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Segunda-feira, 01 de Setembro de 2014

07 de outubro de 2012 20h18

Produção caseira

De brinquedos a sapatos, imprimir objetos físicos estimula uma produção descentralizada que pode mudar toda a indústria

Por Camilo Rocha

De brinquedos a sapatos, a impressão de objetos físicos estimula uma produção descentralizada que pode mudar toda a indústria

SÃO PAULO – A impressão 3D está deixando de ser uma novidade curiosa para se tornar a principal força por trás de uma revolução manufatureira. Com o barateamento e disseminação das máquinas que conseguem produzir objetos físicos a partir de desenhos no computador, muitas perspectivas comerciais e industriais são criadas. E não são apenas novos jeitos de fabricar, mas novos jeitos de pensar a fabricação.

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A discussão é tema do livro lançado na semana passada Makers: The New Industrial Revolution (Realizadores: a nova revolução industrial, em tradução livre; sem edição brasileira), do jornalista Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired. “A ideia de fábrica está mudando”, escreve ele, em seu típico modo empolgado. “Assim como a internet democratizou a invenção em bits, uma nova classe de tecnologias de rápida prototipagem, de impressão 3D e cortadoras a laser, está democratizando a invenção em átomos. Você acha que as últimas duas décadas foram incríveis? Então espere só.”

Anderson se consagrou com livros como A Cauda Longa e Free – Grátis – O Futuro dos Preços, que mastigam macrotendências da internet. Embora muitas vezes o jornalista norte-americano seja acusado de ser simplista, é inegável que seu olhar está na direção certa. Repare nos termos “bits” e “átomos”, que podem ser traduzidos por software e hardware, virtual e físico, mundo digital e mundo real.

A impressão 3D representa uma fronteira cada vez mais difusa entre bits e átomos. E o melhor é que o foco está menos em excentricidades como “máquina imprime comida” e mais em notícias como a de que a Boeing vai produzir asas de avião em impressoras 3D gigantes.

Em casa

Mas a revolução da impressão 3D não está em corporações como a Boeing e, sim, nas oportunidades que ela abre para inventores e empresários. A impressão 3D permite que os pequenos “makers” fabriquem coisas que antes só os maiores conseguiam. Uma pequena manufatura pode surgir numa garagem.

“Dar poder ao ser humano comum de materializar qualquer ideia”, resume o blog do projeto Metamáquina, integrado por Felipe Moura, Felipe Sanches e Rodrigo Rodrigues da Silva. O primeiro estudou no Instituto de Matemática e Estatística, da Universidade de São Paulo (USP), os outros dois vieram da Escola Politécnica, também da USP.

Numa apertada sala numa antiga vila italiana da Barra Funda, os três constroem pequenas e artesanais impressoras 3D. Já venderam 27 máquinas desde maio (uma impressora montada custa R$ 3.700; desmontada, R$ 2.900), mas tiveram de interromper a produção agora. “Tem mais demanda do que capacidade de entrega”, diz Sanches.

Seus clientes são principalmente arquitetos e engenheiros, que querem as máquinas para produzir moldes e protótipos com mais facilidade e economia. Mas há também universidades em busca dos aparelhos: a Poli já tem uma Metamáquina e a Universidade de Brasília acaba de encomendar uma.

Além de vender máquinas, o trio imprime peças sob encomenda. Uma estilista se interessou em fabricar uma linha de biquínis de plástico. Um casal queria um modelo do filho que estão esperando, produzido a partir de uma ultrassonografia 3D. Um pedido foi especial: um médico solicitou a impressão de um modelo da aorta de um paciente, possibilitando a visualização de um detalhe do corpo do paciente como objeto físico.

Produção

O último exemplo aponta para uma das maiores vantagens da manufatura a partir da impressão 3D: a produção a baixo custo de uma peça individual e exclusiva.

A estilista Andreia Chaves, brasileira que vive em Milão, Itália, produz sapatos confeccionados com partes feitas em impressora 3D. Ela enxerga nessa customização um grande benefício para a moda. “É a tecnologia trazendo o artesanal de volta”, afirma.

