Continuem bobos
- 9 de outubro de 2011|
- 23h00|
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Por Redação Link
Steve Jobs morreu na quarta-feira da semana passada. De lá para cá, tudo o que havia para ser falado ou escrito sobre seu impacto no mundo hoje já foi publicado. É impossível evitar a repetição. Mas o ‘Link’ não pode deixar de escolher o que quer dizer sobre seu o cara que moldou parte do mundo que cobrimos todos os dias. Você provavelmente já viu, ouviu ou leu isso. Mas de tudo o que foi dito sobre Steve Jobs, o que queremos dizer sobre ele é o que ele disse de si mesmo.
Em 2005, Jobs foi convidado para ser o paraninfo da turma de formandos da Universidade de Stanford, na Califórnia. Na época, Jobs estava no fim do processo de recuperação de uma cirurgia que retirou um tumor de seu pâncreas. Ele falou durante oito minutos para um estádio cheio de estudantes.
Baixe este pôster. A capa da edição especial do Link sobre Steve Jobs é um pôster, que pode ser baixado em PDF aqui. Clique na imagem para ampliá-la.
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Por Steve Jobs
É uma honra estar com vocês hoje na sua cerimônia de formatura em uma das melhores universidades do mundo. Nunca me formei na faculdade. Este discurso é o mais perto que já cheguei de uma formatura. Hoje quero contar a vocês três histórias da minha vida. Só isso. Nada de mais. Apenas três histórias.
1.
A primeira história é a respeito de ligar os pontos. Desisti de cursar a Universidade Reed depois dos primeiros seis meses de aula, mas continuei a frequentar o câmpus como ouvinte por mais 18 meses antes de desistir de vez. Por que eu larguei a faculdade? Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma mulher jovem e solteira que tinha se formado na faculdade e decidiu me entregar à adoção. Ela fazia questão que eu fosse adotado por um casal formado no ensino superior e, por isso, tudo foi arranjado para que eu fosse adotado logo ao nascer por um advogado e a mulher dele.
Mas, quando nasci, o casal decidiu que na verdade o que queriam era uma filha. Assim, meus pais, que estavam na lista de espera, receberam um telefonema no meio da madrugada perguntando: “Temos um inesperado bebê menino; vocês o querem?” Eles responderam: “É claro”.
Posteriormente, minha mãe biológica descobriu que minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que meu pai não concluiu o ensino médio. Ela se recusou a assinar os documentos finais da adoção e só mudou de ideia alguns meses depois, quando meus pais prometeram que um dia eu iria à universidade.
Bem, 17 anos mais tarde, eu fui para a universidade. Mas, ingenuamente, escolhi uma universidade quase tão cara quanto Stanford, e toda a poupança dos meus pais, de classe trabalhadora, estava sendo gasta com o meu ensino superior. Depois de seis meses, não consegui enxergar o mérito daquilo.
Eu não tinha ideia do que queria fazer da vida e não imaginava como a universidade poderia me ajudar a descobrir a resposta. E ali estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham poupado durante toda a vida. Decidi abandonar o curso e acreditar que tudo daria certo no fim.
Na época foi assustador, mas, em retrospecto, foi uma das melhores decisões que tomei. Assim que larguei a faculdade, não precisei mais frequentar as aulas que não me interessavam e pude ir como ouvinte às que pareciam ser mais interessantes.
Nem tudo foi romântico. Eu não tinha quarto no dormitório universitário e, por isso, dormia no chão dos quartos dos colegas. Recolhia garrafas de Coca-Cola para trocá-las por US$ 0,05 e ter dinheiro para comprar comida. Caminhava mais de 10 km aos domingos, de um extremo ao outro da cidade, para fazer a melhor refeição da semana no templo Hare Krishna. Eu amava isso. E percebi depois que boa parte daquilo com que me deparei ao seguir minha curiosidade e minha intuição consistiu em experiências de valor incalculável.
Eis um exemplo do que quero dizer: naquela época, a Universidade Reed oferecia provavelmente a melhor instrução caligráfica de todo o país. Por todo o câmpus, cada cartaz e cada etiqueta de cada gaveta eram maravilhosamente escritos à mão. Por ter virado um desistente que não precisava mais assistir às aulas normais, decidi participar das aulas de caligrafia.
Descobri muito a respeito de fontes serifadas e sans-serif, de variações no espaçamento de diferentes combinações de letras, de características que mais chamam a atenção naquilo que há de melhor na tipografia. Era um assunto maravilhoso, histórico, de uma sutileza artística que a ciência não é capaz de capturar. E tudo me pareceu fascinante.
