Romantismo offline
- 18 de setembro de 2011|
- 19h20|
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Por Redação Link
Tom Rachman lançou no ano passado, aos 35 anos, seu livro de estreia, ‘The Imperfectionists’, inédito no Brasil. Aclamado pela crítica, o best-seller, um romance sobre um grupo de jornalistas, teve seus direitos de adaptação para o cinema comprados por Brad Pitt. Em crítica ao ‘New York Review of Books’, o também escritor Christopher Buckley diz que teve de ler o livro duas vezes “para entender como ele conseguiu fazer isso”. Neste ensaio inédito no Brasil, Rachman imagina um momento, em 2021, em que a nostalgia do passado analógico levará a uma fuga do digital
Por Tom Rachman, The International Herald Tribune
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As previsões para o futuro tomam como base uma falácia: a ideia de que o amanhã será como hoje, mas um hoje ainda mais atual. O que escapa às adivinhações é o evento singular que transforma tudo. Imagine a opinião que os especialistas manifestavam a respeito da década seguinte no dia 10 de setembro de 2001.
Até 1984, obra-prima da ficção futurista, descrevia o período em que foi escrito, tendo como pano de fundo um país semelhante à Grã-Bretanha dos racionamentos de 1948, e a trama dava vazão aos pesadelos totalitários daquele momento. (O romance transcende a própria época graças à genialidade de seu autor, George Orwell, e à triste persistência do seu tema central; basta lembrar da Coreia do Norte nos idos de 2011.)
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Quanto à década seguinte, minhas expectativas são uma projeção das ansiedades e fantasias contemporâneas – em particular, a ascensão das máquinas. Não no sentido habitual da ficção científica, com robôs renegados disparando lasers por aí. Em vez disso, daqui a dez anos, as maravilhas da tecnologia terão alterado ainda mais o nosso cérebro e o nosso próprio ser, provocando uma feroz reação.
Toda grande mudança social é correspondida por um efeito contrário. A globalização levou aos embates mais violentos da última década, entre os que prosperavam dentro deste sistema e aqueles que o consideravam desalmado. Antes disso, a Revolução Industrial levou ao surgimento do romantismo, cujos adeptos criticavam a urbanização e a frieza do comércio moderno, ansiando por uma alternativa idílica às fábricas e às novas tecnologias do século 19.
A próxima década testemunhará rejeição semelhante, com a ascensão dos românticos offline. Esses saudosistas do mundo desconectado criticarão aquilo que consideram ser a degradação da consciência humana: a capacidade cada vez menor de prestar atenção, a dificuldade de concentração, o zumbido da excitação digital invadindo a vigília.
Quando chegarmos a 2021, haverá governantes, pais e concidadãos insistindo para que sejam tomadas medidas contra os perigos enxergados por eles nos computadores – que, construídos para nos ajudar e nos divertir, acabaram corrompendo a programação do cérebro humano.
Esses saudosistas, ou offliners, defenderão que nossa resposta inicial aos milagres tecnológicos do início do século 21 terá sido ingênua – como a de crianças que descobrem uma máquina mágica de balas e jujubas e se recusam a admitir que empanturrar-se constantemente tem consequências.
Quando o assunto é comida, o exagero leva ao sobrepeso. No caso da tecnologia, dirão os offliners, leva a cérebros flácidos. Eles destacarão que os seres humanos de antes faziam mais do que simplesmente apertar botões à espera de recompensas – sua consciência era exigida, e não apenas satisfeita. Eles tinham memórias internas. Eram capazes de se concentrar numa única tarefa, em vez alternar aos trancos e barrancos entre seis atividades simultâneas. Eram também mais calmos, levando uma existência livre das constantes injeções de adrenalina da excitação digital.
Se essa Nostalgia pelos Dias Desconectados será verdadeira, pouco importa – afinal, esses serão os românticos, para quem a verdade emocional é sempre mais relevante do que a exatidão empírica. De acordo com a sua fervorosa opinião, haverá algo de muito errado na vida que levaremos em 2021.
