Rumo ao Hackatão
- 17 de junho de 2012|
- 18h35|
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Por Redação Link
SÃO PAULO – Descobrir a renda domiciliar das famílias paulistanas, por distrito, e tentar fazer uma correlação com itens como desigualdade ou taxa de homicídio, por exemplo, pode representar muita dor de cabeça, principalmente para o jornalista que não domina as ferramentas de pesquisa de instituições públicas.
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E se houvesse uma maneira de coletar esses dados e cruzá-los de maneira simples em um software?
Encontros entre quem lida com dificuldade com grande volume de dados (jornalistas) e pessoas habilidosas na área da tecnologia e do design podem resultar em ideias que tornem esse emaranhado de informações mais compreensível. Na virada da próxima sexta-feira, 23, para o sábado, 24, profissionais e estudantes passarão 24 horas juntos na sede do Estado, em São Paulo, para trocar ideais e tentar solucionar problemas que travam o trabalho jornalístico.
É o primeiro Hackatão, realizado em parceria com a Casa de Cultura Digital. As inscrições vão até esta terça-feira, 19, e a lista com os selecionados será publicada na quarta-feira. Já se inscreveram programadores, jornalistas, designers e estudantes de cerca de 20 cidades brasileiras.
O evento se inspira nos “hackathons” (contração das palavras “hacker” e “maratona”, em inglês), prática comum em empresas de tecnologia que, há pouco, passou a ser incorporada em redações do exterior, como New York Times e The Guardian.
Para o editor da seção de Notícias Interativas do New York Times, Aron Pilhofer, a interação entre jornalistas e hackers tem proporcionado, para o jornal, novas plataformas e maneiras de contar histórias.
“Nós somos simplesmente parte do processo editorial”, diz Pilhofer, referindo-se a sua equipe. Em geral, seu time é chamado logo no começo da produção da reportagem para trabalhar em conjunto com o repórter e o editor.
Alguns dos projetos do New York Times em que a interação entre tecnologia e reportagem mais funcionou, segundo ele, estavam relacionados ao WikiLeaks e ao “Toxic Waters”, uma série sobre a poluição da água nos EUA. Um grupo internacional chamado Hacks/Hackers, do qual Pilhofer faz parte, também tem provado que o diálogo entre jornalistas e quem entende de código traz resultados interessantes. Periodicamente, eles se reúnem em diversos países para discutir novas aplicações. Apenas em Buenos Aires, desde abril deste ano, foram realizados 12 eventos, entre os quais cinco maratonas hackers.
No Brasil, esse modo de trabalho é novo. Com o Hackatão, o Estado espera estimular uma nova forma de produção jornalística, resultado do casamento das habilidades de desenvolvedores com as dos repórteres. Ficar da meia-noite de sexta-feira à meia-noite de sábado quebrando a cabeça pode, não necessariamente, trazer uma resposta imediata para um problema. A ideia, sobretudo, é permitir a troca de conhecimentos.
“A expectativa é que possamos produzir aplicativos que tornem informações de interesse público que estão desestruturadas, ou estruturadas de forma complexa, mais compreensíveis e acessíveis”, diz o coordenador do núcleo Estadão Dados, José Roberto de Toledo.
Para ele, dificilmente um jornalista sozinho ou um programador chega a uma aplicação útil sem a colaboração de outros. Alguns repórteres do Estado já pensam em plataformas para cruzamento de dados públicos com suas respectivas áreas de atuação.
Pode sair de tudo de uma maratona hacker de 24 horas de duração. Unir jornalistas e gente interessada em programação é, para o membro da Transparência Hacker Pedro Markun, uma oportunidade para criar um espaço de colaboração e troca. E sem “segundas intenções”, como conta.
‘O HACKER É UM CURIOSO’
LOGIN Pedro Markun, do Transparência Hacker
Evento pode renovar redações
O que é o hacker?
O hacker é um curioso. E ponto. É uma pessoa que basicamente entende muito de um assunto ou quer entender. Você pode ter hacker de qualquer coisa. Pode ter o de computador, que faz a máquina fazer o que ele quiser, mesmo que ela não tenha sido programada para tal. Pode ter o hacker da gastronomia, que é aquele que junta três ou quatro ingredientes que supostamente resultariam num prato “x” mas acabam se transformando em uma coisa maravilhosa. E tem o hacker político, aquele que entende profundamente do sistema político, ao ponto de fazê-lo funcionar a seu favor. Em todas essas categorias há ladrão.
Como funcionam as maratonas hackers?
A ideia é assim: que tal passar um sábado escrevendo códigos ou programas, tentando resolver programas complexos? É um programa de fim de semana prazeroso. Para o desenvolvedor, a sensação é a mesma de um poeta que fica escrevendo poesias ou de um músico que fica fazendo músicas. Cada um com a sua arte. Mas não é só para bater papo. É para escrever. Só vai quem gosta. Quem não está a fim fica em casa. Porque é um momento de sinergia entre os participantes. Não é um evento de mercado, para apresentar projetos. É um ambiente de compartilhamento, em que as pessoas projetam juntas. Não há segundas intenções.
Quais são as vantagens de um encontro entre hackers e jornalistas?
O jornalismo brasileiro está bastante atrasado no quesito de compartilhamento e abertura. Promover o Hackatão é uma forma, quem sabe, de renovar processos dentro de redações, que estão engessadas desde Gutenberg. Quem melhor para falar de informações complexas – estatísticas de instituições públicas, por exemplo – do que o jornalista envolvido com um banco de dados complicado? A vantagem de um hackathon desse tipo pode ser a criação de um ambiente de troca entre jornalistas que sofrem com isso e gente que lida com tecnologia e, de repente, tem uma solução rápida para aquele problema de copiar e colar números em uma tabela de Excel ou de um PDF.
O Hackatão pode ajudar no combate à falta de transparência na sociedade?
Sim, espalhando a cultura da colaboração e colocando-a em prática.
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Leia mais:
• Link no papel – 18/6/2012
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