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“Bons artistas pegam emprestado. Grandes artistas roubam”

Por Rafael Cabral

girltalk

Berros do rapper Notorious B.I.G, samples furtados do Public Enemy, milésimos de segundo do órgão setentista dos Black Crowes, tudo pontuado pelos gemidos alternados das vocalistas do Salt’n’Pepa e por batidas, baixos, guitarras, trechos e até interjeições de outros dezessete artistas. O resultado, que não é um caos sonoro e nem de perto lembra nenhuma das músicas originais, é “Friday Night”, uma das canções que o norte-americano Greg Gillis, o Girl Talk, criou com retalhos de outras.

Como sempre, ele não pagou para usar nenhuma delas e nem planeja fazê-lo – afinal, é apenas o seu jeito de compor. Se mesmo assim teimassem em lhe empurrar a conta, por essa faixa ele deveria cerca de US$ 210 mil que seriam divididos entre centenas de donos de direitos autorais e gravadoras. Ele não tinha esse dinheiro, mas não só por isso escolheu ficar na ilegalidade: a principal razão é que ele não crê que deva algo a alguém. Se a legislação diz que sim, ela que mude.

Com mashups de 218 canções de outros artistas, o álbum que o tornou conhecido, Night Ripper (2006), custaria mais ou menos US$ 4 milhões só de copyright, sem descontos. Ignorar esse fato e entender que toda arte tem dívida com o passado fez com que Gillis se descobrisse como músico: seu instrumento é um laptop equipado com o programa de edição de áudio Adobe Audition e qualquer fonograma, protegido ou não, ao seu alcance. Já para a lei, isso faz dele um ladrão.

Ele nunca achou isso realmente um problema, até porque nunca foi processado (se qualquer uma das gravadoras lesadas não gostasse do resultado, elas poderiam). O nome do seu selo, especializado em samples e remixes, mostra bem a condição da sua música hoje: Illegal Art.

“Não penso muito em processos quando estou produzindo o material, mas com certeza é algo que tenho que analisar depois, em profundidade, quando vou lançar o álbum”, explica, em entrevista ao Link, feita por e-mail. “Olho para o meu trabalho e penso se ele é realmente uma transformação. Se eu tiver feito algo que vá competir com o material original, não lanço. Não quero causar impactos negativos nas vendas de ninguém com os samples que uso. Eu quero que meu trabalho se torne uma nova entidade. É um critério subjetivo, é claro, mas é ele que faz os meus limites em um remix.”

girltalk2Para Gillis, todo bom artista é antes de tudo um ladrão, bem no espírito da frase de T. S. Elliot que dá título a essa matéria. “Todos roubamos um pouco. É a mesma coisa do mundo offline: toda arte tem algum nível de influência. Existem poucas – ou praticamente nenhuma – ideias originais. Algo que parece novo quase sempre é uma boa recontextualização de um conceito antigo. A diferença é que hoje essas reinterpretações foram facilitadas pela tecnologia. São diretas e acontecem o tempo todo. Mas a mistura é e sempre foi um elemento fundamental para qualquer artista”, argumenta.

Assumir isso, por alguma razão, fez que ativistas do mundo todo o adotassem como uma espécie de ícone da geração criada com a internet, acostumada com obras criadas em cima de outras e com o compartilhamento de arquivos. Legal ou não.

Ele é personagem principal de dois documentários sobre os desequilíbrios dos direitos autorais no mundo: Good Copy, Bad Copy (2007) e RIP: a Remix Manifesto (2008). O criador do Creative Commons e guru da cultura livre Lawrence Lessig disse que um mundo que o vê como criminoso (e não artista) está claramente com prioridades erradas.

Greg, porém, não vê as coisas de modo tão ideológico assim. É só a sua maneira de fazer música pop, dançante e inovadora: juntando apenas as melhores partes de um monte delas.

“A banda que teve o maior impacto em mim, que me fez querer tocar, foi o Nirvana. Eu era novo, com uns 10 anos, quando o Nevermind saiu. Eu nunca tinha ouvido algo parecido. Quando vi aqueles caras na TV, dando entrevistas e não parecendo dar a mínima, pirei. Mas nunca me fixei em um só estilo, meus gostos vivem mudando e misturá-los é uma maneira de lidar com isso. Em 2000, vivendo em Pittsburgh e prestes me mudar para Cleveland para ir para a escola, comecei a compor, sempre fazendo mashups”, lembra.

Antes de viver de música, o que faz há três anos, Gillis trabalhava como engenheiro biológico. A experiência, diz ele, de alguma forma influenciou a sua forma de pensar em sons: as grandes descobertas científicas também são frutos da união de diversos elementos aparentemente desconexos e do trabalho de diversas pessoas, em diferentes épocas e contextos.