Os fanáticos vão deixar seus aparelhos eletrônicos desligados por dias, fecharão suas contas de e-mail, sairão das redes sociais, tentarão se apagar do mundo online – um seleto grupo de românticos mais dedicados pode chegar ao extremo de viver sem assistir aos vídeos virais com gatos tocando teclado.
Os moderados consignarão partes de cada dia à vida como costumávamos vivê-la, recorrendo, por exemplo, a conversas cara a cara. Chegarão até a buscar períodos de tédio – aceitando momentos que transcorram na ausência de fones de ouvido, de óculos especiais e de todas as outras formas de entretenimento. Os programadores de software vão explorar esse mercado, desenvolvendo programas que permitam desativar aparelhos, possibilitando que os mais virtuosos se concentrem na vida por algumas horas sem serem sugados pela rede. Os mais autoritários usarão produtos do tipo para impor seus desejos de desconexão a cônjuges, filhos, colegas.
A ironia do romantismo offline está no fato de que ele será promulgado na rede, sendo impossível conceber os movimentos do futuro desprovidos de um intermediário digital. Seus opositores citarão essa história da sua origem (bem como o irritante nome atribuído a esses nostálgicos offliners) para caçoar deles, caracterizando-os como elitistas, reacionários, sonhadores.
Esta última acusação será aquela que mais os incomodará. Afinal, olhando para a sociedade como fizeram os românticos do século 19, os offliners saberão que a disputa já terá chegado ao fim. Em 2021, os sonhos não serão mais a respeito do futuro da tecnologia; os sonhos evocarão um modo de vida anterior, mais lento, mais desajeitado e cada vez mais difícil de ser lembrado.
/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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19/09/2011 - 08:25 Enviado por: Cesar Rocha
Ainda ontem a noite estive refletindo sobre encerrar ou não minha conta facebook. Então pensava: tenho alguns amigos aqui em Brasília, uns em Formosa e outros em Goiânia, dentre os mais próximos geograficamente. Quando quiser interagir com eles, é bem mais prazeroso ir até eles (fisicamente) e compartilhar papos e cervejas…
Conforme lia o artigo ia me identificando. E pensar que tenho sido um grande entusiasta de tecnologia nos últimos 23 anos, desde quando tive contato com um TK-85. Esposa, parentes e amigos mais chegados tem me criticado ultimamente acusando-me de me dedicar mais tempo (e recursos financeiros) a computadores e smartfones do que o normal aceitável. Benvindo 2011!
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19/09/2011 - 11:58 Enviado por: LuizCamargo
Ainda não descobri em que lugar vou posicionar-me naquele mundo; mas certamente vou perguntar em que ele me faz melhor, o quanto ele me faz perceber mais humano. Sonhador, sim senhor!!!
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19/09/2011 - 12:05 Enviado por: ClaudioM
Tenho pensando ultimamente um bocado nesse tema… Notei que o gosto do público atual pela ficção científica não é mais o mesmo, e me perguntava porque. A segunda década do século 21 não é exatamente um retrato daquele futuro asséptico, ingênuo e perfeito de “Star Trek”, mas um “futuro” recheado de gadgets e bugigangas tecnológicas, dispersas entre inventos que, em seu fundamento, mudaram muito pouco — como os automóveis e os aviões. Vivemos hoje uma era de grandes incertezas, e aquela crença na infalibilidade da Ciência e da Tecnologia não existe mais; não necessariamente melhoramos ou pioramos com a Tecnologia, apenas mudamos.
Talvez aqueles “early adopters”, os “antenados”, sejam os primeiros a se enfastiar dessa avalanche de gadgets, que nada mais são que um contínuo reboot de velhos produtos com cara nova.
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19/09/2011 - 15:20 Enviado por: Roni
Dizer que “apenas mudamos” com o avanço da ciência e da tecnologia é cuspir no prato que se come todos os dias. A vida de quem tem acesso a estes avanços está mais confortável, mais longa, mais segura e confortável. E sabemos que com o tempo até os menos abastados tem acesso a esses benefícios, de uma maneira ou outra.
A internet, por exemplo, representa uma enorme diversidade de fontes de informação. É um avanço e tanto no aprendizado. Uma ferramenta democrática e poderosa, se bem utilizada.
O único problema, penso eu, é a falta de conhecimento científico das massas, a aversão à ciência que muitas vezes contraria desejos pessoais. Num mundo cada vez mais dependente de conhecimento e tecnologia, isto pode ser desastroso! -
20/09/2011 - 11:06 Enviado por: ClaudioM
Roni, sem dúvida existem avanços no mundo de hoje, na área de Saúde, Informação, etc. A tecnologia cria novos empregos que antes não existiam. Isso é bom. Mas também estamos criando novos problemas que antes não existiam.
Tecnologia é apenas uma ferramenta, que não necessariamente aprimora o homem; pode até mesmo piorá-lo. Neste aspecto mudamos muito pouco nos últimos 2.000 anos. Abraço.
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19/09/2011 - 12:30 Enviado por: Zelenski
Interessante isso.
Acho que temos que “analogicar” algumas coisas, para tirar maior proveito. Bacana, você pode ouvir música enquanto trabalha, mas você só vai aproveitar a música 100% e concentrar 100% no trabalho se você estiver fazendo apenas uma das coisas. O mesmo vale para leitura, assistir filmes e mais.
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19/09/2011 - 12:48 Enviado por: Roselita Costa Rodrigues
O futuro será o caminho de volta ao passado,o presente já nos expõe muito,nós precisamos de privicidade,todos os animais teem necessidade do contato fisico,e também de uma certa solidão.Realmente devemos estar atentos ao ” Mal estar da Civilização”
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19/09/2011 - 13:48 Enviado por: Eric
As redes sociais mais afastam do que aproximam as pessoas. Nos escritórios é uma uma grande alegria quando acaba a energia elétrica e as pessoas se viram de suas baias e interagem diretamente com as outras pessoas, falando, olhando nos olhos, etc. Acho que vou gostar desse filme.
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19/09/2011 - 15:08 Enviado por: Danilo
Sinto em mim mesmo que tenho dificuldades maiores de concentração no meu trabalho de programação de computador hoje do que antes de me tornar um habitual usuário da Internet. Começo a me preocupar com os prejuízos que o vício de navegar na Web pode nos trazer alterando o modo de funcionamento do próprio cérebro. Hoje, fico impaciente quando tenho um problema que exige muito tempo de concentração para resolve-lo ou quando inicio a leitura de um livro que preciso me deixar abasorver totalmente pela leitura para entende-lo.
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19/09/2011 - 15:44 Enviado por: ed carlos
Bobagem sentimentaloide! Em 2021 esse tipo de artigo sonolento, a base de Ritalina, nao sera lido por ninguem mais, uma vez que nem mesmo os jornais serao objeto de atencao do publico leitor. Esse tipo de pseudo-literatura, cheio de lugares-comuns, eh o problema maior nos dias de hoje e espero que o publico leitor em 2021 nao perca tempo com esse embuste em forma de jornalismo literario que assumiu o marketing do clube da terceira idade em Parati, quando se encontram e se festeja essa mediocridade que sequer se equivale a critica da modernidade que outrora hoje. Deprimente…
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19/09/2011 - 15:48 Enviado por: nbsilva
Inegavelmente a tecnologia da informação deixa todo mundo antenado,mas ao mesmo tempo, percebe-se
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as pessoas cada vez mais alienadas.Somos ao mesmo tempo bem informados e ignorantes, por mais
paradoxal que pareça. -
20/09/2011 - 23:14 Enviado por: Hélio
Ja por diversas vezes tentei me tornar um offliners, exclui contas de redes sociais, desliguei meu celular, mas nunca durou mais do que uma semana. O sentimewnto de exclusão e de estar parado no tempo me fez voltar atrás. Mas em contra partida vivo um saudosismo enorme dos tempos em que era criança onde não havia tantas tecnologias e o tempo parecia não passar.
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21/09/2011 - 07:10 Enviado por: Fabio Moreno
A analogia é viva, pulsante e envolve paixão. A digitalidade é monótona, é um vai e vem de impulsos sinaléticos. O que você preferiria?
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