Nada disso parecia inspirar a menor esperança de encontrar uma aplicação prática na minha vida. Mas, dez anos mais tarde, quando estávamos projetando o primeiro Macintosh, me lembrei daquelas aulas. E todos aqueles conceitos foram incorporados ao nosso projeto para o Mac. Ele foi o primeiro computador a ter uma tipografia belíssima. Se eu nunca tivesse participado daquele curso como ouvinte, o Mac não teria contado com diferentes tipos de fonte e nem com caracteres de espaçamento proporcional. Como o Windows copiou o Mac, é provável que nenhum computador pessoal tivesse esses recursos.
Se nunca tivesse me tornado um desistente, não teria me tornado um ouvinte naquela aula de caligrafia e, talvez, os computadores não tivessem os maravilhosos recursos tipográficos que têm hoje. É claro que, na época da faculdade, era impossível ligar esses pontos. Mas, dez anos mais tarde, a relação entre eles estava claríssima.
Repito que não é possível ligar os pontos quando olhamos para o futuro; só podemos ligá-los ao olhar para o passado. É preciso confiar que os pontos acabarão se ligando uns aos outros. É preciso confiar em alguma coisa – instinto, destino, carma, o que for. Essa abordagem nunca me decepcionou, e fez toda a diferença na minha vida.
2.
Minha segunda história é a respeito do amor e da perda.
Eu tive sorte – descobri cedo aquilo que amo fazer. Woz e eu fundamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, dez anos mais tarde, a Apple tinha crescido e virado uma empresa avaliada em US$ 2 bilhões, com mais de 4 mil funcionários. Tínhamos acabado de lançar nossa criação máxima – o Macintosh – no ano anterior, e eu tinha acabado de completar 30 anos.
E então, fui demitido. Como é possível uma pessoa ser demitida de uma empresa que ajudou a fundar? Bem, conforme a Apple cresceu, contratamos alguém que me pareceu muito talentoso para administrar a empresa ao meu lado e, no primeiro ano de parceria, as coisas deram certo.
Mas nossas visões para o futuro começaram a divergir e, finalmente, brigamos e nosso conselho administrativo decidiu tomar o partido dele. Assim, aos 30 anos, eu estava fora. A notícia foi muito divulgada. Aquilo que fora o foco de toda a minha vida adulta tinha sido tirado de mim, e a experiência foi devastadora.
Por alguns meses, não soube ao certo o que fazer. Tive a sensação de ter decepcionado a geração anterior de empreendedores – de ter derrubado o bastão quando ele era transmitido a mim. Encontrei David Packard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo.
Meu fracasso foi absolutamente público e pensei até em fugir do Vale do Silício. Mas comecei a perceber algo: eu ainda amava aquilo que fazia. As infelizes situações vividas na Apple não tinham mudado isso em nada. Eu tinha sido rejeitado, mas continuava apaixonado.
E, assim, decidi começar de novo. Não percebi isso na época, mas parece que ter sido demitido da Apple foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para mim. O peso do sucesso foi substituído pela leveza de ser um iniciante de novo, menos cheio de certezas a respeito de tudo. Aquilo me deu a liberdade necessária para começar um dos períodos mais criativos da minha vida.
Nos cinco anos seguintes, fundei uma empresa chamada NeXT, outra chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher fantástica com a qual me casei. A Pixar avançou até criar o primeiro longa-metragem de animação feito por computador, Toy Story, e virou o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Numa reviravolta notável, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a Apple e a tecnologia que desenvolvemos na NeXT está no coração do renascimento da Apple. E Laurene e eu construímos juntos uma família maravilhosa. Tenho certeza que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple.
Foi um remédio muito amargo, mas parece que o paciente precisava tomá-lo. Às vezes a vida nos atinge na cabeça com um tijolo. Não percam a fé. Estou convencido de que a única coisa que me manteve trabalhando foi o amor que sentia por aquilo que fazia. É preciso descobrir aquilo que amamos. E isso vale tanto para o trabalho quanto para a vida afetiva.
O trabalho vai ocupar uma parte substancial de nossas vidas, e a única maneira de ficarmos realmente satisfeitos é desempenhar um trabalho que acreditamos ser grandioso. E a única maneira de fazer um trabalho grandioso é amar aquilo que fazemos. Se ainda não descobriram o que é que amam fazer, sigam procurando.
E, como ocorre em todos os grandes relacionamentos, as coisas só melhoram com o passar dos anos. Assim, continuem procurando até encontrar aquilo que amam. Não se contentem com menos do que isso.
3.
Minha terceira história é a respeito da morte.
Quando tinha 17 anos, li uma frase a respeito da morte que era mais ou menos assim: “Se viver cada dia de sua vida como se fosse o último, chegará um dia em que você estará certo”.
Aquilo me impressionou muito e, desde então, nos últimos 33 anos, tenho me olhado no espelho todos os dias pela manhã e me feito essa pergunta: “Se este fosse o último dia da minha vida, será que eu faria mesmo o que estou prestes a fazer hoje?” E, sempre que a resposta é “não” por muitos dias seguidos, percebo que preciso mudar alguma coisa.
Lembrar que logo estarei morto é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da vida. Afinal, quase tudo – todas as expectativas, todo o orgulho, todo o medo do fracasso ou do constrangimento – tudo isso se torna insignificante diante da morte, restando só aquilo que é importante. Lembrar que vamos morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de pensar que temos algo a perder. Já estamos nus. Não há motivo para não seguir o coração.
Há cerca de um ano, fui diagnosticado com câncer. Fiz um exame às 7h30 da manhã, e ele mostrou claramente um tumor no meu pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos disseram que era quase certo que aquele era um tipo de câncer considerado incurável e que eu não deveria esperar viver mais do que três ou seis meses.
O médico me disse para voltar para casa e resolver minhas pendências, algo que equivale à maneira codificada dos médicos de dizer que vamos morrer. Significa que temos de tentar contar aos filhos em poucos meses tudo aquilo que imaginamos ter 10 anos para dizer. Significa certificar-se de que tudo foi arranjado para que a situação seja tão fácil quanto o possível para a sua família. Significa despedir-se.
Convivi com o diagnóstico o dia todo. Naquela noite, fiz uma biópsia, procedimento no qual enfiaram um endoscópio pela minha garganta, atravessando o estômago e chegando ao intestino, cutucando meu pâncreas com uma agulha para recolher algumas células do tumor.
Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava presente, contou que quando os médicos analisaram as células ao microscópio, todos começaram a chorar, pois tratava-se de um tipo raríssimo de câncer no pâncreas que pode ser tratado por meio de cirurgia. Eu fiz a cirurgia e agora estou bem. Essa foi a ocasião em que vi a morte mais de perto e espero não repetir a experiência nas próximas décadas.
Mas, depois de ter passado por isto, posso agora dizer a vocês algo que me parecia menos claro quando a morte era um conceito intelectual: ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que desejam ir para o Paraíso não querem morrer para chegar até lá.
Ainda assim, a morte é o destino final do qual todos nós partilhamos. Ninguém jamais escapou dela. E é assim que as coisas deveriam ser, porque a morte é provavelmente a melhor invenção de toda a vida. Ela é o grande agente transformador da vida. Ela tira do caminho o que é velho e abre espaço para o que é novo.
No momento, vocês são o novo, mas, um dia, alguns anos mais tarde, vocês se tornarão gradualmente velhos e serão tirados do caminho. Peço perdão por ser tão dramático, mas isso é bastante verdadeiro.
Nosso tempo é limitado e, por isso, não devemos desperdiçá-lo vivendo uma vida que não seja a nossa. Não se deixem aprisionar pelo dogma – que equivale a viver de acordo com os resultados do pensamento de outra pessoa. Não deixem o ruído da opinião alheia afogar a voz que vem do interior de cada um de vocês.
E, mais importante, tenham a coragem de seguir seu coração e sua intuição. De alguma maneira, eles já sabem aquilo que vocês realmente desejam se tornar. Tudo o mais é secundário.
Quando eu era jovem, havia uma publicação fantástica chamada The Whole Earth Catalog, que foi uma das bíblias da minha geração. Foi criada por um sujeito chamado Stewart Brand perto daqui, em Menlo Park, e ele deu vida à publicação com o seu toque poético. Isso era no fim dos anos 60, antes dos computadores pessoais e da editoração eletrônica, o que quer dizer que tudo era feito usando máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid. Era uma espécie de Google em forma de livro de bolso, 35 anos antes de o Google ter sido inventado. Tratava-se de uma publicação idealista, que transbordava de ferramentas bacanas e noções geniais.
Quando a revista pareceu ter cumprido sua missão, eles fizeram uma edição final. Estávamos em meados da década de 70, e eu tinha a idade de vocês. Na quarta capa da última edição havia uma foto de uma estrada interiorana nas primeiras horas da manhã, o tipo de estrada na qual os mais aventureiros gostam de pedir carona. Abaixo da foto estavam escrito: “Continuem esfomeados. Continuem bobos”. Aquela foi a mensagem de despedida deles.
Continuem esfomeados. Continuem bobos. Sempre desejei isso para mim mesmo. E agora que vocês estão se formando para dar início a um novo começo, é isso que desejo a vocês. Continuem esfomeados. Continuem bobos.
Muito obrigado a todos.
/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
—-
Leia mais:
• Link no papel – Especial Steve Jobs
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09/10/2011 - 23:27 Enviado por: Toni Almeida
Foram milhões de publicações ao longo desses dias a respeito do Jobs, mas podem ter certeza que esta é a que ele gostaria de ter lido. Parabéns pela homenagem que vem comprovar a genialidade dos jornalistas brasileiros e consolidar o porquê de vocês estarem a frente deste importante veículo consagrado. De Ribeirão Preto, Toni Almeida.
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