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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

24 de agosto de 2014 21h00

Festival Burning Man se transforma em ‘Rave do Silício’

Milionários da tecnologia se deslumbram com a romaria ciberhippie do Burning Man

Por Redação Link

 Extravagância está na ordem do dia do Burning Man. FOTO: Jim Bourg/Reuters

Nick Bilton
The New York Times

Há duas disciplinas em que os empreendedores do Vale do Silício são insuperáveis. A primeira é ganhar quantidades exorbitantes de dinheiro. A segunda é fazer de conta que não ligam para o dinheiro. É o que revela o festival anual de contracultura Burning Man, em Black Rock, Nevada.

Se você nunca foi ao Burning Man, imagine um deserto de calor escaldante com 50 mil hippies seminus, chapados, fazendo saudações ao sol enquanto ribomba música techno pelo ar.

Há alguns anos, esta descrição seria em grande parte correta. Agora, as coisas são um pouco diferentes. Nos dois últimos anos o Burning Man, que se realizará de hoje a 1º de setembro, tem contado com o comparecimento anual de uma nova safra de magnatas da tecnologia, muitos deles engajados em um jogo secreto do tipo “eu posso gastar mais que você”.

Alguns dos maiores nomes da tecnologia fazem há anos esta peregrinação até o deserto, confraternizando alegremente na esperança de não serem notados – como, por exemplo, Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, e Jeff Bezos, diretor executivo da Amazon. Mas agora, há também uma nova leva de jovens ricos obcecados por tecnologia, entre eles, Mark Zuckerberg do Facebook, funcionários do Twitter, Zynga e Uber, e uma quantidade de investidores de risco de roupa cáqui.

Antes de explicar como se tornaram ridículos os hábitos destas crianças bilionárias em matéria de desperdício de dinheiro, vejamos as regras do Burning Man: cada um traz seu equipamento para dormir (muitas vezes uma barraca), comida (geralmente miojo) e a roupa mais extravagante possível para uma semana (em geral, pouca). Não há internet ou recepção para celulares.

 Instalação chamada ‘Queime Wall Street’, exibida no Burning Man de 2012, simboliza o espírito de contracultura presente no festival. FOTO: Jim Bourg/Reuters

Embora as drogas sejam tecnicamente ilegais, são mais fáceis de achar do que balas em festa de Halloween. Quanto ao dinheiro, com exceção de café e gelo, não se pode comprar nada no festival. Vender coisas para as pessoas é rigorosamente proibido. Por outro lado, os Burners (como são chamados) são generosos com todo mundo. O que é seu é meu. E isto significa muitas vezes tudo, de comida a saliva.

Luxo

Nos últimos anos, no mundo da tecnologia um quer superar o outro mostrando até que ponto evoluiu em matéria de luxo na hora de dormir. “Nós tínhamos um trailer e trazíamos comida pronta”, conta um sujeito que participou do Burning Man com um grupo de empreendedores do Vale do Silício. “Agora, você pode encontrar nesse lugar os chefs mais malucos do mundo e até quem constrói yurts (as cabanas circulares dos nômades mongóis) com camas e ar condicionado!”

No seu acampamento, há cerca de 100 pessoas que trabalham em startups do Vale ou de Hollywood, ou mesmo em várias empresas de capital de risco. E embora na maioria dos acampamentos o preço fosse cerca de US$ 300 por pessoa, este ano o seu acampamento chegou a US$ 25 mil por cabeça.

“Qualquer pessoa que veio ao Burning Man nos últimos cinco anos agora observa um nível de gastos e de luxo que não existia antes”, disse Brian Doherty, autor do livro This Is Burning Man. “Algo do tipo: ‘Os ricos se mudaram para o meu bairro. Essa está ficando uma zona nobre’”. E para os que têm mais dinheiro para gastar, há acampamentos que têm inclusive empregados.

Vista de cima do festival no Black Rock Desert, em Nevada. FOTO: Jim Urquhart/Reuters

Tyler Hanson, que começou a frequentar o festival em 1995, decidiu há uns anos procurar trabalho como funcionário num dos acampamentos de luxo. Ele descreve a experiência da seguinte forma: trailers suntuosos são estacionados de maneira a formar uma área privada, impedindo a entrada dos estranhos ao grupo.

Os ricos chegam de avião particular ao aeroporto de Burning Man e são levados de carro ao seu acampamento, onde são servidos como reis durante uma semana. “Sua comida, suas drogas, seus hábitos, tudo é entregue para você. É só chegar”, disse Hanson. “No acampamento onde eu trabalhava havia cerca de 30 funcionários para atender a 12 pessoas.”

Hanson não pretende voltar ao Burning Man tão cedo. Os empregados, o dinheiro, os campos cercados e a elite tech foram demais para ele. “Os executivos das startups agora frequentam o Burning Man e consomem drogas em busca de inspiração para criar o próximo app de sucesso”, afirmou. “O Burning Man deixou de ser uma revolução contracultural. Agora, se tornou um espelho da sociedade.”

Vista do acampamento. FOTO: Jim Bourg/Reuters

A elite tech não discordaria de Hanson. Este ano, na estreia do programa da HBO Silicon Valley, Elon Musk, um dos fundadores do PayPal, lamentou que Mike Judge, criador do programa, não tenha entendido o mundo tech porque nunca participara da festa anual no deserto. “Se você nunca esteve lá, não pode entender”, disse.

Evidentemente, não há fotos no Instagram ou Facebook dos acampamentos de US$ 2 milhões, das refeições feitas por chefs, dos funcionários pagos ou dos banheiros privativos impecáveis. Se existissem, significaria que a elite tech na verdade se preocupa com dinheiro – e isso vai contra o espírito do Burning Man. /Tradução de Anna Capovilla

Obra chamada ‘Cabeça de bebê’. FOTO: AP
FOTO: Jim Urquhart/Reuters
FOTO: Jim Bourg/Reuters
Participante se exibe parcialmente submersa em aquário. FOTO: Jim Bourg/Reuters
Instalação intitulada ‘La Llorona’. FOTO: Jim Bourg/Reuters
Perfomance de artista na pista central do festival. FOTO: Jim Bourg/Reuters
Instalação intitulada ‘Starport 2012′. FOTO: Jim Bourg/Reuters
Públic dança ao redor de escultura intitulada ‘A Verdade é linda’. FOTO: Jim Bourg/Reuters
FOTO: Jim Bourg/Reuters
Obra ‘O berço de Mir’, exposta em 2013. FOTO: Jim Bourg/Reuters