Já existe uma disponibilidade interminável de modelos 3D prontos de brinquedos, capas de celular, peças de decoração, utensílios de cozinha, chaveiros, acessórios, encontrados em sites como o brasileiro Designoteca e o americano Thingiverse. Eles funcionam como comunidades de troca de informação sobre técnicas e produtos e de desenhos que podem ser baixados para impressão em 3D.

O Thingiverse está ligado à empresa MakerBot, conhecida por suas impressoras acessíveis. Ela acaba de lançar a Replicator 2, seu modelo mais bem acabado e comercial, com um preço de US$ 2.199. A novidade não parou por aí: pela primeira vez, a MakerBot manteve fechado o código do software de uma máquina sua, além de não divulgar os diagramas do hardware.

Sinal de uma indústria se tornando mais convencional? Sanches, do Metamáquina, lamenta: “O software livre é fundamental para a inovação. Foi assim que esse meio evoluiu tão rápido. A inovação tem de ser mais importante que a propriedade”. Os criadores da Metamáquina condenaram a atitude da MakerBot em um comunicado público. “Preferiríamos mil vezes fechar a empresa a fechar o código.”

Bre Pettis, sócio da MakerBot, defende a decisão. “Os dados retidos ajudam os outros a nos clonar, mas não importam tanto para outros realizadores. Acreditamos no compartilhamento e manteremos a operação a mais aberta possível”, disse ele ao Link (leia entrevista na página 2).

Uma discussão que certamente estará presente na 3D Printshow, primeiro grande evento do setor, realizado no Reino Unido nos dias 20 e 21 deste mês. Múltiplos aspectos da área serão contemplados como design, arte, negócios, tecnologia, comércio e direitos autorais. Tudo envolvido por um clima de otimismo triunfante, resumido no site do evento: “A internet mudou o mundo nos anos 90. O mundo está prestes a mudar outra vez”.

Brasileira faz sapato com impressão 3D

A moda é um setor que pode se beneficiar muito da impressão 3D. É o que acredita a estilista paulista Andreia Chaves, que mora em Milão, Itália. Sua coleção Invisible Shoes (sapatos invisíveis) tem a estrutura de nylon e acrílico espelhado produzida por uma impressora 3D. Foi destaque em revistas como Vogue e Dazed & Confused (a capa da edição de agosto de 2011 traz a cantora Björk usando um de seus modelos).

O trabalho de Andreia foi lançado em parceria com a empresa holandesa Freedom of Creation, especializada em produtos feitos por impressão 3D. “Eles desenvolveram o desenho e fabricaram o sapato”, disse Andreia ao Link, por telefone.

Segundo ela, seu estilo era vanguardista demais para o mercado italiano, ainda muito preso a formas mais clássicos. A impressão 3D foi uma boa solução por vários motivos.

O primeiro foi o desenho em si da peça, complicado e cheio de figuras geométricas. “Não poderia ser feito pelo método tradicional”, disse ela. “A única opção seria por injeção de borracha, mas mesmo assim não haveria garantia de um resultado bom. Seria um processo muito custoso, envolvendo diversos moldes”, explica.

A questão do controle da produção foi outro ponto importante. “Para o designer que está começando e não precisa produzir grandes números, o custo do investimento é muito menor.”

Além disso, pode-se oferecer um produto mais exclusivo, customizado. E, num meio onde exclusividade tem alto valor, a impressão 3D pode ser uma grande aliada. Para Andreia, ela pode representar a volta de uma abordagem artesanal. “É algo totalmente oposto ao mercado de massa, que não é mais sustentável. Aqui na Europa, muitos estão focando nisso. É um meio onde tudo já foi criado, então as escolas de moda procuram ferramentas para mostrar algo novo”.

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Leia mais:
Link no papel – 8/10/2012
• Como funciona a impressão 3D
• Tecnologia que facilita a criação