‘Estamos criando montanhas de lixo’
- 22 de janeiro de 2012|
- 18h13|
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Por Tatiana de Mello Dias
Diretora defende modelos alternativos de consumo
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Por que você fez o filme?
Eu ouvia um monte de lendas urbanas sobre obsolescência programada. Todas elas iam pela mesma linha: era uma vez um inventor que patenteou um produto que duraria para sempre – lâmpadas, pneus, carros, o que seja – e então o inventor ou a invenção desapareceram sob circunstâncias misteriosas. Você pode procurar pela internet. Está cheia dessas histórias. Eu queria saber se havia alguma verdade nelas. E, na verdade, a realidade se tornou ainda mais estranha.
A indústria assume isso?
A maioria dos fabricantes vão dizer que eles nunca fariam algo do tipo porque seria contraproducente e afugentaria os clientes. Mas isso não é verdade porque, por exemplo, a maioria das impressoras jato de tinta tem a vida útil muito curta, independentemente da marca que você compra. Nós não temos alternativa. Outros fabricantes vão dizer que isso não é um problema, contanto que os preços continuem baixos. Eles não estão totalmente errados. Mas tudo isso cria um grande problema para o meio ambiente, sem mencionar para os nossos bolsos.
Quais são as piores empresas?
Meu filme não é sobre empresas específicas. O problema com a obsolescência programada é que isso está espalhado em todo o sistema. É um dos pilares que sustenta o crescimento da economia. O pior para mim é que o consumidor não está sendo avisado sobre a duração do produto. Se nós tivéssemos essa informação, poderíamos fazer uma escolha consciente sobre qual modelo ou marca comprar. Outro grande problema é que a obsolescência programada contribui para a criação de montes de lixo. E, por último, mas não menos importante, um monte de criatividade é dedicado à diminuir a vida útil, e para mim isso é uma perversão. Design e engenharia deveriam melhorar nossas vidas, e não ajudar a criar lixo.
A obsolescência programada fez sentido no passado. E hoje?
A obsolescência programada sempre faz sentido quando você pensa em manter o crescimento da economia e a criação de empregos a curto prazo. O problema é a longo prazo. Nós estamos usando os recursos naturais muito mais rápido do que o necessário porque uma vez que algo é jogado fora, a maioria dos materiais não é reutilizada, incluindo alguns metais extremamente raros, e em adição a isso nós estamos criando montanhas de lixo. Nós estamos começando a ver as consequências, que não são aceitáveis.
Você vê sinais de mudanças por parte da indústria?
Quando eu comecei a procurar alternativas, eu fiquei preocupada que só acharia poucos acadêmicos aposentados cujas ideias não funcionariam na prática. Mas eu fiquei gratamente surpresa por encontrar várias abordagens que funcionam. Há empresas vendendo produtos mais duráveis convencendo seus consumidores de que esse é um bom investimento. Uma lâmpada que dura 25 vezes mais e custa 25 vezes mais não é mais cara.
Quais são as melhores práticas da indústria?
Eu acho que as melhores são as que calculam o custo total de um produto, e que pegam de volta os produtos quebrados para reciclá-los. Uma impressora barata parece barata apenas porque os custos reais não foram incluídos no preço, mas eles eventualmente terão de ser pagos na forma de problemas ambientais ou de saúde.
As pessoas estão preparadas para consumir menos e melhor?
Geralmente, a maioria das pessoas está preocupada com o fluxo de caixa, pagando o mínimo possível. Mas alguns consumidores começaram a comprar produtos de maior duração. Também há modelos como o aluguel de uma máquina em vez de comprá-la, ou dividir um produto com os vizinhos, ou iniciativas que ajudam as pessoas a começarem a consertar um produto. Uma vez que nós sabemos que nossos gadgets têm um final, é muito mais fácil se encorajar a fazê-los durar mais.
Como podemos mudar a cultura consumista?
Eu acho que devemos ficar longe da ideia de que “bem-estar” está sempre relacionado à posse de objetos, de preferência algo que ninguém mais tenha. Eu encorajaria as pessoas a pensarem no que estão comprando produtos como presente. A maioria das pessoas hoje nos países desenvolvidos já tem tudo, então eu acho que poderíamos pensar em presentes diferentes: um item de segunda mão, uma doação, em vez de comprar coisas que se tornarão lixo muito rapidamente, e não têm a ver com as reais necessidades daquela pessoa.
—-
Leia mais:
• Programado para morrer
• Conserte você mesmo
• Link no papel 23/01/2012
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