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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

07 de abril de 2014 05h00

Brasileiro cria sistema de empréstimo de bitcoins

Startup BTCJam nasceu no Vale no Silício e já recebeu US$ 1 milhão de investidores; empresa aposta em juros baixos para atrair usuários

Por Redação Link

btcjam, startup de emprestimo de bitcoin criada por brasileiro e localizada no vale do silicioA equipe do BTCJam, startup de empréstimo de bitcoin, criada por brasileiro. Da esquerda para a direita: Flávio Rump, diretor de marketing; Anna Valenzuela, diretora de produto e comunidade; Celso Cardoso Pitta, criador e fundador do BTCJam; Alexis Aiono, atendimento; Aaron Walker, designer. FOTO: Nico Oved/Estadão

Ronaldo Bressane
Especial para o Estado

SÃO PAULO – De repente você ficou desprevenido e não tem a quem pedir dinheiro financiado ou emprestado. Mas um japonês de Tóquio se dispõe a emprestar a você o dinheiro, a juros ridículos. De acordo com o combinado, você paga o empréstimo dali a um mês. Relacionado como bom pagador, recebe uma pontuação que o qualifica a pedir empréstimos em valores maiores – para qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo.

Este é, em termos simples, o funcionamento da plataforma de empréstimo de bitcoin global entre usuários (“ponto a ponto” ou peer-to-peer) da startup BTCJam. Cardoso Pitta, empreendedor de 36 anos nascido em Campinas (SP), morador de São Francisco (EUA) há 5 meses, é o seu criador. O caráter revolucionário da ideia chamou a atenção de Micky Malka, principal investidor de startups que operam com bitcoin, que acaba de colocar US$ 1 milhão na companhia brasileira.

O investimento chamou a atenção do mercado. Afinal, o fundo gerido por Malka (de US$ 200 milhões) tem entre seus investidores ninguém menos que David Marcus, fundador do PayPal. Em outras palavras, atores importantes do mercado financeiro digital avalizaram a plataforma como uma ideia viável. A ousadia – somada ao fato de ser conduzida por brasileiros – levou analistas renomados como Dave McClure, da aceleradora 500 Startups, a chamar a BTCJam de “startup mais sexy do Vale do Silício”.

“A BTCJam nasceu para viabilizar crédito democrático e com juros honestos”, diz Pitta, por e-mail. “Por não estarmos atrelados a nenhuma moeda local e sim ao bitcoin, fizemos com que o empréstimo entre pessoas conectadas pudesse alcançar pela primeira vez um patamar global.” A possibilidade de a plataforma interferir na economia mundial é real: em suma, permite que pessoas dos países de economia emergente (que quando têm acesso ao crédito precisam pagar juros altos) possam conseguir empréstimos sem barreiras ou intermediários de pessoas de vários lugares do mundo, especialmente de países que oferecem poucas alternativas para quem quer poupar ou investir dinheiro.

“No Japão, a taxa de juros chegou a zero: se o seu dinheiro ficar parado no banco, você pagará taxas que irão depreciar as suas economias”, prossegue Pitta. “É melhor emprestar a uma taxa pequena. Nos EUA uma taxa de retorno é considerada boa se estiver em torno de 8% ao ano. Enquanto isso, no Brasil paga-se 175% no cartão.”

Ponto importante para apontar a BTCJam como ideia revolucionária, segundo ele, é a criação da primeira nota de crédito global. “Hoje, mesmo que você tenha construído uma reputação financeira muito boa no Brasil, por exemplo, ao chegar nos EUA sua credibilidade não será reconhecida”, diz. “ Com o ‘credit score’ da BTCJam, esta barreira desaparece”, explica.

Gestor do fundo que mais investe capital de risco em empresas ligadas a bitcoins, o venezuelano Micky Malka, de 38 anos, elogia a plataforma. “A BTC muda completamente o jogo financeiro global ao criar um meio de se permitir empréstimos entre, por exemplo, um cara da Índia que precisa de grana por 30 dias e descobre um francês disposto a emprestar o dinheiro”, diz. “O conceito de emprestar US$ 10, US$ 15 ou US$ 100 de pessoa para pessoa, sem intermediários, é inacreditável. Pode-se ter um impacto grande na economia”, acredita Malka, que faz parte do conselho do Peixe Urbano e foi cofundador do Banco Lemon, adquirido pelo Banco do Brasil em 2003.

Regulamentação. Uma dúvida comum a um mundo novo tão admirável: é legal? Os governos dos países podem controlar essa forma de circulação de moeda? “Uma das vantagens do bitcoin é o fato de ser descentralizado, de ser autorregulado, de ser sustentado pela sua rede de usuários”, explica Wladimir Crippa, ativista digital e membro da comunidade bitcoin Brasil. Segundo ele, assim se preserva a segurança, privacidade e a existência da rede.

Crippa defende, porém, a regulação de empresas como bolsas e casas de câmbio de bitcoin para evitar a ocorrência de golpes e fraudes. “Pela natureza da rede, é uma missão impossível. Pode-se regular algumas áreas, mas regular e controlar o usuário comum é praticamente impossível”, analisa.

Para Fernando Ulrich, autor de Bitcoin – A moeda na Era Digital, “o uso de bitcoins não exime nenhum cidadão de pagar impostos, seja no Brasil, seja no exterior”, diz. “Aqui, no marco legal atual, um bitcoin nada mais é do que um bem digital, uma mercadoria digital.” Para ele, as autoridades deveriam definir o quanto antes o tratamento fiscal a ser dado aos negócios com bitcoins, “de modo a evitar áreas cinzentas”.

E os bancos, não podem se incomodar em perder clientes? “Assim como os veículos impressos tiveram de se adaptar à internet, os bancos têm muito a se redefinir, conhecer, entender, para também pensar em ganhar com o bitcoin”, provoca o investidor Malka, lembrando que a moeda digital só tem cinco anos de existência, enquanto a internet tem 30. “Pela velocidade de crescimento atual, creio que a totalidade de contas bancárias do mundo use o bitcoin dentro de cinco ou dez anos”, profetiza.