Notícias de Tecnologia

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

16 de março de 2014 21h00

Como é a vida depois do Facebook?

Deixar a rede social mais popular do mundo não é uma decisão fácil quando boa parte dos amigos e contatos está nela; preocupação com a privacidade, muito tempo gasto na plataforma e excesso de discussões estão entre as motivações de quem saiu

Por Ligia Aguilhar

Ricardo Pampulha deixou o Facebook após discussões com amigos sobre política.
FOTO: Clayton Souza/Estadão

SÃO PAULO – Já virou assunto com data marcada. O evento no Facebook agendado para o dia 9 de março convidava usuários a migrarem coletivamente para a Diaspora, uma rede social descentralizada criada por ativistas e que promete maior privacidade. Dos mais de 13 mil convidados, cerca de 600 confirmaram presença. Essa não foi a primeira e nem será a última vez em que a promessa de abandonar o Facebook é sacramentada pela internet. Com mais de 1 bilhão de usuários, a maior rede social do planeta se transformou na plataforma que todos adoram odiar.

Quem nunca ouviu um amigo ameaçar sair do Facebook? Apesar dos sinais de cansaço da rede, que ajudaram rivais como o Snapchat a prosperar, e de uma maior preocupação com a privacidade após a revelação do escândalo da espionagem pelo ex-agente Edward Snowden, de 2012 para 2013 o número de brasileiros na rede social cresceu 9%, para 83 milhões de pessoas, e o número de horas gastas na plataforma aumentou de 9h23 para 12h13 horas mensais.

Nesse contexto, sair do Facebook se tornou quase um ato heroico. Como diria a escritora australiana Germaine Greer “na era da informação, invisibilidade é equivalente à morte.” Não por acaso, para quem já se arriscou a sair da rede a pergunta frequente é: existe vida após o Facebook?

“O Facebook não faz nenhum tipo de falta”, afirma o engenheiro de telecomunicação Ricardo Barbalho Pampulha, de 27 anos, que se descreve como um ex-viciado na rede social. “Eu ficava no Facebook até 4 horas, sendo que acordava para trabalhar às 6 horas. Entrava até durante reuniões de trabalho. Hoje vejo que exagerava.”

A decisão de abandonar a rede social veio em meados do ano passado, após desentendimentos com amigos por causa do seu posicionamento político. “Postava tudo que passava pela minha cabeça. Viciado é isso mesmo. Você lê e posta coisas o tempo todo”, explica. “Meus amigos começaram a me xingar, minha família tentou me defender e, para evitar confusão, cancelei”, diz ele, que substituiu o Facebook pelo WhatsApp. “Ontem fiquei online até 3h30”, confessa.

Produtividade
Para o assistente de fotografia Rafael Carvalho de Egídio, 28, a decisão demandou meses de reflexão. O incômodo surgiu ao perceber o impacto da sua exposição na rede. “Postava muita coisa, aí algum amigo não aparecia em uma foto e vinha me cobrar”, diz. O fim de um relacionamento e a busca por mais produtividade o levaram a uma primeira tentativa frustrada de sair da rede social, que durou 15 dias. “Sentia falta da rotina do Face e voltei”, diz.

Ao analisar suas postagens antigas, porém, criou coragem para colocar um fim definitivo à sua página, em agosto passado. “O Facebook alimenta o ego. Comecei a depender de as pessoas curtirem minha foto para me sentir feliz. Às vezes fazia algo parecer maior do que era para me mostrar. Quando me dei conta disso, fiquei envergonhado”, diz.

Há um mês fora da rede social, a estudante de geografia Lydia Minhoto Cintra, de 27 anos, estava em busca de mais produtividade. “Algo que me incomodava muito eram as discussões das quais participamos sem querer e que muitas vezes não levam a nada”, diz.

Acostumar-se a ficar fora da rede não é tarefa fácil, segundo ela. “A vida sem Facebook existe. Está sendo um processo me desligar, mas até agora só vi pontos positivos”, diz. “A diferença é que não sei um monte de coisas sobre a vida das outras pessoas. Mas percebi que isso não é relevante. Quem de fato é importante vai estar próximo de mim de qualquer maneira”, diz.

Evolução
O cofundador da consultoria The Listening Agency e doutor em antropologia Tim Lucas diz que a dependência da rede é grande no Brasil porque se trata de um País muito social. “As pessoas querem fazer parte de algo popular, são extremamente sociais”, diz. Mas ele acredita que com as revelações de Snowden esse quadro possa mudar. “É ridículo imaginar que o ser humano não vai alterar seu comportamento quando sabe que está sendo monitorado”, diz.

Mark Zuckerberg, parece partilhar da mesma opinião. Na semana passada, postou em sua rede social um texto inflamado contra a espionagem norte-americana onde afirmava ter ligado para o presidente Barack Obama para expressar sua frustração.

“O Facebook aprendeu bastante. Há cerca de quatro anos fez mudanças na privacidade sem avisar e isso danificou um pouco sua imagem. As pessoas estão mudando. E o Facebook com certeza também vai evoluir”, diz Lucas.