‘Quer me baixar? Me baixa com dignidade’
- 5 de agosto de 2012|
- 19h00|
- Tweet este Post
Por Tatiana de Mello Dias
Desta vez, ela não esperou o segundo álbum vazar online e colocou ela mesma as músicas para download
![]() |
SÃO PAULO – Tulipa Ruiz nem tinha lançado seu segundo disco, Tudo Tanto, quando tocou em Brasília. No meio do show, ela não entendeu quando os fãs começaram a pedir: “É! É! É”. “O que essa galera está gritando?”, pensou.
—-
• Siga o ‘Link’ no Twitter, no Facebook e no Google+
A ficha caiu em seguida: “É” é uma música de seu disco novo, que a própria cantora havia liberado para download. Ela não imaginou que, com apenas uma semana, tanta gente teria gostado a ponto de pedir a música em um show. “Tinha me esquecido de como a internet é poderosa”, ri, às vésperas de atravessar o mundo para apresentar-se no Japão.
Tulipa trabalhava em uma empresa de comunicação e participava esporadicamente dos shows do pai e do irmão, mas não havia se assumido como cantora até 2007. Incentivada pelo amigo e também cantor Thiago Pethit, ela criou um perfil no MySpace – e tudo mudou. “Me assumi como cantora quando dei o ‘ok’ para publicar o perfil”, conta. Ela colocou as músicas que havia gravado com o irmão (Gustavo Ruiz, que toca guitarra em sua banda e é produtor de seus discos) e, a partir de então, começaram a aparecer os convites – e os contatos. “No MySpace começou um intercâmbio grande entre músicos e bandas”, lembra.
![]() |
Tulipa começou a tocar em São Paulo e um ano depois já não conseguia conciliar o jornalismo e as artes (ela também é artista plástica). Passou todo o ano de 2009 compondo e fazendo shows, até que gravar o primeiro disco mostrou-se inevitável.
Efêmera saiu em 2010. No dia do lançamento, um amigo a avisou pelo Facebook: “Vazou na internet”. “Aquilo me desesperou. Não por estar na internet, mas porque tinham ripado o disco em uma resolução tosca”, reclama. “Pô, você fica não sei quanto tempo no estúdio, escolhe o microfone, tem o maior cuidado com o som para a pessoa baixar em baixa resolução.”
Auge e decadência. Ela passou aquela madrugada colocando uma versão melhor do próprio disco à disposição de seus fãs. As pessoas começaram a replicar e a cópia ruim foi substituída aos poucos. “O meu desespero era que as pessoas não podiam ouvir meu disco em baixa qualidade. Quer me baixar? Me baixa com dignidade”, diz, rindo da própria campanha. “Vivemos uma época muito louca”, filosofa a cantora. “Temos TV e som de alta resolução, caixas potentes. E assistimos a vídeos no YouTube e escutamos MP3 tosco. Estamos no auge da técnica e na decadência da resolução.”
Ela acha que o artista tem de se preocupar com todos os tipos de público – há aqueles que consomem música apenas na web e outros que preferem comprar o disco em lojas. Ao lançar Tudo Tanto, vários fãs reclamaram no Facebook dizendo que “não baixavam música” e queriam comprar o disco. “Temos que pensar em todo mundo. Se não permitir o download, estou restringindo e dificultando o acesso ao meu trabalho. Acho que isso é um pensamento de 2012”, diz.
Contudo, deixar um disco para download não é uma prática automática para os artistas. Tulipa conta que procurava o novo disco da Fiona Apple para ouvir na web – ela queria mesmo era comprar o disco, porque ela é daquelas que gostam do encarte.
Mas, na pressa, apelou para a internet. “Que trampo!”, lembra. Ela foi no iTunes e encontrou apenas um preview de 30 segundos da música. Ficou indignada. “Eu estava ali, de coração aberto, com todo o interesse e vontade de prestigiar o artista, e foi o maior trabalho. Fiquei chateada. E achei o preview uma falta de respeito”, opina. “Acho que a gente tem que pensar diferente. Antes do disco físico eu tinha as minhas músicas no mundo virtual. Elas nasceram ali”, diz.
Início de relação. “Quando procuro um artista para baixar, e eu baixo, e é como um começo de relação. Posso dar play de novo ou não. Posso dar play uma ou 40 mil vezes. Posso postar um vídeo, ir ao show. O download é o começo da relação entre artista e público”, diz.
