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Medo do conservadorismo

Por Carla Peralva

Um carta aberta publicada no site CulturaDigital.Br dá as boas vindas a Ana Buarque de Hollanda, nomeada pela presidente eleita Dilma Rousseff como a nova Ministra da Cultura, e pede que o longo processo de debates e consultas públicas feito até agora para a reforma da Lei de Direitos Autorais e definição do Marco Civil da Internet não seja ignorado.

A carta começa elogiosa, falando sobre a postura assumida pela atual gestão do Ministério da Cultura, que assimilou, segundo o documento, “a importância da cultura digital” e teve “uma visão contemporânea para a formação de políticas públicas para a cultura”, além de construir um debate sobre o tema com a sociedade civil. E, depois, assume um tom preocupado: “Uma mudança por parte do MinC implica perder todo o trabalho realizado, bem como perder uma oportunidade histórica do Brasil liderar, como vem liderando essa discussão no plano global.”

Foto: reprodução

Essa preocupação é decorrente, principalmente, das declarações que a cantora e compositora Ana de Hollanda deu durante sua primeira entrevista coletiva após a nomeação para o Ministério. Para ela, as modificações propostas para modernizar a legislação que regula os direitos autorais devem ser todas revistas. “Essa flexibilização, de uma certa forma, já existe. Você pode autorizar, ceder sua música. Acho delicada a flexibilização generalizada. A lei já contempla bastante essa questão”, disse.

Ana, defensora do tão criticado Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, também afirmou que, se necessário, convocará juristas e artistas e até abrirá uma nova rodada de consulta pública para discutir como devem ser tratados os direitos autorais. E é exatamente nesse ponto que os assinantes da carta aberta temem um retrocesso: uma possível freada na conversa com a sociedade civil e a convocação de “‘comissões de notáveis” ou “juristas” responsáveis por dar sua visão parcial sobre o tema”, de acordo com o texto.


Foto: FABIO MOTTA/AE

Para Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, diretor do Creative Commons Brasil e signatário do documento, foi uma grande surpresa a escolha da ministra e, principalmente, suas primeiras falas sobre o cargo. Ele diz que tanto Dilma quanto Lula sempre participaram de eventos e discussões sobre cultura digital e garantiram que a reforma da Lei de Direitos Autorais continuaria. “Durante a campanha eleitoral houve uma polarização clara no tema direitos autorais, e quem votou na Dilma esperava que a atual política de discussão e modernização seria mantida”. Daí a surpresa quando um nome considerado conservador é chamado para assumir o MinC.

Mas a carta não se restringe à polêmica dos direitos autorais. O texto pede, mais, que a postura de vanguarda e discussão construída nos últimos anos não seja deixada de lado. “Confiamos que a Ministra da Cultura terá a sensibilidade de entender as transformações que a cultura sofreu nos últimos anos. E que velhas fórmulas não resolverão novos problemas.”

Lemos afirma que, nos último 15 anos, a formação da cultura passou se dar de um jeito diferente, com a inclusão de agentes pelo mundo online. “Esses novos criadores precisam ser contemplados da mesma maneira que aqueles que se manifestam pelos meios mais tradicionais pelas políticas públicas de cultura. Não é a escolha de uns ou de outros”. Essa é a compreensão que ele diz esperar que a nova Ministra tenha.

1 Comentário
  • 30/12/2010 - 10:14
    Enviado por: Chico Scarpini

    O mundo de hoje, simplesmente não funciona bem (e vai funcionar cada vez menos), com modelos de gestão e políticas do passado, inclusive e principalmente na cultura. Há um fluxo gigante e muito veloz de conteúdo sendo criado, divulgado, compartilhado, reorganizado, misturado, adaptado… rodando em plataformas das mais variadas possíveis (cada vez mais), MUITO MAIOR do que qualquer LEI ou ORGÃO do século passado.

    O ECAD e a nossa lei de direito autoral são ULTRAPASSADOS e precisam ser revistos ou trocados por algo que realmente atenda a NOVA DEMANDA, URGENTEMENTE, sob pena de termos a nossa produção intectual e artística ‘oficial’ sucateada pelo resto do mundo que fizer o ‘upgrade’.

    Chico Scarpini – Artísta digital, compositor, cantor, violonista.

    http://www.scarpini.zip.net

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