Pague apenas se quiser

Em seu álbum mais recente, Feed the Animals (2008), Gillis resolveu adotar o mesmo modelo que bancou o In Rainbows (2007), do Radiohead: colocar todas as músicas para download e pedir que os fãs decidissem o quanto pagar por elas. Para ele, esse é um dos tantos modelos de negócio que, aos poucos, fazem que a música digital se beneficie da troca de arquivos. “Só faço tantos shows quanto hoje porque essa gente não cansa de espalhar meu material pela internet. Quando lanço algo, quero que aconteça justamente isso”, acredita.

Os modos de remuneração já mudaram e a cabeça da maioria das pessoas também, mas ainda falta uma parte perceber isso. “Uma geração foi criada vendo o YouTube o dia inteiro, zoando celebridades com o Photoshop e ouvindo centenas de músicas remixadas. Elas não precisam ser convencidas de que novo conteúdo pode ser gerado em cima de outro já existente, só a lei ainda precisa”.

8 Comentários
  • 02/08/2010 - 09:11
    Enviado por: Luís Felipe

    Hoje em dia, o sample é um instrumento como qualquer outro e seu uso não pode ser considerado plágio, já que a música nova é completamente diferente da original. Seria algo como Les Paul cobrar royalties por todo artista que usa guitarra em shows e gravações…

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    • 03/08/2010 - 15:23
      Enviado por: edu

      se vc nao meter o dendo na guitarra, ela nao toca. Já o sampler , ou o computador , pode tocar coisas dos outros,sua comparaçao foi muito ruim. O Led Zeppelin é uma banda que já gastou muito dinheiro cmo os covers que vez. Vejam isso no youtube. Os caras ROUBARAM musicas dos outros , letra inclusive!!!

  • 02/08/2010 - 13:04
    Enviado por: Marcos Azambuja

    “Nothing is original. Steal from anywhere that resonates with inspiration or fuels your imagination.” Jim Jarmusch: http://j.mp/cBdDjt

    “Can it be done? Tell me, is there one melody that’s never been played?” Joe Zawinul, Weather Report (no album “Domino Theory”, 1984)

    A originalidade é um mito. A pureza da idéia nascida no vácuo, uma balela. Criação artistica é isso mesmo. Aliás, QUALQUER tipo de criação.

    Só que tem uma contrapartida: criação absolutamente livre também não existe. Você rouba, mas dá algo em troca: você CRIA ALGO NOVO, minimamente novo, minimamente diferente do anterior roubado. Além disso, liberdade absoluta é um problema na hora criar, pois perdem-se parâmetros de valor (BOM ou RUIM, não estou falando de valores monetários, já que o assunto é direito autoral). Mesmo o GirlTalk precisa se perguntar: “estou criando algo BOM? Ou uma porcaria qualquer?”

    Quero mudanças na lei de direitos autorais, quero a flexibilização no uso de arquivos digitalizados. Walter Benjamin já havia sido enterrado por Andy Warhol; os samplers e a internet jogaram a última pá de terra em cima de seu túmulo.

    Mas meu ponto é o seguinte: o discurso do copyleft, quando repetido por artistas ruins, cai no vazio. Pior, atesta contra. Quando vejo o pessoal do Holger falando abobrinhas sobre direito autoral, e ouço a porcaria de música não-criativa que praticam (aqui: http://j.mp/94iZRo), fico pensando que é fácil pegar na bandeira da liberdade de cópia quando não se tem nada a dizer. MUITA gente não tem nada a dizer, e fica posando de artista quando na verdade é um desocupado que ganha dinheiro operando softwares com músicas dentro. Qualquer um faz isso. Qualquer filhote de Chihuahua sabe montar um beat. Mas fazer música é outra coisa, muuuuito diferente.

    Então eu acho que está na hora de mudar o teor da conversa. Ao invés de “fazer música livre”, o assunto deveria ser “fazer música boa”. Nénão?

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    • 02/08/2010 - 21:49
      Enviado por: Paulo Rená

      E quem diria o que é bom ou ruim? O negócio é fazer cultura, muita, sempre. A qualidade cada ouvido atesta. Olhos de quem vê.

    • 03/08/2010 - 15:21
      Enviado por: edu

      perfeito.

  • 02/08/2010 - 14:28
    Enviado por: Julie

    E a frase-título foi devidamente roubada do Picasso.

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    • 02/08/2010 - 16:45
      Enviado por: Rafael Cabral

      Que roubou do T.S. Elliot:

      “Immature poets imitate; mature poets steal; bad poets deface what they take, and good poets make it into something better, or at least something different” (Eliot, T.S., “Philip Massinger”, The Sacred Wood).

  • 03/08/2010 - 15:19
    Enviado por: edu

    Roubo é roubo. Alias, a qualidade do que ele diz ser música, é do mesmo nivel do intelecto de quem nao entende isso. Quem produziu é dono e merece ser pago pelo seu trabalho.

    Se a tecnologia permite isso, nao muda nada; roubo é roubo e se vc rouba um artista, durma com esta idéia!

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