Ela não crê que o CD vá morrer – ainda. Ex-vendedora de loja de discos, ela vê esse tipo de comércio fechar as portas aos poucos. “O CD descasca. Ninguém tem mais o primeiro CD que comprou. Mas eu ainda tenho o meu primeiro vinil – e os do meu pai e os do meu avô. Fico entre o digital e o vinil”, diz.
Tulipa também não descarta o modelo de negócio das gravadoras – desde que a deixem pôr o disco para download. Ela registrou suas músicas no Ecad e recebe por elas, mas não tem controle sobre isso. “Não tem nada que fiscalize o Ecad. E acho que a arrecadação por amostragem (quem toca mais ganha mais) não é democrática, não incentiva o artista”, critica.
Efêmera foi sucesso de público e crítica. Tulipa ganhou prêmios e tocou no exterior. E diz que imediatamente após o lançamento do primeiro disco, começaram os questionamentos sobre o próximo trabalho. “Acho isso engraçado”, diz.
Mas a sua tranquilidade em relação aos críticos é exceção. “Ainda há um determinado número de pessoas responsável por dar nota de 0 a 10”, diz – uma relação que ela considera injusta. “Há uma pressão. Você pode prestar atenção e pirar.”
Mas a internet, de novo ela, está mudando isso. A importância da crítica especializada está se diluindo com a possibilidade de as pessoas publicarem opiniões em redes sociais. “Todo mundo pode dar opinião. Isso é mais democrático e eu acho mais interessante”, conclui.
—-
Leia mais:
• Novo disco é menos óbvio, mas ainda ensolarado
• Link no Papel – 6/8/2012
Posts relacionados
Tópicos relacionados
Últimas
-
POR Redação Link
Feed – 20/5/2013
UNIVERSO DOS APLICATIVOS | Blog do ‘Link’ estreia série especial com 100 aplicativos para facilitar sua [...] Leia mais
-
POR Redação Link
Projeto leva ensino da programação às escolas
Para professora da PUC-Rio, conhecimento é essencial para se expressar no mundo digital Leia mais
-
POR Camilo Rocha
Impressora 3D (ainda) não é para ter em casa
Impressoras disponíveis no mercado ainda se limitam a produzir pequenos objetos de plástico; testamos a The [...] Leia mais
-
POR Redação Link
Google aquece briga pela música online
Empresa se adianta à Apple e lança seu serviço de música digital por streaming; novidade pode impulsionar [...] Leia mais
Blogs do Link
-
-
Daniel Gonzales |
1h05
Blog inicia série especial com 100 apps; tema de hoje é produtividade
A partir desta segunda, 20, o blog apresenta a série especial 100 aplicativos para facilitar a sua vida. Pelos próximos 10 [...] Leia mais
-
Homem-Objeto |
19h00
Impressora 3D (ainda) não é para ter em casa
(1) Começa o desenho O bico extrusor da Cube aplica a primeira camada de plástico PLA; (2) Algumas camadas depois Pa[...] Leia mais
-
Radar Tecnológico |
17h18
Facebook completa um ano na bolsa de valores sem convencer os investidores
Hugo Passarelli e Mariana Congo Texto atualizado às 21h30 Há um ano, Mark Zuckerberg transformava os bits de sua rede socia[...] Leia mais
-
Modo Arcade |
2h55
Virada Cultural inclui exposição de games brasileiros
Oniken é um dos games presentes na mostra Os organizadores da Virada Cultural de São Paulo incluíram um festival de games [...] Leia mais
-
Rodrigo Martins |
20h53
Três dias seguindo Mark Zuckerberg em SP
Era julho de 2009. Por estas bandas tupiniquins, o Orkut era rei absoluto, com 27,3 milhões de usuários. E Mark Zuckerberg [...] Leia mais
-
Tatiana de Mello Dias |
10h36
Marco Civil: ‘só falta o papa’ apoiar
Tudo para estar costurado para a aprovação do Marco Civil Leia mais
-
Filipe Serrano |
20h00
O desafio do Foursquare é valorizar o que tem de melhor
-
Alexandre Matias |
17h00
Cinco anos mudando a cara do jornalismo de tecnologia
Despeço-me depois de a coluna completar 3 anos É inevitável ouvir Jim Morrison sussurrar a frase que batiza o maior épico[...] Leia mais


Deixe um comentário: