Compartilhando objetos
- 1 de julho de 2010|
- 22h23|
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Por Rafael Cabral
“O que aconteceria se você tivesse a sua própria fábrica, sem sair de casa, na sua mesa de trabalho?”, perguntou-se Bre Pettis, desenvolvedor e inventor norte-americano. Se para produzir hoje é necessário possuir maquinaria pesada e comprar material que anda em barcos, trens e caminhões antes de chegar às suas mãos, o hacker queria facilitar o processo: construiria uma impressora 3D open source, acessível a todos.
“Queria levar essa tecnologia para as pessoas normais. Até então, você tinha de trabalhar em uma empresa de design ou entrar em uma universidade de elite para poder usar um equipamento como esse, que é bem caro. Pensamos no público. Quem não iria querer uma máquina que pode criar praticamente qualquer coisa?”, diz Pettis, em entrevista ao Link.
Ele lançou a ideia para seus colegas Zach Smith e Adam Mayer, que também ficaram empolgados. Logo, estavam com as mãos na massa. “Ingerimos um monte de cafeína, nos trancamos num quarto com um cortador a laser e só saímos de lá quando tínhamos uma máquina que funcionava. E que imprimia coisas”, brinca. Era a primeira MakerBot.

Como a RepRap, a MakerBot também imprime as próprias peças (Foto: Flickr/Bre Pettis)
“Foram dois meses, várias revisões e mais cafeína para criar o primeiro protótipo que funcionava, e mais um mês para vender as primeiras máquinas”, diz. No começo de 2009, a MakerBot Industries, empresa que fundaram para comercializar “máquinas que criam coisas”, já enviava os primeiros dispositivos para os seus compradores. No momento, existem cerca de 1.600 deles espalhados pelo mundo. Primeira impressora 3D realmente acessível do mercado, ela custa de US$ 750 a US$ 950.

Adam Mayer, Zach Smith e Bre Pettis mostram o primeiro protótipo (Foto: Wikimedia Commons)
Em volta do projeto, criou-se uma comunidade de early adopters que criavam modelos em três dimensões de quase tudo e adoravam mostrá-los uns aos outros. Foi aí que os três decidiram criar um lugar para que eles pudessem compartilhar esses objetos, uma espécie de P2P de coisas. “Queríamos um site de compartilhamento de arquivos, não de músicas ou filmes, mas de objetos. Então nós o críamos. Além dos moldes, hoje o Thingiverse é um dos melhores lugares para achar hardware open source na internet”, explica Zack Smith, em contato via e-mail. “Todo dia checo o site e vejo as coisas criativas que as pessoas compartilham, é simplesmente fantástico”, comemora Pettis.
Por lá, dá para achar muita coisa simples e útil – peças de Lego e um alicate, por exemplo – e outras completamente descabidas (quem imprimiria um crânio? Talvez a mesma pessoa que queira modelar a cabeça do Walt Disney).
Todos os designs estão em código aberto. Se você tem um equipamento para criá-los, basta baixar um arquivo e imprimir. A Cupcake CNC, último modelo da impressora vendida por eles, os cria em camadas de plástico que, ao final, ficam sólidas, duras.
“Você já consegue imprimir muitas coisas na MakerBot em menos tempo do que levaria se você andasse até uma loja e as comprasse. Não sei se isso vai se expandir no futuro, mas é sempre bom colocar novas ferramentas nas mãos de pessoas criativas”, acredita Pettis, para quem “o maior desafio para popularizar essa tecnologia é torná-la mais fácil de usar”.
Já Smith vê as impressoras 3D se tornando comuns em cinco ou dez anos. Ele passou quatro anos estudando o projeto Rep Rap, do qual já falamos por aqui, e pensando em como transformá-lo em uma ferramenta de manufutura de baixo custo, para todos. “Hoje, as pessoas não entendem o que é uma impressora 3D e não sabem se teriam uma em casa. Para isso, precisamos cuidar da parte técnica. Cada vez mais, tentamos simplificar a tecnologia, para que essas pessoas possam usá-la de maneira prática, como fazem com um micro-ondas. Toda vez que o botão ‘Imprimir’ é pressionado, você deve criar exatamente o que esperava. Menos que isso é inaceitável”.
Para ele, se a impressão 3D se tornar popular, será impossível pará-la. Será como qualquer outra tecnologia revolucionária: matará algumas indústrias, mas também criará outras tantas. “Porém, acredito que a mudança será positiva – mais manufaturas locais e hardware open source para todos. Se as indústrias tentarem lutar contra isso, será como agarrar um punhado de areia. Quanto mais forte você aperta, mais rápido a areia foge por entre os dedos”, projeta.
Tanto ele quanto Pettis sabem que fábricas tradicionais sempre serão necessárias, mas acham que para grande parte dos produtos fará mais sentido ter um equipamento caseiro, para que as pessoas mesmo os imprimam. “São ferramentas poderosas, que podem ser usadas por gente normal para produzir coisas que elas precisam. Sua popularização trará mudanças profundas no modo como desenhamos, produzimos, criamos e distribuímos”, diz Smith.
“Acreditamos que elas podem fazer com os bens físicos o que os computadores fizeram com a informação: descentralizar”.
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