Arquivo de música livre
- 29 de agosto de 2010|
- 18h00|
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Por Tatiana de Mello Dias
Hip hop de Israel. Afrobeat da Espanha. Psicodelia da Turquia. Do Brasil, BNegão, Mombojó e Curumin. Tudo liberado: dos artistas para o mundo, com licenças livres para que a música circule. Essa é a proposta Free Music Archive (FMA), repositório musical livre que já tem hoje mais de 24 mil músicas de todos os tipos e partes do mundo. Só que não é qualquer coisa que circula por lá. É só música de qualidade. Quem garante isso é Jason Sigal, um americano que um dia sonhou em trabalhar naquela que considerou a melhor e mais esquisita rádio do mundo – a WFMU, emissora independente de Nova York – e hoje não só está nela como encabeça o FMA, seu principal projeto.
Para falar do acervo digital deve-se voltar à WFMU, uma das rádios independentes mais famosas dos EUA. Ela surgiu em 1958 no centenário colégio Upsalla, de New Jersey, mas sempre ultrapassou os muros da escola. Foi essa comunidade de fãs que a sustentou quando o colégio faliu, em 1995, comprando o transmissor e levando-o a um novo prédio do outro lado do rio Hudson. Na nova sede, a WFMU foi uma das primeiras rádios do mundo a ter um site, transmitir em streaming e arquivar a programação para os ouvintes terem acesso sob demanda.
“Eu era fã da WFMU tanto pela programação quanto pela maneira inovadora de abraçar as tecnologias online”, conta. Ele estudou multimídia e música na faculdade, toca em três bandas e, após trabalhar em uma rádio web comercial, conseguiu entrar na rádio de que tanto gostava. E hoje, além de colunista do Huffington Post, também toca o “projeto que ajudará rádios independentes a sobreviver no século 21”.
Não é exagero. O Free Music Archive surgiu pela necessidade da própria rádio, que esbarrava em licenças e pagamentos de taxas para veicular músicas na programação. Há vários arquivos livres pela web, mas poucos estão organizados em gêneros, subgêneros e coletâneas por estilo.
“Seria um recurso valioso para estações de rádio, para achar material seguro para ser usado em podcasts, para produtores que não queriam ter seus vídeos removidos do YouTube, para espaços que querem tocar uma música de fundo e também para educadores que querem usar músicas na classe”, explica Sigal. “Qualquer um que gostar de música se beneficiará de um recurso com curadoria para MP3s livres, legais e em alta qualidade.”
O FMA surgiu em uma época em que as rádios online dos EUA estavam sofrendo com um acordo que aumentava progressivamente o valor dos direitos autorais que as rádios online deveriam pagar pela execução das músicas. “Muitas rádios poderiam parar de transmitir porque isso se tornaria muito caro”, explica Sigal. Além de ser um repositório seguro para quem quisesse trabalhar com músicas online, o arquivo também serviria para que os artistas pudessem acabar com uma prática comum por lá, e também conhecida por aqui: o pague-para-tocar, o jabá (“payola”, em inglês). Sigal diz que é comum a figura do intermediário pago pelo selo para promover músicas nas rádios. “Em geral, eles têm relações com as rádios porque subornam os diretores de programação com dinheiro, carros, cocaína”, diz.
Só que, em Nova York, essa prática foi combatida por músicos organizados que viabilizaram Fundo Musical do Estado de Nova York, criado para financiar projetos ligados à música. E esse fundo é justamente um dos apoiadores do Free Music Archive. “O dinheiro foi tornado disponível para ajudar artistas que não podem arcar com o suborno, e para aqueles que sentem que há um mérito em divulgar música para tocar livre e não-comercialmente”, explica Sigal.
A maior parte das milhares de músicas do Free Music Archive é cedida pelos próprios músicos, que enxergam o serviço como uma plataforma que pode apresentá-los ao mundo. Nenhuma taxa é cobrada para colocar as músicas lá e nem para baixá-las.
Curadoria. A diferença do FMA é que um artista novo só é adicionado depois de passar pelo crivo de um dos vários curadores, que vão desde a própria WFMU e a KEXP, rádio indie famosa de Seattle, ao festival Primavera Sound, em Barcelona, e outros selos e pessoas espalhadas pelo mundo. Eles, aliás, querem mais pessoas “com bons ouvidos” para os ajudar a encontrar música boa em Creative Commons.
O FMA tem uma licença específica para as músicas adicionadas, mas prefere e encoraja a adoção de Creative Commons. “Ela permite que a música e o nosso site alcancem audiências de várias maneiras, como podcasts, vídeos, remixes”, explica Sigal, entusiasta da cultura livre.
“A arte nunca aparece do nada, é sempre inspirada por outra. Nós precisamos estar dispostos a reconstruir, remixar, traduzir, reinterpretar e compartilhar o trabalho de outros. Especialmente na música, as ferramentas digitais abrem um mundo de novas possibilidades”, diz ele. É preciso, porém, nas palavras dele, “celebrar e respeitar” os artistas inovadores. “Eles precisam de um equilíbrio entre o fair use – que precisa ter uma definição mais ampla e robusta para a era digital – e a proteção do direito de escolher quais aspectos do copyright podem ser úteis para que eles façam arte e se sustentem.”
E vai longe no exemplo. “Fico pensando nos Beatles, que passaram um ano inteiro gravando. Talvez isso não fosse tão necessário hoje por causa das ferramentas digitais, mas acredito que nós podemos encontrar uma maneira de permitir aos artistas algumas luxos para desenvolver suas ideias.” Mas as grandes gravadoras, diz ele, ainda não acordaram para o ambiente digital. Tanto é que o catálogo dos Beatles ainda não foi lançado na web. “Estão basicamente forçando os fãs jovens a piratear. Não me admira que artistas da EMI como o Thom Yorke tenham previsto o colapso da indústria musical. E são artistas como Radiohead que podem pular o intermediário e ir direto aos fãs.”
O FMA, nesse contexto, ajuda os artistas a conseguir uma audiência mundial, ao mesmo tempo em que possibilita aos ouvintes acesso direto à música. Agora, o site quer mais artistas, com a ajuda de curadores que podem auxiliar Jason a selecionar o que está acontecendo de legal pelo mundo. “Temos muita música, mas uma coisa importante é que tudo isso é selecionado. Nós não estamos tentando ser a maior biblioteca de música do mundo, mas a que tem a melhor música.”
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