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Contra fuzis, celulares

Por Camilo Rocha

Na Campus Party, três ativistas falam sobre suas experiências de usar a internet como forma de articulação para mudanças sociais  

Leila Nachawati, Olmo Galvéz e Charles Lenchner. FOTO: Cristiano Sant´Anna/Divulgação

SÃO PAULO – No palco principal da Campus Party, a blogueira sírio-espanhola Leila Nachawati conta como o telefone móvel é uma arma fundamental na resistência contra a violenta repressão do ditador Bashir al-Assad. “Mandem celulares para a Síria!”, é um dos pedidos de uma lista mostrada no telão, que inclui também se manifestar no Twitter contra o líder russo Medvedev (@MedvedevRussiaE) e protestar na embaixada síria mais próxima.

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É com câmeras de celulares que os manifestantes conseguem tirar fotos e filmar onde a mídia tradicional não chega (jornalistas estrangeiros não podem entrar no país). E é através de celulares que a informação dribla o cerco da ditadura e chega ao YouTube e ao Twitter, entre muitos outros canais.

O momento ativista da Campus Party trouxe para o palco, além de Leila, o espanhol Olmo Galvéz, participante do movimento Democracia Real Ya!, e Charles Lenchner, ligado ao Occupy Wall Street.

Leila descreve horrores praticados pelo regime sírio (um ativista que filmava uma passeata teve os olhos arrancados; outro que entregou flores a um soldados foi torturado até a morte). Conta que só consegue estar em um evento como esse porque mora na Espanha. E dá exemplos que provam que a resistência tem na criatividade outra arma poderosa: mostra uma foto de adolescentes com a boca amordaçada e um cartaz praticamente todo em branco. “É para alertar que é o silêncio da maioria que permite que o regime continue no poder”, explica.

O espanhol Galvez entra em seguida. Se os sírios lutam por algo tão básico quanto a democracia, ele mostra como, mesmo num país da Europa ocidental, não faltam causas para abraçar. No caso da Espanha não é preciso procurar muito: o desmprego no país está na casa dos 22%; entre os jovens é quase 50%.

Na tela do palco principal, Galvez expõe outros problemas, menos repercutidos fora do país. Com o título “A Espanha que você não vê”, a apresentação lista frases como “País assolado por escândalos de corrupção”, “Falta de transparência nos partidos políticos”, “Mídia convencional controlada” e “147ª posição no ranking de facilidade para abrir um negócio, atrás do Congo”.

Contrastando com o estilo mais sóbrio e sério de Leila e Galvez, o americano Lenchner parte para táticas de engajamento de plateia. Inicia sua participação pedindo que levantem a mão aqueles que já participarem de uma manifestação. A maioria levanta. Depois, começa a dividi-los por causa: “Quem já fez passeata por minorias?” “Quem já falou contra a corrupção?” e assim por diante. Os braços levantados rareiam. Depois, o homem do Occupy Wall Street pede que a plateia repita frases de um slogan do movimento. A plateia não se empolga e Lenchner brinca: “Vou pensar que foi por causa da tradução”.

O ativista parte para a explicação das estratégias digitais do Occupy Wall Street e exalta a importância dos agentes livres. São pessoas “como vocês”, não envolvidas diretamente com a organização, mas que estão espalhando a palavra na rua e nas redes.

Ele conta que a organização encoraja todo tipo de mensagem em favor do movimento. “Nunca dizemos, ‘não faça, não sabemos se vai funcionar’. Para nós, tudo tem que ser tentado, depois vemos o que funcionou ou não.” Ele exemplifica com o tumblr We Are The 99 Percent, onde pessoas postam fotos com cartas relatando suas dificuldades. “Não tenho emprego, estou perdida, estou brava, sou 99%, nascida nesse mundo à medida em que ele desmorona”, diz a mensagem de uma moça de 19 anos, casada com um militar “muito trabalhador”.

A inconstância da plateia durante a apresentação do trio sugere que a maioria dos campuseiros não está especialmente empolgada com o ativismo 2.0. “Mudar o mundo é mais excitante que qualquer jogo de computador”, diz uma frase no telão, ao final da exposição de Lenchner. Muitos aqui discordariam.

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