FFLCH Eletrônica
- 21 de novembro de 2010|
- 19h30|
- Tweet este Post
Por Tatiana de Mello Dias
Tinha lama, Gilberto Gil, comida vegetariana, bandeira boliviana e, ao fundo, Novos Baianos e Alceu Valença, hip hop argentino e dub. Uma placa avisava: “sorria, você está em Creative Commons”. Um desavisado que entrasse na Cinemateca Brasileira entre segunda e quarta da semana passada poderia pensar que estava em um festival alternativo, tamanha a quantidade de dreadlocks circulando.
Mas um olhar mais atento denunciava: o pessoal não estava só se espreguiçando no lounge. Munidos de notebooks adesivados, eles queriam conversar. E discutir o impacto da tecnologia na sociedade, durante o 2º Fórum da Cultura Digital Brasileira.
O sociólogo Cláudio Prado, que, nos anos 1960, foi agitador da Tropicália e hoje é coordenador do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, comparava o evento a uma “universidade californiana dos anos 70”. “Primeiro porque a arquitetura de tijolinhos da Cinemateca tem uma coisa anglo-saxã, um jeito elegante desse lugar se comportar. Mas também pelo fato daqueles momentos representarem uma busca de mudança cultural e social. O ‘student power’. Eu sinto aqui esse burburinho”, disse ele, olhando para a movimentação das pessoas que tinham, em média, pelo menos 30 anos a menos do que ele. “Mas não é uma coisa saudosista. O burburinho que a cultura digital está provocando é de esperança e possibilidades reais de mudança.”
O Fórum reuniu praticamente todo mundo que está pensando a cultura digital hoje no Brasil. Estavam lá pioneiros como HD Mabuse, pesquisador do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e responsável pela ligação do mangue beat com a tecnologia, e o pessoal do Mídia Tática e Metareciclagem, que discute e adota práticas alternativas para a tecnologia desde o começo da década passada.
Estava todo mundo lá, assim como os hackers do Transparência HackDay, que pegam dados públicos e recriam aplicativos para torná-los mais úteis para a sociedade, ou mesmo uma solitária Victoria Tinta, boliviana de La Paz que veio à São Paulo falar de seu blog, que busca manter e valorizar a sua cultura aimará.
Também tinha muito de Gilberto Gil ali. Ele foi o escolhido para abrir o Fórum com John Perry Barlow, fundador da Eletronic Frontier Foundation (EFF) e responsável por levar algumas das ideias sobre internet postas em pauta na época em que o músico era ministro no País. Na abertura, Gil falou em revolução. “A gente tem de acabar com essa história de que revolução é juntar um monte de gente. Não. Revolução começa no acordar todos os dias. É vida pura e simples”. Foi aplaudido.
Quem circulava entre os pufes e a fiação para alimentar os notebooks no lounge do evento era interrompido por uma intervenção. Uma garota segurava um cartaz e perguntava: o que você está pensando, em uma referência ao Facebook. Do lado de dentro das salas, intelectuais e produtores culturais como o francês Vincent Moon, do projeto La Blogothéque, falavam de teorias e práticas na cultura digital. Na pauta, assuntos como o futuro dos livros, remix, criação.
A produção também havia montado uma arena para discutir temas quentes, como o Marco Civil da Internet, copyright e universalização da banda larga. Embora os assuntos tenham sido os mesmos que já ecoam em outros espaços, estava claro que o pessoal que se espreguiçava no lounge estava, sim, interessado no que estavam discutindo. Em ouvir e em reproduzir: no primeiro dia a hashtag #culturadigitalbr entrou para os Trending Topics e começou a espalhar spam.
José Murilo Júnior, coordenador de Cultura Digital no Ministério da Cultura, diz que quando ele vai para o exterior precisa ficar explicando por que a tal cultura digital brasileira tem essa cara. “Eles buscam entender qual foi a mágica, a alquimia que aconteceu. O Barlow diz que o Brasil é um ponto naturalmente conectado, e aí quando há infraestrutura, você cria um movimento de escala incrível”. Cláudio Prado tem uma teoria parecida. Ele diz que o Brasil, por ser miscigenado, é “muito rápido na compreensão de coisas novas”. “O primeiro mundo é muito enraizado em si mesmo, e os outros países emergentes, Índia e China, são muito peculiares em sua própria cultura. É difícil que mudanças de paradigma sejam compreendidas por culturas enraizadas. Aqui não temos uma raiz cultural profunda. E por isso temos uma capacidade de compreender o século 21 maior do que qualquer outro país”, arrisca.
O coordenador do evento, Rodrigo Savazoni, fala em reapropriação tecnológica, citando movimentos como o metarreciclagem. “A cultura digital brasileira é como a música, tem reapropriação da tecnologia de uma forma aberta e conectada à cultura popular”, diz ele, arriscando uma projeção para quando mais produtores tiverem acesso a recursos tecnológicos.
Ainda é cedo para saber se será como a introdução das guitarras elétricas na música brasileira, como aconteceu na Tropicália. Mas, sim, algo está acontecendo.
