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Por Alexandre Matias

Mark Zuckerberg agradece o prêmio que acabou de receber da Time, eleito “pessoa do ano de 2010” segundo a revista – que também já elegeu Hitler (1939), Stalin (1938 e 1942) e ‘Você’ (2006) como personalidade do ano. Mas no meio de sua fala de agradecimento, um problema na transmissão faz surgir na tela a imagem do jornalista australiano Julian Assange, fundador do WikiLeaks que invade o pronunciamento do Cidadão Zuck para falar algumas verdades sobre a escolha da revista.

Bebendo uísque numa sala de estar em algum lugar remoto do mundo – a janela mostra o exterior, à noite, e está nevando –, ele troça da escolha da revista (“Time, sempre à frente: descobriu o Facebook apenas algumas semanas depois da sua avó”) antes de falar uma verdade sobre a escolha da revista: “Vejamos: eu dou de graça para todos informações particulares sobre as corporações e sou um vilão. Mark Zuckerberg vende as suas informações particulares para corporações e ele é o homem do ano”. Hmmm…

LIKE. Julian Assange, editor-chefe do WikiLeaks, comemora a sua libertação no fim de 2010; porta-voz do polêmico site pode ser encarado como o lado B de Mark Zuckerberg, expondo dados que ninguém queria que fossem a público. FOTO: PAUL HACKETT/REUTERS

A cena é, na verdade, um quadro do programa humorístico norte-americano Saturday Night Live: Zuckerberg é interpretado por Andy Samberg (conhecido por ter transformado em hit o quadro “Dick in a Box”, ao lado do cantor Justin Timberlake) e Assange é interpretado por Bill Hader (que vive um dos policiais na comédia Superbad – É Hoje). Mas, apesar de ser apenas uma piada, o quadro escancara a principal tendência para 2011 no que diz respeito ao mundo digital. Afinal, WikiLeaks e Facebook têm muito mais em comum do que simplesmente o fato de serem ambientes nascidos na internet.

Ambos sites lidam com dois temas urgentes nos dias de hoje: exposição e sigilo, que podem ser vistos como um só – privacidade ou segurança, dependendo do ângulo. A forma como os dois sites lidam com informações que em décadas anteriores se restringiam a círculos privados restritos (desde as altas cúpulas executivas ao recanto tranquilo de seu lar) acaba por torná-los gêmeos de índoles diferentes, como o citado quadro do Saturday Night Live faz crer.

Afinal, são quase gêmeos mesmo: embora tenha sido criado em 2004, foi só em setembro de 2006 que o Facebook abriu seus cadastros para qualquer um que não fosse estudante universitário (a rede social era restrita a esse tipo de usuário até então). E no mês seguinte, era registrado o domínio do WikiLeaks, site que só foi lançado de verdade em dezembro daquele ano.

Ambos lidam com uma questão crucial na era digital: de quem são os dados que circulam na rede? Mais do que isso – a quem pertence a informação no mundo pós-internet? Aquela foto que você tirou no réveillon é sua? E se alguém passou atrás na hora em que você tirou esta foto? E se esse alguém não queria ser visto naquela comemoração de ano novo? Você está infringindo seus direitos autorais ou sua privacidade? Ou será que, como prega o CEO do Google, Eric Schmidt, se você tem algo a esconder, talvez fosse melhor que você nem estivesse fazendo?

São questões sem resposta – ainda. Mas algumas dicas sobre o futuro deste debate apareceram em algumas capas de revista durante o ano que passou. Uma delas foi da Wired de agosto, que declarou a morte da web. Polêmica, a capa abriu um debate sobre a natureza da internet e como nos relacionamos com ela. A revista advogava que, uma vez que as pessoas estão acessando a rede cada vez mais por telefones celulares, a interface feita para computadores no início dos anos 1990 (a World Wide Web) estava perdendo espaço para outras formas de utilização da internet.

Fato: a internet não pertence mais apenas aos computadores. E, uma vez que está à disposição de qualquer aparelho que se conecte a ela, dá para subir informações de qualquer lugar. Seja comentar em um blog, publicar uma foto ou atualizar sua conta no Twitter. Deixando de lado a questão técnica sobre a natureza da rede, levantada pela revista, e trazendo o assunto de novo à nossa discussão, o fato de a internet não ser mais uma rede e sim várias faz com que se perca completamente o controle sobre qualquer coisa que seja publicada online.

Outra capa pegou carona nesta discussão para ampliá-la: na edição de dezembro da revista Scientific American trouxe ninguém menos que Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web, para escrever sobre estas mudanças que estão ocorrendo na rede. No artigo “Vida Longa à Web”, o cientista reclamava que estas diferentes sub-redes criadas dentro do ambiente digital poderiam matar a essência da internet como a conhecemos hoje.

Redes fechadas de venda de conteúdo (como as criadas pela Apple, Microsoft, Sony e Nintendo) ou ambientes que se esforçam para trazer todo o conteúdo online para o mesmo lugar (como tentam Google e Facebook) tornam a navegação fragmentada e a rede, que antes permitia a comunicação de todos com todos, se tornaria menos entrelaçada e os diálogos, dispersos, isolados. Esta balcanização da rede poderia deixar a internet mais estagnada, menos frutífera, mais controlada.

O que nos leva à terceira capa de revista, com Zuckeberg eleito como personalidade do ano pela Time no fim de 2010. Seria Mark o criador de um ambiente propício à interação, ligando milhões de pessoas entre si (“O conector”, diz a legenda de sua foto na capa da revista)? Ou ele é o dono de um império de informações construído a partir de nossos dados? A quem pertence as informações contidas no Facebook? A todos que estão lá ou à empresa fundada quase no susto por um ex-estudante de Harvard?

Se estas questões seguem em aberto, elas voltam para nós como um alerta: cuidado com o que você publica online. Mas tal ressalva não depende de cada um de nós, uma vez que basta fazer compras na Amazon para que seus dados – sua lista de compras, seus hábitos de consumo – se tornem públicos (ou, ao menos, públicos para a Amazon). Usar a internet quase que pressupõe a autopublicação e mesmo que você apenas “curta” um link que um amigo colocou no Facebook, você está publicando algo.

Por isso é bom entrar em 2011 com isso em mente: uma vez online, seus dados não são mais seus. Mesmo que isso ainda não seja regra, é bom trabalhar sabendo disso – é uma lógica que vale tanto para pessoas quanto para empresas e instituições. Afinal, a qualquer minuto alguém pode levantar diversos dados sobre você e jogá-los para todos – vide o que fizeram com Julian Assange depois que ele começou a vazar documentos confidenciais dos Estados Unidos. E pode ser que, depois de uma década “social”, comecemos a encarar a internet como uma rede de potencial antissocial, em que todos estão vigiando todos. Em algum lugar, George Orwell, autor do clássico 1984, sorri sem graça.

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Leia mais:

Link no papel – 03/01/2011

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15 Comentários
  • 03/01/2011 - 08:55
    Enviado por: Debora Blank

    A diferença entre o Facebook e o Wikileaks é que os dados obtidos pelo Facebook são fornecidos voluntariamente por assinantes, que podem determinar o grau de privacidade com o qual querem proteger sua informação. Os dados obtidos pelo Wikileaks são roubados e os interlocutores não tiveram intenção que fossem divulgados.
    Num pais como o Brasil onde se da asilo e protege ladrões como Ronald Biggs ou terroristas internacionais como Battisti, e o lema “rouba mas faz” é justificativa valida para corrupção, é compreensível a dificuldade de distinguir esta diferença.
    Quanto ao fulano que estava na foto divulgada no Facebook, é o mesmo caso do beltrano que saiu na foto publicada no jornal a sua revelia porque aconteceu de estar de passagem quando a foto foi tirada.

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    • 03/01/2011 - 15:46
      Enviado por: Ivo

      Cresça!

    • 03/01/2011 - 15:47
      Enviado por: Borba

      Que falsa ética, típico papinho de governança. E mesmo assim o pretenso vilão serve ao bem público, enquanto o queridinho da mídia, às corporações! como se o usuário pudesse mesmo controlar seu grau de privacidade, nos gigantescos data warehouses onde se perdem seus dados. como se as corporações não os usassem e os trocassem livremente, com ou sem consentimento do usuário. Portanto os dados dessa corporações tb devem ser expostos, nada mais justo. Nada ficará escondido debaixo do sol…

    • 03/01/2011 - 16:02
      Enviado por: f. amaral

      Fotojornalistas costumam ter consciência do que está entrando na imagem, e os editores têm obrigação de atentar a esse detalhe quando decidem o que será publicado ou não.
      Geralmente, quando a pessoa não quer ser identificada, o fotógrafo a registra de modo a não revelar inteiramente seu rosto – um exemplo disso está na edição de hoje, ou de ontem, agora não sei ao certo, do caderno Metrópole do Estadão, mostrando uma jovem mulher de bíquini na praia, na chamada de uma matéria sobre o verão nas praias. Não é possível se identificar com certeza quem é a pessoa fotografada.

      Eu soube do Wikileaks por uma amiga norteamericana, por volta de maio de 2010. Ela me escreveu para que eu visse o vídeo do ataque mortal de uma patrulha em helicóptero, no Iraque, de civis desarmados, dentre os quais um fotógrafo, cujo equipamento foi confundido com uma arma; ele era o único a portar um objeto, e pela camera do mesmo helicóptero, era facilmente identificável que se tratava de uma camera profissional (corpo de lente branco). Também a linguagem corporal da pessoa em questão denotava ele ser um fotógrafo, não um atirador.
      Óbviamente esse tipo de atenção aos detalhes não passa pela cabeça de um soldado treinado somente para reagir a inimigos desconhecidos e invisíveis – obviamente também o soldado qeria mesmo era poder fazer o que havia sido treinado pra fazer, disparar suas armas contra pessoas , indefesas ou não, este detalhe certamente não é considerado no treinamento militar norteamericano.
      Não me importo com a integridade jurídica ou civil ou seja lá qual o termo, do criador do Wikileaks, mas sou grato ao site por ter revelado tamanha aberração perpetrada pelo mais poderoso exército do planeta.

    • 03/01/2011 - 19:48
      Enviado por: Thomas

      Sr. Ivo,
      sugere que a Sra. Blank ‘cresça’ e envelheça até o ponto de se tornar senil e não mais conseguir discernir sobre aquilo que ela expõe em seu texto de forma tão clara e distinta? Que presunção é essa, Sr. Ivo, de retrucar argumento tão claro e logicamente válido com um simples: “cresça!”?! Quem será esse Sr. Ivo que se arroga – sem vergonha – o direito de se passar por um completo idiota sem nos expor exatamente o que passa na mente de um ‘completo idiota’?
      Borba,
      Por favor nos explique a ‘falsa ética’ e ‘típico papinho de governança’, chavões para assustar o interlocutor? Com relação a forma de obtenção de informação, pelo que eu entendi, você acha que o fim (que você acha certo) justifica os meios (que você não questiona). Não passa de um típico raciocínio de comunista ressentido da quinta série do primário.
      F. Amaral,
      Pelo que eu entendi você é grato pelo wikileaks por ter te mostrado uma “aberração perpetrada pelo mais poderoso exército do planeta”, você dá ênfase ao potencial de propaganda anti-norte americana do vídeo e não a chocante morte dos sujeitos inocentes. Quer dizer que a morte de inocentes pelas mãos de traficantes no Rio, em tempos de paz, não é uma grande aberração? Cortar partes de órgãos reprodutivos de crianças em tribos africanas, em tempos de paz, não é aberração tão grande quanto? Apedrejar uma mulher por ela ser adultera, em tempos de paz, só seria uma aberração se fosse nos EUA e se fosse perpetrado pelo exército norte americano, no Irã é uma questão cultural?! A graaaaande conspiração da mídia global?! Desculpe, mas é nesse ponto que você quer chegar?!

