Cool não, relevante
- 6 de novembro de 2011|
- 18h58|
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Por Camilo Rocha
Maior referência de música online, o site Pitchfork só cresce sem fazer concessões ou usar truques para inflar audiência
Nos últimos dez anos, a internet virou o cenário musical de cabeça para baixo. Essa história já foi contada em verso e prosa: a indústria fonográfica se esfarelou, artistas pararam de contar com vendas de discos como modo de ganhar dinheiro e passamos a consumir grandes quantidades de música em qualquer lugar e sem pagar nada por isso.
Um subproduto desse cataclismo que se abateu sobre um dos principais setores da indústria do entretenimento foi a perda de poder da crítica musical tradicional. Se antes, jornalistas e revistas especializadas estavam sempre na vanguarda das novidades e podiam influenciar o sucesso de um artista, com a web eles passaram a competir com uma série de novos canais, como vazamentos antecipados de discos, blogs de MP3, sites independentes, comunidades, fóruns de discussão e todo tipo de mídia social.

Natural. “É difícil saber em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança cresceu de forma orgânica”
E o mais importante desses novos sites é o norte-americano Pitchfork. Fundado em Minneapolis, em 1995, por Ryan Schreiber, então um estudante do ensino médio, o site cresceu e prosperou. A tal ponto que durante a década passada, se tornou a referência número um em jornalismo musical da internet se você gosta de rock independente e música de caráter mais alternativo.
Ágil, ligado e ousado, o Pitchfork ofuscou concorrentes de outras gerações como NME, Spin e Rolling Stone (em suas versões online). Numa era de congestionamento de fontes, o Pitchfork conseguiu se impor como um filtro com credibilidade.
“Na internet, todo mundo tem espaço para falar”, disse ao Link o presidente do Pitchfork, Chris Kaskie. “Eu posso ter um blog, você pode ter um blog, o problema é apenas que há tantos lugares que fica difícil saber onde ir, como ir, em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança que nossos leitores têm na gente cresceu de maneira orgânica, eles querem saber o que falamos sobre as coisas. Eles não precisam necessariamente concordar com nossa opinião, mas o que dissemos virou parte da sua experiência musical.”
Kaskie acabara de palestrar sobre a experiência e sucesso do Pitchfork na Amsterdam Dance Event, a maior conferência mundial da música eletrônica hoje. Nada de estranho aí. Um dos segredos do sucesso do Pitchfork, em sintonia com os playlists ecléticos dos fãs de música de hoje, é sua abrangência de estilos. O site pode ter nascido no berçário do indie rock, mas ele cobre eletrônica, hip hop, country, metal, afro beat, jazz, entre muitas outras coisas. Um dos raros álbuns a levar nota dez numa crítica do site foi My Beautiful Dark Twisted Fantasy, do rapper Kanye West, de 2010.
“É impossível cobrir tudo e a tendência é cair em nichos, em ter veículos especializados para cada coisa.” Kaskie acredita em fugir da setorização. “Estamos sempre procurando maneiras de fazer tudo ser relevante, não importa se é country ou dance ou rap, o Pitchfork acha que tudo tem que ser tratado da mesma maneira, se tiver relevância ou for bom. Se for uma porcaria, quem se importa, melhor ignorar.”
Para manter essa abrangência, o site tem uma produção impressionante. A média de notas é de 15 por dia. Até o dia 3 de novembro desse ano, 1.046 resenhas de álbuns haviam sido publicadas. O esforço tem compensado. Em setembro, Kaskie conta que um novo patamar de audiência foi atingido: 4 milhões de visitantes únicos. Segundo o executivo, fruto de um conteúdo que preza sempre pela qualidade.
“Ignoramos estratégias para turbinar a audiência que não sejam criar bom conteúdo. Queremos criar uma boa galeria de fotos, mas de uma maneira que não seja invasiva. O que se costuma fazer por aí é que você clica na página e há uma nova impressão de publicidade (medida de contagem de audiência). Não é assim que operamos porque isso é muito irritante. Também não ficamos pensando ‘Como vamos fazer para ter leitores mais jovens ou mais velhos?’ O que queremos mesmo são fãs de música de todas as idades. Pode soar idealista, mas nossos números mostram que estamos acertando.”
Na palestra que deu em Amsterdã, Kaskie disse não se importar em ser cool, apenas relevante. Mas a música ainda é relevante hoje em dia, numa época em que parece que ela sai de todos lugares, sem nem ter que precisar pagar para ouvi-la? “Acho que a música continua sendo relevante como sempre foi”, explica.
“A diferença é que as pessoas a priorizam de modo diferente”, continua o executivo. “Ela está a caminho de se tornar outra vez algo que tem menos a ver com água da torneira. Isso obviamente não se aplica ao Top 40, à esfera mais pop. Mas em festivais e shows, as pessoas estão se envolvendo com música em grande escala agora, mais do que nunca. Considerando a quantidade de música que tem por aí, mais e mais pessoas querem descobrir mais música, conhecer coisas novas e ser o primeiro entre seus amigos a saber.”
Para Kaskie, os que têm criticado a falta de impacto ou relevância da música de hoje, como o crítico Simon Reynolds em seu livro Retromania, precisam sair mais de casa. E lembrar que, conforme a idade avança, ficamos mais exigentes e menos empolgados.
“Por exemplo, tem gente que começou a trabalhar para nós quando ainda estava no colegial. Nessa época, quando falavam sobre o Animal Collective, sobre a primeira vez que conheceram a banda, isso era a coisa mais significativa na história da música para eles.”
Kaskie admite que está mais difícil fazer as pessoas lerem sobre música. “Quanto mais jovem o público, mais querem só escutar o MP3 e depois passar para outra coisa. A ingestão e vômito de música vem acontecendo num ritmo tão rápido, que muita gente não vê a necessidade de ler sobre aquilo. O que é uma pena, pois é uma atitude preguiçosa e passiva.”
O Pitchfork faz questão de remar contra essa maré. “Não é o nosso jogo. Gostamos de ler sobre nossas coisas. Mesmo que seja só um MP3, queremos escrever sobre ele, mostrar contexto, explicar.”
E conclui: “Nossa essência é a crítica musical. Foi assim que construímos nossa reputação, conseguimos nosso público. Tudo que fazemos deve incluir abrangência jornalística e ter uma opinião.”
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Leia mais:
• Link no papel – 07/11/2011
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