—-
Leia mais:
• Agora é olhar para o futuro
• Link no papel – 22/11/2010
Posts relacionados
Tópicos relacionados
-
22/11/2010 - 09:00 Enviado por: Rafa
“O primeiro mundo é muito enraizado em si mesmo, e os outros países emergentes, Índia e China, são muito peculiares em sua própria cultura. É difícil que mudanças de paradigma sejam compreendidas por culturas enraizadas. Aqui não temos uma raiz cultural profunda. E por isso temos uma capacidade de compreender o século 21 maior do que qualquer outro país”, arrisca.
Será?Praticamente tudo que fazemos e usamos,pra ficar apenas no digital,saiu e foi experimentado primeiro nesses lugares, para depois vir para cá.Compreensão e “alternatividade” talvez, mas sempre estamos um passo atrás.
denunciar abuso -
22/11/2010 - 13:29 Enviado por: Marcos
Os comunistas mais atrasados e reacionários querendo entender de internet.
Para começar, internet e mídias sociais sào uma explosão de liberdade. O próprio evento, uma panelinha com participaçào do governo que apóia a CENSURA, já é uma contradição.
Os caras falam mal do Primeiro Mundo, onde a internet foi inventada, distribuída, e onde está toda a inovaçào hoje.
Sabem o que vai sair desse Fórum ? NADA. É gente acostumada a mamar no governo, não sabem viver em um mundo livre e de criatividade. A internet é o CONTRÁRIO dessa panela.
Lembrem-se do Marcelo Branco, que andava nessa turma e virou porta-voz da candidatura mais autoritária do país.Cuidado garotada, isso é armadilha para vocês caírem na rede da aranha que é o governo comunista. Amanhã vocês nem vão poder escrever no blog sem o governo aprovar. Não sejam manipulados.
denunciar abuso -
22/11/2010 - 16:44 Enviado por: zonda
o fórum foi um encontro mesmo exemplar dessa mutação da vida propiciada pela digitalização da sociedade. quem fala em polaridades (como boxeadores em um ringue ou uma pilha não-recaregável…) não entende a cultura digital como movimento constante, capaz de rearranjar-se à medida dos acontecimentos. não há mal ou bom, há tentativas, erros e acertos…
denunciar abuso
escrevi alguns posts sobre o fórum: compartilho com vocês no meu blogue “descendo a ladeira”.
Últimas
-
POR Agências
Para corte, Google não tem que filtrar YouTube
Tribunal francês decidiu em favor da empresa contra canal de TV que queria compensação por conteúdo seu no[...] Leia mais
-
POR Agências
Google exibe nova versão do Chromebook
Desenhado pela Samsung, o computador com sistema operacional Chrome OS, baseado na nuvem, ganha nova edição[...] Leia mais
-
POR Agências
Embraer e Telebras se unem por comunicação no espaço
A empresa criada pelas duas trabalharão em satélite que responderá também pelo Plano Nacional de Banda Lar[...] Leia mais
-
POR Redação Link
Cantor do ‘Trololo’ está em coma na UTI
Eduard Khil tem dano cerebral irreversível; um vídeo seu de 1976 foi hit de internet em 2010 Leia mais
Blogs do Link
-
Radar Tecnológico |
20h26
Novo iPhone deve ter tela maior e placa de metal [fotos]
Site 9to5Mac revelou fotos, supostamente, do próximo smartphone da Apple O site 9to5Mac, que cobre assuntos relacionados à [...] Leia mais
-
Homem-Objeto |
20h13
HP lança o tablet mais caro do Brasil
A HP acaba de lançar o tablet mais caro do Brasil, o Slate 2. O preço sugerido para a versão apenas com Wi-Fi e 64 GB de a[...] Leia mais
-
Daniel Gonzales |
17h01
Cansou do Draw Something? Tente o Sing Something
Na esteira do sucesso estrondoso do Draw Something – o jogo de adivinhação baseado em desenhos que opõe duas pessoas[...] Leia mais
-
David Pogue |
17h53
Um programa do governo que pode melhorar a economia
É interessante ver ações de governo pensando no futuro e no consumidor. No universo da tecnologia, isso acontece com frequ[...] Leia mais
-
Modo Arcade |
16h24
Quanto custavam os videogames na época em que foram lançados?
Lançado a menos de R$ 700, N64 custaria quase R$ 2 mil hoje Videogames no Brasil são caros. Quando chega um jogo ou um cons[...] Leia mais
-
Renato Cruz |
9h27
Microsoft quer cortar os fios
Empresa aposta no Windows 8 para se expandir no mercado de computação móvel, o que mais cresce Leia mais
-
Filipe Serrano |
20h00
A grande inovação tecnológica criada pelo Facebook
-
Alexandre Matias |
19h01
Um oásis de quietude dentro do oba-oba das redes sociais
-
Rodrigo Martins |
0h17
Mark Zuckerberg se casa um dia após se tornar um dos mais ricos do mundo
Surpreendeu a todos no Facebook neste sábado. O criador do Facebook, Mark Zuckerberg, atualizou agora à noite seu status de[...] Leia mais
-
Tatiana de Mello Dias |
19h01
Os piratas no Brasil
Quase metade dos brasileiros que usam a internet consomem conteúdo ilegalmente, diz Ipea 41% dos brasileiros conectados à i[...] Leia mais

Deixe um comentário: