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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

01 de junho de 2014 20h03

Marcelo Jeneci: ‘A música digital ainda nem faz cócega no meu bolso’

Músico diz que ainda vive do valor ganho com a execução de suas músicas em shows e rádios

Por Bruno Capelas

LOGIN | Marcelo Jeneci, músico

Jeneci diz que a sociedade adquiriu o direito de consumir cultura de graça por causa da internet. FOTO: Divulgação

LOGIN | Marcelo Jeneci, músico

Um dos principais nomes da nova geração de compositores e cantores da música brasileira, o músico Marcelo Jeneci acredita que, com a chegada da internet, “a sociedade adquiriu o direito de consumir música e cultura de graça”. A frase poderia ser só mais uma declaração, mas faz coro com o nome do último trabalho de Jeneci, De Graça, lançado em 2013.

Na semana passada, o músico participou da coletiva de imprensa do serviço de streaming de música Spotify por aqui, e falou ao Link sobre o lançamento do serviço e o que ele trás de diferente para o cenário musical do País. Além disso, Jeneci falou sobre o consumo de música hoje, e garantiu que boa parte de suas rendas vem de execuções em rádio e TV e shows. “A música digital ainda nem faz cócega no meu bolso”, disse ele, que também acredita que, se tivesse vendido discos nos anos 80, estaria “financeiramente bem mais confortável”. Com a palavra, Jeneci.

Como você vê o lançamento do Spotify no Brasil? O que ele traz de diferente para o mercado brasileiro?
Com a chegada da internet, a sociedade adquiriu o direito de consumir cultura de graça. Se é um direito, ele tem que ser preservado. Entretanto, essa conquista gerou um problema, e a mesma sociedade que o criou está se virando para achar um modelo que remunere o artista de alguma forma. A chegada do Spotify é inspirada nessa necessidade. Não acho que ele vai solucionar o problema, nem que essa solução virá do dia para a noite. Será aos poucos. Mas é uma chegada bem-vinda, porque horizontaliza a música, e é simpática para quem faz música. Acredito que vai ganhar muito público rapidamente.

Como a sociedade adquiriu esse direito? Se foi com o Napster, não foi uma aquisição, mas sim um pé na porta…
Eu não localizaria uma plataforma específica, mas sim uma necessidade de criar alternativas para o consumo. Pô, não dá para comprar todos os discos do mundo, é caro. Com a chegada da internet, vários galhos paralelos foram aparecendo para chegar a um mesmo objetivo, que é não pagar pela música.

A ideia de consumir música de graça através da internet mudou teu trabalho como artista?
Mudou, mas menos do que parece. Rádio e TV fizeram a minha música se tornar conhecida em larga escala, porque são meios com muita força no Brasil. Entretanto, é uma força que diminui. Em pequena escala, a internet faz diferença, especialmente para divulgação. Mas acho que o consumo de música de graça me faz diferença no dia-a-dia, como qualquer pessoa. É quando eu quero ouvir uma música de um disco que eu não tenho, e essa música pode me inspirar para fazer uma música para oferecer para a galera.

Muito se fala sobre como os artistas recebem pouco pela execução de suas músicas no digital. Da sua parte, gostaria de saber: como o Jeneci paga as suas próprias contas?
A maior parte do  meu faturamento não vem da venda de discos, nem vem do YouTube. basicamente, vem das execuções das minhas músicas nos shows e nas rádios, e da receita que eu tenho fazendo os shows. Na execução digital, fica tanto pelo meio do caminho que eu não senti nenhuma diferença ainda.

Então o digital vale mais pela divulgação do que pelo lado financeiro?
O problema é que no digital ainda é preciso passar pelas gravadoras para fazer grana. No momento que alguém compra uma música, o dinheiro passa por muitos bolsos até chegar no bolso do artista. A música digital ainda nem faz cócega no meu bolso. Mas, como um artista pequeno, acho interessante a maneira horizontal com que o streaming trata a música. No Spotify, a música da Beyoncé vale o mesmo que a minha e que todos os outros artistas que tão na luta que nem eu. A quantidade de execuções pode ser diferente, mas o valor da execução é a mesma. É música do mesmo jeito, e acho isso incrível. Combina com a nossa época essa ideia de trazer mais gente para o tabuleiro, o que não acontece no iTunes.

Há quem comente que estamos entrando numa época em que só os shows vão dar dinheiro para um artista, como se fazia antes da invenção dos fonogramas. Você acredita nisso?
Acho que é outro momento. A música se move em ciclos, sempre indo, mas nunca voltando. O que eu ouço de artistas mais velhos é que não rolava grana em show como rola hoje. A remuneração é muito melhor em show, mas é pior em disco. Sem falsa modéstia: se eu tivesse lançado meus discos nos anos 80, eu estaria bem de grana. Na época em que o mercado fonográfico bombava, com certeza eu estaria mais confortável financeiramente. Hoje, sobrou só o insubstituível show. Mas isso pode mudar: daqui a algumas décadas vamos falar de hologramas, e por aí vai.