Colhidas a dedo
- 24 de outubro de 2010|
- 17h15|
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Por Heloisa Lupinacci
Quando se fala em arte criada em suportes tecnológicos, logo vem à mente a imagem de um artista jovem, com visual moderninho, em algum ponto entre um nerd e um artista plástico.
Pois um senhor de 73 anos, velho conhecido das artes plásticas, é quem assina as obras da exposição de arte digital mais comentada nesse momento.
Foi aberta em Paris, na fundação Pierre Bergé-Yves Saint-Laurent, a exposição Fleurs Fraiches (Flores Frescas, em francês) que reúne os desenhos que David Hockney, inglês que está certamente entre os artistas vivos mais importantes do mundo, faz com os dedos sobre a tela sensível ao toque do iPhone, no primeiro momento, e do iPad.
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Na exposição, as obras são mostradas sobre os próprios aparelhos da Apple, para “respeitar o conceito imaginado pelo artista: imagens coloridas e luminosas”. As imagens vão passando pelas telinhas: buquês de rosas pink, ramalhetes de tulipas roxas, vasos de lírios amarelos.
Surdinho
Hockney comprou um iPhone em 2008. “David estava com a audição ruim, então comprou o iPhone para mandar mensagens de texto para os amigos. Ele logo descobriu o aplicativo Brushes”, conta Charlie Scheips, curador da exposição, à Associated Press. “Tudo começou como uma questão estritamente ligada à comunicação e não à arte”.
O passatempo de desenhar com a ponta dos dedos logo foi se transformando em uma produção consistente e constante. Ao longo dos últimos 18 meses, Hockney produziu mais de mil desenhos e expandiu o tamanho de sua tela no início deste ano ao comprar um iPad.
“Ele se deita na cama e desenha o que estiver vendo – cenas da janela, o quarto, e, mais frequentemente, o buquê de flores que estiver sobre a mesa de cabeceira”, diz o curador da mostra. Terminado o desenho, ele envia para um grupo de amigos formado por cerca de 20 pessoas.
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“Um dia, no verão passado, eu recebi uma mensagem de texto de David Hockney, que dizia: ‘Eu vou mandar para você nessa tarde a alvorada de hoje. É uma frase absurda, eu sei, mas você sabe o que quero dizer’”, conta Martin Gayford, crítico de arte, em recente artigo para o jornal britânico Telegraph.
Durante o período em que a exposição estiver em cartaz (em Paris, vai até 30 de janeiro, mas ela deve entrar em turnê internacional logo após essa data), os novos desenhos que Hockney fizer serão enviados para os privilegiados amigos de sempre e também para a mostra, que será atualizada constantemente.
Além dos celulares e tablets da Apple mostrando flores coloridas, a exposição também conta com um vídeo, projetado em uma sala escura, em três telas diferentes. As imagens apresentam o processo de criação do artista. Um vídeo mostra o septuagenário batucando sobre a tela dos aparelhos, trocando as cores e as espessuras e transparências dos pincéis na tela. Enquanto animações mostram as imagens se formando.
“Eu desenho flores todos os dias no meu iPhone”, disse Hockney a Gayford, que conta o episódio em seu artigo para o Telegraph. “Eu as envio para os meus amigos, de maneira que eles recebem flores frescas todos os dias pela manhã. E as minhas flores duram bastante. Eu não apenas posso desenhá-las em um pequeno caderninho, como posso enviá-las para 15 ou 20 pessoas que as recebem todos os dias enquanto estão acordando.”
Subversão
Além da delicadeza de animar as manhãs dos amigos com flores luminosas, o gentil hábito do artista britânico coloca em questão um tema caro às artes plásticas: afinal, qual é o original? Onde está a obra assinada? Em outros termos: como esses desenhos podem se transformar em algo que possa ser vendido por uma galeria?
Uma vez que Hockney envia as imagens para 20 amigos, eles podem reenviá-las para quantas pessoas quiserem. E em cada tela que a imagem aparecer, ela é idêntica à imagem que foi desenhada na tela do iPad do artista. “Isso é profundamente subversivo para o mercado de artes plásticas como o conhecemos, focado na obra original assinada”, analisa Gayford.
COM AGÊNCIAS
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Leia mais:
• ‘Link’ no papel – 25/10/2010
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