pelas cidades, pelos cafés europeus do século 17 e pela internet. As boas ideias surgem em redes; num sentido capaz de entortar o cérebro, poderíamos até dizer que “boas ideias são redes”. Ou, nas palavras do próprio Johnson: “O acaso favorece a mente conectada”.
É claro que, num certo sentido, esta maneira de encarar o mundo é, em si, um “múltiplo”: as argumentações de Johnson têm muito em comum com o livro Fora de Série, de Gladwell (Ed. Sextante, 2008), e com os livros de autores como Shirky e outros que falam sobre o poder da criatividade amadora que pode ser acessada por meio da web.
Mas Johnson se distancia da versão mais extrema deste ponto de vista, segundo a qual os dotes individuais seriam irrelevantes – sugerindo que qualquer comentarista de blog tem tanto a contribuir para a humanidade quanto um vencedor de um prêmio literário, ou que a “mente coletiva” está sempre correta. A questão não está na irrelevância dos indivíduos criativos, e sim no fato de as interconexões nos tornarem mais criativos.
Do ponto de vista político, nada disso corresponde a uma orientação direitista no sentido tradicional: trata-se de uma rejeição da crença americana na primazia do individualismo e dos livres mercados.
Mas o foco nas interconexões no nível comunitário não corresponde às orientações esquerdistas, “se esquerdista significa favorecer grandes intervenções estatais na sociedade”. Uma filosofia de inovação que rejeitasse ambas as coisas “poderia ser chamada de anarquismo”, diz Johnson, mostrando-se subitamente surpreso consigo mesmo. “Hmm. Não sei ao certo se quero ser associado a esta palavra.”
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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Leia mais:
• ‘Link’ no papel – 25/10/2010
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