    • 04/01/2011 - 14:47
      Enviado por: Borba

      Caro Thomas, é muito simples entender onde está a falsa ética. Parte exatamente do papinho de gorvenança, principalmente a corporativa, mas incluo no balaio os estados. Me refiro a todos os agentes de poder. Pregam a ética, mas são completamente amorais em seu comportamento. Usam e abusam de seu poder, manipulam informações, trocam informações, vendem informações, sem autorização com certeza (ou o sr ou alguém acha q clicando um xizinho de privacidade sua informação não será usada ou vendida?), qnd não coagem pessoas, usurpam o bem público em função de seus interesses, todas estas ações maquiadas com pose de boas empresas com responsabilidade social, ambiental, fiscal, em nome de uma pretensa lisura, do bem da sociedade, mas na verdade fazem qq coisa pelo exclusivo bem da corporação (mts vezes infiltradas nos governos)? Não acho que os fins justificam os mesmos mas acho que deviamos ter os mesmos pesos e medidas para julgar ambos. Governos podem espionar, o cidadão comum interessado no bem público não? Quem é o vilão da história?

  • 03/01/2011 - 09:45
    Enviado por: Ernâni Getirana

    Realmente a Time tá precisando dar um time

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  • 03/01/2011 - 11:14
    Enviado por: Helena Sanders

    Favor notar que George Orwell nunca escreveu classico algum chamado ‘Big Brother’. Talvez o autor do artigo esteja fazendo referencia a ‘Mil Novecentos e Oitenta e Quatro’, em que figurava um personagem por assim dizer ‘sem corpo’ chamado ‘Big Brother’, inspirado no dirigente da entao Uniao Sovietica, Joseph Stalin.

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    • 03/01/2011 - 15:10
      Enviado por: Murilo Roncolato

      Obrigado, Helena. Já corrigimos.

  • 03/01/2011 - 14:13
    Enviado por: londonms

    Uma revista que já elegeu – Hitler (1939), Stalin (1938 e 1942) – realmente é uma revista a ser levada a sério, é pra acabar.

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  • 03/01/2011 - 14:48
    Enviado por: Clodoaldo

    Essa é a vida como vc nunca viu !!!! hahahahahaha

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  • 03/01/2011 - 16:05
    Enviado por: Igor

    Muito interessante a reportagem. Com certeza nos faz refletir sobre a utilização adequada da internet, a liberdade dos meios de comunicação e os desafios que as legislações nacional e internacional precisam superar para acompanhar a evolução tecnológica dos meios de comunicação.

    Parabéns!

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  • 03/01/2011 - 16:26
    Enviado por: André

    Quer privacidade na internet? Comece desligando a gravação de ‘cookies’ pelo seu navegador. Dados pessoais em sites de relacionamento é mais uma das várias formas de extrair informações e dirigir um conteúdo específico para o usuário.

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  • 03/01/2011 - 18:12
    Enviado por: RolandTFlackphayser

    Em quem você prefere acreditar?

    Num ex-estudante de Harvard que deu um golpe em seu colega que o ajudou a criar um negócio milionário que no começo só o havia criado para pegar garotas e agora vende dados dos usuários para quem pagar mais?

    Ou no Hacker australiano culpado de 24 acusações de violação de dados sigilosos de grandes empresas e governos que revelou atrocidades de guerra ao grande público e desnudou todo o sistema diplomático mundial, revelando a podridão por trás dos ternos bem cortados?

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  • 06/01/2011 - 10:48
    Enviado por: Daniel Siqueira

    Uma correção: Nao é “Dick in a box” é “Cock in a box”

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