As regras do jogo, escritas em chinês
- 14 de novembro de 2010|
- 18h37|
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Por Agências
Por John Boudreau/San Jose Mercury News
Quando o chinês Binghao Cheng lançou uma rede social, há dois anos, batizou-a de Kaixin (felicidade). Como não tinha dinheiro para comprar o domínio Kaixin.com, criou o Kaixin001.com. O serviço cresceu rapidamente. Então, um concorrente foi lá, comprou o Kaixin.com e redirecionou os usuários do Kaixin001 para o seu site. “É uma luta de facas aqui”, diz Thomas Chu, diretor de estratégia do Kaixin001.
Há muito tempo empresas de internet americanas estão de olho na China. O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, que vem falando em operar lá, está até estudando mandarim. Mas especialistas dizem que é preciso muito mais do que a língua para sobreviver ali.
A censura estabelecida pelo governo comunista – e as medidas nos bastidores para ajudar as empresas locais a vencerem as estrangeiras – são os maiores obstáculos. O Google, que nunca conseguiu uma grande participação no mercado chinês, deixou de bloquear resultados de busca considerados “delicados” no início de ano, o que provocou uma grande disputa com as autoridades e levou à queda no uso do site pelos chineses. Outras empresas, como Twitter e Facebook, estão bloqueadas pelo Grande Firewall da China.

“Cuidado com a atenção”: Essa placa é um exemplar de ‘chinglish’, idioma gerado a partir de erros de tradução do chinês para o inglês. O site engrish.com é a mais popular coleção desse novo idioma
Mas, para analistas da área, é um erro culpar somente a interferência do governo pelos fracassos das companhias americanas na China. A concorrência intensa e a rapidez com que as empresas abrem e mudam criam um clima de negócios para o qual poucos ocidentais estão preparados. “É como um uma luta até a morte de gladiadores, onde vale tudo”, diz Dan Brody, primeiro funcionário da Google na China e que, agora, dirige uma empresa de investimento online em Pequim.
Bo Wu, fundador da Lashou.com, serviço de compra coletiva, precisou de cinco anos para aprender a fazer negócios por lá, depois que retornou do Vale do Silício para o seu país, em 2000. “Quando converso com um cliente ou um parceiro, tenho de perguntar ‘o sim que ele deu é realmente sim? Ou 60% ‘não’?, Ou será um ‘sim-não’?”
Os concorrentes roubam empregados uns dos outros, quando não surrupiam propriedade intelectual. Delatam os competidores por violações de normas para o governo, desabilitam sites de adversários e usam outras táticas implacáveis raramente postas em prática nos EUA.
Empresas estabelecidas copiam planos de negócios das que se lançam no mercado e depois procuram destruir as pequenas empresas. “O custo da mão de obra é barato e ninguém tem vergonha de copiar”, diz Hans Tung, sócio da Qiming Venture Partners, de Xangai, que dá suporte para diversas empresas de internet, incluindo a Kaixin001.
“A cultura do Vale do Silício não funciona no leste asiático”, diz Jeremy Goldkorn, analista de internet que durante anos manteve o popular blog danwei.org. O governo bloqueou a página no meio do ano.
Há, porém, uma regra que todo o mundo parece aceitar: segredos não permanecem segredos. A simples contratação de empregados pode ser perigosa porque “eles podem ser espiões de outras empresas”, diz Si Shen, CEO da PapayaMobile, plataforma de jogos baseada no Android. “Eles roubarão o seu código e sua interface. Não mudam nem os ícones. É assim que as coisas funcionam na China”.
Embora a competição acirrada crie empresas que conseguiram sobreviver à lei do mais forte, algumas pessoas do setor se preocupam que, a longo prazo, isso vai interferir na inovação. Nos EUA, gigantes como Google e Cisco regularmente compram empresas recém-criadas com novas ideias, e isso, em troca, estimula outros empreendedores a abrirem novas empresas.
Uma razão pela qual grandes empresas chinesas vacilam em comprar empresas recém-lançadas no mercado é o problema persistente da lealdade dos empregados que, mesmo que não roubem a propriedade intelectual, podem decidir num ímpeto trabalhar para um concorrente, diz Shen Haoyu, vice-presidente de operações na Baidu, site de busca, que já adquiriu novas empresas. “As empresas roubam os empregados uma da outra. Isso dá muita insegurança aos compradores. Você não sabe exatamente o que está comprando.”
Impelindo essa luta frenética está o fato de não ser fácil vender serviços para as centenas de milhões de usuários de internet numa cultura que espera que muita coisa online seja gratuita, diz Chu, da Kaixin001. No entanto, pode-se fazer fortuna na internet na China. A receita de publicidade online deve chegar a US$ 4,4 bilhões neste ano, e os jogos poderão render US$ 5 bilhões – e as taxas de crescimento anual projetadas são de 50% e 30% respectivamente. O comércio eletrônico, que deverá gerar US$ 60 bilhões em 2010, vem expandindo à taxa de 45% ao ano, disse Tung. “As apostas são tão altas que você faz tudo o que puder para impedir o outro de operar”. (Tradução de Terezinha Martino)
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• Link no papel 15/11/2010
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