Banhados em bits
- 4 de julho de 2010|
- 18h00|
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Por Rafael Cabral

Robôs disputam a RoboCopa 2010, realizada em
Singapura. (Foto: Leonhard Foeger/Reuters)
Em 1993, quando Don Tapscott começou a estudar o impacto da internet no comportamento dos jovens, a rede ainda era um lugar de “geeks, radicais e visionários”, como ele mesmo diz. Mas já naquela época, seu filho Alex, então com sete anos, mostrava um conhecimento invejável do meio digital e já havia deixado as cartas de lado: mandara um e-mail para o Papai Noel.
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Um prodígio, achou o pai – até descobrir que, na sua escola, Alex era a regra e não a exceção. “Foi aí que vi que um fenômeno diferente estava acontecendo com aquelas crianças”, explica.
A curiosidade o fez explorar o tema em Geração Digital (ed. Makron, 1996), uma das primeiras obras sobre como a internet estava alterando a maneira de pensar daqueles que cresciam junto dela. “A juventude de hoje é a primeira a nascer banhada em bits, ou cercada de tecnologias digitais. Hoje, eles são adolescentes ou jovens a entre os 14 e os 32 anos, que passam grande parte do tempo na internet. Isso influencia todas as facetas de suas vidas – o local de trabalho, a escola, a família. Pelo mundo todo, essas pessoas estão mudando as relações de trabalho, o mercado e praticamente qualquer outro nicho da sociedade”, diz.
Com a web 2.0, o salto foi ainda maior. Em A Hora da Geração Digital (ed. Agir. R$ 69,90), recém lançado no Brasil, Tapscott argumenta que, agora adultos, eles levarão a lógica colaborativa da web a uma nova etapa. Para descobrir como nativo digital pensa, o autor realizou uma pesquisa de US$ 4 milhões com a nGenera (sua empresa de identificação de tendências), entrevistando mais de 1o mil jovens em 12 países.
“A colaboração em massa está apenas começando. Empresas podem projetar e montar produtos com seus clientes. Cientistas e médicos podem reinventar a ciência em código aberto, oferecendo seus dados e métodos para que todo interessado no mundo possa ajudar no processo de descoberta. Mesmo os governos podem envolver-se, transformando a prestação de serviços públicos e envolvendo os cidadãos na criação de leis e de políticas públicas”, acredita.
Mas será mesmo que uma mídia pode mudar tanto as pessoas e, assim, a sociedade? Fruto da geração Baby Boom (nascidos no pós-Segunda Guerra Mundial no EUA), Tapscott cresceu com pais que viam 22 horas semanais de TV e criaram filhos que ficam de oito a 33 horas conectados. Para ele, a mudança de comportamento veio em decorrência da transição de plataforma.
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A TV é um meio de transmissão passivo. Já a internet convida a colaborar, participar, criticar. “Eles estão abandonando a TV e sua comunicação unilateral, em busca de uma comunicação dinâmica. Sentar calado na frente de um aparelho – ou de um professor – não tem mais apelo”, diz. Isso porque eles pensam de maneira diferente. “Eles aprendem mais com experiências não-sequenciais, interativas, dessincronizadas, multimidiáticas e colaborativas”, diz o professor da Universidade de Toronto.
Nos últimos vinte anos, neurocientistas encontraram evidências de que o cérebro muda e evolui ao longo da vida. Ele é especialmente adaptável a influências externas nos primeiros três anos de vida, durante a adolescência e nos primeiros anos de vida adulta. Justamente quando aqueles que ele chama de Geração Digital se engajaram na nova mídia.
Para Tapscott, a plataforma fragmentária não os deixou mais burros ou superficiais. Muito pelo contrário. Ele acredita que a web moldou suas mentes ampliando a capacidade de pensar. Amparando-se em dados que mostram que desde 1978 as pontuações de testes de QI vêm aumentando, Tapscott acredita que quem nasceu digital tem mais capacidade de mudar de foco e até de julgar se uma informação é ou não confiável.
“Crescer com a internet mudou a forma como a mente funciona. Acostumados ao multitarefa, eles aprenderam a lidar com a sobrecarga de informação. As tecnologias digitais e o desenvolvimento intelectual caminham lado a lado”.
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