Na rede, o poder é compartilhado
- 8 de fevereiro de 2012|
- 15h37|
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Por Redação Link
Na Campus Party, criador do aplicativo MyFunCity defende o uso de ferramentas digitais para ajudar na administração pública
Por Tatiana Gerasimenko
SÃO PAULO – Alguns podem até torcer o nariz para a Campus Party, mas o fato é que o aglomerado nerd pode fazer muita diferença na vida de qualquer pessoa – inclusive na de quem não sabe sequer encontrar um contato no celular. Muito antes de a internet nascer, já se sabia que informação é poder (quem, tendo lido Vidas Secas, se esqueceu da clássica relação entre o soldado amarelo, símbolo do poder – já que “dono” de todas as informações -, e o personagem principal, incapaz de encontrar as palavras para se defender?). Com os recursos disponíveis hoje, redes virtuais acabam tendo a obrigação de espelhar o que ocorre nas redes presenciais. E diversos aplicativos surgem para dar fôlego ao processo.
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“Muitos aplicativos estão sendo desenvolvidos para unir smartphones, tablets, redes e a internet para que as informações sejam base para a ação”, afirma Mauro Motoryn, um dos criadores do MyFunCity, app que mede o nível de bem-estar dos usuários ao mesmo tempo em que interage com os serviços públicos. “Não acredito em nenhum governo de qualquer lugar do mundo: a autoridade pública não pode sozinha governar uma cidade”, diz.
Por esse motivo, a palavra de ordem é o “civic engagement”, ou engajamento cívico, por meio do qual o cidadão participa da administração da sua cidade exigindo e propondo soluções. Essa postura começaria com uma causa pessoal e passaria a ser coletiva nas redes.
- Mauro Motoryn, um dos criadores do MyFunCity, destaca o papel dos aplicativos no exercício da democracia. FOTO: Natália Russo/AE
“Aqui, o conceito de e-citizen (o cidadão da internet) é levado ao extremo, porque todos estão conectados em redes sociais – a virtual e a presencial -, e ninguém pode ficar à margem da sociedade”, diz Motoryn. Se movimentos como o Occupy, usado por ele como exemplo, foram desorganizados, no futuro serão resultados do uso bem direcionado da informação na internet e através de novas tecnologias. “Vamos cobrar das autoridades todo o tipo de resolução de problemas, incentivar a participação popular e mudar a nossa casa, a nossa cidade, a nossa vida, e compartilhar tudo isso.”
Surfando na onda de apps cidadãos. O interesse pela criação de apps que contribuam para a melhoria das cidades e da participação dos cidadãos não se restringe a poucos desenvolvedores. Ricardo Bastos, business manager da Accedo Agency, aproveitou a discussão para apresentar o Rio Apps , um concurso realizado pela prefeitura do Rio de Janeiro com o objetivo de reunir as melhores ideias de aplicativos para melhorar a qualidade de vida dos cariocas.
Inspirado em uma competição semelhante realizada em Nova York, a Big Apps, já reúne 1900 sugestões, dais quais 40 já estão sendo requisitadas e duas em fase de concurso.
Os usuários, que têm até o dia 3 de abrl para enviar suas ideias, podem se inspirar em pequenos problemas cotidianos. Como exemplo, Bastos usa um tema comum a moradores de grandes metrópoles: enchentes. Aplicativos que relacionem pontos de enchente a locais do mapa e GPS, atualizados em tempo real e distribuídos por feed – ou integrados a redes como Facebook ou Twitter – conseguem fazer a volta para casa do trabalho muito mais tranquila.
Redes de informação maiores, mais aplicativos. A tendência é que inúmeros aplicativos para melhorar a vida das pessoas sejam criados ao longo dos anos. Afinal, foram os primeiros desenvolvedores que sofreram para elaborar – e fazer funcionar, de fato – os primeiros “aplicativos-cidadãos”. Quando as informações já estão compiladas, a criação de outros apps fica mais fácil.
“Os desenvolvedores tinham que checar as informações no começo”, explica Sheldon Demario, criador do Tarifadetaxi.com. “Rádios-taxi, por exemplo, pediam para serem incluídas, mas secretarias de transporte não ajudavam nesse trabalho… considerávamos um avanço quando mandavam algo em PDF”, brinca.
Com a integração de bancos de dados de prefeituras, atualizados com dados oficiais e por meio da colaboração dos próprios usuários, a tarefa de organizar as informações necessárias para que um aplicativo-cidadão funcione é bem menor. Portanto, a tendência é que nos próximos anos tarefas cotidianas sejam completamente amparadas pelos novos recursos.
Quem paga o preço e quem não paga nada. O público da Campus Party é repleto de jovens apinhados de notebooks, tablets e smartphones. Fora do Anhembi, no entanto, há uma expressiva parte da população que simplesmente não tem acesso à internet e aos novos recursos. De que adiantaria falar sobre a função social de aplicativos de internet se muitas pessoas não têm sequer um celular?
O esforço, garantem os palestrantes, é realizado em duas vias: “Estamos disponibilizando as nossas ideias em lan houses, centros e programas com o apoio de muitas organizações brasileiras”, diz Motoryn. “A inclusão digital é uma preocupação e acredito que, ao longo do tempo, em dois anos, com o desenvolvimento dos tablets e dos smartphones, esses aplicativos serão democráticos.”
Soa bonito. Mas quem paga por isso? De alguma forma, esses desenvolvedores devem fazer o aplicativo dar lucro ou, ao menos, sustentar seu próprio funcionamento. A resposta, embora não totalmente elaborada, mostra a direção: todo grande serviço na internet, de redes sociais, é gratuito. “Quem paga os custos é o anunciante. As informações correm livres”, ressalta Motoryn. “São eles que desejam ter seus nomes associados ao serviço”.
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