Golpe de realidade
- 15 de novembro de 2010|
- 17h50|
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Por Tatiana de Mello Dias
O Fórum de Cultura Digital começou com a promessa de Gilberto Gil retomar com John Perry Barlow, fundador da Eletronic Frontier Foundation, o debate que inspirou as políticas digitais da gestão dele como ministro da Cultura.
Oito anos atrás, encontro foi no Mídia Tática, evento que reuniu grupos que já enxergavam na tecnologia e na rede as bases de uma mudança profunda na sociedade. O debate cresceu e extrapolou do campo das ideias rumo ao da aplicação prática: políticas públicas, legislação, barreiras tecnológicas.
Na mesa, estavam Gil, Barlow, o sociólogo Sérgio Amadeu e o moderador, Cláudio Prado, do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, para discutir o que mudou dos últimos oito anos para cá e quais são os desafios para os próximos oito anos.
Cláudio Prado começou apresentando a Linha do Tempo da Cultura Digital, que tem marcos importantes da área no Brasil e no mundo. O encontro de Gil e Barlow, por exemplo, está lá.
“Por muito tempo a cultura precisou ser transmitida por meios”, disse Barlow. E Gil completou: “CDs, por exemplo”. O que mudou hoje é que esses meios físicos já não são mais necessários para a circulação da cultura. “Agora a cultura pode voltar a ser o que sempre foi: uma conversa livre”, disse Barlow. “A era digital tornou bens culturais o que eles realmente são: imateriais”, concordou Gil.
Defensor da liberdade, da neutralidade, do livre fluxo de informações, Gil é avesso à iniciativas governamentais de controle da rede. “Existe uma linha tênue entre caos e anarquia”, disse, afirmando temer, por exemplo, intervenções políticas na largura de banda. “Não sou a favor do governo local regulando qualquer parte da internet.” Afinal, a internet não tem nacionalidade. “A internet é besta, ela tem sua inteligência nas pontas. E nós temos que mante-la estúpida para sempre”, brincou.

Gilberto Gil cercado por Sérgio Amadeu (de costas), John Perry Barlow e Cláudio Prado (Pedro Caetano/UARA)
O maior desafio é equilibrar os interesses dos governos, das empresas e dos usuários. “Corporações controlam os fios, as redes. O nosso ciberespaço depende dessa estrutura”, concordou o sociólogo Sérgio Amadeu. “O desafio político é permitir uma concorrência que quebre esses monopólios”, disse Barlow.
O Marco Civil da Internet, legislação brasileira que tem capítulos específicos sobre questões sensíveis da internet – anonimato, privacidade e neutralidade – foi assunto. Sérgio Amadeu elogiou o projeto que garantiria a neutralidade, mas lembrou: “o problema é que a internet é transnacional”.
O Google, por exemplo, é visto como ameaça. Barlow citou um exemplo: se você usa o computador por muito tempo, ele armazena cookies que revelam algumas de suas preferências. Se você fizer uma busca com os mesmos termos de outra pessoas, os resultados entregues serão diferentes – o Google sabe o que você prefere. “Essa é uma das formas mais intensas de controle, e eu não sei bem o que fazer em relação a isso”, disse Barlow. “O Google é a típica empresa da sociedade de controle. Ela não nos obriga a nada, mas aquilo vira padrão. Como lidar com isso? Hackeando, abrindo os limites”, disse Sérgio Amadeu.
Os presentes concordaram que houve uma mudança profunda nos últimos oito anos, mas ela ainda está acontecendo. A “revolução”, como classificou Gil, acontece todos os dias. “A gente tem de acabar com essa história de que revolução é juntar um monte de gente. Não. Revolução começa no acordar todos os dias. É vida pura e simples”.
O Fórum de Cultura Digital vai até quarta, 17, na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino). A entrada é gratuita.
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