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Leitura digital? Nem tanto

Por Rafael Cabral

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Flávio Moura, Alexandre Matias e Samuel Titan (FOTO: PAULO LIEBERT/ AE)

Se o suporte muda, a literatura muda junto? Flávio Moura, diretor de programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), e Samuel Titan, coordenador executivo cultural do Instituto Moreira Salles, concordam que não. Para eles, a digitalização da leitura ainda não causou as mudanças que promete – nem no mercado, muito menos na linguagem.

Para o primeiro, a “a internet é mais plataforma para lançamento de autores do que de experimentação de linguagens novas”, enquanto para o segundo “o digital manteve a literatura intacta, sendo mais importante para as artes plásticas ou para o cinema”. Será mesmo que a tecnologia que virou a indústria musical de cabeça para baixo terá um impacto tão pequeno no mercado editorial?

Nem tanto. Ambos concordam também que aparelhos como o Kindle e o iPad, que libertaram os ebooks das desconfortáveis e luminosas telas dos computadores, devem renovar a publicação e a distribuição de obras. No entanto, essa seria uma questão de modelo de negócios, longe de mexer com uma longa tradição literária. E além do mais, o Brasil ainda estaria bem distante dessa tão propagada revolução editorial, que mesmo lá fora ainda está no esboço. “O mercado editorial brasileiro ainda está desconectado”, diz Flávio.

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O tom da discussão, que encerrou a série de debates que Link promoveu na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, foi conservador. Brincando que teriam combinados papéis (Flávio mais entusiasmado, Titan mais comedido), os dois acabaram por concordar em quase tudo: a histeria em torno das promessas da Amazon e de Steve Jobs, o problema da autopublicação de jovens autores em blogs e que os editores continuam analógicos como sempre, apesar “do medo de perderem relevância por causa da tecnologia”.

Sobre os blogs, por exemplo, Titan disse não acreditar “muito nessa história de autores que dispensam o editor e falam direto para o público, pois vão acabar falando sozinhos”. Sobre experiências com literatura multimídia, Flávio diz não ter visto “nada muito estimulante, chegando a ser um ruído no meio da leitura”.

Só no final, Flávio disse que “quem souber manejar o digital, pode tirar possibilidades literárias muito interessantes de lá”, chamando a atenção para a atuação dos programadores. “Podemos ver a ação deles como a de escritores. Eles escrevem em uma linguagem própria e acham beleza naquilo”.

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Já Samuel não acredita na criação de uma nova linguagem literária por causa da tecnologia. “A tecnologia digital já abriu possibilidades de novas linguagens em vários setores, todas muito interessantes”, diz, chamando a atenção para os longa-metragens de animação.

Mas se manteve cético quanto à sua força literária. “O problema tecnológico fundamental pra que a gente possa ler já foi resolvido há seis séculos, por Gutemberg”, finalizou.

3 Comentários
  • 14/05/2010 - 20:22
    Enviado por: Luciana

    Quando usávamos pergaminhos, a função da escrita era documental. De difícil manuseio (eram pesados, precisava desenrolar e enrolar para ‘virar a página’), um pergaminho servia para ser consultado, não lido. Devemos a literatura como conhecemos hoje ao advento do formato do livro, que permitiu que os textos circulassem facilmente. Um novo meio de circulação abre novas possibilidades de utilização. E tomara que isso mude – e muito – nossa literatura.

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  • 14/05/2010 - 20:54
    Enviado por: money for press

    A parcialidade deste jornal é ridícula, obviamente um debate numa livraria gigastore não poderia chegar a outra conclusão, não é mesmo. E esse negócio de comparar Ipad com Kindle é mais ridículo ainda.

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  • 15/05/2010 - 09:07
    Enviado por: Mario Persona

    “Titan disse não acreditar ‘muito nessa história de autores que dispensam o editor e falam direto para o público, pois vão acabar falando sozinhos’” É mesmo? Eu não só penso o contrário, como percebo uma tendência forte do áudio e vídeo. Em meus sites a proporção de acesso a matérias em vídeo é 3 vezes maior do que no formato texto, o que mostra que as novas gerações foram formadas no meio audio-visual. E aqueles que lêem já não conseguem ler textos longos. Blogs e micrologs continuarão a proliferar e o mercado literário convencional a encolher. É preciso sim adaptar o texto aos novos leitores da era tecnológica, como já fazem os blogs, além de oferecer opções como vídeo e áudio.

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